Manhunters

67 Ponto de Equilíbrio


Notas iniciais
Fala galeríssima! Chegamos com mais um capítulo de Manhunters, uhu! Ao longo desses dias a fanfic ganhou mais três acompanhamentos e mais um fav, isso me deixou feliz demais! Muitíssimo obrigada, mesmo! Isso me motiva demais a continuar a escrever. Sério, eu fico muito motivada a prosseguir com o projeto, vocês nem sabem o quanto isso me anima. Se pudesse abraçava cada um de vocês, leitores(as). Bem, vamos continuar com a história! Agradeço de paixão a todos que estão lendo e acompanhando, beijão! ♥

Os últimos sábados tem servido apenas como um dia a mais de trabalho. Não foi diferente neste. Após quase um dia inteiro no meio daquele evento e ainda por cima uma visita à delegacia, Grissom e Sara estavam de volta ao hotel. Antes de retornarem ao quarto os dois preferiram jantar.

A pressão dos jornalistas e da comunidade local empurraram os policiais a revelar o nome da vítima, que logo circulou pela imprensa e em breve seria destaque na grande mídia no dia seguinte. A morte de Ryan traria um peso maior que das outras vítimas, já que ele era um jornalista. O que viria pela frente seriam dias difíceis, Grissom já tinha isso em mente. Conseguia até imaginar a bolha que cresceria ao longo dos dias por causa da morte de alguém como Park. Um de seus maiores receios era ser refém da imprensa.

— O dia hoje foi duro, mas... ao menos a gente conseguiu caminhar um pouco, não? — Sara puxou assunto. Vendo que ele não apresentava um semblante satisfatório ela tentou levantar seu ânimo. Sentada em sua cama, ela cercou-se de papéis e fotos sobre os convidados do evento. A detetive ainda vestia as roupas que usou no dia e não via a hora de terminar o trabalho do dia para tomar um banho quente e relaxar.

— O que disse? Me desculpe eu... estava... distraído. — De pé, o sargento olhava para o lado de fora.

Ao se apoiar no peitoril da janela Grissom tentou esfriar a mente ao sentir o ar que vinha de fora. Ficou ali por algum tempo até ouvir Sara falando com ele. O sargento se voltou para ela e deslizou as janelas, quase fechando-as. Ele já não vestia o paletó; as mangas estavam dobradas e a camisa estava meio aberta.

— Eu estava falando sobre o trabalho de hoje.

— É... — Ele caminhou para perto dela — Eu... é estranho ter essa sensação de que apertei a mão do assassino. — Mudou de assunto de uma hora para outra, olhando para a mão direita — Talvez ele estivesse por lá, nos vigiando... só esperando o momento para nos cumprimentar.

Vendo-o daquele jeito, Sara afastou os arquivos para o lado e deu umas batidinhas na cama para convidá-lo a se sentar próximo a ela. Ele hesitou num primeiro momento, mas aceitou o convite. Grissom sentou-se ao seu lado esquerdo, recostou-se, ergueu a cabeça para o alto e suspirou. Ela ficou esperando por ele. Quando se virou para ela, encontrou-a encarando seu rosto cansado.

— Fizemos bastante coisa hoje. Eu tenho certeza que demos um passo importante nesse caso.

— Espero que o Brass também enxergue a situação assim. — respondeu meio cético.

— Tenho certeza que ele vai. — Assentiu mostrando-lhe um sorriso confiante — Temos uma lista de possíveis suspeitos agora, já é um caminho. — Ela apontou para os arquivos — Falamos até com pessoas fora do perfil pra garantir que nada passaria.

Percebendo o empenho da parceira em levantar seu ânimo, finalmente ele mudou de semblante.

— Depois de tanto tempo às cegas... é algo importante, sim. — Ele respirou fundo.

Brevemente ele olhou para baixo e depois a encarou também. Sara aproveitou a deixa e acariciou seu rosto com a mão direita. Grissom fechou os olhos ao sentir o toque de sua mão; foi reconfortante, um fôlego de alívio ao ter Sara como sua amante e melhor amiga.

Ele aproximou o rosto dela e os dois trocaram um beijo carinhoso, o primeiro desde quando chegaram do evento. O gesto foi delicado, o beijo de dois amantes que cumpriram com seu trabalho e que precisaram disfarçar quaisquer sentimentos para o público. Sara mal sabia o quão importante aquele beijo foi para Grissom. Mesmo após o beijo, ela manteve a mão em seu rosto.

— Obrigado. — sussurrou ele enquanto os dois se encontravam bem próximos.

— Pelo quê? — Ela perguntou sorrindo.

— Por continuar comigo.

A mulher deixou escapar uma risada boba. Quase sempre ele chamava a culpa para si e tentava se consertar. Depois de tudo que ele passou, Sara preferiu deixá-lo na zona em que Grissom se sentia mais confortável.

— Eu sou sua parceira... e a sua namorada, também. — respondeu risonha.

— Eu acho o termo "namorada"... insuficiente. — disse ele ao afastar uma mecha de cabelo dela para trás, afastando sem querer as mão dela de seu rosto — Eu te considero muito mais como uma namorada.

— Ah é? E o que você imagina?

— Eu te vejo como minha... companheira. — Afirmou com clareza, o que a surpreendeu. Ele passeou seus dedos sobre seu rosto. Ficar ao lado dela era um privilégio que ele gostaria de aproveitar por horas e horas.

Ela ficou vermelha. Sara nunca imaginaria há cinco dias que ouviria o sargento falar algo tão doce como aquelas palavras. Se antes chegou a acreditar que nunca mais poderia ter um relacionamento íntimo com ele, agora tinha certeza que nunca esteve tão apaixonada pelo parceiro.

— Ei... — Por um momento ela ficou sem palavras. Realmente Grissom não era como nenhum outro homem que conheceu ao longo dos anos. Só de encará-lo nos olhos podia perceber o quanto ele estava apaixonado e que estava com ela não por interesse, mas por algo maior — Eu tô adorando ver esse seu lado romântico. — Sorrindo, ela segurou seu rosto e o beijou brevemente. Ele não conteve o sorriso — Vem comigo?

— Para onde?

— Eu... — Ela umedeceu os lábios — não vejo a hora de tirar essa roupa e tomar um banho quente. Só queria saber se meu companheiro gostaria de vir comigo. — Ainda segurando seu rosto, Sara abriu um sorriso malicioso.

O semblante do sargento mudou. Estático, encarou os olhos dela como se estivesse enfeitiçado; resistir àquele maravilhoso convite era impossível. Não havia momento melhor de aliviar toda a carga do dia que estando junto dela, não importando o lugar. O relacionamento deles começou há menos de um dia; havia certa chama que queimava intensamente, porém, era severamente controlada pela frieza do trabalho. Separar um tempo para os dois e para a profissão, ainda mais num caso denso como aquele, era algo delicado e complicado.

— Eu... vou pegar... minha roupa. — Grissom respondeu quase sem voz.

Sara beijou sua bochecha e em seguida falou-lhe próximo ao ouvido:

— Vai logo.

Ele saiu aos poucos de sua cama. A paixão latejava dentro de si, tanto que não aguentava ficar um segundo longe dela. Como se estivesse lendo sua mente, Sara já sabia o motivo da demora em deixar o quarto e riu.

Quando voltou para o quarto e fechar a porta, Grissom se apressou para alcançar as roupas que usou para dormir no dia anterior, só que de repente, parou de caminhar e olhou para a sua bolsa deixada em cima da cama; foi nela onde ele guardou o bilhete enviado por Zodíaco. Ao fazer aquilo, Grissom quebrava uma regra delicada ao esconder uma evidência e tampouco mostrá-la ao xerife da cidade. Ele sabia que as consequências viriam em algum momento e que deveria encará-las; mas também sabia que Brass lhe daria um respaldo. Mesmo irritado com o sargento, o capitão tinha conhecimento de todo o contexto e ainda que tivesse uma opinião um pouco avessa à continuidade do trabalho de Grissom, ele entendeu a escolha do sargento.

Zodíaco quis provocá-lo. Tudo isso porque visava-o para um próximo movimento? Será que ele chamava a atenção de outras vítimas antes de chegar o dia certo para matá-las? Ele fez isso com a última vítima e talvez tenha feito com as anteriores. Ainda assim seria arriscado demais para o assassino escolher logo ele como a próxima vítima. Não impossível, mas ilógico. Os dias que se sucederiam seriam tensos e pediriam toda calma. Enquanto caminhava para alcançar suas roupas, ele suspirou por alguns segundos. Ele não podia deixar que a paranoia sobre Zodíaco tomasse conta de sua mente, ainda mais agora, envolvido em um relacionamento.

Ao pegar tudo o que precisava além das roupas, Grissom voltou ao quarto de Sara e encontrou quase na mesma posição que estava antes de ele sair. A detetive aproveitou o tempo para dar uma olhada naqueles arquivos.

— Por que demorou? — perguntou ela ao se levantar.

— Estava pensando em uns assuntos. — O sargento disfarçou ao colocar sua roupa na cama e deixar os itens de higiene no banheiro. Vendo que parecia distraído, ela se levantou rápido e o acompanhou.

— Que assuntos? — questionou-o quando ficou frente a frente com ele. O pequeno espaço permitiu a ela ouvir a respiração profunda de Grissom, que acuado, não podia se libertar da "pressão" que Sara impunha.

— Aqueles de sempre. — Novamente ele suspirou e levou as mãos ao rosto. Ficou naquela posição por um breve período quando ela tocou em suas mãos, tirou-as do rosto e as envolveu.

— Vamos resolver isso, Gil. Mas agora eu quero que você relaxe agora, ao menos um pouco. — Sara descansou as mãos em seu peito.

Grissom observou aquele gesto até o momento em que ela, sem esperar, subiu até sua camisa e lentamente começou a desabotoá-la. Ele assistiu àquilo tudo prestes a chegar ao final, quando beijou seus lábios carinhosamente. Nem isso bastou para que ela interrompesse o que estava fazendo. Sara continuou a desabotoar a camisa dele, e após chegar ao último botão, Grissom tirou a peça e a jogou no chão com certa rapidez. Tocou em seu rosto e a beijou avidamente e por cinco segundos; só que ele não se contentou apenas com isso; num movimento quase súbito, ele tocou na bainha de sua camisa e deslizou suas mãos por dentro dela na intenção de tirá-la o mais rápido possível. Bastou a ela finalizar o trabalho.

O beijo continuou quase com urgência e se prolongou até o instante em que se lembraram de tirar o restante das roupas. Ao perceberem isso, ambos abriram um sorriso bobo e trataram de se despir. Sara retirou o sutiã preto sem muita demora enquanto ele abriu o cinto e baixou a calça. Quanto mais os segundos passavam o desejo de ficarem juntos novamente aumentou; então foram mais rápidos em tirar os restantes das roupas. Grissom mal percebeu que parou gradativamente de fazer algo quando observou o corpo de sua parceira. Agora que tinha uma visão melhor que na noite anterior, ele não podia deixar de fitar seus olhos em cada canto de seu corpo; desde a curvatura de seu quadril, o volume dos seios, a desenvoltura de seu corpo, o rosto angelical e tantos outros detalhes nos quais ele passaria horas observando.

Só depois ela o notou quieto, parado. Preocupada com aquilo, Sara arqueou uma sobrancelha e gesticulou uma pergunta:

— Que foi?

— Você é perfeita. — respondeu meio sem jeito, mas depois manteve-se firme.

O semblante confuso deu lugar ao choque. Aquelas palavras, mesmo ditas em baixa voz causaram um efeito estrondoso, no melhor sentido da palavra. Grissom foi um dos poucos, senão o único homem que destruiu suas defesas ao mesmo tempo em que a colocou num pedestal. Ela não sabia o que dizer. Queria ver seu rosto corado no momento e o sorriso bobo que se formou em sua face. Havia muito mais que um homem sério e frio em Gilbert Grissom.

— Eu... — Ela ameaçou algumas palavras, porém, desconcertada, apenas desviou sua atenção dele carregando o mesmo sorriso.

Vendo que suas palavras surtiram efeito um tanto inesperado, Grissom deu um passo em sua direção. Ele pegou suas mãos e entrelaçou-as.

— Você é perfeita, Sara. — repetiu muito mais confiante desta vez, e novamente observou seu corpo de cima a baixo. Sentia-se um privilegiado em ter como amante uma mulher tão linda quanto Sara, não apenas fisicamente.

— Você acha? — perguntou sem jeito, só para saber a reação dele e sua reposta, é claro.

Ele desceu suas mãos até a cintura dela e a envolveu. Sorriu para ela como se dissesse que era o homem mais sortudo do mundo.

— Nem preciso pensar duas vezes pra responder.

A mulher umedeceu os lábios e sorriu disfarçadamente. Começava a acreditar que ele possuía uma força que derrubava todas as suas barreiras. Não que aquilo era algo ruim, era uma coisa nova e ela estava bem com isso.

Sara tocou em seu peitoral. Suas mãos quentes descansaram em sua pele por alguns instantes. A detetive aproveitou para observá-lo merecidamente. Grissom não tinha um corpo atlético, porém, o trabalho o "obrigava" a se manter saudável e em forma, aquilo era evidente. Deixando o tórax, Sara passeou as mãos por seus braços para sentir cada músculo de seus membros superiores. O sargento era forte; forte o suficiente para entrar numa briga, suportar desafios que exigiam muito de seu corpo além, é claro, de ser forte o bastante para carregá-la sem dificuldades. Ela não conseguiu disfarçar o sorriso ao pensar nas várias possibilidades que poderiam ocorrer envolvendo aqueles braços e mãos firmes.

Sara gesticulou com o pescoço para que os dois seguissem até o box. Quando ele foi primeiro, Sara ficou e tratou de fechar a porta. Foi Grissom quem girou a torneira do chuveiro. Ele deixou que a água quente tocasse em sua pele causando-lhe uma sensação reconfortante. Indo ao seu encontro, não foi necessário muito esforço para que ela notasse o estado quase frágil em que ele se expunha.

Mesmo aparentando ser um homem de aço, inabalável, Grissom era um ser humano, e como todo tinha seus medos e preocupações. Sara se aproximou dele e tocou em suas costas, vindo a beijá-las lentamente em seguida. O coração dele acelerou com se ela fosse capaz de transmitir uma carga elétrica.

— Nós estamos avançando. — disse e depois o beijou novamente — A gente vai pegar esse cara.

— Eu sei.

Eu espero.

Ele ficou em silêncio e ergueu o pescoço para o alto. Fechou seus olhos e deixou que mais da corrente d'água tocasse em seu rosto. A mulher deslizou as mãos sobre suas costas até chegar aos ombros. Finalmente o sargento se virou e a trouxe para perto de si, permitindo que a água caísse sobre ela. Debaixo do chuveiro os dois se encararam por algum tempo e se encontraram em um beijo.

— Eu te amo. — Sara falou quando envolveu o rosto do amante em suas mãos. Ela sorriu ao atentar para os lábios dele; então envolveu o pescoço dele e lentamente o empurrou até a parede, onde voltou a beijá-lo, desta vez mais apaixonadamente.

Ele estava prestes a ser tomado pela onda de paixão que percorria todo seu corpo e rodeava sua mente. Entretanto, ele foi diminuindo o ritmo dos beijos até que tentou falar algo:

— Sara. — disse enquanto ela continuava a beijar seu rosto — Sara. — Insistiu, desta vez segurando as duas mãos dela e interrompendo de vez o que estavam fazendo.

— Que foi? — Preocupada, ela perguntou entrelaçando seus dedos.

Ligeiramente ele inclinou a cabeça para baixo. O olhar estava meio abatido. Chegou a balbuciar alguma coisa, imaginando o que poderia falar após interromper um momento como aquele. Parecia se sentir culpado.

— Não posso continuar aqui. — Lamentou.

Ela fez uma careta, ainda confusa. Não perguntou, mas já imaginava que apenas o gesto bastasse para receber uma resposta.

— Minha perna esquerda latejou hoje cedo. — Ele fez em gesto com o pescoço — Ainda dói se eu faço muito esforço.

Aos poucos a morena deixou o entrelaço e o encarou quase atônita.

— Por que não me contou, Gilbert? — perguntou. Sua voz era de uma pessoa inconformada e ela tinha todos os motivos para ficar assim.

— Por que não quis deixar você preocupada.

— De novo com isso? — Ela deu um passo para trás. Franziu o cenho e continuava a encará-lo como se não estivesse acreditando no que ouviu — Eu sou a sua amante agora, a sua companheira, e mesmo assim você não me contou?

Grissom fechou os olhos brevemente. Nada que dissesse podia reverter sua atitude, apenas amenizar a situação com Sara.

— Eu confesso que a ideia de o assassino estar no evento me deixou tenso.

— Gilbert. — A mulher cobriu o rosto com as mãos — Isso é sério! Sua saúde vale mais que uma investigação!

— Querida. — Ele se aproximou dela, que não gostou nem um pouco do que o sargento fez. Só que em vez de recuar Sara ficou na mesma posição — Se fosse em qualquer outra ocasião eu contaria, mas fiquei preocupado, fiquei nervoso! — Enfatizou-se, fez uma pausa e continuou a falar — Eu tomei o remédio que o Griffin me passou e a dor aliviou um pouco. — O sargento tentou se defender, mas a detetive aparentou não estar satisfeita ainda.

Grissom fechou os olhos brevemente e aspirou; enquanto isso pensava numa resposta que resolvesse a discussão e vez.

— Vamos... — Ele pegou sua mão esquerda carinhosamente, tentando recuperar o momento romântico — já é a nossa segunda discussão como um casal e eu quero terminar da melhor forma possível. — O homem aproveitou que ela virou o rosto para o lado e se aproximou ainda mais.

Só depois de alguns segundos que Sara o encarou, encontrando-o quase sorrindo.

— Me desculpe, querida.

Ela franziu o cenho.

— Não tenta me comprar, Gil.

— Não estou tentando te comprar. — disse ele ao aproximar seu rosto ao dela — Só quero me desculpar com a minha parceira.

Ela o encarou nos olhos com o mesmo semblante sério.

— Estamos desperdiçando água. — repreendeu-o em deboche a detetive, o que o fez sorrir.

— Eu te amo. — Ele sussurrou antes de puxá-la pela cintura e beijar seus lábios. Em seguida ele desceu até pescoço sem a intenção alguma de parar.

— Não, isso é golpe... baixo. — Quando ele chegou no limite entre a clavícula e o tórax, Sara sentiu arrepios por todo o corpo. Ela fechou os olhos e mordeu o lábio inferior. Faltava pouco para se render.

— Quer dizer que estou desculpado? — Grissom perguntou entre um intervalo de beijos sobre seu corpo. Tão próximo de alcançar o seio esquerdo, ele estava deixando Sara tensa demais.

— Quero dizer que você vai estar muito ferrado se continuar me provocando.

Ele não escondeu o sorriso imediato que se formou ao ouvir aquele comentário. O sargento se ergueu e encarou a mulher ainda ostentando o semblante malicioso. Não demorou para que os dois se encontrassem num beijo novamente. Na verdade Sara não aguentou ficar com raiva dele por muito tempo, ainda mais num lugar como o chuveiro e o tanto de esforço que ele fazia para se acertar com ela. Era como se ele sempre tivesse um truque para melhorar sua relação com ela; algumas vezes isso adiantava, e outras, não. Ela o perdoou ao beijar seus lábios momentaneamente.

— Eu prometo que vou te recompensar por hoje quando voltarmos pra casa.

Sara o encarou um pouco perplexa com aquele comentário, não esperava uma resposta assim vinda logo dele. Só que ela pouco deixou transparecer. Sorriu sagazmente.

— Vamos terminar isso logo ou a gente vai acabar com toda a água do prédio. — Ela debochou ao se distanciar do namorado. Não teve resposta para o que ele disse, mas no fundo sentiu-se motivada ao imaginar o que iria acontecer em breve.

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— Ok. Vamos revisar tudo o que captamos hoje. — falou o sargento. De pé e em frente à cama, Grissom apresentava um semblante fechado, diferente de antes. As circunstâncias sempre moldavam o policial.

— Se não me falassem eu diria que aquele evento teve um viés quase completamente político. — A morena debochou enquanto se encontrava recostada na cama.

— Uma grande oportunidade para quem quer alavancar uma carreira, limpar o nome ou sair bem publicamente.

— É uma oportunidade para o nosso homem. — Ela ergueu o indicador, ao pensar na hora sobre esta possibilidade — Sangue novo, talvez? — Deu de ombros.

— Pode ser. — Grissom caminhou rumo à janela, mas parou no meio do caminho — Mas acho que podemos eliminar os políticos da lista.

— Tem certeza?

— Uma "agenda secreta" de um político pode envolver prostituição ou corrupção, nada muito fora desta curva. Assassinatos em série não combinam com uma pessoa do tipo. — Argumentou — Podem acontecer, mas seria algo arriscado demais com altas chances de manchar sua imagem.

— Bem, pensando dessa forma... — Sara pegou uma caneta, a lista anexada com nomes e fotos de pessoas envolvidas no mundo político, fazendo uma anotação em seguida. Então separou-a das demais.

— Não vamos descartá-la totalmente. Nunca se sabe se o assassino pode ser alguém fora da curva, mesmo que isso seja improvável. — Ele voltou a caminhar para perto da janela.

— Ok. Nós enxugamos alguns nomes e sobram nomes de pessoas "importantes" que compareceram ao evento. — Ela pegou uma lista um pouco maior — Não acho que a gente tenha condição de analisar os nomes agora. É um trabalho minucioso demais pra se fazer aqui sem um material adequado.

— Só podemos deduzir... tentar criar um caminho. — Grissom abriu a janela e apoiou-se no peitoril. Vendo aquilo a morena respirou fundo e recostou-se na cama — Eu odeio me sentir assim.

— Assim como?

— Saber que Zodíaco estava tão próximo da gente e mesmo assim... escondido no seu próprio segredo. — O sargento observou a rua pouco movimentada — Ele acha que é invencível aquele desgraçado; tanto que deve ter aparecido no evento... falado conosco, apertado as nossas mãos... Realmente eu não consigo entender porque ele fez isso. — Falou um pouco mais baixo.

Sara percebeu que aquele tom de voz não significava coisa boa. Ela deixou os arquivos na cama e se levantou para se aproximar dele. Meio distraído, Grissom não percebeu sua chegada e foi surpreendido pelo toque em seu ombro direito.

— Não consigo entender porque ele fez isso, Sara. — Balançou a cabeça aparentemente abatido. Ele inclinou a cabeça para baixo por um momento e depois deixou sua posição — Por que não um bilhete com uma ameaça ou boas-vindas? Por que tinha que ser logo... aquilo? — Mesmo se virando para ela, Grissom encarou o chão.

— Talvez porque... ele sabia que aquilo iria causar um efeito maior em você. — Disse ela, atraindo a atenção dele — Você tá certo, Zodíaco podia ter feito ou escrito qualquer outra coisa, mas ele fez aquilo por sabia exatamente que esse ponto da sua vida é delicado.

— Ele fez o dever de casa. — Lamentou, voltando a olhar o chão.

— Será que ele entrou em contato com o Stone?

Na mesma hora o sargento, mais atento, voltou-se para ela, mas não demorou muito para que sua cara de alerta se apagasse.

— Não... não teria... como. — falou hesitante — Eles me avisariam.

— "Eles", quem?

— As pessoas que administram o hospital psiquiátrico onde o Albert está. — Grissom deslizou a mão sobre seus cabelos e quando terminou soltou um suspiro — É, isso... não pode ficar assim, eu... tenho que saber o que está acontecendo.

— Gilbert. — Sara tocou em seu rosto carinhosamente — Calma, ok?

Ao trocarem olhares, Grissom foi recebido com um sorriso esperançoso dela, mas na verdade ela estava tão tensa quanto ele.

— Será que ele arriscaria aparecer daquele jeito para nós?

— Você estava mais confiante hoje cedo, Gil. O que foi?

O sargento mordeu o lábio e se afastou lentamente dela.

— Eu estou... — Ele hesitou novamente. Grissom odiava estar naquela situação, pois sua capacidade de traduzir o que sentia em palavras se reduzia consideravelmente — Eu... admito que estou um pouco transtornado. — disse, ao se sentar na parte da frente da cama. Num primeiro momento, Sara apenas assistiu o parceiro fazer aquilo, mas depois o acompanhou e sentou-se ao lado dele — Nessas últimas horas eu tentei não pensar, mas isso está incomodando demais. — Ele cobriu o rosto com as mãos.

Ela ficou em silêncio.

— Por que ele fez isso, Sara? — Grissom virou o rosto para ela. Ao observar bem seu rosto Sara pôde notar que o sargento estava visivelmente abatido.

— Albert ou Zodíaco?

Grissom não respondeu. De certo modo responderia sim para ambos.

— Tem vezes que... eu acordo e... agradeço por não estar naquela cama novamente. Por várias vezes eu tentei seguir em frente, estava conseguindo, até, mas parece que aquele bilhete causou algo que... — Interrompeu-se — Eu não posso ficar assim.

— Gil. — Ela puxou seu pulso e entrelaçou sua mão na dele — Está tudo bem se sentir fraco às vezes. Isso é normal pra todo mundo. — A mulher deixou escapar um sorriso.

— Eu, Gilbert Grissom, não posso. Eu não posso. — argumentou ao olhar para sua mão entrelaçada.

— Ninguém é de ferro 24 horas por dia, Gilbert. — Sara deu de ombros — Eu também achava que tinha de ser. Mas eu descobri que sou um ser humano e que chorar também é legítimo. — Ela se aproximou dele e se envolveu em seu braço.

Finalmente ele abriu um sorriso, um meio sorriso na verdade, mas já foi um começo. Grissom tocou em seu rosto e puxou-a carinhosamente para um beijo.

— Obrigado, querida. — Ele acariciou seu queixo e, se afastando, tirando sua atenção para o nada, Grissom não viu outra alternativa melhor senão deitar-se. Deixou escapar um sorriso ao fechar os olhos.

Contente pela conquista de um sorriso do parceiro, Sara também se deitou logo em seguida. Silêncio por ambas as partes. Um minuto quase foi completado até Grissom se virar de lado para se apoiar no braço direito, assim poderia observá-la melhor. Uma breve pausa naquele raciocínio infernal e ele pôde se concentrar em uma das pessoas mais importantes de sua vida, seu ponto de equilíbrio. Sara era linda, sempre foi, e a cada dia parecia que sua beleza crescia ainda mais; não apenas física, mas em tantos sentidos que não dava para enumerar.

— Você era a mulher mais linda daquela Conferência. — disse de repente enquanto fitava seu rosto. Seus olhos castanhos conseguiam hipnotizá-lo desde muito tempo.

Ao ouvir aquilo Sarar sorriu como se não acreditasse no que ouviu.

— Não seja mentiroso. — A mulher virou o rosto para ele.

— Por que eu iria mentir? — perguntou baixo — Eu acho que... não foi só o seu olhar que me atrasou, acho que foi esse sorriso também. — Brincou ao deslizar o polegar sobre seu queixo. A diastema em seus dentes realçava ainda mais aquele sorriso em sua face.

Ela tentou esconder como resposta, mas quase não conseguia. Não podia deixar de admitir que cada vez em que o sargento falava daquele jeito o coração de Sara derretia e suas defesas caíam por terra. Finalmente ela virou seu corpo para ficar frente a frente com ele.

— Nós estamos começando isso... — O sargento se referiu ao relacionamento amoroso — Eu sei que vai ser complicado, ainda mais na situação que nos encontramos, mas... prometo que vou dar o melhor pela gente.

Sara envolveu seu rosto em suas mãos e deslizou os polegares em suas bochechas e se aproximou mais dele.

— Eu também. — Ela esboçou um sorriso, atraindo a atenção dele até a boca.

— Adoro esse sorriso.

— E eu também adoro — Sara roubou um breve beijo — quando você abre um sorriso nessa cara séria.

Fitando um ao outro, Grissom e Sara poderiam ficar ali por horas e horas. Mas o dever chamava e não dava para ficar adiando o trabalho, mesmo tarde da noite. Brass chegaria na cidade amanhã e os dois precisavam estar preparados para tudo.

— Vamos, querida. — Contra a sua vontade ele se levantou, mas beijou sua bochecha logo depois. — Ainda temos um pouco da noite pra analisar essa papelada.

Ao contrário dele, Sara ficou deitada, ainda. Assistiu a Grissom mudar de semblante tão rápido quanto uma onda que atingia a areia e voltava para o mar. Ele já se mostrava assim desde a época da Conferência, mas agora ficou mais evidente.

Lamentando na forma de suspiro, ela também se ergueu e voltou para a posição que estava antes na cama: sentada e cercada de arquivos.

— Temos uma lista de figurões que fizeram suas visitas ilustres ao evento. É bom que pessoas como eles deem, ao menos, um pouco de atenção aos esquecidos da sociedade.

Assim que Grissom terminou de falar a morena baixou o olhar brevemente sem que ele percebesse. Disfarçou logo para que não notasse a melancolia em seu rosto.

— Um dos nomes presentes estava, possivelmente, na lista que Park tinha. Bom motivo para o jornalista estar presente no evento.

— Mas não seria perigoso para ele e para o assassino, caso Park o reconhecesse lá? — Argumentou ela.

— Ele imaginou que até o dia do evento Ryan já estaria morto, então não teria problemas em tê-lo como visita indesejada. — Grissom fez um gesto com a mão — Temos todos os contatos dessa gente?

— Pegamos alguns. Falar com assessores é um pé no saco, até parece que estávamos num evento de gala. — Sara levou as mãos às costas e tentou se esticar.

O sargento reparou no gesto de cansaço dela; sentiu pena e sentiu-se incapaz de fazer algo para ajudá-la.

— Se você... quiser descansar eu... posso revisar esses arquivos no meu quarto. — Ele levou a mão à nuca e depois apontou para os papéis.

— Eu aguento, Gil. — disse após suspirar — Não parece, mas estou com muita disposição pra ficar acordada à noite toda. — Zombou.

Mesmo assim ele não pareceu satisfeito. Como qualquer detalhista ele notou que Sara estava apenas forçando a si mesma. Toda a carga do trabalho da semana se acumulava em seus ombros que nem a noite de sono de mais ou menos cinco horas médias ajudava. Só que ele sabia que quase nunca vencia uma queda de braço contra ela, então deixou passar.

— Pode ser que nossos homens tenham contato com o assassino. Notei que alguns deles conversavam entre si.

— Planejando qual negócio familiar eles iriam comprar e tomar posse? — Ela brincou.

— Não me surpreenderia se eles fechassem alguns acordos lá. — Deu de ombros. Ele caminhou para perto da cama e procurou os arquivos que lhe convinham. Quando os achou, após um minuto e pouco, ergueu-os para si — Fiquei interessado em alguns nomes. É claro que é apenas uma ideia, mas esses aqui me chamaram a atenção. — Comentou, entregando-os à companheira.

— Victor Kemp, Yohann Byrne, Eugene Greer e Benjamin Pearson?

— Esses foram o que mais me chamaram atenção. Ainda tem a lista em geral.

— O que pensa deles?

— Dois empresários, investidor, dono de cassino. — Ele apontou para cada perfil — São homens de negócios, viajam bastante quando o trabalho chama ou por pura vaidade. Pelas poucas palavras que troquei com eles eu... — O sargento se calou quando ouviu a si mesmo. Parecia patético — Droga. — resmungou ao balançar a cabeça — Precisamos saber mais sobre esses caras. — Admitiu — Espero que amanhã eu consiga algo mais.

Amanhã. Ainda tinha outro dia do evento. Uma realização como aquela não podia se conter em apenas um dia; pior para Sara. Desde quando pisou seus pés no parque Callaghan não se sentiu muito bem. Lembranças do passado voltavam de vez em quando e tiravam as cores de sua visão, deixando-a em preto e branco. Eram recordações que não se apagavam e retornavam mais fortes quando engatilhadas. Um dia, ou melhor em muitos e muitos dias, Sara estava na pele daquela gente "esquecida pela sociedade", bem como o sargento descreveu. Não foram dias fáceis, principalmente pelos motivos que a levaram para um orfanato.

— Sara?

— Hã? — perguntou de súbito ao levar um susto.

Já próximo, ele caminhou para mais perto dela.

— Querida, você está bem?

Ela disfarçou um risinho, fez um gesto negativo com o pescoço e o encarou.

— Não é nada. Eu estava distraída com o que você falou antes. — De certa forma aquilo era verdade, mas não a completa verdade.

Grissom piscou algumas vezes e chegou a cogitar alguma outra resposta, mas deixou-a em seu espaço.

— Vamos buscar o máximo de informação que pudermos amanhã. Depois o próximo passo é pegar a pesquisa do Park e captar tudo o que for útil.

— Quer dar continuidade ao trabalho dele? — Sugeriu a detetive.

— Isso não é trabalho nosso. Deixe isso para a Receita ou pra outra unidade. — Desdenhou do caso, não dela — O que convém a nós é apenas a fonte do Ryan e tudo o que for relacionado a ele. Pegar mais trabalho, ainda que fosse depois de tudo isso acabar não faria sentido.

— Mas já parou pra pensar que Zodíaco pode ser alguém envolvido no círculo social dessa gente? — Ainda insistindo, ela gesticulou com as mãos — Como poderia saber de tanta coisa se não estivesse, no mínimo, lá dentro?

Grissom cobriu parte do rosto com a mão direita e esfregou algumas vezes. Por mais que Sara apresentasse um ponto interessante sobre isso, ele não estava nem um pouco disposto a aprofundar-se naquilo.

— Isso faz sentido, mas ele não daria informação que pudesse comprometê-lo. Talvez no final de tudo Zodíaco não deu nada grandioso ao Park, apenas uma isca. Por isso que teríamos de confirmar essa informação acessando o material do Ryan, só isso. — Ele ergueu as mãos como se desse uma reposta final — O que mais me intriga é saber que o desgraçado do Park foi morto pra chamar minha atenção. Ele quer me envolver nisso, quer me colocar dentro do jogo.

Meio gélida com aquele comentário, a morena o encarou na mesma hora.

— Sei disso, eu sei que existe uma certa possibilidade do assassino me querer como a próxima vítima.

— "Certa"? — A morena retrucou sarcástica — Gilbert, ele matou o repórter responsável por cobrir o caso que você foi refém e mandou um bilhete pra te lembrar disso. Ainda tem dúvida?!

— E se ele quiser que eu pense isso? Querer me intimidar para que eu recue no caso?! Pela primeira vez em meses finalmente posso seguir por um caminho nesse caso, Sara! — Ele ergueu os braços, tentando defender sua posição — Eu não posso parar. — Sua voz saiu quase gélida.

Silêncio no pequeno quarto. Os dois se encararam como duas pessoas inquietas com o pensamento de cada um. Não pareciam mais amantes, no momento eram dois colegas de trabalho que iniciaram outra discussão. Pela fala de Grissom ela pôde entender muito bem que aquilo não se tratava dele ou deles, era somente o caso e ponto final. Mas não significava que eles não estavam tão envolvidos.

— Você tem que tomar cuidado, Gilbert. Em mais de seis meses foi a primeira vez que ele mandou algo diretamente a você. — Sara não conseguia mais disfarçar a inquietação que sentia ao pensar na possibilidade de Grissom como próximo alvo. Ela tinha medo que ele se envolvesse além demais naquilo e não pudesse mais retornar. O sargento parecia imparável quando se tratava daquele caso.

O celular dele, disposto na cama, começou a tocar para a decepção e alívio de ambos. Ele se apressou em atender a chamada, principalmente quando viu quem ligava.

— Gil. — disse, e depois fez um movimento com os lábios — Brass. — Falou para a parceira, que ficou preocupada com o que viria adiante. Ele deu meia-volta e caminhou para a janela. Foi quando a morena mudou de semblante, totalmente avessa à posição que Grissom estava tomando. Quando se tratava do caso o sargento era praticamente irredutível, diferentemente de assuntos emocionais.

Ela se encolheu, envolveu as pernas nos braços e ficou observando aqueles arquivos. Começou a pensar nos homens com quem conversou no evento e tentar imaginar que um deles poderia ser um assassino frio e cruel. Homens frios ela encontrou aos montes naquele parque, mas um assassino no meio deles? Quem sabe.

Novamente a detetive observou o parceiro falando ao telefone. A pequena distância e a distração com seus próprios pensamentos não lhe deixaram permitir que prestasse atenção nele, mas sua postura corporal estava tensa.

— Como assim, Jim? — retrucou inconformado — Tá mudando de ideia logo agora?! Isso não tem cabimento!

Definitivamente não era coisa boa. O sargento levou a mão ao rosto e suspirou como fazia de costume quando estava estressado.

— Tem muita coisa pra fazer aqui. Precisamos de mais tempo! — insistiu após ouvir o capitão.

Pelo silêncio de Grissom era possível ouvir alguns chiados de longe; era a voz de Brass, que parecia se encontrar da mesma forma que o sargento: irritado.

— Quem ele pensa que é pra fazer isso? — resmungou, e após o capitão responder, Grissom manteve-se no mesmo tom — Mesmo assim! Ele não tem a droga do direito e da noção para dar uma ordem como essa! Nós acabamos de chegar!

Brass falou mais algumas coisas que não aliviaram a irritação de Grissom, agora furioso. Mais uns trinta segundos de conversa e bate-rebate e finalmente o sargento encerrou a ligação. Pressionou o celular sobre sua mão. Mas em vez de soltar os cachorros ele ficou em silêncio. Considerou a presença de Sara e que se explodisse perto da namorada não terminaria bem aquela noite.

— O que foi agora?

Ele fechou os olhos momentaneamente para recuperar ou ao menos tentar recuperar a calma que o abandonava a cada minuto.

— Vamos embora amanhã. — respondeu em voz baixa e olhou para o aparelho em sua mão.

Sara arqueou as sobrancelhas.

— M-as como? Como é que isso aconteceu?

— Ecklie "solicitou" que voltássemos a Vegas. — Ele ironizou o pedido.

— Nós estamos no meio da investigação, como assim ele solicitou?

— Ele disse que não é bom que a gente fique muito tempo aqui. A imprensa vai dar um jeito de descobrir o caso e vai ferrar com tudo.

De certa forma o motivo do xerife tinha algum respaldo. Mas para Grissom aquilo beirava ao absurdo.

— Droga. Aquele... — Preferiu não falar, mas guardava uma palavra nem um pouco gentil para Conrad. Grissom lutava contra si mesmo para não gritar de raiva e socar a parede ou qualquer outra atitude extrema perto dela.

— Tá, e o que acontece agora? Café da manhã e boa viagem?

— Não. — Ele ergueu a mão esquerda — Brass me disse que conseguiu convencer o Ecklie a nos deixar ficar no evento. Ele até desistiu de vir aqui. — Se aproximou da cama, deixou o celular em cima dela e voltou para perto da janela.

O sargento apoiou a mão na parede e observou a rua pela janela fechada. Se não estava bem antes, no momento se encontrava pior. Sara não suportava vê-lo assim, mas nem ela sabia o que fazer.

— Isso é decepcionante. — lamentou com a voz embargada aquele homem. Silêncio, o quarto se tornou mais frio — Isso é... — Ele balançou a cabeça — desanimador. Céus!...

— Gilbert. — Ela tentou agir — Vamos aproveitar o tempo que nos resta. Ao menos o Brass conseguiu isso pra gente.

O sargento se virou aos poucos para frente dela. Seu rosto parecia não muito crente nela, por mais que tentasse.

— Uma das coisas que Cassandra quase sempre me contava era que... essas coisas acontecem com a gente e sempre vai acontecer. Como se a vida ou o universo complicasse pra gente só para depois aproveitarmos o melhor do final... essa conquista, sabe, de algo após o trabalho duro.

Eles pareciam dois opostos. O sargento não conseguia entender de onde vinha tanta onda de esperança daquela mulher. Mesmo cercado por uma nuvem negra de estresse, Grissom não deixou de soltar um meio sorriso ao ouvi-la falando daquele jeito. Desde muito tempo sempre foi sua âncora e o fazia suportar uma tempestade agitada. Ponto de equilíbrio novamente.

— Cassandra é uma mulher muito sábia. Você se parece muito com ela. — Assentiu, sua voz estava menos agitada — Sua mãe, não é?

Assim que ele terminou a pergunta, Sara desviou o olhar. Parecia um pouco abatida, principalmente quando recebeu a pergunta. Mas dessa vez não se omitiu em respondê-la.

— Cassandra era minha mãe adotiva. — Ela respondeu ao olhar para o chão.

Boquiaberto, Grissom ficou atônito, mudando de semblante após algum tempo de raiva. Nunca imaginou que sua namorada fosse órfã, e o pior: eles praticamente não sabem nada do passado um do outro, como se houvesse um abismo entre os dois. Claro que começaram a namorar recentemente, mas ainda assim aquelas palavras pesaram e muito.

— E-eu...

— Sente muito? — A mulher se adiantou — É... — Suspirou — Infelizmente tem gente que... passa por isso na vida.

Quase sem pensar Grissom se aproximou dela, afastou aqueles arquivos e sentou-se ao seu lado. Não falou nada num primeiro momento. Respeitou seu espaço emocional. Após alguns segundos virou o rosto para encontrá-la:

— Não vou perguntar o que houve. — Ele estendeu sua mão para ela e esperou — Fale quando ou se quiser. — Quando Sara tocou em sua mão, Grissom a entrelaçou firmemente como se dissesse que estava ali por ela — Cassandra foi uma ótima mãe.

— Como sabe disso? — perguntou sem ao menos olhar para ele. Pareceu sorrir ironicamente.

— É só olhar pra você. — afirmou sem dúvida alguma.

Sara continuou sem encará-lo. Ficou olhando para o chão, mas instintivamente pressionou sua mão coberta.

— Me desculpe por falar daquele jeito sobre... os órfãos. — lamentou, lembrando-se de minutos atrás. Definitivamente se sentiu mal por ter falado aquilo sem ter a mínima ideia do que houve na vida de sua parceira.

— Tudo bem. — replicou em voz baixa.

Ele engoliu em seco. Pelo visto falar de família era um assunto delicado e só no momento lembrou-se do dia anterior ao jantar na casa de Rose e como ela relutou em comparecer. Ninguém era de ferro, afinal.

— Querida, por que não... deita e descansa para o dia de amanhã? — Sugeriu ele, achando um pouco cruel continuar a estudar o caso junto dela após a conversa — Eu posso continuar no meu quarto.

— Eu falei que estou bem, Gil. — Lentamente ela separou sua mão. Parecia impaciente. Sara se levantou e se afastou um pouco dele, deixando-o a encarar o chão.

Grissom não sabia o que fazer. Tudo aquilo era tão novo para ele, principalmente quando se tratava de sentimentos. Ficou acuado, confuso, com medo de fazer algo errado; e ele não podia errar com ela. Quando Sara chegou à janela, o sargento observou-a calado. A mulher olhou através da janela a rua um pouco movimentada. Apoiou-se no peitoril da janela por um tempo. Respirou fundo, cruzou os braços e se virou para ele.

— Quer saber? Você estava certo. Mudei de ideia. — falou de repente — Acho melhor dormir um pouco. — Assentiu, tentando forçar um sorriso.

Ele sabia que ela não estava bem, afinal. Levou a mão à nuca, levantou-se um pouco apressado e seguiu ao seu encontro. Mas se deu por conta de que haviam muitos arquivos sobre a cama então resolveu juntá-los e levá-los consigo.

— Mas eu quero que você fique.

Grissom arqueou uma sobrancelha e se voltou para ela. Encarou a namorada e viu um rosto sério, quase como se ela exigisse sua presença.

Mas e o... trabalho?

Sara era uma mulher firme, durona até, mas às vezes se sentia bem para se sentir mal. Parecia egoísmo... poderia até ser. Uma das coisas que ela queria era descansar e tentar afastar aqueles pensamentos ruins; e a outra, bem, era ter a companhia do homem a quem ela podia chamar de seu, mesmo que houvesse trabalho a fazer. Só que ela não se importava com aquilo, queria apenas ele por perto, ainda que não fosse para fazer amor.

Todavia ela também entendia que ele era muito ligado ao trabalho e dificilmente abriria mão daquilo.

— Se você quiser ficar no outro quarto para continuar com o trabalho ou continuar aqui mesmo, tudo bem.

Foi o momento em que ele percebeu que realmente ela não estava bem.

Ela esperou por sua resposta. Manteve-se neutra, séria. Já ele ainda parecia um pouco surpreso; chegou a olhar de canto de olho os arquivos nos quais ele estava recolhendo. Sabia muito bem que se falasse sobre o trabalho correria o risco de receber um olhar ou uma resposta fria. Grissom pegou os arquivos e os deixou sobre o criado mudo.

— Eu vou ficar. — Não resistiu, ainda que relutasse veemente dentro de si. Às vezes tinha que ceder para um bem maior, nesse caso, o conforto de sua companheira. Ele chamou-a pelo gesto da mão e ela caminhou para perto dele.

Assim que ficou próxima, instintivamente o sargento a abraçou. Ao contrário das outras vezes, Sara não envolveu seus braços em volta dele e deixou que seu abraço servisse de abrigo. Então tocou em seu peito com as duas mãos e ficou por ali até o momento que se separou dele, vinte segundos depois. Em silêncio, ela subiu na cama e esperou por ele quando se cobriu com o edredom.

Sem que ela percebesse, Grissom olhou para os arquivos dispostos no criado-mudo antes de tomar seu lugar e se deitar à esquerda dela. Ele estendeu seu braço direito, chamando-a para perto e ela o fez. Sara tocou em seu peito com firmeza. Queria reafirmar a si mesma que Grissom estava ali, que era seu, somente. Após uma decepção amorosa, uma traição que afetou seu estado emocional, encontrar paz num relacionamento com aquele homem era coisa de outro mundo. Às vezes era bom querer um pouco mais do que se podia ter. Um momento de silêncio para aproveitar a companhia dele, sem ninguém mais; sem Heather, sem Sofia, sem Hank e, claro, sem Zodíaco. Ninguém que pudesse atrapalhar o tempo deles dois.

Ela se ergueu até alcançar seu rosto, o que chamou sua atenção. Sem dizer nada Sara se apoiou em seus ombros e beijou seus lábios devagar. Ao receber o beijo, Grissom pode se certificar ao menos que a detetive não se mantinha em pé de guerra com ele. Ao término dele, a mulher se virou para o lado oposto, onde descansou a cabeça no travesseiro. Assistindo àquilo ele suspirou discretamente e ficou por um breve momento olhando para ela.

Grissom se aproximou dela sem que ela precisasse pedir, como o faria logo depois. Envolveu seus braços nela e se aconchegou em seu corpo. Não seria ruim, é claro, mas parte de si lutava veemente para que continuasse a trabalhar e não perder o raciocínio. Estar num relacionamento romântico também era enfrentar seus lados quase sempre.

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Reno, Nevada. Final de noite para a família, também. Foi um dia cansativo, mas que valeu a pena. Dentro do quarto reservado para seu filho, ****** ajudava o garoto a se arrumar na cama para dormir. Estava orgulhoso dele e fez questão de contar para os outros no evento de hoje cedo.

— Estou orgulhoso que você participou das atividades hoje, *****. — disse o homem ao cobri-lo.

Mesmo cansados, os olhos da criança brilharam ao ouvir as bonitas palavras do pai.

— Obrigado, pai.

— Não foi só isso. Sua conquista no campeonato me deu muito mais orgulho. — afirmou — Você está evoluindo cada vez mais.

— Aprendi com o senhor. — ***** replicou sorridente, o que gerou um sorriso satisfeito do pai.

— Bom. — Assentiu — Aos poucos você vai aprender um pouco mais das técnicas, comportamento e postura. — Ele afagou os cabelos do menino — Saber ler o seu oponente é algo vital. Conhecê-lo para atacar o ponto certo, no momento certo. Depois eu vou te ensinar mais segredos que eu aprendi com meu pai.

Após beijar a testa do filho carinhosamente, ****** o cobriu, deu-lhe boa noite e deixou o quarto, apagando a luz antes. Ele voltou para seu quarto e encontrou a esposa já deitada na cama, que esperava por ele sorridente.

— Mas já? — disse ele ao arquear as sobrancelhas risonhamente e estender as mãos como se pedisse explicações.

— Estava apenas esperando por você.

****** olhou para si mesmo e reparou que ainda usava as roupas que usou no evento. Precisava ainda tomar um banho e colocar algo mais confortável para depois se encontrar com a esposa.

— Ainda vou tomar banho. Se quiser pode ir dormindo sem mim. — Brincou o homem.

— Mas eu queria que você estivesse aqui comigo logo. — Argumentou ela.

Ele cruzou os braços e encarou a esposa com um sorriso desconfiado. ****** tinha um poder que o deixava sem defesas, era incrível. Nenhuma outra mulher conseguiu o que ela conseguiu.

— Vou tentar resistir àquela água quente. — Ele fez um gesto com o pescoço, em direção ao banheiro.

A mulher respondeu com um sorriso satisfeito, e ****** tratou de seguir rapidamente para o banheiro.

Ele fechou a porta atrás de si e a trancou, foi quando diminuiu o ritmo. Suspirou fundo, caminhou até a pia e se olhou no espelho. Arregalou os olhos, atentou para si mesmo. Deslizou a mão sobre a bochecha, girou a torneira, molhou as mãos e passou-as sobre o rosto, dos cabelos até a nuca. Quando o fez, observou a mão direita.

Havia uma luta dentro dele, será? Não parecia, tudo estava bem em todos os sentidos. Ser quem ele era foi um processo de anos e anos. Reconhecer a si mesmo, entender a si mesmo. Quem era aquele homem no espelho? Quem era a pessoa naquele reflexo e quem era a pessoa dentro daquela pele? Por muitas noites ele encarou-se como fazia no momento e brigava consigo mesmo numa luta constante até que ele aprendeu a entrar em equilíbrio, a entender todo o contexto de sua vida e por que estava lá. Antigamente carregava uma profunda raiva dentro de si, um ódio que o consumia a cada dia, mês e ano que se passava. Mas ele aprendeu a controlar, até afastar esse sentimento e dar lugar ao equilíbrio. Somente quando chegou a esse equilíbrio ele pôde desfrutar do melhor de si mesmo.

Voltando à realidade externa, o dia foi fantástico. Por dentro ****** estava eufórico, extasiado. Ele não apenas apertou suas mãos como teve uma conversa com eles. Guardaria aquele dia para sempre. ****** sabia que não teria outra oportunidade como aquela e se tentasse uma aproximação poderia ser perigoso para seus planos. Era bom que deixasse a vida seguir com seu curso, afinal, já foi premiado com dois encontros.

Até nos encontrarmos novamente.

Notas finais
Pois é, galera. Mesmo juntos acabou que houve uma discussãozinha entre o sargento e a detetive. Foi bola fora do Grissom não ter falado sobre a dor que sentiu na perna mais cedo e que ainda estava um pouco fragilizado, mas logo os dois se acertaram. Por casa de certos fatores não será fácil o relacionamento dos dois, vai depender deles superarem os problemas juntos e é isso que vai deixá-los mais fortes. Gosto muito de capítulos com altos e baixos (principalmente nessa minha fic) já que a gente vê que ninguém é perfeito, que sempre haverá momentos difíceis, mas também sempre há um modo de enfrentá-los e/ou resolvê-los, falando sobre a relação dos dois. Mesmo querendo afastar esses pensamentos, a mensagem que o Zodíaco enviou pro sargento o afetou e o deixou mal. Nem ele nem Sara sabem se aquilo indica que o Grissom vai ser a próxima vítima ou se o assassino fez aquilo para desorientá-lo. É complicado, vamos trabalhar nisso nos próximos capítulos, né não? Temos também a Sara que mostrou certa tristeza ao se deparar num evento como aquele. Só agora o Grissom descobriu que ela foi órfã e ficou super mal com aquilo; imaginar que ele praticamente não sabia quase nada sobre a namorada, ou melhor, companheira foi algo surpreendente. E temos o misterioso assassino conhecido como Zodíaco. O ****** é uma incógnita, tem várias faces. Ele possui seu próprio mundo e gosta de conviver nele. Zodíaco ficou muito contente que o plano de se encontrar pessoalmente com os policiais deu certo, mesmo sabendo que eles estavam à sua "procura". Tá tudo dando certo pra ele, pelo visto. ENTÃO É ISSO, PESSOAL, MUITO OBRIGADA POR LEREM ESTE CAP! Eu queria ter postado antes (mais cedo), mas me enrolei na hora de editar e esses dias fiquei muito intrigada vendo teorias sobre FNaF, uma loucura que só! Espero que o capítulo um pouco grandinho tenha compensado, muito obrigada pela paciência. Eu amo vocês, mil beijos e até o próximo capítulo ♥ Edit 1: Ah, galera, só uma informação. A capa vai mudar em breve, já tá preparada, ok? Vou mudá-la quando chegarmos a certo ponto, fechou? Beijão pra vocês!