Manhunters
66 Mais perto do que imagina
Notas iniciais
Muita gente, muito barulho, muita música. Um caos sonoro para o sargento, angustiado de estar ali. A detetive não se importava tanto, se acostumou com a urgência, o mix de sons, cores e pessoas. Após um levantamento que levou quase duas horas, a detetive e o sargento se encontraram de novo. O ponto de encontro foi o posto policial do centro. O sol brilhava forte naquela manhã, diminuindo o frio de mais cedo, ainda assim as roupas quentes ainda eram de grande ajuda.
O evento estava uma loucura no melhor sentido. Representantes de várias entidades de causas sociais, orfanatos e associações se reuniram em barracas trazendo pequenos shows, palestras e jogos. O dinheiro dos eventos e da doação voluntária seria dividido entre as organizações. Empresários, políticos, artistas e filantropos vieram em bom número, sem contar com os visitantes que faziam parte da comunidade local vizinhanças.
A morena passeava como uma turista que visitava o evento pela primeira vez. De alguma forma era verdade. Nem mesmo o trabalho poderia impedi-la de acompanhar o universo criado ali. Passando pelas barracas e espaços abertos podia encarar os sorrisos que se abriam de jovens, adultos, crianças e idosos. Haviam algumas exceções, é claro; alguns rostos sérios, quase tristes ou além disso. O detalhe era que, mesmo passando no meio deles, falando e interagindo com aquelas pessoas, Sara se sentia em outro plano, como se não pertencesse àquele lugar. Teve momentos que se achou invisível e momentos em que achou os outros invisíveis. Em algumas vezes, Sara parava nos pontos e cumprimentava aquela gente no intuito de se misturar e ficar por dentro do que acontecia. Com um sorriso e aceno discretos, a detetive tentava agir naturalmente, mas só tentava.
Era quase meio-dia. Muitos paravam no intuito de comer alguma coisa, exceto os policiais, que só iam interromper o trabalho quando revisassem a primeira parte da tarefa.
— Grissom. — A morena falou animada.
— Sidle. — Assentiu ele. Depois fez um gesto com o pescoço para que os dois entrassem no contêiner.
Eles, o xerife, um oficial e um fotógrafo se reuniram para discutir sobre uma "investigação secreta", na tentativa de levantar dados sobre o assassino. O fotógrafo, conhecido de confiança do xerife se encarregava de tirar fotos de homens com perfil físico próximo do que seria o serial killer — característica do homicida pela qual o xerife não tinha ideia que fosse.
O fotógrafo, junto de outros, fez várias imagens de homens que encontrava pelo caminho, inclusive dos convidados "vip" que iam chegando; dessa forma não levantaria suspeitas.
— Isso vai levar tempo demais. — reclamou Grissom ao ver as várias fotos na tela do computador.
— Também acho. Por que tirar esse tanto de foto de gente que mora tão longe daqui?
— Isso se chama levantamento de perfil, xerife. — O sargento retrucou meio impaciente.
— Enquanto vocês ficam com o traseiro colado aí, vou colocar os homens pra bater perna. — Inconformado com aquela resposta o xerife chamou pelo fotógrafo e o oficial para se retirarem dali. Achou que seu trabalho valeria mais a pena que ficar naquele contêiner.
— Céus... que homem teimoso. — Grissom falou enquanto deslizava a mão sobre o rosto, logo após a saída dos três homens. Vendo aquilo Sara abriu um sorriso de lado. Viu o companheiro ter que lidar com alguém igual a ele.
Ela pegou uma cadeira próxima e se sentou ao lado dele.
— Deixa. Vai ser até melhor ter policiais rondando a área. — falou próxima ao sargento, que se virou para encará-la.
— Ele- — Grissom gesticulou com a mão direita, mas acabou batendo em sua perna. Retornou sua atenção para o computador.
— Estou com a lista dos nomes deles aqui em ordem. — A morena pegou o papel que foi entregue a ela pelo fotógrafo e balançou-o próximo ao rosto. O rapaz deixou o posto por alguns minutos e logo estaria de volta.
— Como foi?
— Ah... não tive problemas. Se bem que ver um monte de pessoas olhando pra você, às vezes estranhando o seu jeito pode incomodar um pouco.
Ele ergueu uma sobrancelha.
— Alguém hostilizou você? — perguntou preocupado.
— Não... — Ela tocou gentilmente em seu braço.
Grissom olhou para Sara, que mesmo após todo aquele trabalho, ainda conseguia sorrir. Seu sorriso era contagiante, trazia fôlego, motivação, uma força que o empurrava sempre para a frente. Não sabia se estava orgulhoso ou agradecido por tê-la ao seu lado.
Voltando sua atenção para a tela do computador antes que passasse os minutos seguintes admirando-a, Grissom fez um gesto positivo:
— Que bom.
— E você?
— Bem, eu... falei com algumas pessoas. Gente que está trabalhando no evento, visitantes... não cheguei a falar muito com os mais ricos.
— Ficou envergonhado? — Brincou ela.
— Não sou muito chegado.
— Conseguiu reconhecer alguém?
— Naquela hora, não. — Grissom respondeu, ainda centrado na tela — Eram tantos rostos... não consegui me concentrar direito.
— Também não tive sucesso. Bom que o amigo do xerife está ajudando. — A detetive se referiu ao fotógrafo.
— O xerife e o pessoal dele vai querer trabalhar bastante. Essa morte não faz bem para a reputação desse lugar. Mostrar trabalho vai compensar em alguma coisa.
— Pelo visto você está numa rixa com o xerife, hein, Gil? — Sara esboçou um sorriso. Chegou a olhar para trás por precaução.
— Não estou não. — respondeu logo — E a propósito, é ele quem está querendo brigar.
— Eu não acredito nisso! — Rindo, sem querer a detetive apoiou a cabeça em seu braço, o que causou surpresa em Grissom. Até mesmo ela se surpreendeu com o que fez, sem perceber o risco que corria. Só eles dois estavam no contêiner, mas ainda assim não estavam totalmente "seguros" — Desculpe. — Ela se ergueu logo.
Imóvel, Grissom não se importou com aquele gesto. Só lamentou não poder ficar assim por horas e horas. Pensou em avisá-la (gentilmente) para ter cuidado, mas seu coração estava mole demais para tal.
— Você já comeu? — Grissom pegou a folha e tentou se lembrar de alguns rostos ao analisar as fotos.
— Ainda não. Vou adiantar o trabalho com você e depois eu penso nisso.
E mais uma vez o sargento se voltou para ela. Desta vez pareceu não aprovar aquela resposta.
— Teremos bastante trabalho hoje, Sara. É bom que coma alguma coisa logo. — Alertou-a.
— E você? Não seria mais fácil a gente parar e comer algo ou trazer para cá? — Argumentou.
— Vai ser melhor se alguém estiver adiantando o trabalho. — A justificativa de Sara não deu certo. Grissom parecia irredutível e convicto de que não sairia daquela cadeira tão cedo — Coma algo e recupere as energias, Sara. Não quero te ver cansada. — Completou, mas pareceu que ele mal prestou atenção no que disse.
Não foi preciso de muito esforço para entender que seu parceiro gostaria de ficar sozinho. Sara poderia perguntá-lo o motivo dele estar tão evasivo, mas deixou como estava. Mesmo íntimos, ela não se sentiu bem em questioná-lo acerca disto. Imaginou que ele pensaria o mesmo se fosse o caso dela.
— Vou ver se trago alguma coisa pra você. — falou ela enquanto caminhava para deixar o lugar.
— Não é necessário, eu agradeço. — Grissom respondeu, virando-se de lado.
Uma última vez Sara o observou. Quando se tratava daquele caso diretamente, Grissom era capaz de se isolar num mundo criado por ele mesmo. Seu maior medo era que ele não pudesse mais sair de lá.
Ele apenas ouviu a porta ser fechada. Olhou para o lado e cerrou os lábios com força. Levou sua mão bem no local da ferida em sua perna. Desde cedo o local que entrou num estado de cicatrização começou a doer. O efeito do analgésico que tomara antes de sair pareceu diminuir com rapidez. Grissom era o principal responsável, pois sabia que precisava ficar em casa, repousar e deixar que os ferimentos se curassem à base do mínimo esforço. O sargento avançou etapas delicadas e agora pagava por isso.
Todavia nada podia pará-lo. Ele não podia deixar o evento de forma alguma e perder a chance de quem sabe, olhar nos olhos do serial killer que tem infernizado sua mente. Nem que precisasse se arrastar, Grissom não sairia de lá até que o evento terminasse.
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— Será que essa gente vende alguma coisa que não tenha carne? — comentou consigo mesma, aflita ao olhar para a quantidade de comida carregada de carboidratos da qual ela aboliu de sua dieta.
O cheiro constante da fumaça que saía das churrasqueiras e chapas estava por quase toda parte e começava a deixá-la enjoada. Se não achasse um refúgio logo a fome fugiria dela como o diabo fugia da cruz. Só depois de andar para lá e para cá, a morena tentou a sorte numa pequena barraca organizada por um grupo que aparentava ser de um orfanato. Ela tirou seus óculos e se aproximou de lá.
Ah, até que enfim, pensou aliviada.
— Bom dia, senhora! — A mulher morena que aparentava ter a mesma idade que Sara recebeu-a com um sorriso largo.
Sara atentou para a estufa e para o cardápio escrito à mão por uma bela letra ao lado esquerdo. Um item fez seus olhos brilharem de esperança. Ansiosa para comer logo, Sara tratou de fazer logo seu pedido.
— Vou querer dois sanduíches de muçarela com tomate e manjericão e dois sucos de laranja. — respondeu com o mesmo carisma.
A mulher avisou à cozinheira sobre o pedido de Sara e depois voltou ao lugar de onde estava para receber os que chegavam.
Enquanto esperava seu pedido, a detetive observava algumas crianças e jovens que circulavam próximo do estande. Percebeu também que elas brincavam entre si e às vezes falavam com os adultos que vendiam os lanches por ali.
— Vocês são de alguma organização? — Curiosa, ela puxou assunto com a mulher que falou antes.
— Somos de um orfanato lá em Sparks. — Assentiu a mulher — Aquela ali é minha filha, brincando com os amigos que fez por lá. — disse, apontando para a frente, onde algumas crianças brincavam. Vendo a mão apontando para ela, a menina sorriu e acenou.
— Ah, sim... — Ela sorriu também ao ver a cena, mas o gesto se apagou aos poucos. Ela não era chegada à questão de família, e quando o assunto orfanato surgiu também, o clima ficou um pouco pesado para ela.
— Bom dia. Vou querer um sanduíche de frango e outro de muçarela, presunto e... tomate. — disse o homem que acabou de chegar, ficando à esquerda de Sara. Quando a mulher se afastou dele, o homem se virou para Sara ao mesmo tempo que ela e sorriu.
Sara, que não estava acostumada a ser recebida dessa forma, ainda mais por um estranho, retribuiu com um sorriso meio torto.
— Eu nunca vou trocar a velha e boa comida caseira. — falou ele, diretamente para a detetive.
Ela se virou para o homem novamente e desta vez o analisou bem. Era um pouco maior que ela; branco, de cabelos castanhos um pouco altos e rosto quadrado. Seus olhos pretos encaravam-na atentamente e parecia ter uma força hipnotizante. Não dava para mentir, ele era atraente e chamava atenção de qualquer um que fizesse o mesmo que Sara. Ele vestia uma camisa social branca de manga longa — dobrada até o antebraço —; calça jeans clara e sapatos marrom escuro. Pelo suor que escorria em sua testa a detetive deduziu que ele trabalhou bastante, possivelmente no evento.
— Tenho que admitir que é melhor que comida industrializada. — Para não deixá-lo no vácuo, Sara respondeu cordialmente.
— Não dá pra comparar. — Ele riu e se virou para ficar frente a frente com a detetive — Está gostando do evento?
— Bem... — A pergunta a pegou de surpresa — é interessante o que estão fazendo aqui... a oportunidade de ajudar setores que não tem tanta voz.
— Pensei a mesma coisa quando resolvi ajudar.
— Ah, — A morena apontou para ele — Você é um dos colaboradores?
— Sim. — Ele sorriu e fez um gesto positivo — Sou Yohann Byrne. — Estendeu sua mão. — Com dois "enes".
— Detetive Sara Sidle. — A mulher retribuiu.
— Policial, é? Hum... — Assentiu — É bom que estejam por aqui depois do que aconteceu.
— É... — Ela olhou para baixo — Eu imagino que com o avanço das investigações esse crime vai ser resolvido.
— Eu também. — Yohann sorriu.
Logo a mulher voltou com o pedido de Sara servido dentro de um pacote de papel.
— Obrigada. — disse ela ao pagar. Ela pegou seu pedido e se virou para Yohann, prestes a se despedir — Até logo, senhor Byrne.
— Não me chame de senhor. — Ele brincou — Foi um prazer conhecê-la. Espero que aproveite o evento.
Yohann estendeu a mão para Sara, que encarou-o num primeiro momento um pouco desconcertada. Para não deixá-lo só, ela retribuiu o gesto e os dois trocaram um aperto de mãos amigável. A mulher sorriu e depois foi embora.
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Ela voltou para o contêiner e encontrou o xerife, o fotógrafo conversando com o sargento. Ao ouvirem a porta se abrir, os três olharam para trás.
— Bom que já voltou. Trouxe algo para nós? — O xerife perguntou no tom grosso de quase sempre.
Ouvindo isso, Grissom se virou para o outro policial e olhou para ele de cara fechada. Não falou nada para não começar uma discussão necessária e gastar sua relação com Horton.
— Você não me deu dinheiro então não comprei nada. — retrucou sarcasticamente, vindo a se aproximar do trio. Grissom não se expressou, mas ficou bastante satisfeito com a resposta da parceira.
Sara pegou um sanduíche e uma lata de suco entregando-os a Grissom logo de cara. Confuso, ele fez uma careta sem dizer nada, perguntando "em silêncio" o motivo daquilo.
— Você não comeu.
Ele sabia daquilo, estava com fome, até, mas ainda assim não achou certo. Como não podia mais recusar, agradeceu discretamente. A mulher se sentou na cadeira "reservada" para ela e tirou seu lanche.
— Então, meninos, conseguiram algo? — perguntou ela ao começar a se servir.
— Reconheci uns três nomes apenas. — Grissom balançou a cabeça, decepcionado — Faz tempo que não tenho me atualizado nisso. O Saul me informou alguns nomes que estão mais ou menos em alta. — O sargento apontou para a tela.
— Temos alguns nomes importantes aqui. — O rapaz de cabelos raspados e rosto fez uso do mouse e selecionou algumas fotos — Aqui tem o ex jogador de golfe, Tony Batts, o Jesse Smith, desembargador que vai se aposentar no final do ano... tem até o Steven Salim, um cara que tá em alta pelas bandas de Vegas.
— Ah é? — Sara tomou um gole do suco — Falando nisso, encontrei com um dos "colaboradores" do evento.
— Quem? — O sargento perguntou, mas pareceu não dar tanta importância.
— Um tal de Yohann Byrne.
Ele franziu o cenho brevemente e respondeu:
— Não me lembro dele. — Grissom respondeu com a mesma empolgação de antes. Levou a mão esquerda ao queixo e começou as buscas iniciais.
— Yohann... Yohann... — Saul falou pensativo — É, eu não tô me lembrando de nada sobre ele agora. A foto dele está aí?
Grissom voltou até pasta de onde estavam as fotos que Saul tirou anteriormente e começou a passá-las para que Sara o identificasse. Passou várias fotos de vários ângulos diferentes. Alguns homens posavam para a lente sozinhos; outros com suas esposas e/ou filhos. Uns foram flagrados naturalmente, enquanto faziam alguma coisa como trabalhar ou cumprimentar outras pessoas. Ao menos quinze homens (sem contar com as convidadas) conhecidos da grande mídia ou local estavam presentes.
— Aqui. — A morena apontou para o décimo segundo — É ele.
Yohann era um dos que queria sair bem na foto. Sorrindo, estava junto de sua esposa e seu filho acenando para a câmera. Ele e sua companheira pareciam bem felizes, já o menino, mais ou menos.
— Ele foi bem simpático, mesmo que nunca tenha me visto antes.
O sargento ergueu uma sobrancelha.
— Acho que a maioria deles vão nos tratar bem. As pessoas estão olhando; qualquer sinal hostil e a imprensa e o público vão destruí-los. Principalmente a imprensa. — Grissom falou.
Horton recebeu uma mensagem em seu rádio, chamando a atenção dos outros três. O xerife respondeu rápido ao chamado e se dirigiu a eles:
— Vai começar uma apresentação na área principal. É bom que vocês estejam lá. — Ele se dirigiu aos dois policiais e depois chamou por Saul, que o acompanhou para fora.
Foi a oportunidade para os dois ficarem a sós novamente e terem, no mínimo, um pouco de privacidade. Ao ver a porta ser fechada, Grissom dirigiu seu olhar para a namorada. Não sabia o que dizer, mas algo o incomodava e ele queria se livrar daquilo o quanto antes:
— Não precisava ter comprado isso aqui, Sara. — Ele estendeu sua mão para mostrar o sanduíche e a bebida.
— Claro que precisava, você não comeu ainda. — respondeu sorrindo. Sara se levantou e se aproximou atrás dele. Tocou em seus ombros e se inclinou para perto de seu ouvido — E será que eu não posso agradar o meu... parceiro?
Grissom virou o rosto para encontrá-la. Pelo seu olhar o sargento não aprovou a atitude tão ousada de Sara. Porém engoliu em seco. Cada parte do seu ser era atraído pela detetive e quanto mais perto ela ficava somado ao longo tempo em que permanecia perto, Grissom era tentado. E como era tentado.
— Pode. — disse, um pouco nervoso — Mas-
— Mas o quê? — Ela apertou seus ombros, fazendo-o estremecer ligeiramente.
— Tenha cuidado com isso... querida. — falou entredentes, claramente nervoso.
Aproveitando a deixa, Sara beijou seus lábios rapidamente. Foi aí que o sargento ficou mais perplexo ainda.
— Você está brincando com a sorte. — Alertou-a seriamente.
— Mas tem que admitir que isso é bom, não é? — A morena se afastou dele e voltou para sua cadeira.
Ele olhou para trás e suspirou brevemente.
— É, é bom. — Admitiu — Mas é perigoso. — Ergueu o indicador direito.
— Vou ter muito mais cuidado da próxima vez. — Sorriu maliciosamente.
O sargento balançou a cabeça. Voltou a olhar a tela do computador, mas encarou Sara novamente.
— Como é esse Byrne?
— Bem... gentil como quase todo mundo por aqui... — Deu de ombros — Voz mansa, contente, olhar fixo, típico de um pai de família, aparentemente.
— Como entraram em contato? Você falou com ele ou vice-versa?
— Estava numa barraca quando fiz o pedido e ele apareceu. Depois resolveu puxar assunto.
Do nada o sargento se levantou da cadeira e se afastou um pouco da detetive.
— O que foi?
— Estou... pensando... — Ele tocou em sua testa e cobriu os olhos — Quantos mais vieram falar com você?
— Outros... — Sara olhou para o lado tentando se lembrar, mas no momento os nomes não vieram à mente.
— Quem, Sara? — Insistiu ele.
— Está desconfiado que ele possa ter falado comigo ou com você?
— É, eu tô, sim. — Assentiu — O que ele falou?
— Bem... falou sobre comida caseira... perguntou se eu estava gostando do evento. Respondi que era uma oportunidade para as pessoas que não tem voz ganhar espaço. Então ele disse que era um dos motivos por estar ajudando.
O sargento assentiu novamente e olhou para o lado.
— Quando perguntei se ele era um dos colaboradores, ele respondeu que sim e se apresentou.
— Ele disse o que fazia?
— Não.
O sargento se virou de lado e levou a mão ao queixo.
— O que está pensando em fazer? Marcar todos aqueles que virem falar com a gente?
— É uma ideia. — Deu de ombros.
— Você acha que Zodíaco se arriscaria em nos cumprimentar? — questionou ela, um pouco espantada pela sugestão.
— Ele se "arriscou" o suficiente me mandando aquela mensagem. — justificou-se. — Eu não duvido que nós apertamos a mão do assassino e não teremos ideia até pegá-lo.
— O problema é que nós não temos certeza se ele realmente está aqui, Gil.
Ele inclinou a cabeça um pouco para baixo, a pensar no comentário da parceira. Ele tinha que admitir a si mesmo que escolheu ir ao evento por pura motivação emocional que necessariamente a razão. Um palpite, impulsionado pela onda de sentimentos negativos causados por aquele bilhete.
— Por mais que faça sentido imaginar que Zodíaco seja um homem rico, e agora que ele te mandou essa mensagem possa estar nesse evento de caridade... Nós estamos nessa por achar, Gilbert. — Ela gesticulou com a mão — Não vamos desistir, mas temos que ter cautela.
Grissom guardou as mãos no bolso da calça. Nitidamente se encontrava decepcionado, mas não tinha como retrucar. Sara estava certa.
— Ok. — concordou meio cabisbaixo.
Ela o observou o jeito com que ele ficou após a conversa. O "ânimo" em finalmente ter um caminho pelo qual seguir fez o sargento cair de cabeça nessa oportunidade.
— Ei.
O sargento olhou para ela, que caminhou em sua direção.
— Vai, não fica assim. Eu tenho certeza que vamos conseguir tirar algo nesse dia, mesmo que a gente só descubra isso depois.
Eles trocaram olhares. O sargento suspirou e levou a mão à nuca. As palavras dela serviram de alento; ultimamente ela tem sido seu maior refúgio, antes mesmo de ficarem juntos.
— Obrigado, Sara. — falou baixo.
Sorrindo, a mulher fez um gesto para os dois saírem do contêiner em seguida. Assim o fizeram. A apresentação que começaria em breve seria uma boa oportunidade para observar o comportamento daqueles homens. Todos eram suspeitos e ninguém podia ser ignorado.
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— Peço desculpas em nome de todos pelo... pequeno atraso. — O homem que discursava no palco brincou e boa parte do público respondeu com risos.
Seu sorriso carismático chamava e atraía a atenção dos presentes. O jeito como se portava captava seus olhares e transmitia confiança para quem o via. Ele era negro, de cabelos castanhos escuros e baixos. Um pouco forte, de altura média, vestia uma camisa social azul bebê, um colete de lã cinza com detalhes e calça da mesma cor do colete.
— Nem todos aqui me conhecem. Meu nome é James Spencer, sou CEO da InfoMax, que é uma empresa que atua na tecnologia da informação. — disse modestamente — Nós temos orgulho de ser responsável por atuar, também, no apoio de causas ambientais e sociais, como algumas entidades presentes.
— Será que ele não é político, não? — Ironizou Sara.
Grissom que estava ao seu lado esquerdo sorriu de lado e voltou sua atenção para a frente. A dupla estava mais ao fundo da área destinada ao público. De pé, preferiram ficar daquele jeito para observar uma boa parte dos presentes que estavam sentados em cadeiras de metal. Outros também estavam em pé, como policiais, pessoas vindo de fora para participar do evento e convidados. O parque Callaghan estava cheio, o sargento e a detetive teriam trabalho e deveriam ficar atentos.
— É um grande prazer fazer parte deste evento em seu terceiro ano de existência. Acho que falo em nome de todos quando digo que... temos orgulho de ter sido e ser um caminho para crianças e jovens terem uma nova família e dar a eles capacitação para se tornarem grandes profissionais no futuro.
— Nada mal. — Comentou o sargento, ligeiramente virando o rosto para ela, que parecia não muito impressionada.
Após mais algumas declarações o discurso final de James foi convincente. Arrancou sorrisos e aplausos da plateia; até mesmo os policiais aplaudiram para não causar má impressão para quem estivesse por perto.
— Acha ele suspeito? — perguntou Sara enquanto observava o CEO chamar por outro nome.
— Todos são suspeitos. — respondeu — Nosso homem pode ser um santo aos nossos olhos, e é aí que mora o perigo.
— Quando começou a pensar assim? — Ela o questionou ao terminar de bater palmas.
— Experiências profissionais. Não fazem parte da maioria antissocial e fria, mas ainda assim eles existem.
Olhando para ele diretamente, percebeu que Grissom se virava para vários lados como se procurasse por algo ou alguém. Sara preferiu deixá-lo em sua "busca", vindo a atentar-se para o palco central novamente, onde uma mulher de aparência jovem. Ela não estava no radar dos policiais, então não havia a "urgência" em acompanhar seu discurso.
— Eu vou... andar. — Ela falou próximo a Sara, que arqueou as sobrancelhas.
Ela não perguntou, apenas fez um careta confusa indagando-o pelo motivo da escolha.
— Vou cobrir uma área maior. Não gosto de ficar parado.
— Vai ficar bem? — Sara, que achou estranho o sargento ir contra o próprio discurso, quis se certificar se ele estava bem.
— Sim. — Assentiu — Vou ligar caso ache algo relevante.
Sério, Grissom se afastou da namorada e se enfiou no meio da multidão. Ela o observou desaparecer no meio daquela gente, mas não levou muito tempo para voltar a assistir à mulher que falava ao público. Suspirou e cruzou os braços. Assim como ele, aproveitou para observar o lugar à sua volta na tentativa de procurar por algo estranho.
O sargento não queria que ela soubesse o quanto estava incomodado. Estar num lugar como aquele tendo a possibilidade de estar perto do assassino que vem procurando há meses e sem saber sua identidade o torturava. Grissom não podia ficar parado e deixar as horas passarem sem ao menos ter feito alguma coisa. Ele precisava se mover, olhar nos olhos de cada homem que se encaixava no perfil e gravar seu rosto. Uma boa parte dos convidados estaria sentado assistindo à apresentação, mas ainda havia uma certa quantidade de pessoas circulando; pessoas das quais ele tinha que se certificar.
Caminhou para um pouco longe da multidão que se aglomerava próxima ao palco. Ainda havia movimento de gente com seus familiares e de indivíduos parecidos com os das fotos.
— Com licença? — disse a voz masculina de repente.
Ao sentir o toque em seu ombro direito, Grissom reagiu logo e se virou para trás. O homem chegou a se assustar um pouco pela rapidez da reação. Ele deu um passo para trás e encarou o sargento como se estivesse arrependido.
— Eu queria saber se o senhor poderia me indicar um posto médico.
Grissom o encarou bem. Era um pouco alto, cabelos escuros, rosto triangular e olhos verdes. Vestia roupas casuais, uma camisa polo rosa clara, quase branca, calça jeans e sapatos de couro. Sua feição, um pouco desanimada sugeriu que ele buscava atendimento para alguém ao invés dele.
— Não trabalho por aqui. — disse, ainda o analisando.
— Droga. — lamentou baixo — Me desculpe novamente.
— Esqueça. — Grissom respondeu seco.
Suspirando, Grissom olhou para os lados e avistou um dos policiais que fazia a patrulha do lugar. O sargento apontou para o oficial que estava a uns vinte metros, chamando a atenção do homem.
— Ali. Ele deve saber onde fica.
Na verdade Grissom sabia aonde ficava o posto, mas no momento não se lembrava já que estava concentrado demais em outras prioridades.
— Obrigado. — Prestes a se afastar, o sargento fez um gesto impedindo-o de prosseguir.
— Eu conheço você de algum lugar?
— Talvez sim. Sou Robert Nielsen... do ramo de bebidas, sabe?
Ele franziu o cenho brevemente, mas logo voltou ao normal. Lembrou-se vagamente da figura. Nielsen não batia com o perfil teórico criado pelos policiais; na maior parte do tempo viajava a outros países, o famoso "visionário em ascensão".
— Certo. — Grissom fez um gesto positivo, recusando-se a falar seu nome.
— Desculpe o tom grosso, mas eu tenho que ir. — Nitidamente com pressa, Robert cortou qualquer conversa futura.
— Até.
Robert apertou o passo para encontrar-se com o oficial à paisana. Grissom observou brevemente empresário se afastar dele, e depois tomou caminho para onde quer que fosse. O susto que levou foi uma lição para ele mesmo; precisava estar ligado. Nunca poderia saber quando o assassino "surgiria" para ele.
O sargento continuou com sua volta pelo parque. Comprou um refrigerante para disfarçar e foi bebendo pelo caminho. O carrinho de pipoca atraiu-lhe a atenção. Prestes a ir até lá, uma ligação interrompeu seus planos.
— Tem uma figura interessante aqui, Gil.
Ele arqueou as sobrancelhas.
— Quem?
— Victor Kemp. Empresário e dono de um cassino lá em Vegas. O nome dele não estava na lista do Park.
— Ah é? — Ele deu meia-volta, em direção ao palco.
— É. Já estou exausta de ficar por aqui sozinha, você tá demorando muito. — Ela aproveitou o momento e o provocou.
— Estou indo. — disse baixo. Quando se preparava para encerrar a ligação, viu uma cena interessante; interessante demais para deixar passar — Olha só, eu já vou, mas antes terei de pegar um desvio.
— O que foi?
— Depois eu te conto, fique de olho no Kemp. Nos falamos depois.
— Tá bom...
Ele reparou que Sara não gostou de ficou à mingua de uma resposta, mas tinha de ser rápido.
Atrás dele, um pouco longe, Grissom lembrou-se do rosto que Sara apontou na foto momentos atrás. Era Yohann, que ao lado de uma mulher e uma criança, conversava com outras pessoas. Ele poderia sair mal com aquela gente, aparecendo do nada para se meter na conversa alheia, mas o sargento preferiu continuar.
Ao se aproximar dos cinco, estes logo terminaram de falar para observar a vinda de Grissom. Um homem que estava com Byrne deu um discreto passo à frente. Assim como o sargento, ele vestia terno e gravata. Branco, de olhos escuros e porte grande, conseguia botar medo em qualquer um.
— Não, não se preocupe. — Byrne se virou para ele e o interrompeu. Logo em seguida ele se despediu do outro homem, que chegou a cumprimentar Grissom brevemente e se retirou.
— Desculpe a interrupção. — Quase sarcástico, Grissom apontou para o homem que foi embora.
— Não... não... não se preocupe, já havíamos terminado. — Sorrindo, ele balançou a cabeça — Eu que peço desculpas aqui pelo Ralf — Ele se dirigiu ao homem ao seu lado que Grissom já dava como certo ser o segurança dele — Eu... conheço o senhor de algum lugar?
— Desculpe a ignorância. Sou o sargento Gilbert Grissom, polícia de Las Vegas. — Ele fez um gesto positivo.
— Las Vegas? — Yohann arqueou as sobrancelhas.
— É. — respondeu seco — Tenho alguns assuntos para tratar aqui. — Grissom não tinha obrigação de se explicar, mas sentiu vontade.
— Oh, sim. — O homem riu.
— Yohann. — A mulher que estava ao seu lado chamou-lhe para perto. Na mesma hora ele se virou e ela disse algo ao pé do ouvido — Sim, sim. Ok. Já estou indo. — Assentiu.
A mulher, junto da criança, se afastou dos homens. Ela acenou timidamente para o sargento e foi embora. Ralf seguiu junto dos dois.
— Realmente estou surpreso com a quantidade de policiais presentes aqui. No outro ano não houve tantos fardados.
— Não soube do que aconteceu por aqui? — O sargento apontou para trás com o polegar.
— Do homem que morreu? — Ele franziu o cenho.
— Exato. Aumentaram o contingente para acalmar as pessoas. Achei que tinha percebido isso por causa do seu segurança.
— Foi escolha da minha esposa. — Yohann brincou e balançou a cabeça — Ela ficou preocupada com o que houve.
— Entendo. Você é um dos colaboradores do evento, não é?
— Sim. É o meu segundo ano aqui em Cold Springs. Tenho muito orgulho de ajudar na causa. — Assentiu e olhou para o lado esquerdo, em direção aonde a mulher foi — Minha esposa foi a maior inspiração para isso.
O sargento o encarou por alguns segundos a figura à sua frente.
— Falando em Vegas, como você disse antes, acho que já te vi por lá. Trabalha na região?
— Mais ou menos. Sou um investidor. Trabalho com algumas empresas, sabe. — Deu de ombros e sorriu — Por que a pergunta?
— Sabia que vi você em alguma página de negócios. — disfarçou.
— Não sabia que alguém lia esse tipo de conteúdo. — Yohann aproveitou a deixa e fez graça. Grissom não teve outra escolha senão sorrir forçadamente.
O sargento sentiu o celular vibrar em seu bolso. Rapidamente ele pegou o aparelho e viu que tinha uma mensagem de sua parceira. Em pouco tempo ele a respondeu e guardou o celular.
— Foi um prazer conhecê-lo, Yohann.
— O prazer foi meu. — Ele estendeu a mão para cumprimentá-lo. Sem demora, o sargento retribuiu o gesto — Até breve, espero eu.
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— Por que você demorou? — Sara perguntou impaciente. Ela tentou disfarçar suas feições, mas não deu muito certo.
De volta ao local de antes, o sargento encontrou a detetive não muito longe do ponto de onde a deixou. Ela estava em pé, séria, como alguém que não aguentava mais ficar ali.
— Desculpe. Estava conversando com seu novo amigo.
— Quem? — perguntou ela ao franzir o cenho.
— Yohann Byrne.
— Hum. — respondeu meio impressionada — E o que ele te falou? — Sara começou a caminhar para a frente e gesticulou para que ele viesse junto.
— Tentei puxar assunto com ele. A esposa e o filho estavam por perto, junto de um segurança e outro cara que ele estava conversando.
— Segurança, é? Não me lembro de ter visto o pessoal daqui com segurança particular.
— Talvez ele seja bem rico, mesmo. É um investidor. Diz que trabalha com algumas empresas.
— Ele te disse isso ou você pesquisou?
— Foi ele quem me falou. Pareceu tentar desviar do assunto.
— Ainda desconfia dele, não é?
— Desconfio de todo mundo. — Falou convicto — E esse Victor?
— Tentei falar com ele e fui barrada por um monte de gente.
O sargento franziu o cenho, chegando a virar o rosto para encará-la.
— Como assim?
Os dois pararam um pouco mais à frente, próximo do palco.
— Achei que eles eram mais acessíveis. Disseram que só depois eu conseguiria falar com o Kemp. — A morena tomou um assento próximo e se sentou. Ele sentou-se ao lado direito dela.
— E o discurso dele?
— Simples, mas objetivo. Sem ladainha burocrática de político. Disse que estava contente em participar e fez questão de falar, discretamente, que fez uma doação para algumas entidades daqui.
Ela se virou para o parceiro e o viu assentir.
— Extrovertido... a idade bate com o perfil. É rico, bonito... viaja bastante como olhei aqui numa pesquisa no meu celular...
— Bonito? — Ele ergueu uma sobrancelha.
— Que foi? Está com ciúme?
— Não é isso. — O sargento ergueu o indicador.
— É, sim, Gil. Nem tenta disfarçar. — Ela balançou a cabeça, sorrindo sem reservas — Mas enfim, pediram para que eu esperasse por aqui.
— Entendi. — O homem se recostou e cruzou os braços. Virou-se para o lado e a encontrou meio séria — O que está achando do evento?
— Pra falar a verdade, — comentou ligeiramente desmotivada — estou cansada disso aqui.
Grissom se virou para Sara para encará-la melhor e a encontrou observando o nada. Estava séria, quase irritada. Ele ficou preocupado.
— Não gosta dessa gente?
— É complicado. É... isso aqui me faz lembrar de umas coisas que... não foram boas recordações.
Mesmo que estivesse a fim de saber, nem ele nem Sara tinham tempo de falar sobre isso, principalmente naquele espaço público.
— Sinto muito. — falou baixo para ela, que sorriu de lado sem olhá-lo. Ao se virar para frente, notou um homem e uma mulher que se aproximavam deles — É ele? — perguntou, apontando para as duas figuras.
— Sim. — A detetive se levantou e o sargento fez o mesmo.
O homem do qual Sara se referiu era Victor. Acompanhado de uma mulher desconhecida, provavelmente sua esposa ou secretária. Kemp era um pouco alto e vestia roupas um tanto simples para sua pessoa: camisa polo branca, jaqueta preta, calça jeans escura e sapatênis também escuro. Parecia se sentir à vontade no evento não apenas por suas roupas, mas por sua pose e aparência. Já a mulher vestia roupas sociais: terno e saia vinho escuro e sapatilhas baixas para caminhar na grama com um pouco mais de facilidade. Cabelo preso num coque e óculos discretos davam a impressão que ela era mesmo sua secretária.
— Olá, você queria falar comigo, não é? Onde poderemos fazer essa entrevista?
— Na verdade, nós somos policiais. — Sara respondeu com um sorriso meio torto. Surpresos, a dupla trocou olhares rápidos, mas que já evidenciavam certo recuo.
— Oh, sim... — Assentiu lentamente, apagando o sorriso de antes — Por acaso estou encrencado? — Ele brincou, erguendo as mãos em sinal de rendição.
— Não, só queremos conversar com você por um tempinho. — Sara tentou amenizar.
— Em particular, se possível. — Grissom olhou para a mulher ao lado de Victor, que pareceu não gostar muito da sugestão.
O empresário chamou a mulher para perto e os dois se afastaram por um instante. A breve conversa se deu por encerrada quando ela se afastou dele e avisou-lhe algo. Parecia sério pela feição que a mulher apresentou a ele. Quando Victor retornou, pareceu estar disposto a prosseguir com os dois policiais.
— Vamos andando? — Ele fez um gesto com a mão, pedindo para que eles o acompanhassem.
— Então... senhor Kemp... — Depois de uns dez segundos de silêncio, a morena puxou conversa.
— Não precisa de toda essa formalidade aqui. — O homem a interrompeu, virando-se para ela enquanto caminhava — Eu esqueci de perguntar: quem são vocês mesmo?
— Detetive Sidle, e sargento Grissom. — Ela se referiu aos dois.
— Ah sim. Muito prazer. — Ao chegar em certo ponto, um pouco mais afastado das pessoas, Victor deu meia-volta e encarou os policiais — Então, qual o motivo da conversa? — perguntou, levando as mãos ao bolso.
Sara e Grissom se entreolharam brevemente. Mais confiante, foi o sargento quem tomou a palavra:
— Talvez o senhor saiba o que aconteceu ontem.
— A morte daquele homem, não é?
— Sim. Não se preocupou em vir ao evento mesmo com essa morte que aconteceu não muito distante daqui? — Sara arqueou as sobrancelhas.
— Não. Apesar dessa tragédia eu me sinto "seguro" por aqui. Temos policiais por perto e vocês, inclusive. — Evidenciou-os com a mão direita, mantendo seu olhar para a detetive — Eu acho que... com o investimento que fazemos com essas pessoas agora irá pessoas melhores depois. Essa morte serve de exemplo.
— Conhecia a vítima?
— Não sei quem era. Já identificaram ele?
— Os detalhes da investigação serão revelados em breve. — Grissom respondeu.
— Ah sim...
— Está hospedado aqui em Cold Springs? — Perguntou Sara, chamando a atenção do empresário novamente.
— Não, estou em Reno. Por quê?
— Estamos avisando a todos para alertarem caso observem alguém suspeito. — Ela se explicou.
— Nós acreditamos que o suspeito possa estar por perto. — Grissom cruzou os braços. Diferentemente de Sara, ele estava sério, observando o semblante do empresário que parecia estar mais focado na detetive. Não podia deixar que o ciúme se sobrepusesse a qualquer veredito racional ou teria problemas sérios.
— Certo- — Sara foi interrompida pelo som do celular do parceiro. Era uma chamada.
Droga, o sargento pensou irritado. Todavia a sua cara mudou na hora ao visualizar o nome de quem o chamava na tela. Ele deu um passo a frente para falar bem próxima a Sara.
— É o Brass. — sussurrou decepcionado, o que a fez arquear as sobrancelhas.
— Vai lá. — Ela tentou animá-lo, mas pelo seu rosto não deu muito certo.
Uma última vez Grissom atentou para o homem, que parecia confuso ao presenciar a situação. O sargento não gostou da ideia em ter que deixá-la com ele, e o motivo maior não era o ciúme, era a preocupação com sua segurança.
— Tá. — respondeu secamente, mas o tom foi direcionado a Victor.
Grissom se afastou rapidamente dos dois, caminhando para mais longe ainda, em direção ao bosque mais fechado. Fez questão de ter a detetive e o empresário em sua visão. A chamada passou do terceiro toque e fazer o capitão esperar não era uma coisa boa.
— Por que demorou, hein? — Ele perguntou impaciente.
— Tive que me afastar da multidão.
— Não me vem com essa, Grissom. Vocês dois estão me deixando às cegas e eu já estou ficando puto com isso.
O sargento fechou os olhos brevemente. Brass ainda não tinha ideia da existência do bilhete endereçado a Grissom. Ele sabia que o capitão ficaria revoltado quando soubesse "tempos depois" sobre o ocorrido, mas Grissom não podia se arriscar e ao mesmo tempo acabou se arriscando.
— Temos suspeita de que o assassino possa estar num evento de caridade, e aqui estamos nós.
— Ah é?! De onde vocês tiraram essa suspeita e por que não me falaram?! — Brass quase berrou ao telefone. Grissom não tinha escolha a não ser ficar em silêncio — Por acaso isso virou uma investigação secreta? — Ironizou.
— Brass, é complicado.
— Quer que eu vá aí e arranque isso da sua boca?
O sargento se calou por três segundos e respondeu:
— Não seria má ideia. — Ele suspirou.
— Grissom você tá mais que ferrado na minha mão se continuar com essa palhaçada.
— Jim... — O sargento ainda levou um tempo para continuar — ele mandou me mandou um recado.
— É o quê? — questionou-o nitidamente incrédulo.
— Zodíaco... deixou um bilhete na bolsa da vítima que era endereçado a mim.
— Como é que é? — Houve um período de silêncio. Segundos depois foi possível ouvir o som da porta sendo fechada — E vocês não me dizem nada?! — A raiva do Brass continuava, ou melhor, parecia piorar a cada minuto.
— Não foi culpa da Sara. Ela tentou me convencer te falar sobre isso...
— E por que não ouviu ela?! — Brass retrucou rigidamente — Sara está aí pra quê?! Pra enfeitar ou ela está por aí por que é sua parceira?!
O sargento olhou para longe, avistando as duas figuras conversando. Não dava para perceber se Sara ainda olhava para ele, parecia totalmente focada em Victor.
Voltando à conversa da detetive e do empresário, os dois pareciam estar mais abertos a continuar com o diálogo.
— Eu não tenho muitas oportunidades de falar com essas pessoas nesses últimos tempos. Eu cresci em condições muito desfavoráveis e agora posso ajudar quem está na mesma situação que eu estive.
— Bonito discurso. Confesso que esperava-
— Um arrogante? — Ele a interrompeu sorrindo intencionalmente — É... acho que todos nós temos um lado ruim. Mas acredite, tem gente aqui muito pior, que está apenas disfarçando na frente do público.
Victor olhou para o relógio em seu pulso e depois voltou a encarar Sara. Seus olhos cinzas mantinham-se fixos na morena, como se algo lhe chamasse a atenção. Assim como Yohann, Victor também era uma pessoa atraente. Seu rosto triangular e os cabelos escuros que brilhavam além disso, davam a impressão que o empresário era um ator, inclusive. Em quase todo o momento ele deslizava a língua sobre o lábio superior como se demonstrasse ansiedade ou alguma outra coisa.
— Eu preciso ir agora. — falou ele, parecendo um pouco decepcionado — Minha esposa e filho estão me esperando. — Brincou.
— Entendo. — Assentiu ela. Sara aproveitou o momento e olhou para longe, tentando encontrar o sargento, que ainda falava ao celular — Bem... a gente agradece o seu tempo.
— Espero ter ajudado. — Sorriu ele, desta vez mais animado. Ele estendeu a mão direita para ela.
Meio sem jeito, a detetive apertou sua mão. Quando os dois trocaram olhares, ela sentiu a força posta por ele; foi um aperto firme, como se estivessem selando uma nova "amizade".
— Foi um prazer conhecê-la, detetive Sidle.
Ela não respondeu. Desligou-se por alguns segundos e apenas gesticulou com um movimento do pescoço. Ao sorrir, Victor tomou seu caminho e se afastou dela. Foi então que Sara voltou a atenção para Grissom, que ainda se encontrava ao longe.
Apertando o passo, e levando consigo o nervosismo por ainda encontrá-lo falando ao celular, Sara imaginou mil possibilidades que prenderam Grissom naquele aparelho, provavelmente com a mesma pessoa que o chamou.
— Não adianta, vamos ter que ficar mais tempo aqui e depois ir até a casa do Ryan. — O sargento insistiu — Nós temos certeza que o caso do Park pode nos aproximar do assassino, Brass!
Pela cara de Grissom a resposta que ouviu do capitão não era boa. Ele revirou os olhos e se virou para o lado. Irritado, levou as mãos ao rosto e deslizou-a enquanto suspirava.
— É uma oportunidade que não podemos deixar passar, Jim. Não dá. — Ele tentou falar mais calmo.
Após ouvir alguns segundos da resposta do capitão, Grissom se despediu dele e encerrou a chamada o mais rápido possível. Em vez de falar algo, Sara esperou por alguma reação do parceiro, que ficou olhando para o chão um pouco abatido.
— Eu devia ter te ouvido. — Grissom falou em voz baixa e só depois olhou para ela.
— Você contou a ele sobre a mensagem?
Ele assentiu. Sara não conseguiu criar uma resposta nos momentos seguintes. Ao virar o rosto para o lado pensou em alguma coisa que não o ferisse mais. Por mais que um lado seu gostaria de evidenciar a ele que estava certa, Sara sentiu pena dele. Ele era seu namorado agora e aquilo pesou mais ainda.
— Um pouco tarde, mas agora ele sabe. Era importante que o Brass soubesse disso. — Ela fez uma pausa — O que vai acontecer?
— Ele vai vir aqui amanhã.
A detetive arqueou as sobrancelhas logo de cara.
— O quê?
— A situação ficou séria e ele vai querer saber disso tudo pessoalmente.
— M-mas ele é o capitão da unidade. Ele pode sair assim e vir pra cá?
— Não tente entender o Brass. — O sargento balançou a cabeça — Disse pra ele quais seriam os nossos próximos passos e ele não quer nem esperar que a gente volte pra Vegas.
— Ao menos ele não tirou você do caso. — Ela sorriu de lado na tentativa de arrancar o mesmo dele.
— Foi por pouco. De novo. — Ainda assim Grissom parecia abatido. A repreensão que levou de Brass foi dura e ele ainda estava digerindo — Como foi a conversa com o Victor? — Ele mudou de assunto.
— Ele me tratou muito bem. Tentei montar uma conversa que pudesse nos dar uma pista sobre o assassino, mas foi complicado. Ele disse que estava contente em ajudar a causa já que cresceu em condições ruins. Falou outros assuntos menos relevantes, mas o que me chamou atenção foi o que disse no final.
— O que foi?
— Disse que todos nós temos um lado ruim e que nem todo mundo aparenta ser bonzinho aqui.
— Ele definiu um bom número da elite americana. — O sargento deu de ombros e olhou para as pessoas bem ao longe.
— Mas... — Sara balbuciou — Eu não sei... algo nele me chamou a atenção.
— Ele te olhou estranho? — perguntou preocupado.
— Não sei... Não sei se queria "flertar" comigo ou-
— Coisa pior.
— Não ficaria surpresa se disser que pelo menos três caras ricos daqui traíssem suas esposas ou que gostam de dar em cima de um monte de mulheres.
— O problema é que temos um assassino por aqui que pode ser qualquer um dessa gente.
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