Manhunters
13 O Ciclo da Vida e o Pinheiro da Morte
Notas iniciais
O sargento e a detetive seguiram para "dentro" do Lower Lehman. Na medida em que subiam o declive a temperatura gradativamente diminuía. Sara era quem sentia mais frio, mesmo vestindo o grosso sobretudo. Agradeceu mentalmente a si mesma por ter levado consigo.
— Por que não volta e se agasalha melhor? — perguntou Grissom num leve tom provocativo.
Ela, que caminhava ao seu lado com os braços cruzados virou-se para ele com as sobrancelhas arqueadas.
— Não, obrigada. — respondeu sarcasticamente — Mas agradeço a consideração.
O homem balançou a cabeça sorrindo. Sara não pôde deixar de percebê-lo assim.
Chegaram à trilha, local de onde Vanessa Temple treinava. Automaticamente voltaram seus olhares para tudo que lhes chamavam atenção. Novamente não se viu movimento de pessoas, apenas de guardas florestais bem ao longe e poucas pessoas caminhando, também distantes.
— Aqui começa a trilha. — Apontou o sargento para o chão e depois olhou para cima — Postes de luz iluminavam-na. Segundo o relatório, esse trecho estava perfeitamente iluminado. Vanessa poderia enxergar muito bem o caminho e um pouco do lugar à sua volta.
— Roupas de corrida, celular, fones. E lá vai ela... — comentou Sara, apontando para sua frente, o caminho da trilha.
— Eu não estou enxergando agora, mas lembro-me de ter visto um dos monitores mostrando a trilha. Só não me recordo qual trecho. — O sargento virou o corpo em busca da câmera, mas não conseguiu achá-la.
— Não importa. — A morena disse, dando de ombros — Tudo isso já mostra que fizeram isso para não perderem o público. Fizeram isso para causar uma aparente sensação de segurança para os visitantes.
— Pois é. — Ele assentiu, depois deu três passos à frente, se aproximando dela. Grissom tocou levemente em suas costas, e a mulher logo voltou sua atenção para ele — Vamos?
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A dupla chegou ao local donde Vanessa Temple foi covardemente assassinada. Quem passasse por ali nunca poderia imaginar que uma cena cruel aconteceu há oito meses. Tudo estava tão calmo, estático, "normal". Os pássaros cantarolavam sem parar; a brisa soprava e percorria todos aqueles cantos... De repente, foi como se aqueles breves, mas intermináveis momentos retornassem. A detetive e o sargento, em silêncio, imaginaram estar naquela noite. Sara vasculhou a pasta com os arquivos do caso e pegou a foto em que mostrava a vítima caída no chão, sem vida.
Vanessa Temple morrera próxima a uma grande árvore, um pinheiro centenário. Alguns dos homens que trabalhavam inicialmente no caso, como os peritos e o próprio detetive Sales puseram o nome da árvore de "Pinheiro da Morte". O local era mais frio devido às grandes árvores que projetavam sombra. A luz do sol era impedida de tocar o solo, criando um clima úmido e quase congelante. Típico de filme de terror.
— Postes com lâmpadas. Mais uma novidade. — O sargento apontou para os postes colocados paralelamente — Pelo visto se estendem por uma boa distância.
— Então, — falou a detetive, após pegar o mapa do parque de dentro do bolso do sobretudo — Vanessa fez sua corrida por um quilômetro seguindo a trilha. — Ela tocou no mapa o lugar de onde a vítima seguia — Nosso assassino poderia estar esperando por ela aqui mesmo ou seguindo-a desde o início.
— Acho a segunda opção mais viável. Não tinha como Zodíaco "prever" o percurso final dela. Seus pais disseram que ela tinha uma vida reservada, de poucos amigos. Não sairia por aí contando aos outros os seus planos.
— Hum. — Assentiu — Tá, então digamos que ele fez isso mesmo, o que é mais provável. Se ele a seguiu num ritmo consideravelmente bom, já que ela estava correndo, como ninguém notou a presença dele lá?
Grissom se virou para ela.
— Os guardas florestais não estavam muito distantes da área que Vanessa percorria. — Ela mostrou o mapa a ele com os pontos marcados — Acho esses caras suspeitos demais. Acho que poderiam ver ou perceber alguém correndo atrás da mulher.
— Esse lugar é grande demais para três homens conseguirem ver um assassino ardiloso se movendo, Sidle. — retrucou — Além disso, temos outros fatores. Vamos ver: uma e pouca da manhã... qual a temperatura que fazia? Uns cinco, seis graus? — Fez um gesto com a mão — Um caminho mal iluminado, já que eles não iam gastar dinheiro à toa iluminando quilômetros e quilômetros de área florestal. Dava para um elefante passar por aqui e mal ser notado.
— Tá o que você quer, defendê-los agora? — A detetive ergueu os braços.
— Céus, Sidle! Somos detetives, nosso trabalho é investigar todas as possibilidades!
— E é isso que estou tentando fazer! Tente compreender o meu ponto de vista ao menos! — insistiu, cerrando os punhos frente ao rosto — Os guardas deviam ter ideia da presença dela naquela trilha! O mesmo para Vanessa! Você acha que ela iria correr sozinha naquele lugar e naquela hora?!
Grissom franziu a sobrancelha e ficou encarando a detetive.
— Mesmo sendo uma mulher independente como aquela, Vanessa se sentiu segura em saber que havia guardas no parque. — Sara disse quase lamentando.
— Ainda assim, isso não explica, nem confirma nada, Sidle!
— É porque você não sabe como é ter a sensação de insegurança! — A voz dela pairou no ar como a brisa cortante — Imaginar que... enquanto está caminhando numa rua à noite... a qualquer momento alguém pode vir e te atacar. — A detetive desviou o olhar do sargento. Sua voz era melancólica. — E ainda; mesmo se os guardas não tiveram nada a ver com essa história, o número era pequeno demais para "patrulhar" o local, como você mesmo disse. Três homens apenas! Três! — Ela mostrou o número com a mão direita bem na frente dele.
— Ela fazia aulas de defesa pessoal. Não precisava se preocupar com isso.
— Esquece, tá, Grissom! — Ela retrucou irritada, afastando-se — Você simplesmente não... consegue entender.
O sargento virou o corpo para o lado; estava irritado com aquela atitude repentina dela. Tudo seguia tão "aceitavelmente" bem e, de repente, mais um banho de água fria é jogado bem na cara dos dois.
Grissom preferiu não segui-la. Ficou apenas observando a morena caminhar até se aproximar do Pinheiro da Morte. Ela parou e olhou para cima.
— Ela parou mais ou menos aqui. — disse em voz baixa para que o homem não a escutasse — Por algum motivo ela finalizou a sua corrida; pela falta de iluminação ou pelo cansaço. — Continuou olhando para todos os lados — Então ele veio, como um ladrão... — Ela se virou para o sargento.
Os dois se encararam. Grissom cruzou os braços esperando por alguma reação da detetive. Não falaram, mas era como se ambos estivessem discutindo... de novo. Alguma ação precisava ser tomada, ou eles nunca conseguiriam sair do começo.
Após trinta segundos, Sara caminhou em direção a Grissom, que já esperava por alguma reclamação ou qualquer coisa ruim. Ela parou ao lado dele e disse:
— Temos de falar com os outros homens. A única coisa que temos é uma câmera movida, praticamente nada. — Concluiu. Ela falou em voz baixa, mas estava bem próxima do sargento, que ouviu com clareza sem ter que se virar.
Sara retomou seu caminho seguindo para além da trilha.
— Pra onde está indo? — questionou impaciente o sargento.
— Vou dar uma volta. — Ela acenou enquanto se distanciava ainda mais — Não precisa vir comigo, eu sei o caminho.
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O vento soprava e levava as folhas mortas para longe de suas árvores, em direção ao chão. De lá, o tempo passava e, de alguma forma louca, elas retornavam à terra e se uniam ao solo, dando chance para uma vida nova. Era o ciclo natural da vida; nascer, crescer e morrer. Da mesma forma que esse mesmo ciclo se mostrava cruel, era poético. Tudo corria conforme tinha que ocorrer.
Que bobagem ficar pensando nisso, Sara.
A detetive prosseguiu o caminho da trilha sem o sargento. Foi a mesma coisa de antes, sentiu-se melhor ao se afastar dele. Um recorde, se é que se podia dizer, ficar tanto tempo perto daquele homem sem que os dois começassem uma discussão. Os poucos dias em que trabalharam juntos pareceram não suficientes para que ambos estabelecessem uma paz ou uma trégua.
Sara chegou a uma clareira; ela notou um velho tronco a uns vinte metros à sua direita. Resolveu sentar nele e descansar, respirar fundo e pensar, o mesmo de sempre. A morena apoiou os braços sob as pernas e baixou a cabeça por alguns segundos. Virou-se para trás e se lembrou do Pinheiro da Morte, do qual não conseguia mais vê-lo devido a distância. Era cruel chamar aquela árvore assim, a única coisa que fez foi presenciar um assassinato. Quisera a detetive que a pobrezinha tivesse olhos e boca e contasse o que viu.
Mas, se o pinheiro tivesse braços e pernas, será que mataria um de seus semelhantes? Se tivesse coração ou raciocinasse pensaria algo do tipo? Estaria destinado ou impulsionado a fazer aquilo?
Ainda bem que aquele pinheiro era apenas isso; um pinheiro. Ainda bem. Era apenas o seu ciclo da vida. Apenas uma árvore que presenciou o ciclo da vida de uma mulher ser interrompido por um ceifeiro. Assim como Sara.
A detetive levantou rapidamente quando ouviu um grito: era de uma criança, uma menina. Ela ergueu as sobrancelhas e o tronco, pronta a levantar e agir caso fosse necessário. Era um alarme falso. De longe, pôde ver uma menina e um menino correndo para lá e para cá a uns cinquenta metros à frente da detetive. Próximos a eles, bem atrás, vinha um homem e uma mulher, provavelmente seus pais. Dava para ouvir os gritos e as risadas das crianças e as reações alegres dos adultos. Nem perceberam a presença de Sara, estavam concentrados demais naquela brincadeira sadia. Era o ciclo da vida.
Um breve, mas bem breve sorriso apareceu no rosto da detetive. Sua expressão mudou, aparentava nítida melancolia, certa tristeza em ver aquela cena. Foi como um gatilho para suas memórias, das quais não gostava de recordá-las.
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Quatro horas. Grissom e Sara retornaram à pousada, onde iriam jantar e depois voltariam ao parque para conversar com Samuel Davis. Por toda a tarde o sargento e a detetive ficaram distantes um do outro e se encontraram apenas para voltar à Pousada Chapman. O curto trajeto foi de total silêncio por ambas as partes, que se recusavam, ainda, a trocar olhares.
Apenas Grissom ficou incomodado com aquilo. Assim que chegaram ao estacionamento da pousada, Sara pegou sua bolsa e saiu do carro sem lhe dirigir uma única palavra sequer. Ele não saiu do carro logo, ficou por alguns segundos observando a mulher indo embora, de novo. O sargento pressionou as mãos sob o volante. Ele estava com raiva, mas não sabia se era raiva de si mesmo, dela, ou da situação em que se encontravam. Um pouco de tudo, talvez, ou absolutamente nada. Enfim, movimentou-se; suspirou por um longo período e retirou a chave da ignição, saindo do veículo.
O caçador seguiu diretamente para seu quarto, que ficava frente ao de Sara, no segundo andar. Ele pegou a chave no bolso do sobretudo e encaixou-a na fechadura da porta. Antes de abrir, virou seu rosto para olhar a porta atrás de si. Nem de longe pensaria em bater na porta à procura de alguma explicação. Ele não a conhecia direito, e vice-versa. Cada um no seu próprio espaço.
Grissom abriu sua porta e fechou-a, trancando-a em seguida. Observou atentamente o pequeno espaço que logo de cara parecia ser bem aconchegante. Todos os objetos presentes quanto a decoração tinham tons amadeirados, típicos de uma casa nas montanhas. Móveis de madeira, como a cama, o pequeno guarda-roupa, e o criado mudo; tapetes de cores vinho com detalhes únicos, parecidos com estilo árabe. Uma janela bem no fundo, que dava uma linda vista às montanhas a nordeste. Sua bolsa de viagem estava em cima da cama; não tinha muita coisa, só o básico, algumas peças de roupas necessárias caso precisasse se trocar.
Ele retirou o sobretudo e o jogou na cama. Em seguida foi o paletó preto; afrouxou a gravata preta e a tirou. Tirou o coldre da arma e o distintivo deixando-os no criado-mudo. Depois desabotoou os três primeiros botões da camisa branca e retirou seus sapatos. Assim como fez com o sobretudo, jogou-se na cama.
— Ah... — disse ao sentir a maciez da cama. Foram poucas as vezes em que o sargento ficou relaxado em tão pouco tempo. Pôde, desse modo, raciocinar com clareza os possíveis próximos passos que deveria... deveriam fazer.
Ele virou seu rosto para o lado, em direção à porta.
Deixe-a.
O sargento voltou seu olhar para cima, em seguida fechou seus olhos. E caiu no sono.
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A morena saiu rapidamente do carro e, sem olhar para trás, seguiu para o seu quarto, que ficava em frente ao do sargento. Assim como foi rápida em destrancá-la, trancou-a em poucos segundos. Não queria falar com ninguém, ninguém mesmo. Queria se isolar e viver (por um momento) num mundo paralelo ao real, seu próprio mundo.
O sobretudo, que estava em suas mãos foi jogado na borda da cama. Largou a arma e o distintivo numa cadeira próxima. Em seguida retirou as sapatilhas com os pés e desabotoou toda a sua camisa, porém não a tirou do corpo. Se jogou na cama de bruços e trouxe o travesseiro o mais próximo possível do rosto.
— Ah...! — gemeu de raiva e angústia. O travesseiro pôde abafar o seu lamento. Ainda assim, por mais que a situação lhe trouxesse a oportunidade, ela se recusou a chorar.
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