Manhunters
3 Divergências
Notas iniciais
Cassino Bellagio. 31 de dezembro, 23h50. Dez meses atrás.
— Fim de jogo. A casa ganha. — disse o crupiê, sem olhar para o jogador de blackjack frustrado.
O homem, revoltado com a derrota, bateu na mesa com as mãos em punho. Ele perdera o equivalente a 20 mil dólares em uma hora de jogo. O crupiê, pelo contrário, parecia não dar a mínima. E não dava mesmo.
— Senhor. Vai continuar a jogar? — perguntou o funcionário, arrumando as cartas no embaralhador.
— Vá se ferrar, cara! Seu desgraçado! — O homem levantou-se bruscamente da mesa. Ele lançou um olhar extremamente hostil como se estivesse prestes a atacar. Mas notou que um segurança estava por perto, então preferiu ir embora bufando.
— Igualmente. — Ele respondeu em voz baixa, após um suspiro.
O crupiê ali era Arthur Kyle. Cansado, estava ali no fim de seu turno, agradecendo mentalmente por aquele homem ter finalizado o seu fracassado jogo. Já havia passado da hora, e com certeza sabia que não ganharia hora extra. Queria estar a comemorar o Ano Novo fora daquele lugar. Mais injusto para o homem que perdeu dinheiro no Blackjack era para o trabalhador, obrigado a ficar ali.
Trocou de roupa no vestiário de funcionários. Saiu do hotel/cassino e observou as pessoas ao seu redor. Gritavam, bebiam e festejavam como se o mundo estivesse prestes a acabar. Arthur estava cansado demais para comemorar a virada do ano. O que mais desejava era cair em sua cama e descansar até a hora de acordar, arrumar-se novamente e retornar ao trabalho.
— Achei que não viria mais.
— Também pensei.
Arthur estava cansado, mas nem tanto, é claro. Fora do Bellagio, encontrou-se com uma mulher de mais ou menos 24 anos. Branca, loira, corpo tipo modelo, bem atraente. O crupiê nunca pensou que pudesse atrair uma mulher como aquela.
— Amor, eles me seguraram aqui. Vou ter que fazer hora extra. —falou desanimado para a esposa ao celular.
A mulher ao seu lado riu, segurando para não cair na gargalhada.
— Sério mesmo? — sussurrou.
O crupiê se despediu da esposa e desligou o celular.
— O quê, tinha uma desculpa melhor? — deu de ombros.
— Não. — A mulher balançou a cabeça rindo.
Arthur era quase o exemplo de homem ideal. Gente decente, marido atencioso, vivia numa casa confortável com uma esposa maravilhosa e tinha um emprego estável. Só faltavam os filhos para o mundo ao redor o ver numa vida perfeita. Mas é o que pessoas dizem, só a ponta do iceberg.
Os dois seguiram para o carro dela, um Peugeot 207 preto para West Flamingo Park, oeste do cassino, e ela estacionou o carro no entorno. Esgueiraram-se pelo banco de trás e não demoraram em tirar a roupa. Fizeram sexo, mas com camisinha é claro; Arthur não queria que a esposa desconfiasse de nada. Depois de quase uma hora prazerosa, Arthur estava cansado demais para outra rodada.
— Já está indo? — perguntou a mulher — Porque não vem comigo? Você inventa outra desculpa depois.
— Falei que ia fazer hora extra. Além do mais, minha mulher deve estar me esperando. Sabe como ela é.
— Então por que não fica mais um pouco? A gente tem todo o tempo do mundo.
— Não, não. Não vou me complicar com minha esposa.
Despediram-se em um beijo rápido e Arthur saiu do carro. O crupiê decidiu passar no parque para cortar caminho, já que sua casa ficava próxima da Rodovia Fairbank. Para isso teria de passar por um amontoado de jovens que curtiam a passagem do novo ano.
— O tempo está acabando... — disse uma voz distante, misturada a tantas outras na multidão.
Arthur apertou o passo. Pediu passagem inutilmente aos outros que não davam a mínima para o tempo. O tempo estava passando para ele, que não queria demorar nenhum segundo até voltar pra casa, encontrar a esposa e viver a sua vida perfeita. Chegou numa parte distante do parque, onde se encontravam pouquíssimas pessoas. Estava entre árvores e alguns arbustos, e já conseguia ver o caminho até a rua. Porém, não percebeu quem o observava.
— Seu tempo acabou.
Foi abordado por trás. O pobre Arthur mal teve tempo de abrir a boca para gritar. Zodíaco tapou sua boca com sua mão esquerda coberta por uma luva de couro preto. Um único golpe, rápido. Na mesma hora o sangue jorrou para fora de seu corpo.
Assim que terminou, o assassino soltou o crupiê, que caiu de joelhos involuntariamente. A única coisa que Arthur fez nos segundos que lhe restaram de vida foi agonizar e ver o sangue se espalhar por suas mãos. Caiu de bruços.
Mas o assassino não havia completado o trabalho. Virou o corpo de Arthur e com o sangue que ainda jorrava de sua garganta, escreveu a hora em sua testa, bem grande para que todos vissem. 01:00, a hora um. O relógio de seu pulso tocou. Uma hora da manhã.
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Depois da pequena discussão que tiveram, os dois terminaram em silêncio. Ao ouvir aquela resposta da detetive, Grissom mordeu o lábio inferior para calar a si mesmo. Ele a encarou e depois voltou para o seu painel. Continuar a discussão seria perda de tempo e a única coisa que ambos gostariam de fazer no momento era isso. Ele respirou fundo e cruzou os braços.
— Grissom? Grissom?! Ei, acorda! — A detetive estalou os dedos à frente de seu rosto.
— Hã? —Ele ergueu as sobrancelhas.
— Ah... — balançou a cabeça — Você ficou fora do ar agora a pouco, sargento. — Ironizou o “sargento”.
— O que foi que você disse? — Perguntou ele, meio distraído.
— Deixa pra lá. Algo não bate nesse relatório. Não faz sentido.
— Continua com isso? O que você acha que poderia não fazer sentido, Sidle? — Grissom perguntou como se estivesse implorando que ela parasse de insistir.
— Raciocine comigo. Segundo a esposa, Lisa Kyle, Arthur ligou para ela à meia-noite e cinco disse que ficaria para fazer hora extra.
— Certo. Ambos os celulares registraram o horário da ligação. —Ele assentiu.
— O West Flamingo Park é próximo do caminho até sua casa, no Spring Valley. Se Arthur ligou para a esposa e disse que ficaria por mais tempo no trabalho, por que ele foi achado morto no parque naquele horário? — A mulher fez um gesto com a mão — Segundo o gerente- — Sara tentou pegar a pasta da mão de Grissom, que puxou automaticamente para si, encarando-a — Arthur não fez hora extra lá, ele saiu de lá logo depois de ter finalizado o turno — Finalmente ela conseguiu pegar de sua mão. — Além disso, que tipo de pessoa pegaria aquele caminho logo naquele horário? Segundo relatos, o parque estava cheio de pessoas, um caos.
— E daí? — Grissom perguntou com desdém.
— E daí que não temos informação nenhuma sobre o que aconteceu nesse meio tempo. Por que ele estaria ali?
— Isso é irrelevante.
— Claro que não! Descobrir o que aconteceu pode nos ajudar a entender o motivo de ele estar lá! As câmeras de seguranças podem ajudar. — Ela persistiu — Além do mais, foram encontradas evidências de espermicida nas genitálias dele! Com certeza ele saiu para dormir com outra mulher!
— Sidle. — O sargento foi curto e grosso — Você vai perder o seu tempo. Vai apenas encontrar um beco sem saída. — Antes que a detetive pudesse retrucar ele continuou — Ainda que você encontre o motivo do cara estar lá não vai ajudar em muita coisa. Eu tenho plena certeza que o assassino escolhe suas vítimas aleatoriamente.
Sara encarou o homem à sua frente. Ele não disse, mas tava na cara que se demonstrava avesso a sua presença. A morena mal voltou e já queria sair da sala novamente.
— Eu discordo. Deixamos de notar detalhes importantes se analisarmos as evidências superficialmente. Quem sabe se a gente não consegue encontrar o assassino por meio das filmagens!
— Eu sei disso! — Grissom aumentou a voz — O problema é que não temos todo o tempo do mundo, Sidle! Menos de um mês é o tempo que temos até o cara fazer mais uma vítima!
— É por isso que precisamos revisar as evidências, droga! — Ela ergueu os braços.
Silêncio tomou a sala. Estava insustentável para os dois ficarem juntos.
— Quer saber, — Sara fez um gesto com a mão — deixe que eu revise os casos sozinha, sem tomar o seu precioso tempo, e você... continue com o que estava fazendo, certo?
— A sala de arquivos fica no quarto andar. — O sargento apontou para cima.
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