Manhunters
65 O começo de um desafio
Notas iniciais
Madrugada. Clima frio, mas não tão frio que os dois não pudessem se manter aquecidos. Grissom acordou. Sonolento, deu-se por conta do que ocorrera horas atrás e temeu que tivesse sonhado novamente com aquilo e terminasse numa cama vazia que nem antes. Mas ela estava lá, de costas para ele, dormindo tranquilamente. Aliviado, ele agradeceu por aquilo não ser outro sonho.
Ainda que não fosse um sonho a ficha ainda não tinha caído. Era difícil acreditar que a mulher por quem se apaixonou se encontrava na mesma cama que ele, ainda mais após todos as falhas que ele cometeu. Dias e dias de solidão pelos quais ele passou, finalmente pôde encontrar um pouco de paz em sua mente perturbada.
Grissom estava terrivelmente apaixonado por ela. Seu maior arrependimento era não ter se entregado ao amor que desenvolveu pela detetive anos atrás por medo de várias coisas. Ele errou muito com ela, isso era um fato que não foi apagado de sua mente e não seria esquecido tão cedo. Tudo o que podia fazer pela frente era ser uma pessoa melhor que antes para reparar todo o erro. O sargento não a merecia, mas era eternamente grato por tê-la ao seu lado. Por ela, Grissom faria quase tudo... ou talvez tudo. Faria o possível e o impossível para mantê-la a salvo, principalmente daquele psicopata.
Gentilmente, o sargento moveu para trás uma mecha de cabelo, envolveu o braço em sua barriga e se aconchegou mais próximo a ela. Sem querer o gesto a fez despertar do leve sono.
— Desculpe, não quis te acordar. — disse, beijando carinhosamente o seu pescoço.
— Sono leve. — Sara respondeu de olhos fechados. Após isso deixou escapar um bocejo.
Ela entrelaçou sua mão na dele e apertou firme. Tê-lo perto, tão perto, causava-lhe uma sensação de paz e segurança que talvez nenhum outro homem transmitiu. Sua conquista, não apenas em ter o sargento como amante, era saber que Grissom não se perdeu para escuridão que o envolvia.
— Queria ter mais coragem lá em São Francisco. — desabafou. Se tivesse tentado seguir adiante com o relacionamento os dois poderiam ter ficados juntos até hoje.
— Ah é? — Lentamente Sara se virou para ficar de frente para ele. Levou alguns segundos para que ambos se acostumassem com a baixa visão e pudessem se encarar melhor — Então você... queria falar comigo... talvez convidar para um jantar e... — Ela deslizou a mão sobre seu peito descoberto e a descansou lá — fazer algo mais? — Seu sussurro intencional pegou o sargento em cheio.
Surpreso com a ousadia da parceira ele engoliu em seco. Sara tinha uma facilidade enorme em mexer com sua mente.
— O que seria esse algo mais? — Entrando no clima, ele aproximou seu rosto bem próximo ao dela.
— Eu não sei... — brincou — quem sabe uma conversa... no seu quarto do hotel. — Ela deslizou seus dedos sobre o peito dele e mostrou-lhe um sorriso — Um bate-papo aqui e ali e quem sabe as coisas não esquentariam entre a gente? — Ela tocou com o indicador no canto de seu lábio.
— Confesso que gostaria, muito. Mas eles poderiam pensar algo ruim sobre a gente. — Ele foi realista.
— Quem iria saber?
Grissom ficou em silêncio. Se envolver com Sara que tinha 22 anos na época, seria um risco perigoso de correr. As pessoas não eram tão maleáveis quando se falava sobre um relacionamento daqueles onde os envolvidos tinham treze anos de diferença, ainda mais quando se tratava de policiais.
— Uma hora, alguém que não deveria saber. Não teria como esconder isso pra sempre. — lamentou ele e depois suspirou.
— Eles não têm nada a ver com a gente. Somos só nós dois, Gil. — Ela quase sussurrou.
— E lá fora? — Insistiu, preocupado com o que poderia acontecer.
— Lá fora é lá fora. — Sorrindo, ela finalizou o assunto — Estamos juntos agora e ninguém vai impedir isso.
Grissom esboçou um largo sorriso. Anos dolorosos podem ter passado, principalmente para ela que se lembrava daquilo tudo. Porém aquele tempo seria aos poucos apagado pelo tempo que viria.
— Eu não vou te deixar mais. — Grissom acariciou sua bochecha com as costas do dedo.
Sorrindo, ela envolveu sua mão na dele.
— Eu espero que não. — Sara brincou, mas sabia que ele foi sincero em suas palavras.
— Não vejo a hora dessa droga de caso terminar logo. — Ele resmungou. O trabalho tomava quase todo tempo deles e por isso já imaginava que não poderia aproveitar tantos momentos com ela.
— Falando nisso... — A detetive se ergueu na cama e se apoiou no travesseiro. Seu rosto mudou, parecia bastante preocupada — O Ecklie está marcando você.
O sargento revirou os olhos e balançou a cabeça.
— Sara, não vamos falar sobre ele aqui...
— Gil, — Insistiu ela — você não sabe. Ele pediu que eu decidisse sobre a sua permanência no caso.
Confuso, Grissom olhou para ela e também se levantou. Percebeu que o tom da conversa era mais que sério, era o destino de todo um trabalho que levou tempo e ainda estava levando.
— O Conrad pediu a você? Por quê? — perguntou meio perplexo.
— Ele sabia que você estava com aqueles problemas e achou que isso estava atrapalhando a nossa parceria.
— O pior que estava mesmo. — Decepcionado, ele admitiu — Mas então você... escolheu...
— Sim. Escolhi ter você de volta. — A detetive sorriu meio de lado — Sei que estava passando por tudo aquilo, mas tirar você seria algo desleal.
— Entendi. — De voz baixa, brevemente o sargento olhou para baixo — Preferiu trabalhar comigo ao invés do Ivanenko?
— O que tem isso? — Ela ergueu uma sobrancelha.
— Bem... vocês dois estavam se dando muito bem. — Grissom enfatizou-se no final — Pensei até que viraram melhores amigos.
Pelo seu tom, Sara notou de cara o ciúme do parceiro. Chegou a rir.
— Não acredito que está com ciúme dele, Gil! — questionou-o segurando o riso.
— Eu notei o jeito que ele falava com você. — O sargento tentou se defender.
— O jeito típico de um cara legal. — Sara retrucou sarcasticamente — Você tem que admitir que ele é.
— Ah, então quer dizer que eu não sou um cara legal? — Maliciosamente ele se moveu para cima dela, apoiando seus braços na cama.
Ela, que não conseguia tirar o sorriso brincalhão do rosto, tentou encará-lo a altura para mostrar que não se intimidava com sua "atitude". Pelo contrário, até que Sara gostou daquilo.
— Você é terrível, Gilbert Grissom. — Ela retrucou sem medo algum.
No momento em que terminou de falar, ele arrancou um beijo lento. Como era impossível resistir a ele, Sara envolveu a nuca em suas mãos e o trouxe para mais perto. Grissom desceu até seu pescoço e continuou beijando-a até a clavícula. Ela ergueu seu queixo e voltou a beijá-lo nos lábios. O beijo foi durando e durando até o momento em que os dois se separaram num ritmo demorado. Grissom voltou para seu lugar, mas ficou de lado para observar melhor a sua parceira que, mesmo ofegante, não tirava aquele sorriso debochado do rosto.
— Ah... — Aos poucos, Sara se recompôs — Eu não falei? Você é terrível! — Ela o empurrou de leve. Grissom não reagiu, apenas aceitou a provocação e sorriu em deboche.
— Quero saber o que vai acontecer se o Maksim querer alguma coisa. — Grissom comentou, já mais sério.
— Simples. Eu vou dizer a ele que não estou interessada e... quem sabe falar que estou comprometida, também? — Sara o provocou, percorrendo o indicador sobre seu peito — Mas eu sei que você gostaria muito de contar o nosso segredo pra ele, não é?
Ele não respondeu, mas sua feição já respondia por si.
— Olha, voltando naquele assunto... — Ela bocejou — eu não acho que o Ecklie sabe o que houve com a gente naqueles dias... — disse ela, ao se aconchegar novamente nos braços do parceiro.
— Não teria como. — disse ele, passeando seus dedos no braço dela. — É impossível... ao menos, improvável.
— Pelo que eu vi o xerife quer te tirar do caso de qualquer jeito, Gil. É melhor você tomar cuidado.
— Eu não confio muito no Ecklie. Quase sempre ele arranja uma desculpa para tentar me prejudicar. Se ele soubesse que nos conhecemos há mais tempo com certeza ia tentar interferir na sua vinda. — Ele pegou na mão dela e a envolveu. Ficou em silêncio por alguns segundos, olhando para sua mão — Toma cuidado com ele também, mesmo que ele trate você da melhor forma possível.
— Depois do que vi vou pensar duas vezes quando falar com ele agora.
A última coisa que Grissom gostaria era o xerife saber ou desconfiar sobre o relacionamento dele e de Sara. Relacionamentos românticos entre eram estritamente proibidos, mesmo que um deles fosse um policial vindo de fora. O "escândalo" da descoberta pesaria muito para os dois, que correriam o risco de serem afastados do caso. Provavelmente Sara quem sairia mais prejudicada.
Grissom a encarou seriamente. Talvez ela já soubesse ou tivesse em mente como seria a situação adiante. Mas não custava nada dizer abertamente.
— Querida, você sabe que... para a nossa segurança e das pessoas que a gente ama... nosso relacionamento tem que ser um segredo, certo? Ao menos até... isso tudo acabar. — Terminou acariciando seu queixo. Ele não tinha ideia do que viria depois do término do caso, mas quis trazer um alento.
— Eu sei... — Ela olhou para o lado — Já imaginava isso. Se tem algo de bom nessa história é que não seremos obrigados a dar explicação pra ninguém. — A mulher voltou a encará-lo.
— Escolhemos assumir esse risco. Infelizmente tem que ser assim.
— Só lamento não poder beijar você em qualquer hora. — Mesmo decepcionada, ela não escondeu o sorriso ao comentar aquilo.
— Eu também lamento. Muito.
Sara tocou em seu peito e foi passeando até chegar justamente na cicatriz em sua barriga, consequência do incidente no posto. Assim que a sentiu parou os movimentos. Falando em riscos, chegou a se esquecer que Grissom quase perdeu a vida por detalhes e problemas acumulados ao longo dos anos. Ele percebeu o quanto ela sentiu o peso da cicatriz e agiu rápido, na tentativa de não deixar aquele fato abatê-la. Grissom pegou a mão que tocava em sua pele, trouxe para si e a beijou carinhosamente.
— Estou aqui. — disse, beijando sua mão novamente. Depois disso tocou em seu rosto, afastou uma mecha de cabelo para trás e a puxou para perto para beijar seus lábios — Por sua causa.
— Eles também te ajudaram. — respondeu, referindo-se aos oficiais que estavam no posto.
— É...
Os dois trocaram olhares, mas não agiram. Ficaram assim por um tempo. Sara acabou bocejando. Ainda sonolenta, ela lutava para se manter acordada.
— Querida, volte a dormir. — Pediu ele — Vamos ter um dia cheio.
Concordando com ele, Sara se virar de costas e se ajeitou no travesseiro. Ela chamou pelo parceiro que imediatamente se envolveu nela. A detetive virou-se um pouco de lado para encontrá-lo e os dois trocaram um rápido beijo. Não se contentando com apenas um, o casal se beijou novamente e dessa vez por mais tempo. Após isso, os dois se aconchegaram na cama, cobrindo-se com o edredom.
— Acha que ele vai estar esperando pela gente? — Sara não disse o nome, mas Grissom já sabia quem era com toda a certeza.
— Ele está confiante. Já teve coragem de me provocar, então... eu acho que ele vai estar, sim.
Ela pegou em sua mão e a pressionou carinhosamente contra si. Mesmo não vendo o parceiro ela sentiu que Grissom não parecia bem. Ele não parava de se mexer, sempre tentava arranjar uma posição confortável e respirava por longos segundos.
— Você tá ansioso. — Ela disse, mantendo-se imóvel.
— Eu tô... preocupado com esse evento. Muitas pessoas... ele... — Grissom terminou baixando a voz — pode estar no meio delas.
— Se acalma, Gil. — A detetive percorreu seu punho com os dedos na tentativa de deixá-lo melhor — Estamos juntos nessa.
O homem fechou os olhos ao sentir o toque delicado. Somente ela conseguia acalmar uma mente tão perturbada como a dele. Grissom apoiou seu queixo no ombro de Sara, que se virou para ele e sorriu em resposta.
— Obrigado. — respondeu junto de um suspiro cansado.
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Sete da manhã. O celular do sargento o despertou, o que o fez abrir os olhos na mesma hora. Deitado de bruços, a primeira coisa que fez olhar para a direita brevemente. Ela estava lá, justamente para causar-lhe o primeiro sorriso do dia. Aliviado, tratou de desligar o alarme.
Grissom ainda estava nu assim como Sara. Quando deslizou seu braço para fora do edredom ele sentiu frio. Tudo cooperava para que ele ficasse o dia todo ao lado dela, mas não podia se esquecer que era um policial e o dia seria cheio.
O sargento se ergueu e apoiou-se no encosto da cama. Virou-se para o lado e notou a parceira se mover.
— Bom dia.
— Que horas são...? — Sara perguntou; sua voz estava meio rouca.
— Sete. Está na hora. — Grissom se aproximou dela e beijou sua bochecha.
— Ah não... — Lamentou ela, encolhendo-se ainda mais no edredom.
— Eu também gostaria de passar o dia todo fazendo nada ou tudo com você, — Beijou-a novamente — mas infelizmente não dá.
Depois de uma grande luta interna, Sara se ergueu e se virou para ele. Chegou a se esquecer que, assim como ele, estava sem roupa alguma. Sentia-se tão confortável à noite que não se incomodou em vestir novamente suas roupas.
Os dois trocaram um rápido beijo seguido de carícias no rosto. Ver aqueles olhos sonolentos que ainda assim emitiam um brilho fantástico o fez sorrir como não o fazia há muito tempo. O desejo de estar com ela ardia em seu peito desde o momento em que se redescobriu um homem apaixonado; desejo que finalmente se tornou realidade. Não houve ninguém por quem ele desenvolvesse uma paixão tão intensa quanto desenvolveu por Sara. Todavia a euforia do início de relacionamento não podia se sobrepor ao dever do trabalho, principalmente um trabalho como aquele. Só que isso não o impediu de tentar seguir por outro caminho.
— Quer vir ao banheiro comigo? — Estendendo sua mão ele a convidou. Grissom ostentava um sorriso quase malicioso e um olhar sugestivo.
A morena mordeu o lábio e também sorriu.
— Gostaria muito. — respondeu — Mas vou ter que recusar dessa vez.
Ele fez uma careta. Já imaginava que receberia uma reposta como aquela, ainda assim tentou arriscar.
— Minhas coisas estão no outro quarto, e além disso, se eu entrar com você naquele banheiro nós vamos nos atrasar. — Ela brincou.
— Eu entendo. — Grissom se aproximou dela e deslizou uma mecha de cabelo para trás. Ele tratou de se levantar logo antes que voltasse a beijá-la e deixar que a paixão o levasse para algo mais.
— Acho que consegui uma visão privilegiada. — disse ela ao observar suas nádegas.
Ele fez uma careta e se virou para ela. Não segurou o sorriso ao atentar para a feição risonha em seu rosto.
— Gostou? — Provocou-a enquanto pegava a roupa dela espalhada pela cama e pelo chão.
— Claro que sim.
Grissom se aproximou dela trazendo suas roupas.
— Eu vou para o banheiro. — disse, estendendo as roupas dela — Nos vemos lá em baixo?
— Não vai me esperar? — questionou um pouco decepcionada.
— Sara, — O sargento voltou para a cama — quando estamos aqui dentro nós somos amantes e podemos fazer o que a gente quiser. Mas a partir daquela porta... — Apontou para a frente — somos parceiros de trabalho, no máximo, amigos. Ao menos por agora vamos evitar quaisquer... — Ele beijou seu ombro — contatos um tanto... próximos.
Sara olhou para o lado. Ele percebeu na hora que ela não gostou de ouvir aquilo. Pensou em dizer algo a mais, porém esperou por alguma reação.
— Está bem. — respondeu com um suspiro.
— Que bom. — O sargento acariciou sua bochecha — Sei que não gostou, mas eu não ia querer que algo acontecesse e você fosse prejudicada. — Ele a beijou e depois se levantou novamente — Eu vou tomar banho, nos vemos depois, ok?
— Ok. — Fechando seus olhos, a morena recostou-se na cabeceira.
Grissom deixou a cama e se dirigiu para o banheiro. Só depois Sara respirou fundo e esfregou os olhos. Por mais que as palavras dele tenham sido uma verdade dura, ele estava mais que certo. O namoro deles precisava ser um segredo, assim como ela falou na noite anterior, um segredo guardado a sete chaves. Se aquilo escapasse para ouvidos errados aquilo geraria um problema praticamente impossível de se resolver.
Sem pressa, a mulher se levantou da cama, vestiu suas roupas e caminhou em direção à porta.
Quem diria.
Ela sorriu. Ao tocar na maçaneta, virou-se de lado para observar a porta o banheiro. Parecia mentira. Sua antiga paixão de anos se tornou seu amante e aquilo não se mostrava ser um romance de época, que, assim como a brasa em algum momento se apagaria. Mais que atração física, o que ocorria entre os dois sobreviveu ao desafio do tempo, espaço e diferenças pessoais. Seria uma luta manter um relacionamento daquele com todas suas restrições e desafios. Mas seria uma batalha que valeria a pena lugar; Sara nunca esteve tão convicta de que amava tanto alguém quanto ele.
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Café da manhã. Uma xícara de café bem quente iria ajudar a aquecer o corpo. Fazia frio no lugar e o tempo não iria aliviar tão cedo. Sara tomou banho, vestiu uma camisa de manga curta preta, calça jeans, botas marrons, sobretudo da mesma cor e optou por uma maquiagem básica. Trazia consigo sua arma e o distintivo no caso de haver necessidade; como uma policial, ela nunca podia deixar de lado aqueles dois objetos.
Dirigindo-se ao restaurante, a morena pensou bem no que escolher. Optou por uma xícara de café e panquecas que acabaram de ser preparadas. Sozinha, sentou-se num canto do local próxima à janela, à sua direita. Semblante meio abatido, ela começou a comer lentamente. Direcionava sua visão na maior parte do tempo para a janela.
— Desculpe a demora. — disse Grissom ao se aproximar dela. Na bandeja que trouxe consigo havia um prato com omelete junto de uma xícara de café. Sorridente, pôs a bandeja na mesa e se sentou frente ela. Ele vestia um conjunto social preto como de costume, sapatos da mesma cor e uma camisa social azul escura. Preferiu não usar gravata desta vez.
— Tudo bem... — respondeu, mas ela parecia distante.
— Eu... gostei muito da... noite de ontem. — Ele falou meio sem jeito.
Sorrindo enquanto partia sua panqueca, Sara respondeu antes de comer:
— Eu também.
— Nunca me senti tão... — Em voz baixa Grissom interrompia a si mesmo até que parou de falar. Olhava para o prato, na tentativa de buscar palavras melhores — contente. — Terminou olhando para ela.
— Que bom, Gil...
Preocupado com seu estado, Grissom olhou para os lados para disfarçar, inclinou-se um pouco para frente e perguntou:
— Está tudo bem, querida?
Ela não segurou o sorriso ao ouvi-lo falar assim. A detetive olhou para a janela novamente.
— Cuidado com as palavras, Gilbert. — Mesmo sorrindo, ela o alertou.
— Admito que não me aguentei. — Brincou, dando de ombros.
Sara ficou em silêncio por alguns segundos. Olhou para o prato e ameaçou comer outro pedaço de sua panqueca, porém desistiu.
— Agora sou eu quem está preocupada. — Sara o encarou nos olhos — Com você.
O sargento ergueu as sobrancelhas. Comeu um pedaço da omelete e tomou um gole do café.
— O que foi?
— Ainda acho que você deveria ter avisado ao Brass sobre aquilo.
Impressionado com a declaração, ele franziu o cenho.
— Vamos avisar a ele quando isso aqui acabar. — Grissom tentou encerrar o assunto. Ele comeu outro pedaço da omelete normalmente.
— Isso é sério, Gilbert. Zodíaco fez aquilo de propósito para te provocar. Ainda temos que levar o papel pra análise e ver se tem alguma digital ou rastro.
Grissom decidiu não mostrar o papel ao xerife, portanto, transformando aquilo em um segredo arriscado de se manter. Sara não gostou daquilo, mas tinha em mente que, se o bilhete fosse revelado a Horton uma grande bola de neve poderia se formar e complicar ainda mais a delicada situação.
— Vamos analisar isso, também, Sara, não se preocupe.
— Não dá pra ficar adiando essas coisas. A gente tem que deixar os outros alertas para evitar coisa pior!
— Eu vou ficar b-
— Não, não. — Ela balançou a cabeça ligeiramente — Não me vem com essa de "eu vou ficar bem". Se esse cara conseguiu atingir você dessa forma, o que mais ele pode fazer para deixá-lo desestabilizado? Sem contar que você pode ser o próximo... — A detetive parou de falar aos poucos. Pensar naquela possibilidade lhe deu calafrios.
— Fique comigo, então.
— O quê?
— Pegue suas coisas e fique na minha casa.
— Estou falando de você. — Ela retrucou impaciente. Chegou a olhar para os lados para ver se não tinha alguém prestando atenção na conversa deles.
— Você disse que Zodíaco pode usar outro meio para me atingir. E a única pessoa que eu mais me preocupo é você.
— Gil... — Novamente Sara balançou a cabeça e se virou para o lado.
— Eu quero que você fique perto de mim. Vou me sentir melhor desse jeito.
— Você sabe que isso não vai dar certo.
Grissom sabia o teor daquela pergunta e todo o aparato que estava envolvido nesse meio.
— Não tem como eu simplesmente morar com você. Uma hora as pessoas vão desconfiar e isso vai pesar pra nós dois.
Ele suspirou e se recostou na cadeira. Ter a primeira discussão horas depois de assumirem um relacionamento amoroso não estava sendo bom, não era bom. Grissom tinha em mente que sua namorada queria apenas cuidar dele, mas certas questões deveriam ser abafadas por algum tempo. Sara já não era apenas sua parceira, e ele precisava agir como o tal, fazendo todo possível para evitar discussões, outrora constantes.
— Eu queria, queria mesmo. — Sara enfatizou-se — Mas seria arriscar uma exposição que iria nos prejudicar muito. Você mesmo disse lá no quarto.
— Acho que... mudo de opinião rápido demais quando falo em manter pessoas a salvo. Principalmente- — O celular começou a tocar deixando-o irritado. Pegou o aparelho no bolso do terno e atendeu a ligação — Grissom. — disse, quase resmungando. Enquanto isso, Sara o encarou brevemente e voltou a comer. Ao ouvir o que a pessoa tinha a dizer, ele respondeu com poucas palavras — Já estamos indo. — Despediu-se e então encerrou a chamada.
Ele a encarou. Como Sara não fazia o mesmo, Grissom não teve escolha senão continuar a comer também.
— Era o xerife. — falou ele enquanto olhava par ao prato — Perguntou se já estávamos chegando.
— Ok.
O passeou o garfo pelo prato. O silêncio instaurado naqueles momentos seguintes o incomodou bastante.
— Como eu dizia antes... eu mudo de opinião rápido quando o assunto é segurança. Principalmente daqueles que eu amo.
Ela deixou escapar um sorriso curto. Como ele não falou mais, os dois retomaram sua alimentação, mas isso não queria dizer que Grissom estava satisfeito. Mais que nunca ele a queria por perto não apenas por causa de sua segurança, mas por causa do forte sentimento que criou por ela.
— Quando você pretende se mudar para Vegas?
A detetive franziu a sobrancelha, surpresa por ele retomar o assunto.
— Gil, eu...
— Eu te quero por perto, mesmo que não seja dentro da minha casa. Henderson é longe demais.
— Tive muitos imprevistos nesses últimos dias, você sabe. Mal parei em casa direito, muito menos arranjei tempo pra ver um lugar novo. — Ela se defendeu.
Decepcionado, Grissom fez um gesto positivo com pescoço e voltou sua atenção para o café da manhã. Sara percebeu aquilo na hora, mesmo ele tentando disfarçar.
— Ei.
Ela deslizou sua mão para a frente, um pouco próxima ao seu prato para chamar-lhe a atenção. Grissom olhou para sua mão e desejou tocá-la, mas qualquer gesto "íntimo demais" para dois parceiros seria perigoso.
— Eu vou dar um jeito nisso. — A detetive respirou fundo, desviando o olhar, e o encarou novamente — Também quero ficar perto de você, Gil, ainda mais agora. — Ela insistiu, tentando-o fazer mudar de semblante.
Sem responder, Grissom observou-a por alguns instantes. Seu olhar meio abatido por causa da situação o quebrou.
— Não queria te pressionar, me desculpe. — disfarçou, chegou a baixar o tom de voz.
— Esqueça, não se preocupe. — Ela bateu levemente na mesa — Vamos resolver isso juntos, certo?
Ele fez um gesto positivo com o pescoço, mas não adiantou muito. Ainda era visível que o sargento ainda não estava satisfeito. Só que Sara não podia fazer mais nada.
O final do café da manhã foi marcado por poucas trocas de palavras. A ansiedade pelo que estava por vir deixou-os um pouco pilhados.
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Tudo pronto para dar a partida, Grissom e Sara já estavam dentro do carro alugado. Deixaram a mala no hotel e só trouxeram os objetos essenciais de um policial. Eram oito e dez da manhã; o evento estava marcado para começar às nove e meia.
De lado, o sargento olhou para a detetive, que encarava a paisagem estática de fora da janela.
— Vou falar com o Brass. — falou ele ao se virar para a direita.
Quando ouviu aquilo, Sara também se virou para encará-lo. Grissom parecia disposto a encerrar qualquer vestígio da discussão. Ela notou isso, viu que o namorado estava se esforçando para melhorar. Em silêncio num primeiro momento, Sara pegou sua mão direita que estava próxima da marcha. Entrelaçou-a e a segurou firme.
— Após a festa vou ligar para ele sem falta.
— Que bom. — Ela sorriu de lado — Está pronto?
— Você está?
A detetive afastou sua mão aos poucos.
— Tenho que estar.
— É... Nós dois temos.
Olhando para o lado de fora, certificando-se que não havia ninguém por perto, Sara chamou por ele. Curioso, Grissom se virou para ela e foi recebido com um beijo breve. Os dois sorriram, principalmente o sargento, surpreso pelo gesto ousado no estado em que eles se encontravam.
— Não vamos ter tantas oportunidades no trabalho.
Apesar de receber o beijo em circunstâncias perigosas como aquele lugar, Grissom não pôde negar que gostou. Momentos como aquele raramente iriam acontecer em locais que não fossem um lugar fechado no qual tivesse a presença dos dois, apenas.
Grissom deu a partida no carro. No momento em que fez isso seus pensamentos tomaram outra forma. A possibilidade de encontrar com Zodíaco martelava em sua mente sem parar. Só de pensar que poderia passar ao lado dele ou até mesmo encontrá-lo sem saber quem era lhe dava calafrios. De lado, ele observou sua namorada que se virou para observar a paisagem pela janela do carona. Teve diversos pensamentos que envolviam-na, além do serial killer. Seu maior medo era que Zodíaco fizesse dela um alvo ou uma pessoa de interesse; que estivesse no evento a observando de longe ou perto. Tudo indicava que Zodíaco já está de olho nos envolvidos no caso. Se sabia sobre a vida dele, poderia saber muito bem sobre a vida dela. E era aquilo que ele temia.
— Gil?
— Hã? — Ele se virou meio bruscamente.
— Está com a lista dos nomes do Ryan?
O sargento levou um susto com a chamada. Chegou a pensar que ela rondava seus pensamentos.
— É... — Grissom pegou uma caderneta que carregava dentro do bolso do terno e entregou para ela. Ele continha os possíveis nomes ligados aos apelidos anotados por Ryan em seu bloco.
A ideia deles era de checar os nomes presentes na festa com os nomes do papel. O caso que Ryan estava investigando não seria descartado pela sua importância, mas os policiais tinham outras prioridades.
— Acho difícil que o nome do Zodíaco esteja nesta lista. Ele não daria uma informação como essa para o cara, a não ser que Park tenha descoberto. Sabe se ele iria no evento? — perguntou ele.
— Não vi nada anotado, nem no papel nem no computador. — Sara balançou a cabeça — Se os nomes dali não baterem com os convidados, a gente vai ter que investigar a vida deles um por um.
— Sobre o evento... — O sargento disfarçou.
— O quê?
Ele pressionou o volante e respirou fundo.
— Eu queria que você não se afastasse muito de mim.
A detetive ergueu uma sobrancelha.
— Gil, você sabe que o melhor é a gente ficar separado para cobrir uma área boa. Mais policiais estarão lá também.
— Sei disso. — Ele gesticulou com a mão direita — Mas a gente não sabe com o que vai lidar. E se ele estiver presente e... ficar vigiando você...? — Grissom a encarou por alguns segundos, voltando sua atenção para a estrada.
— Não precisa se preocupar comigo, eu sei me cuidar. — Ela retrucou, mesmo sabendo que era difícil mudar a opinião do parceiro — Tem que confiar em mim.
— Eu confio em você, mais que ninguém. Mas eu... eu tenho medo, Sara. — Admitiu — Se alguma coisa acontecer com você eu- — Ele balançou a cabeça na tentativa de afastar aqueles pensamentos ruins.
Ela se manteve fixa em Grissom. Notou como ele estava pilhado, nitidamente preocupado com seu estado. Já estava assim antes e agora que estavam juntos sua preocupação mais que dobrou.
— Olha. Eu vou dar um jeito de ficar por perto, ok? Mas quero que faça o mesmo.
Confuso, o sargento franziu as sobrancelhas.
— Eu não quero que você saia por aí procurando ele feito um caçador e acabe se prejudicando.
Ele pareceu não gostar muito do pedido. Virou-se para a frente e suspirou.
— A gente tá nessa junto ou não? — Insistiu ela.
Grissom inclinou a cabeça para baixo. Para ser sincero às vezes se esquecia que fazia parte de um time, esquecia-se que era apenas 50% da equipe.
— Estamos, querida. — Assentiu.
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O parque Callaghan era o melhor lugar da região para eventos como aquele. Tinha um espaço verdejante de quilômetros, uma área aberta horizontal perfeita para abrigar estruturas e amontoados de pessoas, além de ficar situado num lugar favorável aos locais e aos que vinham de fora.
Diversas barracas foram montadas além de um palanque principal. Projetos de iniciativas sociais e ambientais se faziam presentes. Grupos que representavam orfanatos, ONGs e associações eram os convidados principais, sem contar com a presença de empresários, políticos e artistas. Aquele era sem dúvida um dos maiores eventos da região.
Grissom e Sara chegaram lá às oito e cinquenta e seis. Ficaram impressionados com a arrumação quase simetricamente organizada. Viram muitas pessoas (principalmente mulheres) junto de crianças, que eram muitas, também. Os carros, vans e ônibus presentes no estacionamento improvisado eram provas do movimento de pessoas que ocorreria naquele dia.
Ao saírem do carro, os dois se dirigiram a um dos postos provisórios da polícia que foi montado na área que correspondia ao parque. O xerife Horton esperava por eles.
— Chamei reforços das outras localidades. Todos estarão alertas. Se algum desgraçado tentar algo ele vai ser bem recebido. — garantiu o xerife.
— Bom. — Grissom respondeu seco — Eu só peço que não deixe essa presença dos policiais muito evidente. Tem gente, principalmente pessoas públicas, que não gosta dessa sensação.
— Está bom do jeito que está. É melhor assim, não quero que uma tragédia aconteça por causa de um detalhe.
Irritado, Grissom olhou para o lado e suspirou. Cerrou o punho direito brevemente e se segurou para não dar uma reposta grossa.
— Tá bom. Faça como quiser. O que a gente quer é que eles estejam prontos caso o assassino seja encontrado. — Sara tomou a palavra. Seu tom firme e moderado colocou o sargento em ponto de equilíbrio. Bom que ela estava ao seu lado.
Sem outros motivos para estarem ali, os dois policiais de Vegas deixaram o posto e saíram para rondar o local.
— Vai com calma, garotão. — Brincou ela — Sei que você tá ansioso por hoje, eu também estou.
— Não preciso nem falar mais?
— Te conheço há bastante tempo para saber dessas coisas.
— Ah... céus. — Levando a mão à testa, Grissom lamentou — Vamos pegar a lista dos convidados, anotar, checar e comparar.
— Esse lugar é grande demais. Acho que vamos ter que nos separar.
— Não, isso-
— O lugar não tá cheio, Grissom. — Sara chamou sua atenção chamando-o pelo sobrenome novamente — A gente sai por um tempo e depois se encontra no posto da polícia. — Insistiu.
O sargento olhou para cima brevemente. Deixar sua namorada se afastar num evento que possivelmente teria a presença do serial killer não era algo de se engolir fácil. Mas ele tinha que ter em mente que Sara era uma policial treinada, assim como ele. Às vezes tinha que fazer estes "sacrifícios".
— Tá bom. — Ele gesticulou com a mão. Sabia que não venceria aquela "queda de braço" mesmo.
— Certo. — A mulher sorriu, satisfeita que ele se mostrava aberto com mais facilidade — E... Gil? — Ela tocou levemente em seu braço.
— Sim?
— Toma cuidado, tá?
O homem se virou para ela, que já atentava para o caminho. Ela sabia disfarçar bem. Sua voz doce em meio ao caos o acalmava de um jeito mágico. Grissom inclinou a cabeça levemente para baixo:
— Tá. Você também. — disse em voz baixa.
Cada policial tomou seu caminho. Não olharam pra trás para não dar alerta a qualquer um que os estivesse observando. E aquilo com certeza iria acontecer.
Em certo ponto do parque, quem sabe perto ou distante deles, uma figura junto de sua família conversava com outras pessoas, possíveis parceiros e integrantes do evento que logo iria começar. Estava animado, ansioso pela programação do dia. A semana foi agitada, mas boa. Seu filho, um grande orgulho, conquistou o primeiro lugar no campeonato mirim de esgrima, fato que para ele, modestamente, já era esperado. O evento do dia seria uma oportunidade de fazer algo bom e ganhar novos parceiros para seus negócios, todo mundo sairia ganhando.
Outro detalhe o fez ganhar o dia foi uma cena. Seus olhos brilharam assim que o viu. Ele passava longe, mas não tanto para que não fosse reconhecido. Finalmente, após tanto tempo, o predador se viu próximo do caçador. Lá estava ele, caminhando sozinho; aquilo fez o coração acelerar de euforia. O predador disfarçou o sorriso ao notá-lo passar; entretanto, perguntou-se sobre o paradeiro de sua parceira. Ele sabia que ela era sua parceira, a mulher de olhos fantásticos. Se o caçador estava lá, sua parceira estava também, isso ele tinha certeza. Bem, ao menos ele teria um bom tempo para observar os dois.
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