Manhunters

82 Na manhã seguinte, buscamos não nos cortar com os cacos de vidro espalhados na noite anterior


Notas iniciais
Enfim, cá estou eu. Acho que essa foi a pausa mais longa que fiz nessa fanfic, se me lembro bem, mas foi por motivos de força maior mesmo. Precisei focar quase que totalmente no TCC 1 e só me restava tempo para atualizar a fic do desafio drabble. Fico feliz que agora já está praticamente tudo encaminhado, então (por enquanto) estou em águas calmas e disponível para adiantar os próximos capítulos. Ainda tenho outras pendências na faculdade para resolver, mas está tudo sob controle agora. Bem eu agradeço a todos que estão lendo e acompanhando. Acho que agora vai, Manhunters está de volta!

Ela acordou aos poucos. Memória e raciocínios vagos, além de uma visão turva; a única coisa que a deixou alerta foi a dor que sentiu no pescoço e no ombro direito, e claro, a enxaqueca que provavelmente duraria o dia todo. Ressaca. A primeira palavra que se formou naquela cabeça confusa. Bebeu demais e agora estava pagando por isso.

— Que merda... que eu fiz... — disse ao levar a mão à testa. Sua cabeça doía tanto que mal conseguia ficar de olhos abertos.

Sara se afundou no travesseiro novamente, desta vez com ambas as mãos na testa. Se não fosse a cortina bloqueando a luz do dia seus olhos queimariam como um vampiro ao ser tocado pelo sol. Ela manteve o rosto coberto por certo tempo, até que permitiu-se abrir os olhos enquanto procurava um motivo para levantar dali. Passou uns sete minutos daquele jeito até que se lembrou de um detalhe.

— Merda, o trabalho! — Ela ficou desesperada e acabou levantando parte do corpo bruscamente — Ah! — Levou a mão à testa mais uma vez. Péssima ideia.

A detetive baixou a cabeça e respirou fundo. Tinha de arranjar um plano urgente para trabalhar sem levantar suspeitas de que bebeu além da conta. Ela esfregou a mão no rosto e desceu-a até chegar ao peito, mas sentiu algo estranho. Foi quando olhou para si mesma e não notou as roupas que vestia ontem. Para a sua (grande) surpresa notou que usava apenas o roupão do banho. Sara não se lembrava de muita coisa de ontem, mas achou que se lembraria de ao menos ter sentido a água gelada descendo pela sua pele na noite anterior enquanto tomava banho sozinha. Bem, talvez.

— Quê? — Ela franziu a testa e então olhou ao seu redor. Ao seu lado direito havia um balde vazio e algo que destacava o criado-mudo era um copo d’água e uma cartela de comprimidos. De uma coisa ela tinha certeza: não foi ela quem colocou aqueles objetos ali.

Um cheiro familiar invadiu suas narinas e despertou seus sentidos. E o seu enjoo.

— Café...? — questionou. Ainda confusa Sara observou seu redor mais uma vez e aos poucos a memória fragmentada foi se restaurando — Gilbert!

Seu coração acelerou como um gatilho acionado. Tudo começava a fazer sentido. Ele a encontrou no bar, a trouxe para casa e de alguma forma ela acordou em sua cama com outras roupas.

— Céus... eu não... acredito.

Ela só queria terminar sua noite bem para começar um outro dia, mas extrapolou. Sara sabia das consequências, mas mesmo assim quis ir a fundo; só não sabia que isso envolveria mais alguém, justamente seu namorado. Era só o que faltava, ele conhecia um deu seus piores lados e ela não tinha ideia de como explicar aquilo.

Ao pisar no chão com os dois pés, ela se apoiou sobre as pernas ficou naquela posição tentando ganhar coragem de sair do quarto. Olhou para o copo e os comprimidos e não sabia explicar se estava com raiva ou vergonha que ele estivesse presente para ver toda aquela situação.

Com dificuldade ela se apoiou na cama para levantar, mas de repente uma forte sensação nauseante subiu-lhe e ela não teve escolha; pegou o balde próximo e vomitou. Quase largou o objeto no chão, mas pensou duas vezes e o colocou de volta no lugar. Limpou a boca com o braço e fez outro esforço para se levantar da cama.

— Como eu fui idiota... — lamentou quase choramingando.

Chorar era uma opção, mas havia coisas mais importantes a se fazer, como levantar dali, limpar o rosto e descobrir o que tinha além do cheiro do café. Talvez uma casa vazia ou uma casa com mais alguém além dela. Sua boca estava amarga demais para beber água e ingerir aquele comprimido; faria isso depois.

Se não tivesse que enfrentar o perigo de seu corpo dolorido e mole, o lugar à sua volta não estava “ajudando”. O quarto girava ao redor dela. Mesmo a fraca luz solar bloqueada pela cortina era irritante. Na maior parte de sua caminhada ela cobriu os olhos na tentativa de se acostumar aos poucos com a luz. Ela tocou a mão na maçaneta e abriu a porta. No primeiro momento foi um inferno, quase não se manteve de pé.

Sara se arrastou para o banheiro, que mesmo perto, para ela parecia ficar a quilômetros de distância. Antes disso pegou as roupas de dormir do dia anterior para vesti-las no banheiro; uma regata simples verde e calça listrada. Fez sua higiene, abriu a torneira, lavou o rosto e a boca por um bom tempo. Quando ergueu para olhar a si mesma no espelho não se reconheceu. O que via no espelho era apenas um reflexo de sua própria ignorância. Ela teve o desejo de se trancar ali o dia inteiro enquanto lamentava dentro de uma banheira quente. Em vez disso abriu a privada e vomitou novamente. E mais uma vez lavou a boca e o rosto.

Uma onda de raiva tomou conta de si que culminou com ela batendo a palma aberta na parede, bem ao lado do armário. Aquilo só piorou o estado. Sua mão doeu como nunca e o estalo causado ecoou dentro de seu ouvido como um tiro. O dia começou ruim e provavelmente iria terminar da mesma forma. Chegou a duvidar de sua capacidade de sobreviver a um dia no trabalho.

Já vestida, quando finalmente ganhou coragem de sair do esconderijo, minutos após entrar, Sara deixou o banheiro e voltou para o quarto, onde pegou o comprimido e o copo d’água. Contra sua vontade tomou ambos e levou o copo consigo, rumo à sala; cambaleando um pouco, mas conseguiu sozinha.

Sala vazia. Então seguiu para a cozinha, lugar de onde o cheiro do café emanava, obviamente. Foi quando o encontrou. Sentado num banco frente à ilha, Grissom folheava um jornal do dia. Quando percebeu alguém se aproximando ele o baixou e o dobrou em dois. Encontrou uma mulher encarando-o perplexa, quase nervosa.

Nenhum dos dois soube como iniciar a primeira conversa do dia. Grissom era quem mais desviava o olhar, já ela o encarava constantemente como se estivesse perguntando o porquê de ainda estar ali.

— Bom dia, Sara. — Depois de um minuto inteiro ele deu a partida.

Sara chegou a abrir a boca para responder, mas dela saiu apenas um gemido de dor. A mulher tocou na testa e caminhou em direção à pia. Ela deixou o copo dentro da pia e apoiou as mãos sobre o aço.

— Ah... — Ela resmungou — Vai, pode começar. — disse baixo, mas o suficiente para que ele a ouvisse.

O sargento se virou em sua direção; ela permaneceu de costas.

— Começar o que?

— Vamos, Gilbert. Cadê os sermões, as palavras duras, as... — Ela tocou na testa novamente porque falou um pouco alto e isso não ajudou.

— Sara...

— Vai, grita! — Foi uma tortura falar num tom alto, mas achou necessário. Desta vez ela se virou e os dois ficaram quase frente a frente — Diz que eu sou uma irresponsável por ter ficado bêbada numa segunda-feira e provavelmente ter causado vergonha a você. — Sua memória do dia anterior eram apenas cacos espalhados, alguns remanescentes e outros que sumiram.

Grissom umedeceu os lábios e respirou brevemente, preparando-se para o que ia responder. Nem mesmo ele esperava uma recepção como a de antes, e desta vez ela já se encontrava um pouco mais sóbria.

— Então era isso? Pensou que eu estava aqui te esperando para gritar com você?

— E não é isso? — Ela deu de ombros e sorriu sarcasticamente.

— Minhas maiores preocupações foram cuidar de você e garantir que estaria bem.

— Não vai me dizer que ficou com raiva? — Dentro de si havia um desejo em ouvir da boca dele que estava chateado após tudo aquilo.

Ele tamborilou algumas vezes no balcão com os dedos e se levantou em seguida para encará-la na mesma altura.

— Fiquei chateado, sim. Saber que você estava embriagada num bar e sozinha me deixou em pânico, ainda mais que eu soube disso por intermédio da sua irmã.

— Hã?! Annastasia falou com você?! Como?!

— Ela me ligou.

— Como isso é possível?! Eu não dei o seu número a ela. — A morena balançou a cabeça, permanecendo atônita.

— Olha. — Ele ergueu a mão — Isso não é importante agora, ok? Vá tomar café, Sara. Você tem que se alimentar.

Ela moveu os lábios para responder, mas ficou em silêncio por algum tempo. Parecia indignada.

— Você... me trouxe até aqui...

— E te ajudei com o banho, sim. — Grissom a completou sem problemas.

Céus...

Sara voltou a balançar a cabeça repetidas vezes, chegando a sorrir como se não acreditasse naquilo. O sorriso deu lugar à seriedade e depois ao desânimo. Ela se afastou dele, caminhando até a mesa de jantar, onde apoiou-se sobre a cadeira. Esfregou a mão na testa tentando amenizar inutilmente os efeitos da dor de cabeça.

— Não esperava que estivesse aqui ainda. — disse baixo.

— Pensei em deixar tudo preparado para quando você acordasse, mas acabei ficando aqui mais um pouco.

— Como tinha certeza que eu não iria dormir o dia todo? — A voz dela se fez desafiadora.

— Também não sabia. Estava prestes a visitar o seu quarto para me certificar se você estava bem. — Grissom ameaçou caminhar em sua direção, mas ficou parado.

— Mas você sabe que não tá nada bem. — A dor parecia aumentar assim como a ansiedade para que o efeito do remédio adiantasse logo também.

Parada ali atrás da cadeira, ela até pensou em se sentar, mas na verdade nem sabia o que fazer.

— O que você quer? — perguntou ele.

— Hã? — Sara se virou para trás.

— O que você quer? — O sargento apontou para o armário onde era possível notar a cafeteira, um pacote de torradas, geleia e algumas laranjas.

— Não me lembro de ter comprado isso. — Ela respondeu com uma voz totalmente desanimada. Talvez fosse outra onda de enjoo ou a fraqueza que sentia em seu corpo. Em seguida caminhou para perto do balcão.

— Fui ao mercado perto daqui e comprei.

Ela mal conseguiu fazer uma cara de surpresa. Apenas ergueu a mão e fechou o punho com força.

— Ah, Gil... — Pelo gesto que fez com a cabeça ela reprovou aquilo. Ela pegou uma xícara na pia e voltou para perto da cafeteira na intenção de se servir. Mas ele foi mais rápido e a serviu primeiro.

— Falei que ia cuidar de você. — Ele procurou por seus olhos, mas ela virou para o outro lado. Então mudou de ideia, pegou o adoçante próximo e despejou algumas gotas — Como você está sobrevivendo esse tempo todo aqui sem um único pote de açúcar?

— O quê? — Sem entender a pergunta ela o encarou meio brava.

— Consegui sua atenção. — Ele sorriu — Espere na mesa enquanto eu preparo o resto.

— Eu consigo me virar. — Sara tentou insistir, desta vez um pouco mais impaciente.

— Sei disso. Quero fazer isso apenas por vontade própria.

Sara não tinha forças para revidar ou continuar naquele jogo de cabo-de-guerra, então cedeu. Levou a caneca consigo e se sentou na cadeira. O aroma do café foi revigorante. Ela fechou os olhos por algum tempo e deixou que o cheiro da bebida invadisse o mais profundo de sua mente como o efeito de um cigarro provocava. Não falou. Sentia-se incomodada com a presença dele ali, mas também não o queria longe, afinal ele era seu namorado. Devia ser a sensação de culpa por ter criado toda aquela situação e não receber uma palavra de repreensão sequer. Ele a estava matando.

— Acho melhor você ficar em casa hoje. — disse ele, alguns minutos depois retornando com um prato de torradas cobertas por geleia de uva e uma laranja.

— O quê? Faltar ao trabalho? Não, eu vou ficar bem lá. — Ela respondeu quase tudo de uma vez.

Grissom pegou uma cadeira e se sentou ao lado dela, pensando que se ficasse à sua frente causaria uma sensação desconfortável à parceira.

— Não quer que os outros me vejam desse jeito? — Foi sarcástica.

— Não. — Ele concordou sem pestanejar.

— Ai. — Nem ela esperava uma resposta tão direta.

— Isso não tem nada a ver com o caso, tem a ver com você. Eu tenho medo que de alguma forma eles... percebam que você não esteja bem e...

— Então lá tem gente que me quer fora, é o que quer dizer, não é? — Depois de relutar muito consigo mesma finalmente ela pegou uma torrada e começou a comer.

Ele desviou o olhar para o lado e se inclinou para a frente.

— Não acha que... se eu não for... isso vai ser uma palha para eles inventarem algo?

O sargento voltou a dar atenção à detetive.

— Eu não queria soar grosso, é que... Nem todo mundo age em prol do outro por lá. — Nesse momento ele fez um esforço para se lembrar se havia alguém conhecido naquele bar, mas não adiantava. Tudo que passava em sua mente era a imagem de Sara e que todo seu foco se voltou a ela.

— Eu sei. Na Califórnia não é diferente. — disse ela, continuando a comer e beber o seu café.

Grissom apoiou as duas mãos mesa e as cruzou. Abriu a boca duas vezes na tentativa de criar palavras. Ficou assistindo de canto de olho ela fazer sua refeição. E assim foi por certo tempo, até o momento em que ela desistiu de comer a última torrada e beber o último gole.

— Não... tá dando mais. — A morena afastou o prato para frente e também arrastou a cadeira para trás.

— O que foi? — Ele perguntou preocupado.

— Não dá, Gil! Não... — Ela fez um gesto negativo. Quando ele a observou mais de perto reparou nas lágrimas que desciam de seu rosto já avermelhado. Então cobriu o rosto.

Temendo o que estivesse acontecendo com a parceira, ele se aproximou dela junto de sua cadeira e sentou-se quase à sua frente. Não sabia o que dizer ou fazer em seguida com medo que piorasse as coisas, porém queria mostrar que estaria lá por ela.

— Como pôde fazer tudo isso pra mim, hein?! — retrucou num tom desafiador, levantando-se em seguida — Depois de tudo que... depois de ter conhecido esse... — Ela fez um gesto com a mão — esse meu lado deplorável?! — A dureza no tom lhe custou caro, uma pontada em sua testa.

— Fiz isso da mesma forma que você cuidou de mim naquele hospital. — O sargento também se levantou.

— Aquilo não foi nada, Gilbert! Comparado a tudo isso... não foi nada.

— Como pode falar assim? — Havia certo tom de indignação em sua fala — Trazer minha mala e passar a noite comigo naquele hospital foi muito, Sara. Não era obrigação sua e mesmo assim você fez. Você não sabe o quanto aquilo significou para mim.

Em silêncio ela o ficou encarando com o mesmo rosto abatido de antes. Deu a impressão que iria responder, mantendo o mesmo tom de antes.

— Você tem cuidado de mim esse tempo todo. Deixe-me cuidar de você agora.

A morena fechou os olhos por um instante, tocando em sua têmpora. Ele realmente achou que receberia alguma resposta, mas ela apenas fez seu caminho até a sala. Depois de tudo que passou no dia anterior Grissom não desistiria tão facilmente. Então foi a trás dela e a encontrou sentada no sofá, apoiando sua cabeça no encosto com olhos fechados. De vez em quando cobria seu rosto e respirava fundo.

— Você é insistente. — disse ela, ao perceber que o sargento se aproximava.

— Assim como uma certa detetive de São Francisco. — Brincou ele, vindo a se sentar ao seu lado.

— Vai se atrasar, Gil. — Ela tentou mais uma vez.

— Não vou não. Ainda está cedo.

— Não acredito que acordei cedo depois daquela noite. — lamentou ela, fazendo o sargento sorrir.

Vendo que o parceiro não iria desistir, Sara finalmente cedeu e não resistiu mais. Ela elevou suas pernas e envolveu os braços nela, encolhendo-se como se estivesse com frio.

— Devo ter dito coisas horríveis a você. — A detetive fez um gesto negativo com a cabeça lamentando de algo que mal conseguia se lembrar e depois tocou nela. A enxaqueca ainda estava presente e parecia que o efeito do remédio não adiantou muito — Eu não lembro o que foi direito, mas... sinto muito.

— Como sabe que foram coisas “horríveis”?

— Já aconteceu antes.

Ele ficou quieto, esperando que ela continuasse.

— Eu entendo totalmente se você começar a me enxergar de outra forma agora.

— Como você acha que eu vou te enxergar?

Confusa, Sara virou o rosto em sua direção.

— Ah... eu não sei! Como uma... alcoólica funcional que não consegue deixar de beber nem numa segunda-feira.

O sargento se aproximou um pouco mais, porém manteve certo espaço entre eles; não queria invadir o espaço pessoal que ela insistia em preservar.

— É desse jeito que você imagina que eu vou te enxergar ou é do jeito que você se enxerga?

Num movimento ligeiro ela o visou de cara fechada. Pelo olhar parecia que ia encerrar a conversa e voltar para seu quarto.

— De uns anos pra cá beber não tem sido um vício, é mais um... refúgio. — Tentou admitir — Eu não bebo todo dia, na verdade, só quando estou com o emocional abalado.

Foi o momento em que ele começou a entender parte do motivo que a levou àquela escolha.

— Não me orgulho disso. — Sara virou para o lado esquerdo e cobriu o rosto, suspirando em seguida — Minha vida sempre foi uma luta e quando digo luta... — Ela se calou por um instante — É complicado viver numa vida que você achava normal e descobrir que não passava de um inferno maquiado.

Grissom baixou o olhar brevemente. As palavras foram tão duras que ele se viu emboscado, sem saída para o que dizer para “melhorar” seu ânimo. Apenas tocou em sua mão, ainda envolta na perna, o que chamou a atenção da detetive por um instante.

— Por um tempo eu achava normal que meus pais discutissem quase todo dia. — disse baixo e depois respirou fundo — Eles tinham seus problemas, não é? Casais discutem quando têm um problema...

Aos poucos ela pressionou o braço sobre a perna; ele percebeu isso e teve que afastar sua mão.

— Às vezes eles gritavam... às vezes eu estava no meio dessa gritaria. — Sara deu de ombros — Ok!... Só que... o tempo foi passando e eu começava a perceber em minha mãe algumas manchas no seu corpo. Ela não falava e se eu insistisse era pior. — A mulher lamentou — Céus, minha cabeça...!

— Eu vou pegar gelo. — preocupado, na mesma hora ele se preparou para deixar a sala.

— Não. — recusou — Não precisa, estou com frio.

— Ok. — Grissom acatou ao pedido, mas não ficou satisfeito.

— Mas pode me trazer outra xícara de café?

— Claro. — Ele respondeu com um meio sorriso que ela não chegou a ver.

Enquanto Grissom se encontrava na cozinha, Sara ficava observando a entrada com um semblante triste. Falar sobre o passado era um assunto do qual ela guardava num cofre a sete chaves. As únicas pessoas das quais ela comentou foram duas: Cassandra e Annastasia, sua mãe e irmã. Se estava falando isso porque ele era uma das pessoas mais importantes de sua vida; só que isso não diminuiu o peso angustiante que sentia no momento.

Sara mudou de posição. Ainda de pernas erguidas, ela virou o corpo para o lado direito, na intenção de encará-lo mais de frente. Agora que começou não tinha outro jeito senão continuar. Quando ele retornou com uma caneca cheia de café o aroma logo subiu às narinas dela, que sorriu brevemente.

— Obrigada. — Ela agradeceu, assoprou e logo tomou um gole.

— Querida, se você não estiver bem não... precisa continuar.

Ela encarou o interior da caneca entre suas mãos.

— Eu quero. — Sara respirou fundo para tentar engrossar a voz já abatida pela ressaca e melancolia — Eu quero. — repetiu, em seguida ficou por quase um minuto em silêncio — No começo era tudo muito escondido, mas depois eles não fizeram mais questão de berrar ou quebrar alguma coisa quando eu estava por perto. Quando me dei por conta as marcas no meu corpo já surgiam também e a maioria delas eram causadas por ele. Às vezes eu não tinha nada a ver com a história, mas bastava eu encará-lo e pronto.

— Desgraçado.

A morena deixou um meio sorriso escapar, mas era um sorriso triste.

— Ele ficava pior quando voltava pra casa completamente embriagado. Meus pais discutiam e sempre sobrava pra minha mãe... e às vezes pra mim, também.

Quando percebeu as lágrimas descendo pelo rosto dela, na mesma hora Grissom tratou de ficar o mais próximo possível. Ele secou as lágrimas com o polegar e acariciou seu rosto na tentativa de confortá-la, mas não foi o suficiente.

— Eu não me esqueço daquela vez onde meu... pai deixou a mim e a minha mãe na sala depois de bater na gente. A única coisa que ouvi da boca dela no restante da noite foi só uma coisa: “Cansei”. — Ela tomou um gole generoso e manteve a caneca próxima da boca. Depois que afastou o objeto, Sara olhou para ele de canto de olho — Alguns dias se passaram e... — A detetive usou as costas da mão para secar as lágrimas que continuavam a descer — eu vi o fim da minha família. Ou melhor, o fim do que parecia ser uma família.

Firme, ele tocou em seu ombro. Faltava pouco para que ele começasse a chorar, também. Se pudesse voltar no tempo ou se ao menos a conhecesse há mais tempo poderia fazer algo para impedir essa barbárie do qual acabou de escutar, que ao mesmo tempo se recusava a acreditar que aconteceu. Ele tentou secar as lágrimas que escorriam lentamente do rosto dela, mas não adiantava.

— Naquela noite eu desci do quarto e de novo eles estavam discutindo. — Sara fez um gesto negativo — Eu não conseguia ficar deitada esperando que aquilo passasse, nunca consegui. Essa minha curiosidade me custou caro desta vez. — Ela fez uma pausa de alguns segundos antes de tomar coragem e responder — Encontrei meu pai caído no chão, ensanguentado. Já a minha mãe estava de pé... segurando uma faca ensanguentada.

— Eu sinto muito, querida.

Ela ficou em silêncio, pressionando a caneca sobre suas mãos.

— Eu não consigo me lembrar como foram as horas anteriores daquele dia, somente dos gritos e... a cena dele caído e minha mãe em pé. Depois disso foram borrões. Muita gente na casa... luzes de fora... — Na tentativa de recordar do passado ela sentiu um pouco mais de dor — Tive uma vaga sensação de que toda aquela tormenta tinha chegado ao fim, mas foi só uma fase. Tive que “acordar pra vida” e ela foi cruel. — terminou em sussurros.

Não dava para segurar mais. Sara engoliu em seco, porém isso não a impediu de deixar as emoções falarem mais alto que sua voz. Foi a primeira vez que Grissom viu sua companheira chorar. Rápido, ele tomou a caneca de sua mão, deixou-a na mesa de centro e voltou para abraçá-la forte. Não falou nada, preferiu esperar o tempo dela torcendo para que seu gesto ajudasse em algo.

— Gilbert... — Disse após soluçar. Era difícil para ela compreender o porquê de Grissom ainda estar ali depois de tudo.

— Aquilo é passado agora. — Ele falou bem próximo ao seu ouvido.

Sara envolveu seus braços nele, aprofundando o gesto. Mesmo que tivesse ouvido aquelas palavras por outras pessoas, de alguma forma, valeu muito vindo de sua boca.

Grissom passou a mão por seus cabelos e beijou a lateral de seu rosto.

— Me desculpe. — disse ela.

Ele se afastou, mas não o suficiente para finalizar o abraço. O sargento moveu algumas mechas para trás e beijou sua testa carinhosamente. Quando terminou seus rostos se tocaram e ambos fecharam os olhos. As palavras ficaram presas na garganta de Grissom, que preferiu manter-se dessa forma.

— Beber foi uma forma de fugir da realidade. — Admitiu — Mas o tempo passou e comecei a perceber que estava agindo igual a meu pai. Que eu... estava me tornando parecida com ele.

— Você não é igual a ele, Sara, muito menos parecida. — De uma forma branda ele a repreendeu — Você é uma boa pessoa.

Ela abriu um sorriso. Por muitas vezes tentava afirmar isto a si mesma.

— Vamos sair dessa, juntos. — Ele abriu os olhos e acariciou seu rosto.

Sara encontrou os olhos dele que, mesmo após passar por aquela tormenta, ainda sorriam. Ela deixou-se encostar em seu peito. Grissom não esperava por isso, mas não a deteve, muito pelo contrário; apoiou seu queixo acima dela e a envolveu em seus braços, disposto a protegê-la de tudo. Até mesmo ele sabia (compreendeu) que não podia, mas faria o que pudesse.

— Eu erro demais... — lamentou, enquanto se encolhia em seu peito.

— Não tanto quanto eu. — Ele brincou enquanto passava a mão por seus cabelos.

Sara nunca se sentiu tão segura depois de tanto tempo tentando se esconder em trincheiras frágeis que tentava construir sozinha.

Só depois de alguns minutos o abraço terminou. Ao atentar para o rosto da companheira ele já não via mais as lágrimas caírem, apenas vestígio do choro recente e olhos avermelhados.

— Quer voltar à sua cama? — perguntou Grissom enquanto deslizava a mão sobre seu rosto.

— Não. Eu vou... tomar um banho e me arrumar.

Ele ergueu uma sobrancelha. Realmente achava que Sara fosse desistir da ideia em sair para o trabalho. No fundo estava avesso demais à sua decisão, mas também imaginou que fosse o lado protetor gritando dentro dele, lado este que precisava ser contido.

— Você é insistente.

— Assim como um certo sargento de Nevada.

O trocadilho foi certeiro e Grissom não pôde deixar de sorrir. Mas aquele era um assunto sério e o semblante se apagou.

— Tem certeza, querida? — Ele tentou insistir.

— Querer eu não queria, mas vou fazer isso por nós dois. Não vou te deixar na mão. — Assentiu — Até quando estava se recuperando dos ferimentos você estava trabalhando, por que eu não posso? — perguntou retoricamente.

Assim como ele não recuou na época ela não iria recuar desta vez, mesmo sofrendo pela ressaca. Não sabia se ficava orgulhoso ou envergonhado ao dar aquele exemplo. Se tentasse argumentar seria rebatido imediatamente.

— Está bem. Vamos fazer assim: você se arruma, eu volto pra casa e depois eu venho te buscar, ok? — Grissom tocou em seu rosto mais uma vez, segurando-o carinhosamente.

— Carona grátis, é? — A morena sorriu. Aquele gesto aqueceu o coração dele, tão abatido pelo que aconteceu ontem. Foi conquistado.

— É. — Grissom respondeu, também carregando um sorriso.

Rostos próximos um ao outro os dois ficaram se encarando, como nos tempos em que havia apenas uma troca de olhares carregada de sentimentos platônicos. Por um momento chegaram a se esquecer que estavam juntos.

Aos poucos o espaço entre eles se reduzia, ao ponto em que suas testas se colaram e as respirações ficaram mais lentas.

— Eu amo você, Sara. — Ele falou hesitar — Eu não quero que se esqueça disso.

Suas palavras doces faziam-na se esquecer das dores no corpo e das sensações ruins que enfrentava no dia. Que tipo de pessoa faria tudo o que Grissom fez e em momento algum levantou a voz para repreendê-la?

Ela tocou no rosto do companheiro, e sem pestanejar, Sara beijou seus lábios por um tempo tão incerto que não conseguiu calcular. Foi um período longo demais sem beijar aquela boca que atraiu sua atenção desde a primeira vez que a viu. Após o beijo Grissom levou mais tempo para abrir os olhos que ela. Desde a última vez no carro logo depois de uma discussão encerrada precocemente o sargento sentiu falta daquele toque, das carícias e das conversas sobre qualquer coisa, desde que pudesse ouvir sua voz.

— Eu também amo você. — Ela quase não teve voz para responder.

O sargento beijou sua testa.

— Nos vemos depois. — Ao dizer aquilo Grissom fez questão de se levantar logo ou seria capaz de passar horas e horas ao lado dela. Ela apenas respondeu com um gesto meio sorridente.

Grissom seguiu para a cozinha, onde pegou o terno em cima da cadeira e seguiria rumo à garagem, mas retornou e falou à entrada da sala:

— Deixei duas latas de energético e um isotônico para você na geladeira.

— O quê? — questionou-o surpresa — Gil, não precisava-

— Agora já foi. — brincou enquanto acenava para se despedir.

Notas finais
Acho que eu não tenho comentários a fazer aqui, mas é aquele negócio: se eu me lembrar eu faço um edit ou posto no capítulo seguinte. Eu tenho um trabalho a terminar e isso não tá me deixando focar nos meus pensamentos se tem algo que eu deveria informar aqui. É muito louco eu sei disso, haha. Mas enfim. Obrigada a todos que leram! Beijos e até o próximo capítulo.