Manhunters
2 Equipe de Duas Pessoas
Notas iniciais
O clima não estava tão agradável como se esperava, e como poderia? O sargento Grissom foi pego de surpresa, mal teve tempo de reagir. Boquiaberto, demorou em perceber que a ficha caiu sobre ele.
—Hã, o quê? — Foram as únicas palavras que saíram de sua boca.
— Preciso resolver alguns trâmites, mas por hora, dêem um jeito nesse maldito caso.
— Ei, ei! — Gilbert chamou-o em voz alta, mas ele já havia saído. Fechou a porta e deixou os dois ali, sozinhos.
Filho da mãe! Como ele pôde fazer isso...
Mal reparou que estava com o rosto virado para Sara. A mulher ficou sem reação após aquela cena. Encontrava-se num impasse: estava numa sala que não era sua, junto de alguém que visivelmente não queria sua presença. Ela olhou para os lados e notou a careta do homem à sua frente. Chegou a dar uma risadinha.
— Me desculpe, eu já volto. — Envergonhado, Grissom ajeitou o terno e rapidamente saiu da sala.
Grissom chamou a atenção de alguns que estavam próximos a ele, sentados em suas mesas. Após observar o seu público rapidamente, o sargento apertou o passo e chegou até o elevador, mais distante da ala de onde ficavam os outros policiais. O sargento correu um pouco e alcançou o diretor antes que ele chegasse lá. Tocou em seu ombro direito quase com força.
— O que está fazendo, Conrad? Trouxe alguém de fora sem me avisar e para trabalhar comigo no meu caso?! — ele virou o rosto para ver se não tinha alguém prestando atenção neles.
— Você perdeu a memória, Gil? Falamos sobre a vinda de alguém há muito tempo! —o diretor respondeu sem hesitar e até com uma expressão de desdém.
Dois meses atrás, Conrad se reuniu com Grissom e o capitão Brass sobre o andamento do caso. O sargento foi duramente cobrado pela falta de progresso que já se estendia por um bom tempo. O xerife e o capitão pensaram em criar uma unidade especial com mais integrantes para finalizar o caso, no entanto Grissom foi contra em qualquer uma das tentativas de fazê-lo. O projeto foi sendo deixado de lado por causa de outras prioridades para o alívio do sargento. Mas no momento, foi assombrado novamente.
— E eu disse que não queria ninguém! Sério mesmo que você faz isso comigo, Conrad? Depois de tudo que já fiz por vocês? —Grissom apontou para si. Sua testa estava franzida, e era possível enxergar os nervos em sua face.
— É melhor duas cabeças pensando do que apenas uma.
Grissom balançou a cabeça por várias vezes. Chegou a rir ironicamente.
— Se eu disse que poderia cuidar do caso sozinho foi porque eu posso cuidar do caso sozinho! — falou enfático — Você sabe muito bem o que aconteceu antes, Ecklie! Que droga! — Ele balançou a cabeça — E se fosse para colocar alguém comigo seria um policial daqui, não de lá longe.
Ecklie deu um passo para mais próximo do sargento e disse quase ao pé de seu ouvido.
— Tem muita coisa envolvida nisso, Gil. Um conhecido me indicou a detetive Sidle e aqui estamos. — O xerife respondeu sem reservas.
— Conhecido, é? — retrucou sarcástico — Sei. Tem sempre algo atrás dos panos, não é? — O sargento deu um longo suspiro — E o que ela vai fazer? Me supervisionar? Verificar se estou fazendo meu trabalho direito? Porque já tem um monte de gente fazendo isso aqui. — Ele apontou o polegar para trás de si.
— Será muito mais fácil pra você resolver isso com ela. — Ele deu dois tapinhas em seu ombro e depois sorriu — Achava mesmo que conseguiria pegar esse cara sozinho?
O sargento odiou aquele sorriso de Ecklie.
— Isso aqui não é um jogo de gato e rato, tem vidas sendo tiradas por esse maluco.
Sabia que o xerife fez tudo aquilo de propósito para puni-lo.
— E você acha que não estou dando o melhor de mim?
— O seu melhor não está sendo suficiente, Grissom! — O xerife apontou o dedo para o sargento — E fique contente que não avancei com a ideia de montar uma equipe decente. — Depois seguiu para o elevador e deu de ombros — Acredite em mim, ela é a melhor no que faz.
O caçador não respondeu. Cerrou os punhos como se estivesse aguentando a vontade de socar o homem à sua frente. Viu o xerife entrar no elevador e ficou em silêncio, apenas.
— Eu também sou.
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De volta à sua sala, só não chutou a porta ou jogou algo no chão porque se lembrou da presença de Sara, a quem deixou sozinha à sua espera. A detetive estava sentada na cadeira frente à sua mesa. De pernas cruzadas, analisava a pasta que outrora foi deixada em cima do móvel.
Mantenha o foco, Gilbert. Foco.
— Eu... é, desculpe. Fui pego de surpresa e-
— Entendi, sargento Grissom. — Ela assentiu, cortando-o de repente.
O homem notou que ela olhava cuidadosamente sua pasta. Ficou parado encarando-a, achando que a mulher perceberia seu incômodo, mas deixou-a e voltou para sua cadeira após fechar a porta.
— É, então...
— Sim?
— Eu não sei... — Ele falou, tentando buscar palavras — Me fala um pouco sobre você, sobre o que sabe desse caso. — Grissom deu de ombros, tentando ser mais cordial.
— Bem... não achei que precisaria passar por uma entrevista novamente. — Sara fechou a pasta e pôs de volta à mesa.
— Tenho de saber com quem vou trabalhar agora em diante, não é mesmo? — Grissom forçou a si mesmo para não falar sarcasticamente.
— Olhe, eu não sei se sabe, mas uma ficha com minhas informações foi entregue para você há bastante tempo.
— Eu não sei se sabe, mas ultimamente estou sem tempo até para ler minhas cartas, detetive Sidle.
Em vez de retrucar, Sara encarou o rosto irritado de Grissom, que tentava se manter calmo.
— Eu não gosto de falar de mim. —a detetive balançou a cabeça —Prefiro que me conheça pelo meu modo de agir.
— Ótimo, ótimo. — Ele ajeitou o terno —Vamos ao trabalho, então. Pelo visto já estudou o caso. — O homem estendeu a mão para a pasta deixada na mesa.
— Claro que sim. Passei horas estudando cada um dos casos, além de revisar os relatórios desde a primeira vítima, e ler a sua ficha profissional.
— Leu minha ficha? —O sargento ergueu a sobrancelha esquerda.
— Claro. Fiquei impressionada, até. —Ela soltou um sorrisinho.
— O quê?
A morena desviou seu olhar, pegando a bolsa que estava ao seu lado. Evitou olhar diretamente para ele por alguns segundos, pois chegou a corar. Se empolgou um pouco.
— Sua carreira, sargento Grissom. — Disfarçou — Tem um currículo extenso... É o homem mais jovem a resolver vários casos de assassinos em série. Sem contar nas várias palestras que já deu, dentre as quais já pude assistir uma, em São Francisco. — Ela terminou falando com entusiasmo.
— Não me lembro de você. — retrucou e franziu a sobrancelha.
— Claro que não vai lembrar. — respondeu secamente, voltando a ficar séria — Sobre o caso... fiquei intrigada ao saber que era o único no momento que assumiu esse trabalho. Não acha que é um peso demais para você carregar, detetive Grissom?
— Por isso você está aqui, presumo eu. — respondeu ironicamente.
— É... — Novamente ela deixou escapar um sorriso. — Então...— A mulher esticou a palavra — Voltando ao caso... sugiro começar do início, revisar os casos desde o primeiro.
Grissom fez um gesto com a mão.
— Espera. Desculpe falar, mas não acha que eu já fiz isso? Várias vezes, detetive Sidle.
— Sei disso, não estou duvidando da sua capacidade. — Sara ergueu os braços tentando se defender.
— Então o quê? — Sem perceber ele alterou sua voz, esgueirando-se um pouco para frente.
— Recentemente um senhor de idade foi morto com dez facadas. Conseguiu encontrar alguma pista sequer? E com as outras vítimas? — Ela esperou por alguma reposta, e como não obteve, continuou — Não, né? Então, o melhor que podemos fazer é voltar ao começo. Se continuar assim você nunca vai conseguir capturar esse cara.
— Ah é? Agora que você está aqui tudo vai se esclarecer e vamos pegar o assassino em pouquíssimo tempo.
O clima que já não estava bom, de repente, ficou pior. Grissom já não estava num bom humor ultimamente, e a chegada de Sara contra a sua vontade ajudou a deixá-lo mais estressado.
A morena levantou da cadeira, porém deixou a pasta no chão.
— Menos tempo que você tem levado. — Sara lançou-lhe um sorriso ousado e caminhou até a porta.
— Ei, aonde você vai? — questionou irritado.
— Vou tomar um café. Posso ir ou vou ficar de castigo?
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A morena saiu da sala e respirou o ar fresco da liberdade. Sentiu-se livre de uma jaula com um leão nervoso que não queria dividir o alimento. O Grissom que ela conheceu outrora não parecia ser o homem dentro daquela sala. Eram duas pessoas completamente diferentes.
Mesmo assim Sara não ia desistir tão facilmente. Já encarou gente pior que ele e continuará a resistir até chegar a hora de receber seu desejado reconhecimento. Não foi à toa que aceitou pegar esse trabalho assim que foi solicitada pelo comissário da polícia de São Francisco. Seu sonho era entrar para o FBI, só que nunca havia conseguido por não atingir os resultados esperados. Então se dedicou até a exaustão e se tornou uma das melhores detetives que já pisou o prédio do Departamento de Polícia.
Aos 30 anos, nascida e criada em Tomales Bay, Califórnia, Sara tinha personalidade forte. Era uma pessoa amigável, que também não deixava que outros passassem a perna nela. Era fria e calculista nos casos, mas às vezes deixava-se levar por emoções, como em ocasiões de agressão familiar ou violência contra mulheres ou crianças. Um prodígio, com um ótimo desempenho na academia. Formou-se com louvor, e logo conquistou a patente de detetive. Muitos enchiam sua bola, dizendo que futuramente poderia concorrer ao cargo de capitã da polícia. Só que ela queria mais. O FBI era seu maior alvo de muitos anos.
A jovem detetive não conhecia direito o pessoal do departamento, a não ser o xerife Ecklie e o capitão Brass. Para ela, os dois seriam suas únicas referências e apoio daqui em diante. Nem tanto com o Ecklie, é claro. Pelo modo em que conheceu sua pessoa, era o tipo de homem em que se devia tomar todo o cuidado.
O segundo andar do prédio tinha sua própria copinha. Lembrando-se das dicas que recebeu do diretor, das quais informava os locais necessários para ir, Sara deixou a sala de onde estava e de cara viu dezenas de detetives e outros funcionários andando de um lado para o outro. Sentiu-se um peixe fora d'agua. Não por causa do ambiente, mas pela gente desconhecida. Respirou fundo e passou por eles. Ela estava confiante. Confiante que eles iriam ver o seu trabalho e aceitá-la no seu lugar de direito, o FBI.
Zodíaco era só mais um.
A detetive caminhou até os fundos, à direita, onde ficava a pequena cozinha. Por sorte fizeram café recentemente e ela teve a oportunidade de pegá-lo fresquinho.
— Oi? Eu conheço você?
A morena levou um susto com a voz feminina vindo de trás, tanto que quase derrubou a xícara de sua mão.
— Ah, olá... — ela respondeu desconfortavelmente.
— Você é nova por aqui, pelo visto.
Ela era loira, de cabelos curtos e lisos. Tinha um olhar afiado e aparência sedutora. Ela usava um terninho marrom escuro e saia longa do conjunto com a mesma cor. Usava também uma sapatilha de salto baixo.
— Sou Catherine Willows, detetive, como pode ver. —a loira disse brincando, ao mostrar sua identificação na barra de sua saia.
— Sara Sidle. Detetive de São Francisco. Estou aqui para trabalhar com o sargento Grissom.
— Ah, você é a garota que trouxeram da Califórnia pra ajudar o Gil é? —Catherine virou-se para ela enquanto enchia copinho com café. — E então, como estão indo vocês dois?
— Ah... começamos a trabalhar juntos há poucos minutos. —disse, desviando seu olhar. Queria dizer que foi um início péssimo, mas quis abafar.
— Hum... Pelo visto não começaram muito bem. — Catherine notou a mudança de expressão no rosto de Sara.
A morena virou-se para ela um pouco apreensiva. Não queria causar má impressão dela e de Grissom, que, mesmo deixando-a irritada, evitou diminuir sua imagem.
— Não se preocupe, — ela fez um gesto com a mão, aliviando a barra de Sara — eu conheço o Gil. Ele é um homem fechado, meio cabeça dura, precisa de tempo e jeito pra lidar com ele.
Sara percebeu sinceridade em suas palavras. Talvez ela fosse alguém de confiança. Sorriu então para a detetive.
— Espero que sim. — assentiu, sorrindo mais uma vez.
— Boa sorte no caso. — Cath disse num tom de despedida.
— Obrigada. Estou confiante que vamos pegar esse cara logo, tudo uma questão de trabalho e tempo. — disse naturalmente.
— Que bom, a gente aqui estava precisando de alguém que pensa positivo. — ela tomou outro gole.
— Não é pensar positivo... — Sara deu de ombros — esse homem é apenas mais um assassino que tenta chamar a atenção dos outros matando pessoas de um modo peculiar.
Cath arregalou os olhos, impressionada com a confiança em suas palavras.
— Como todo ser humano ele é suscetível a erro. É aí que vamos pegá-lo.
— Não é à toa que eles chamaram você, Sidle. — Catherine assentiu — Fico contente que alguém vai trabalhar com ele. O coitado estava carregando um fardo muito pesado, e mesmo assim insistia em trabalhar sozinho.
A morena fez uma cara surpresa.
— Bem, se me der licença, tenho que voltar ao trabalho. Foi um prazer em conhecê-la, Sara.
— Igualmente. E mais uma vez, obrigada pelo apoio, detetive Willows.
— Que nada, me chame de Cath.
As mulheres apertaram as mãos e Catherine deixou o espaço. Sara terminou seu café, e preferiu não comer nada, indo embora em seguida.
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A detetive abriu a porta e encontrou o sargento no mesmo lugar quando saiu.
— Ei. — disse Sara ao bater e entrar.
— Oi. — Ele respondeu sem ao menos olhá-la.
Grissom estava nos fundos da sala a observar o painel na parede onde continha as fotos das vítimas de Zodíaco.
— No que está pensando? — perguntou ela.
— Nas vítimas. Estou... analisando seus casos. — Grissom terminou quase rangendo os dentes.
Sara se aproximou do sargento com um sorriso no rosto. Sabia que revisar o caso novamente era o melhor a se fazer.
— Vamos lá, então. — A mulher mudou de expressão rapidamente e olhou para o lado. Deu um leve suspiro e soltou as palavras — É... eu não queria ser grossa com você agora a pouco.
O sargento virou seu rosto para a mulher por alguns segundos.
— Esqueça. — O sargento lançou a mão para o alto, voltando sua atenção para o quadro logo depois — A décima vítima ainda está no necrotério para análise. Conseguimos a liberação para tentar fazer um molde dos ferimentos e assim trabalhar com a forma da arma do crime.
— Bom. — Ela assentiu — Enquanto isso podemos analisar novamente os outros casos. Segundo o relatório da autópsia da primeira vítima... — Sara voltou para a mesa de Grissom e procurou entre as pastas o arquivo do primeiro caso — Vamos ver... a primeira vítima, Arthur Kyle, morreu de hemorragia devido ao corte que levou em seu pescoço por um objeto cortante. — ela virou a página — Branco, trinta e seis anos, classe média, casado... sem filhos, trabalhava como crupiê no Cassino Bellagio.
— Os policiais imaginaram que se tratava de um acerto de contas já que Arthur era um crupiê. Só não sabiam explicar a mensagem feita em sua testa. E assim começou a história.
— Temos uma lista com os possíveis suspeitos, não é? — ela fechou a pasta e cruzou os braços.
— Arthur não tinha problemas pessoais com a família nem com os amigos. Ele era um crupiê de um cassino. Dezenas de pessoas que perderam uma fortuna no Blackjack tinham motivos inúteis para querer sua cabeça. — Grissom deu de ombros, e pegou a pasta de sua mão — Nenhum deles tem relação com as vítimas seguintes. — O homem levou a mão à testa e esfregou-a numa pífia tentativa de aliviar a dor de cabeça causada pelo estresse — Foram descartados. Todos que jogaram na mesa dele naquela noite deram depoimento e os mesmos tinham álibis. Eu mesmo verifiquei quando peguei o caso.
— Bom, então vamos analisar as evidências em si, desde o começo.
— Sidle, — Grissom fechou a pasta — esse é o primeiro caso. De dez. Temos ainda uma lista de no mínimo três suspeitos para cada vítima. E eu já conferi, não há uma relação próxima entre os suspeitos! Esqueça! Você não vai encontrar nada com a primeira vítima. Não há vestígios, nem evidências!
— Se você ficar continuar desse jeito aí que não vamos pegar esse cara, sargento Grissom.
Os dois se encontraram num olhar. O sargento queria falar muito mais do que se expressou. Ela lhe jogou um sorriso desafiador, tão confiante como se o caso fosse resolvido em pouquíssimo tempo. Tentou imaginar seu rosto ao deparar com a primeira falha e decepção, que pelo visto seria em breve por causa do jeito que estava querendo levar as rédeas.
Talvez o lugar dela não fosse lá com ele. Não que ele a queria mal, queria apenas bem longe.
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