Manhunters
72 O dever chama
Notas iniciais
O verdadeiro desafio começaria no momento em que os dois pisassem no prédio da polícia. Agora eles não duas pessoas trabalhando forçadamente junto com uma ligeira vontade de matar um ao outro. Estavam completamente diferentes, agora eram somente um. Quem os viu nos dias anteriores nunca poderia sequer imaginar que Grissom e Sara eram um casal agora, essa ideia estava fora de cogitação. Bastava ao sargento e a detetive continuarem mantendo a discrição. Claro, não haveria aquelas brigas quase constantes; todavia, deveriam disfarçar, fazer de tudo para que todos pensem, ou melhor, não pensem quaisquer possibilidades que iriam além de um relacionamento profissional.
O despertador dele tocou às seis, como era de costume quando estava em casa. Seus olhos se abriram num flash; eles os franziu e depois respirou por longos segundos. Desligou o aparelho que tocava um som irritante e esfregou o rosto. Apoiou-se sobre o cotovelo e virou-se para esquerda, onde a encontrou já de olhos abertos. Não sabia reconhecer se era um olhar sonolento ou melancólico, talvez um pouco dos dois.
Quando ela acordou demorou pouco tempo para perceber que estava em outra cama, num outro quarto. Suas narinas logo sentiram o cheiro impregnado de colônia no travesseiro. Era uma sensação boa, confortante; ela não estava mais sozinha, muito pelo contrário, tinha ele como amante. Sentia-se confortável, segura; teve uma sensação que nunca imaginaria ter com um homem.
— Por que acordou agora? — Ela o questionou após um bocejo, tocou em sua mão e a envolveu.
— Sempre faço uma caminhada com o Hank antes de ir ao trabalho. — respondeu sem tirar os olhos dela.
— Que bom. É bom que você respire um pouco de ar e esfrie a mente.
O sargento recostou-se na cama, cobriu o rosto com ambas as mãos e soltou um suspiro longo.
— Eu vou levantar. Quando eu voltar eu posso te levar pra casa. — Disse emendando a voz enquanto se descobria do edredom.
— Espera. — Sara estendeu a mão e quase na mesma hora ele se virou para ela — Acho melhor eu voltar pra casa logo.
Mesmo querendo ficar o máximo de tempo possível com Grissom, Sara não queria piorar a situação, deixar ambos inconfortáveis. O melhor seria voltar suas atenções para o caso o quanto antes. A noite anterior foi maravilhosa, mas havia trabalho para fazer. Grissom não falou nada nem reagiu àquilo; apenas assentiu, e por fim, se levantou.
— Gilbert.
Ele parou. Enquanto virado, ele fechou os olhos brevemente e logo em seguida voltou a se virar para ela.
— Vem aqui? — pediu com delicadeza e sem poder resistir ele subiu na cama em vez de dar a volta — Eu sei porque você tá com essa cara. — O sargento umedeceu os lábios e olhou para o lado. Vendo isso a mulher tocou em seu rosto e o beijou — Ei. — De um modo carinhoso ela virou seu queixo para que a visse e então falou pausadamente — Nós vamos ficar juntos. — Ela passou a mão por seus cabelos até chegar ao ombro esquerdo, onde deixou um beijo.
Quando ele encarou seus olhos não pôde resistir à árdua tentativa dela em fazê-lo começar o dia bem. Grissom tocou em sua cintura, trouxe-a para perto e beijou os lábios para se reconciliar.
— Agora sim. — Ela sorriu.
Antes de preparar o café da manhã, Grissom vestiu as roupas que usaria na caminhada: uma calça esportiva cinza escura, camiseta sem manga larga e tênis para correr. Fez o café e para comer, panquecas. Preferiu evitar os ovos com bacon desta vez muito pela "culpa" em comer carne perto dela, ainda mais dentro de sua própria casa. Preferiu aprontar panquecas e torradas.
Enquanto fazia a refeição, Grissom ligou a TV no canal de notícias para ver se tinha alguma atualização sobre a cobertura da morte de Park. Deixando num canal all news famoso, não demorou muito tempo para que visse algo relacionado ao jornalista morto na seção inferior onde notas de outros assuntos apareciam. "Ótima" notícia para começar o dia.
— Atento às notícias? — perguntou Sara ao sair de seu quarto já vestida para sair. Estava usando as mesmas roupas de ontem.
— É... — respondeu melancólico quando largou o controle no sofá e voltou para a cozinha. Sua cabeça estava em outros lugares que mal se viu perdido e imerso nos próprios pensamentos. Percebendo isso, Sara deixou-o como estava para não piorar a situação; ela sabia não apenas como namorada, mas como parceira que o dia seria cheio e que talvez menos apego entre os dois seria melhor.
A primeira refeição foi regada com pouca conversa. O dia amanheceu nublado e com uma temperatura amena, assim como o clima dentro do apartamento de Grissom. A magia da noite anterior logo seria substituída pelo ambiente pesado do trabalho somado à impossibilidade de quaisquer contatos íntimos. Seria um dia, uma semana difícil para os dois, ainda mais sendo os primeiros passos do casal no trabalho tendo que disfarçar a outra vida que começaram a viver.
Tudo pronto para a partida, Grissom apenas esperava por ela antes de abrir a porta.
— Então... — Ela fez um biquinho e tentou disfarçar o sorriso — Da porta adiante seremos parceiros de trabalho, não é?
Mostrando-lhe uma careta confusa, avoado por vários pensamentos ele não se tocou no início de sua conversa.
— Exato... — Grissom alongou a palavra na tentativa que ela iluminasse a situação.
— Quer dizer que da porta para cá nós somos...
— Amantes...?
O sorriso dela foi a confirmação de que ele acertou a resposta. Sara se aproximou do sargento e tocou em seus ombros; deslizou-as para baixo, mas logo as subiu e as envolveu no rosto dele. Ela sabia que da porta para frente eles dois colocariam aquela máscara de “apenas parceiros de trabalho” e qualquer contato muito próximo seria perigoso. Então quis aproveitar os últimos momentos com o homem pelo qual estava apaixonada. Ela atentou para seus lábios e passou o polegar por entre suas bochechas. Depois beijou sua boca com toda a ternura até o momento em que ele tocou em suas costas para que seus corpos se achegassem. O beijo ficou mais profundo, mais cheio de paixão. Eles não sabiam se aquele seria o último beijo seguido de um longo ou curto período separados.
— Beijar você é um vício. — Disse ele ao tocar em sua nuca e puxá-la para outro beijo.
— Que bom. Ainda vamos ter muito pra alimentar esse vício.
Junto de Hank, Grissom e Sara deixaram o local e seguiram para o estacionamento onde o sargento pegaria o carro e levaria a detetive até sua casa. Sara preferiu deixar sua bolsa com alguns pertences em seu apartamento para futuras visitas, só trouxe consigo poucas coisas.
Eles entraram no veículo, saíram do prédio e depois disso mais silêncio. O sargento ligou o rádio no canal de notícias que costumava sintonizar e após isso permaneceu quieto. Por alguns intervalos não definidos Sara o checava para saber se estava bem e mal precisava encará-lo por mais de dois segundos para saber a resposta.
— Vou checar com o Ivanenko como o caso do Lewis está indo. — comentou ela, esperando que o nome do detetive lhe chamasse a atenção.
— Certo... — Grissom ainda estava distante, só respondeu aquilo pois ouviu sua voz bem distante.
Sara ficou mais tempo encarando ele, que nem ao menos fez o mesmo quando o carro estava de velocidade reduzida. Grissom se enfiou em pensamentos se encontrava distante dela, mesmo a poucos centímetros de distância.
— Não é à toa o que as pessoas dizem. Você é um dos melhores. — falou ela, desta vez mais alto.
Por incrível que pareça ele se virou para a detetive, meio confuso, até mesmo inconformado, mas se virou. Grissom arqueou uma sobrancelha e esperou por uma resposta, nitidamente de volta à realidade.
— Eu vejo um policial imerso nos pensamentos que se dedica exaustivamente nos casos em que trabalha. — Sara disse olhando para a frente.
— Eu... me desculpe, Sara. — Ele gesticulou arrependido — Ultimamente eu tenho tido esses... momentos. — O sargento pressionou as mãos sobre o volante e se ajeitou no banco.
— Sabe que eu estou aqui, não é?
Surpreso pela pergunta ele se virou para ela. Não respondeu. Se dissesse aquela famosa frase "eu vou ficar bem" com certeza sua parceira rebateria na mesma hora, ou o contrário, não falaria nada e um clima pesado ficaria no ar.
Não havia trânsito pesado pelo caminho, os dois chegaram a Henderson no tempo estimado pelo sargento. Quando parou o carro na porta da casa dela, Grissom baixou o olhar por alguns instantes como se relutasse em dizer algo.
— Fique bem. Nos vemos depois. — tentou soar melhor que antes numa tentativa de se reconciliar.
Atentando para ele a morena tocou em seu antebraço e subiu até chegar à mão. Ela a envolveu carinhosamente e esperou que ele a olhasse.
— Eu te amo, Gil. — declarou baixinho, ainda que o rádio estivesse ligado e as janelas fechadas.
O sargento apertou sua mão e deslizou o polegar sobre ela. Aquilo lhe deu força, ânimo. Ele sorriu de lado por pouco tempo, mas foi o suficiente para ela.
— Também amo você. — Só quando terminou de falar ele encarou Sara.
Carregando um sorriso ela deixou o carro e antes de fechar a porta ele estendeu o braço na tentativa de que ela o visse.
— Vou sentir sua falta.
Ela entendeu muito bem o que Grissom quis dizer. Mesmo perto, os dois estariam proibidos de demonstrar carinho ou algo além de um comportamento profissional e aquilo, de certa forma, doía. Deveriam ser apenas dois colegas e nada mais.
— Eu também.
—------------------------------------------------------------------
Grissom teve de admitir a si mesmo que foi um pouco rude, meio rígido com sua parceira. Se havia um culpado esse alguém era ele. Seus pensamentos lhe pregaram uma peça e o prenderam num vórtex no qual era difícil sair. Havia muito trabalho a se fazer e parecia ser um trabalho que não teria fim. Todas as vítimas de Zodíaco gritavam desesperadamente para que o policial desvendasse suas mortes e descobrisse quem os matou. As vozes não iriam cessar até o momento que os casos fossem encerrados.
Grissom resolveu fazer a caminhada na região de Henderson mesmo. Seguiu num ritmo lento com o cachorro já que não queria forçar seu corpo, se já não o fez bastante nos outros dias. Também caminhou por pouco tempo desta vez, mas fez questão de comprar alguns jornais para procurar notícias da morte do jornalista. Em algum momento poderia ser um alvo de repórteres e precisava estar preparado.
Após o exercício eles voltaram para casa; Grissom tomou banho e se arrumou com rapidez. Vestiu um terno cinza, camisa marinho e sapatos costumeiros. Falou pouco, mesmo ele que tinha o costume de falar sozinho ou com Hank. Quis deixar logo a casa, o clima sem ela era diferente, mais deserto.
Tudo preparado para o cachorro, foi hora de ir embora. Eram sete e vinte e oito, logo o trânsito em Vegas ficaria tenso e ele não queria ter de enfrentar transtornos. Deixou o apartamento novamente e pegou o carro. Entrou nele, pôs o cinto e passou a mão sobre o rosto, sentindo a barba um pouco crescida. Ajeitou o retrovisor dianteiro e... o coração acelerou.
Na mesma hora ele se virou para trás e atentou para o homem que caminhava para pegar o carro atrás dele. Suas feições pareciam da última vítima, Ryan Park, ou sua mente estava lhe enganando mais uma vez.
— Maldição... — resmungou ao dar a partida no carro. Ele balançou a cabeça e aspirou.
Ligou o rádio novamente e a estação de rádio informava a previsão do tempo do dia: temperatura girando em torno dos vinte graus e ao anoitecer ficaria mais frio. Estava bom para o sargento que não suportaria trabalhar no calor infernal da cidade naquelas condições. Seguiu acelerado para o departamento de polícia. Quanto mais cedo começasse o trabalho, melhor. Em breve se reencontraria com sua parceira e quem sabe teria um pouco de paz em sua mente, ainda que estivesse naquele lugar.
Quando chegou em seu andar, cumprimentou Judy como sempre fazia, pedindo para avisar ao Brass que chegara, falou com alguns próximos quando passou e foi direto para seu escritório carregando a pequena pilha de jornais. Uma das vantagens da patente era isso, de resto, nada grandioso. A primeira coisa que fez foi ligar o aparelho de DVD na pequena televisão parada que tinha. Pegou as gravações do evento e as iniciou, só que mal pôde assistir a um minuto. Seu telefone tocou e ele respondeu sem muita vontade. Era Brass quem o estava chamando para fazer-lhe uma "visita". O sargento suspirou, pausou o vídeo e deixou a sala rapidamente.
— Bom dia. Você não tem mais casa, não? — Assim que bateu à porta, entrou e fechou-a, Grissom caminhou ligeiro para perto dele.
— Tenho, mas gosto de ver a cara de vocês. — O capitão também foi irônico. A camisa social branca que ele vestia parecia ser a mesma de ontem, só a gravata vermelha com listras diagonais diferenciava. Dava para notar as olheiras e a luta dele em manter os olhos abertos, mesmo mantendo aquela pose de durão.
— Pelo visto gosta mesmo, mal cheguei e já quer falar comigo.
— Não vem com gracinha, Gil. — Brass usou o polegar e o indicador para esfregar os olhos. Foi aí que o sargento reparou que o capitão aparentava demasiado cansaço e a falta de sono, (ou uma noite mal dormida) ao contrário dele — Você sabe que isso é importante.
Ele não respondeu.
— E aí?
— Olha, Jim-
— Não, não, não vem com essa de "olha". — O capitão se levantou e caminhou até a entrada para baixar todas as persianas — Eu quero uma resposta concreta, Grissom, já chega de enrolação.
O sargento levou as mãos à cintura e baixou a cabeça.
— Vamos ser sinceros. Isso tudo tem a ver com o que houve no passado, não é? — Brass ficou próximo dele, frente à frente.
— Brass, você me chamou só pra falar isso...?
— Te chamei pra ouvir da sua boca a resposta que ficou me devendo ontem. — O capitão apontou para ele — Você está tão obcecado em caçar o serial killer que está colocando o seu na reta, tá arriscando a sua vida à toa! Aquilo já passou, Gilbert!
Tão fácil falar isso, não é mesmo? Pensou sarcástico. Grissom até pensou em retrucar, mas considerou e não o fez.
— Eu já disse! Não temos certeza se eu serei a próxima vítima! Ainda tenho que investigar isso a fundo, saber se ele fez o mesmo com os outros. Não podemos perder tempo!
— Esse é o seu problema! Você se mata para proteger todo mundo à sua volta e se esquece de você mesmo. — A voz de Brass saiu rígida.
Grissom franziu a testa, mas ficou quieto, não conseguiu arranjar palavras para responder. Aquela era a mais pura verdade, só ele mesmo que não reconhecia (ou não tinha coragem de reconhecer).
— Olha só pra você, tá quase a um ano se acabando nesse caso e não faz nem um mês direito que foi baleado. Se continuar assim vai acabar num necrotério!
— Nós estamos avançando no caso, Jim. Não vai ser agora que eu vou jogar tudo para o alto. — Ele ergueu as mãos.
O sargento cerrou os punhos e fechou os olhos por alguns segundos.
— Do jeito que você caminha é capaz de levar sua parceira junto-
— Não. — Quase erguendo o indicador, Grissom o interrompeu na mesma hora. De forma alguma iria deixar o assassino tocar em Sara e caso o fizesse o sargento iria caçá-lo até o fim do mundo — Isso não vai acontecer.
— Então é melhor você abrir o teu olho, sargento. — Brass alongou as costas e retornou à sua cadeira. O outro homem permaneceu em pé.
— Não quero proteção. — Ele falou de repente. Erguendo uma sobrancelha, Jim ficou esperando — Ainda temos muito a fazer, muitos caminhos que precisam ser investigados. Pedir proteção se baseando num bilhete só iria dar mais motivo para ele continuar com essa provocação.
O capitão pareceu não acreditar, ele balançou a cabeça várias vezes.
— Aquilo não vai acontecer de novo. — Só de citar "aquilo" sua mente o fazia lembrar do inferno que passou anos atrás — Sei que como amigo e superior você está preocupado comigo. Aprendi muito no tempo que eu passei longe do distintivo e... agora eu tenho alguém que está olhando por mim.
— Então sua resposta final é...
— Não.
Silêncio. Os dois se encararam. Enquanto Grissom mantinha um semblante firme, Brass aparentava ainda não gostar da decisão.
— Se me der licença eu vou trabalhar. — Falou respeitosamente, já tomando seu caminho para fora. Antes de abrir a porta ele se virou de lado e perguntou — O que houve com o bilhete?
— Mandei pra análise.
O semblante dele mudou num pulo. Ele não gostou nada do que ouviu.
— É alguém de confiança, Gil. Tenho certeza que essa história não vai ser espalhada. Fique tranquilo.
— Só vou ficar tranquilo quando ver o assassino atrás das grades ou numa mesa de necrópsia.
—---------------------------------------------------------------------
Às vezes tinha a impressão de que gravou todos aqueles rostos, tanto em suas fotos antes e após as mortes. Eles não saíam de sua cabeça, mesmo sem poder falar mais suas vozes clamavam por justiça. Seria cruel dizer que alguns deles mereciam a morte e que outros, não? Essa mentalidade precisava passar longe, seu trabalho era resolver casos não ser Deus para julgar.
Grissom pegou cada uma das pastas para ler novamente os relatórios e depoimentos de conhecidos das vítimas. Precisava ter certeza que era uma vítima em potencial ou não. Ele não admitiu a ninguém, nem mesmo à sua companheira que estava receoso. Medo, talvez? Era uma palavra forte demais, mas ele seguia por esse caminho. Grissom tinha de saber, precisava saber as vítimas sofreram ameaças, "iscas" ou algo parecido. Park foi atraído, mas e as outras? Uma delas era apenas um senhor de idade que caminhava como tinha o costume e foi morto. Um deles terminara de fazer sexo com a amante e tentou fugir pelo atalho. Passou quase meia-hora enfurnado naqueles relatórios.
Seus pensamentos guiados pelo silêncio da sala foram interrompidos pelo bater da porta, que em seguida foi aberta. Era ela. O sargento respirou fundo e umedeceu os lábios. Sua presença pôde colorir um pouco mais sua visão em preto e branco.
— Bom dia, sargento. — Sara ostentava um sorriso discreto, sem mostrar os dentes. Ela vestia um terninho azul escuro e uma blusa branca de botões e gola em 'v'. Seus cabelos estavam soltos e divididos ao meio como gostava. Não usava acessórios, tirando o relógio. Os sapatos sociais eram os de sempre.
Segundos após olhar para ela Grissom desviou a atenção. Era até engraçado enxergá-la não apenas como parceira, mas agora como namorada. Sabia que tinha de tomar cuidado com certos pensamentos que poderiam ser traduzidos em atitudes.
— Bom dia... detetive.
Ela fechou a porta e caminhou para perto dele, deixando a bolsa no chão. Só que desta vez não se sentou.
— Pra que esse tanto de jornal? — Sara apontou para a pilha em cima da mesa.
O sargento, meio avoado, coçou a nuca, pegou o jornal de cima e logo o pôs de volta no lugar.
— Quero saber o que estão falando do Park. Já vi na TV, na rádio não ouvi notícia sobre... agora vou verificar aqui.
— Ah sim. Posso te dar uma ajuda antes de voltar a dar uma olhada no caso do Lewis.
Grissom ergueu uma sobrancelha e a encarou.
— Vai continuar no caso, não é...?
A detetive sentiu uma leve pontada de decepção na voz dele. Ciúmes, talvez? Ciúme profissional ou emocional por ela trabalhar com o detetive Ivanenko? Ela preferiu não questioná-lo.
— A morte do Lewis ainda não foi esclarecida... se bem que eu tenho minhas suspeitas. — A mulher acabou puxando uma cadeira, sentando-se frente a ele.
— Ah é? Quem?
— Bem, você sempre foi um defensor das provas em vez das especulações, sargento Grissom. — Brincou ela para ver se arrancava um sorriso daquele rosto quase sempre sério. Só que antes de ele se defender a morena continuou, falando baixo desta vez — Mas eu vou te falar um nome: Regis Dale.
— O advogado? — O sargento franziu a testa.
— Quem era a pessoa mais próxima do Lewis por aqui? Aparentemente ele não conhecia mais ninguém, só o Dale, um dos poucos que sabiam onde o Lewis estava. Temos a garota de programa e os policiais que estavam de olho nele.
Grissom chegou a mover os lábios no intuito de falar e fez um movimento com a cabeça, mas recuou.
— Nunca soubemos quem deu o contado daquela mulher pra ele, que se recusa a falar. A gente não sabe se eles já se conheciam ou Lewis foi induzido a contratar os serviços dela. Tudo o que temos é um homicídio sem um motivo aparente. — Ela fez uma pausa — Não me cai a ideia que o Franklin foi morto por um outro motivo que não seja o envolvimento do assassinato de Vanessa.
— Entendo. O problema é que temos de ter cuidado em especulações, Sara. Dale é um desgraçado filho da mãe e ainda por cima é advogado. Qualquer acusação ou insinuação que você ou o Ivanenko fizerem sem algo concreto, ele vai vir com tudo pra cima de vocês. — alertou.
— Devemos ter o acesso às chamadas que ele fez e recebeu e da conta bancária também. Alguma coisa podemos tirar disso. — Ela deu de ombros.
— Sara. — Grissom fez uma breve pausa — Você realmente acha que Dale poderia estar envolvido com o assassino?
Confusa, ela arqueou uma sobrancelha.
— Por que ele agiria dessa forma, se expondo desse jeito? Acha que ele iria arriscar expor a identidade do Zodíaco?
— Mas você concorda que a morte do Lewis foi motivada pelo caso, não?
Novamente ele fez aquela careta pretendendo falar algo, mas na última hora recuou.
— A melhor ligação que vocês têm é da suspeita, que se recusou a falar e prefere enfrentar uma acusação de homicídio grave.
Sara desviou para o lado. Ela se recostou na cadeira e respirou fundo. Ajeitou o terninho e passou a língua pelos lábios.
— Desculpe se desanimei você.
— Estou desanimada, sim, mas não foi por sua causa.
Ele fez um movimento positivo com a cabeça.
— Torço pra que vocês dois consigam algo sobre o Zodíaco e mesmo que não consigam-
— Não, não tem essa. Se a gente não conseguir algo isso vai ser um fracasso.
— Também não precisa falar dessa forma.
— Claro que preciso. Se não houver nada mais na morte do Lewis eu terei perdido tempo e tempo é o que a gente menos tem.
Agora você está falando que nem eu.
— O que pretende fazer, então, pressionar a suspeita? — Ele se recostou na cadeira.
— Vou me concentrar nas ligações primeiro, é o mais importante. E você? Vai se aventurar nesses jornais?
Grissom olhou para a pilha assim como ela.
— Não é minha prioridade agora. Quero seguir os passos daqueles homens que conhecemos no evento. Se de alguma forma descobrir uma conexão entre o local de onde aquela gente foi morta com a presença de algum deles... pode ser um caminho.
— Vou tentar terminar o trabalho o quanto antes para te ajudar.
— Não. — O sargento estendeu a mão para frente — Não se apresse, Sara. Um passo em falso e... — Ele olhou para baixo, se lembrando da vez em que quase morreu baleado — Se cuida, ok? Não hesite em falar comigo caso precise.
Os olhos de Grissom mostravam nítida preocupação com ela. Tinha receio que ela se envolvesse demais naquele caso em específico e acabasse como ele.
— Tá bom. — Ela concordou, mas não estava muito contente com a cara do parceiro. Não demorou para que sentisse o celular no bolso do terno vibrar significando que havia uma mensagem recebida. Sara pegou o aparelho rapidamente e leu o recado — É o Maksim.
Em silêncio o sargento fez que sim com a cabeça, entendendo que já estava na hora de ir. Grissom a encarou nos olhos e disse baixo, mas audível:
— Tome cuidado.
— Você também. — Ela sorriu de lado. Disse aquilo mesmo sabendo que a chance do sargento ficar na sala por horas fosse grande. A mulher pegou a bolsa no chão e saiu da sala.
Quando a porta foi fechada a sala ficou vazia demais. Antes era perfeita, ele preenchia o espaço simetricamente, mas agora, sem ela a situação era outra. Grissom inclinou a cabeça para baixo e apoiou os braços na mesa. Não era ciúme por ela estar trabalhando com outro, era mais uma falta que sentia. Problema, com certeza; ele não podia deixar aquilo tomar conta de sua mente. Estavam no trabalho e quando estavam lá só o que importava era o caso.
Mas havia algo mais nessa história. Um certo detalhe que o estava consumindo.
Ele olhou para o telefone no gancho e suspirou. Visou a porta e retraiu os dedos de ambas as mãos; foi quando tomou coragem finalmente e pegou o aparelho. Discou o número de cabeça, sem precisar da agenda. Esperou alguns toques e alguém atendeu à ligação.
— Jared. — O sargento apenas o chamou pelo primeiro nome, esperando ser respondido.
— Grissom? — Ele respondeu confuso — Por que está ligando a essa hora, ficou louco? — Não só pareceu, como odiou ser chamado, provavelmente estava dormindo.
— Ainda estou lúdico.
— Grissom isso... não é uma boa hora. — A voz dele ficou abafada.
— Eu sei, mas o assunto é importante. Se não fosse eu não ligaria, ainda mais a essa hora.
Foi possível ouvir um breve lamúrio baixo.
— É sobre o que, Grissom?
Três segundos depois ele respondeu:
— O de sempre. Albert Stone.
—---------------------------------------------------------------
Como pedido pelo detetive, Sara encontrou Maksim próxima à sua mesa. Após um cumprimento verbal, Ivanenko pediu a ela para que se sentasse; ele fez o mesmo.
— Tenho boas notícias: a quebra do sigilo do Lewis foi aceita, já temos o registro e da suspeita está a caminho.
— Isso é ótimo! — respondeu um pouco animada — Fico impressionada que continua com o caso mesmo que Hilary tenha confessado. — Ela sorriu intencionalmente.
— O problema é que essa história está mal contada.
— Então você acredita que a morte dele pode estar relacionada ao meu caso.
— As evidências vão nos dizer. O que mais quero no momento é unir essas pontas soltas.
— Vamos seguir com as ligações e se acharmos algo importante é só pressionar a suspeita.
— Está animada hoje, detetive Sidle? É bom já que vamos trabalhar bastante hoje.
O trabalho dos detetives era algo delicado, complicado. Poderia durar horas ou minutos, dependendo da sorte ou do assunto. Seria a chance de descobrir um caminho para a morte do ex guarda e encontrar alguma pista do assassino ou apenas o motivo pelo qual ele foi morto. Um caminho que tomaria tempo e que poderia levá-lo a mais um beco sem saída.
— Tudo para fechar isso logo. Ainda tenho que trabalhar no caso de mais onze vítimas e quanto mais tempo levar será pior.
—-----------------------------------------------
— Por que voltou a se interessar por ele, Grissom? Essa história não acabou?
— Pelo visto, não. Quero saber como ele anda.
— Como você se importasse com ele.
— Me importo com o dano que ele possa causar.
— Aos outros ou a você? — O tom de Jared saiu um pouco sarcástico.
— Estou falando sério. Recebi uma pista que envolve aquele dia e quero saber o que o Stone vem fazendo.
— Grissom. Albert não é o único cara que vive lá, centenas de pessoas estão sob meus cuidados. — Ele fez uma pausa, de longe parecia que estava falando com alguém — Não posso ficar de olho nele sempre, pra isso temos os outros funcionários.
— Eu sei. — O sargento olhou para a porta, achando que alguém se aproximava, mas era alarme falso. Ele esfregou o rosto com a mão — Me passe os relatórios, vídeos do quarto dele, qualquer coisa.
— Gil... — Jared já temia o conteúdo da ligação assim que ouviu sua voz — Isso é coisa demais, violaria as regras daqui.
— Então... — Os olhos de Grissom baixaram — me deixe falar com ele.
— Você sabe que isso é mais que complicado, não é? Se virem você por aqui justamente para falar com Stone nós dois podemos-
— Eu sei, sofrer consequências, sanções e Deus sabe o que mais. — Ele respirou fundo — Mas eu preciso desse favor. Somos amigos, não somos?
Aquela última frase foi mais que bem-intencionada. Albert Stone não foi para a ala psiquiátrica de High Desert por acaso. O destino inicial do serial killer seria Carson City onde passaria o resto da vida por lá, todavia, por meio da certa influência de Grissom para "ajudar um amigo", Stone está preso em Indian Springs. Grissom nunca faria aquilo se não tivesse respaldo para uma ajuda futura.
— Claro que somos. — retrucou impaciente.
— Então... — Como Jared não falou mais nada em seguida, o sargento emendou.
— Vou ver o que posso fazer aqui e te retorno.
— Sei que você consegue, afinal é o diretor da ala. — Ele sorriu.
Jared até pensou em responder, mas guardou as palavras para si. Ele bufou brevemente, sabendo que teria o trabalho de retribuir o favor a Grissom após alguns favores recebidos.
Os dois se despediram e o sargento foi quem encerrou a ligação. Grissom ficou olhando para o telefone. Criou um conflito consigo mesmo; a ideia foi das piores possíveis, mas a dúvida o consumia terrivelmente. Ele não conseguia parar de pensar naquele maldito bilhete que o relembrava do caso que literalmente destruiu sua vida. Se Albert estivesse envolvido nisso também Zodíaco teria acertado uma lança em seu estômago, um golpe certeiro. Ainda que gastasse tempo, horas, talvez até dias, Grissom sabia que não podia continuar sem ter certeza que Albert estava nessa ou não.
O problema é que ele tinha a intenção de guardar essa "pequena" investigação para si e não envolver ninguém, muito menos sua parceira.
Fale com o autor