Manhunters
35 Em busca da verdade
Notas iniciais
— Então, o que acham? A gente chama o Lewis para ele soltar o bico logo?
Enfim, os dois policiais retornaram à delegacia. Se encontravam, no momento, na sala do capitão Brass, com a presença do mesmo, e do promotor Carver. Sara estava sentada na cadeira frente à mesa do capitão, enquanto ele estava em seu respectivo assento. Carver e, incrivelmente, Grissom, estavam de pé.
— Não sei se seria uma boa ideia. — Brass tomou a palavra — Temos o risco de expor o Hernández para ele.
— Uma hora eles saberão disso, é só questão de tempo. — Grissom, que estava próximo à porta, se manifestou — O único ponto positivo em falarmos com os outros guardas primeiro, é que possivelmente teremos mais peso em nosso argumento quando falarmos com Lewis.
Silêncio na sala.
— Também há a chance de eles negarem a declaração de Hernández. — disse Carver.
— Não custa tentar. — O sargento olhou para o promotor, que estava à sua direita, mas um pouco distante — O que eles terão a perder? Ficar sustentando uma mentira até onde der para depois todo mundo se ferrar na cadeia enquanto Hernández consegue um acordo razoável? — Deu de ombros — A propósito, Hernández deu os dados da conta para vocês, não é? — Ele perguntou, se dirigindo ao capitão.
— Sim, esqueci de falar. O perito contábil analisou a conta bancária dele nos dois países em que o dinheiro foi depositado. Tudo o que ele falou está certo, cem mil nas duas contas. Mas como as leis de países com refúgio fiscal dificultam a obtenção de informações sobre a conta, não há como saber logo se a conta é necessariamente deles, somente a do Hernández. Levaria muito tempo.
— Só isso? — Meio decepcionado, o sargento o questionou.
— Recebi a notícia que os peritos estão verificando se outras contas foram abertas nesse período nesses países específicos. Só que isso é complicado e incerto de confirmar se as contas são dos caras. Não me deram um prazo.
— Não dá pra ficar esperando uma resposta deles. Precisamos então da palavra daqueles caras, então. Que ótimo. — Grissom ironizou a situação.
— Eu tenho uma ideia. — falou Sara, de repente. Isso chamou a atenção dos outros três, que a visavam atentamente.
A morena se virou para os três, vindo a se levantar.
— Jogue-os uns contra os outros. — Empolgada, ela falou sem hesitação.
O promotor e o capitão se entreolharam. Grissom encarou-a e simplesmente sorriu. Na mesma hora compreendeu a ideia da detetive.
— Bem, pode funcionar. — O capitão se dirigiu a Sara, que se virou para ele no mesmo instante.
— Acho que conheço a pessoa certa que pode nos ajudar.
Grissom mudou de semblante assim que imaginou o possível nome que ela citaria.
— Está falando de quem? Do Philip? — O sargento franziu as sobrancelhas; não gostou muito daquela sugestão.
— Ele tem um perfil maleável, assim como Hernández, só é um pouco excêntrico. Quer dizer, bastante. — A mulher revirou os olhos, quando terminou de falar com Grissom. Depois se voltou para — Eu posso falar com ele e-
— O quê? Não! — Grissom a interrompeu de repente.
Sara franziu o cenho. Inconformada com a negação ela aumentou ligeiramente o tom de voz.
— É o quê?
— Não acho que George Philip seja um homem... — Ele baixou a voz — adequado para isso.
— Por que não, Grissom? — Brass cruzou os braços.
— Ele é ardiloso, tem um caráter questionável e carrega acusações de assédio contra mulheres ainda por cima. Não dá para deixar vocês dois lá naquela sala. — disse, olhando para a morena.
— A gente tá numa delegacia, Grissom! Não numa casa abandonada a centenas de quilômetros. — Ela ironizou.
— Philip não vai dizer a verdade... Sidle. — hesitou brevemente ao voltar a chamá-la pelo sobrenome — Ele vai enrolar e tentar ficar de gracinha com você. — Apontou para ela.
— Deixa ela falar, Grissom. Se a Sidle acha que pode dar conta, então a deixe fazer isso. — Brass fez um gesto com a mão. Sara ficou satisfeita com aquilo, ao ver que pela primeira vez o capitão estava do seu lado — E eu vi como você agiu como ele naquela hora. Estava muito estressadinho com ele.
É, mas foi ela quem estava querendo briga com ele, não eu!
Na verdade, ele também estava, sim.
O sargento franziu a testa. Estava a ponto de dizer o que acabara de pensar. Não queria, de forma alguma, deixá-la falar com George naquela sala, ainda que fosse em uma delegacia. O modo como o guarda se mostrava tratar as mulheres era reprovável, dava nojo. E por outro lado, prezava em mantê-la longe de quaisquer problemas, mesmo que achasse que a morena era do tipo em que se jogava pra cima deles.
— Está bem, vá em frente. Vou ficar na outra sala. — Grissom respondeu, após alguns segundos de silêncio. Dava para notar em sua voz que ele não gostou de ser contrariado — Vou pedir para levarem ele até o local.
Sem esperar, o sargento tomou seu caminho e deixou a sala do capitão sem olhar para a detetive ao menos.
— Vai lá, Sidle. — Brass deu a permissão — Vamos ver o que consegue arrancar dele.
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Está bem...
A detetive estava pronta. Era hora de conseguir mostrar as outros e a si mesmo que tinha jeito pra coisa. Sara já passou por vários interrogatórios e se saiu bem em muitos deles. No momento que viria precisava, apenas, manter a calma. E dessa vez não teria ninguém para quebrar seu raciocínio ou criticá-la. Ele mesmo em quem estava pensando. Sargento Grissom.
Carregando consigo uma pasta com vários arquivos, a morena tomava seu caminho diretamente para a respectiva sala. Só que antes disso, a pessoa em que ela gostaria de evitar foi logo quem apareceu. Ele mesmo. Sargento Grissom.
— Sara. — Próximo à sala de observação, assim que a viu, Grissom a chamou e fez um gesto com o pescoço.
Não queria ter que "adiar" seu compromisso pra ter que falar com o sargento, ainda mais depois do momento de antes. Só que acabou acatando ao pedido, para não parecer ignorante.
— O que foi, hein? Quer me convencer a não falar com o Philip? — falou sarcasticamente ao entrar na salinha.
— Antes de você falar com Philip, tem um detalhe que você se esqueceu.
— Ah é? E qual seria? — Impaciente, ela perguntou de mal gosto.
— Como você vai provar a Philip que eles estão envolvidos nisso e que ele foi o responsável por mover a câmera?
A detetive fechou a cara na mesma hora.
— Vai fazer o quê? Vai dizer que um deles o dedurou? — O homem apontou para trás de si.
— Tá dizendo que-
— Estou dizendo que não adianta acusá-lo de algo se você não tem provas.
A morena olhou para o lado.
Haviam momentos em que as técnicas de persuasão funcionavam com um alvo, em outros, falhavam com outro. Sara corria o risco de obter absolutamente nada do guarda, ou no pior dos casos, obter uma mentira.
— Ou seja. Se quiser provar algo contra ele, vai ter que usar o depoimento do Hernández, que pediu tanto a nossa ajuda. E que você quis tanto proteger anteriormente.
— É o quê? Eu não-
— Você sabe disso, Sara. Ainda mais no começo. Você achou que ele estava sofrendo ameaças e quis agir amigavelmente com ele.
Aquelas palavras soaram frias e chocantes. Mas eram apenas a verdade, ditas de um modo rígido. Sara enfrentava uma dualidade poderosa: da mesma forma que gostaria de divulgar o áudio de Hernández para os outros guardas, tinha receio se o fizesse. Receio pelo que poderia acontecer futuramente com a vida dele, mas principalmente com a vida daqueles que o guarda queria proteger.
Às vezes ela tinha um coração mole demais. E sofria com isso.
Ela não retrucou.
— Bom que você conseguiu que o Hernández falasse, e fico muito satisfeito. Só que nós não temos garantias se o Philip vai falar também será verdade.
A mulher se afastou dele.
— Então a gente tá fadado a ficar nessa esfera de incerteza? É isso?
— Nós precisamos de provas concretas, Sara! — Grissom ergueu os braços — Já parou pra pensar que talvez a gente pode ter se metido num beco sem saída?
Aquela questão era como um espinho na carne, que cada vez mais se encravava na pele dos policiais.
— Eu sei! — A detetive fez um gesto com as mãos — Mas eu não acho que o Hernández mentiria na cara dura pra salvar a si mesmo. Ele já tá ferrado por admitir a culpa! Que tipo de pessoa admite culpa e diz que recebeu duzentos mil daquela forma?!
O sargento levou a mão à testa e balançou a cabeça. Ainda não gostava daquela ideia. Estava bastante preocupado com o caso e o que poderia acontecer se um dos dois acabasse deslizando.
— E voltamos à pergunta anterior: está disposta a expor o Hernández para ter alguma base?
Sara balançou a cabeça por várias vezes.
— E eu tenho escolha? — Ela deu de ombros.
— Tem várias. É você quem decide.
Ela tomou fôlego e expirou por um longo tempo. Precisava tomar uma decisão, e rápido. Ela sabia que sua escolha poderia definir um rumo naquele ramo da investigação.
— Estou te dando as rédeas, Sara. — Ele disse próximo a ela, que ficou na mesma posição, sem olhar para o sargento — Mostre porque você quer entrar para o FBI.
Sara o observou de lado. Aquelas palavras que soaram como um desafio, da mesma forma, soaram como um incentivo. Até que gostou de ouvi-lo falar daquele jeito.
— Eu tenho outra ideia. — Ela sorriu — Mas vai ter que confiar em mim. — Concluiu, ao se virar para ele.
O sargento a encarou por três segundos e depois olhou para a porta. Deixou-se distrair por aquelas palavras.
"Confia em mim?"
A pergunta que perdurou em sua mente o fez se lembrar da mesma pergunta que recebeu anos atrás.
Não, agora não.
— Então?
Assim que a ouviu falar novamente, Grissom, surpreso, se voltou a ela.
— Vá em frente.
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George Philip foi encaminhado novamente para a sala de interrogatório. Estava sem as algemas e se apresentava aparentemente calmo. O oficial o levou até a porta e depois o deixou, fechando-a em seguida. Logo, o guarda deu de cara com a detetive, sentada à mesa. Cotovelos apoiados na superfície, dedos entrelaçados e uma neutralidade assustadora.
— Olá, você por aqui de novo? — Philip brincou, como sempre. Ele apontou para ela e se aproximou da cadeira, de onde logo se sentou.
— Pois é, Philip. O que achou do lanche? — A mulher deu de ombros, e chegou a sorrir por breves segundos.
— Já comi melhores, — Ele assentiu, lançando-lhe um olhar malicioso — se é que me entende. Mas a comida estava boa. — Terminou cruzando os braços.
Céus, que babaca.
— Que bom. Agora que está de barriga cheia já estamos em condições de prosseguir com o interrogatório.
— Onde está o sargento? Não vai vir? — O guarda, que ainda estava de braços cruzados, olhou para os cantos da pequena sala e depois para a porta.
— Não Philip, o negócio é entre mim e você agora.
Ele ergueu as sobrancelhas.
— Ah é? Então tá. — Deu de ombros e sorriu intencionalmente.
— Olha só. Você tá vendo que esse gravador está registrando toda a nossa conversa, certo?
— E?
— Eu quero que você me conte toda a verdade, Philip. Ou se não vai se complicar com a justiça depois.
— De novo?! Eu já disse tudo o que tinha a dizer, senhorita detetive. Não sei mais o que quer de mim.
— Pare de ficar fingindo que não tem nada a ver com isso, Philip. A gente já sabe o que houve.
O homem franziu as sobrancelhas. Confuso, logo fechou a cara ao notar que a detetive parecia não estar blefando.
— Sabem do quê?
— Do esquema, que levou vocês quatro a aceitar uma grande quantia em dinheiro para deixarem o assassino matar Vanessa Temple.
Ao ouvir aquilo, passados alguns segundos, George começou a rir.
— É o quê? Que tipo de pegadinha é essa?
— Olha pra mim e veja se estou brincando. — Ela falou pausadamente.
Ficar na sala com aquele homem era irritante e angustiante. Em tantos interrogatórios que precisou conduzir, talvez aquela seja a primeira vez em que tinha vontade de prender o homem por simplesmente ser um cretino.
— O que você tá falando é muito sério, tá? Como você pode provar que eu tenho envolvimento nisso?
— Um de seus colegas te dedurou. — Sara deu de ombros.
— Você tá blefando. — Ele se recostou na cadeira, um pouco convencido de suas próprias palavras.
— E porque eu mentiria com uma coisa séria dessa? Acha que eu estou mentindo ao falar que sei que você aceitou os duzentos mil dólares depositados em paraísos fiscais, e que você foi o responsável por mover a câmera?
Ela o encarou.
— Posso ver isso em sua linguagem corporal. O jeito como seu corpo reagiu às minhas palavras... — A detetive inclinou seu corpo para encará-lo de mais perto — Se você não estivesse envolvido, com certeza não reagiria desse jeito, mesmo se expressando minimamente.
George fez um gesto negativo com o dedo da mão.
— Não, isso não é verdade... quem te contou isso? — perguntou ligeiramente irritado.
— Para que você quer saber, se você admite que é uma mentira? — A mulher remexeu os ombros. Quase riu ao ver aquela reação.
— Para eu ficar ciente de quem está inventando essa mentira! — Ele fez um gesto com as mãos.
— Sinto muito, senhor Hernández, mas eu não posso te contar essa informação. — Sara balançou a cabeça.
— Por que não?
— Para resguardar a confidencialidade dele.
Como estavam apoiadas sobre a mesa, Sara percebeu que Philip, lentamente, fechou os punhos, nervoso com aquela resposta.
— Foi o Hernández ou foi o Davis, não é? — retrucou, apontando com a mão esquerda para a porta.
— Já falei que não posso contar, senhor Philip. — A detetive franziu a testa — A propósito: Porque o senhor citou esses dois? Por acaso tem alguma acusação a fazer ou alguma informação relevante para contar?
Ele virou o rosto bruscamente para o lado direito.
Deve estar desconfiando do Hernández. Não me admira.
— Pelo visto o senhor continua relutante em falar alguma coisa, não é?
O guarda suspirou, visivelmente irritado com a situação que se apresentava desfavorável a ele.
— Sabe que tem uma chance de contar toda a verdade e "tentar" se salvar no meio desse caos todo, não é? — Ela se recostou na cadeira e cruzou os braços. Seu semblante era mais relaxado.
George visou-a de canto de olho.
— Nesse momento, o sargento Grissom está falando com outro de seus colegas e oferecendo a ele um acordo em troca da verdade, sabia?
— O quê?!
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Não muito tempo depois que o guarda Philip chegara para o interrogatório, numa outra sala, deveras semelhante à anterior, Samuel Davis entrou no espaço após o oficial lhe permitir. Ao entrar lá, encontrou o sargento Grissom sentado à mesa, de frente para o painel espelhado, desta vez. Seu rosto era sério, quase bravo, demonstrando-se, aparentemente, o de uma pessoa que não queria estar ali.
Detalhe, era que outro gravador estava no centro da mesa.
— Olá, novamente, senhor Davis. — Grissom falou, pedindo para que ele se aproximasse.
— Olá, sargento. — Assentiu, vindo a se sentar na cadeira de frente a de Grissom — Se me chamou aqui de novo é porque tem algo importante pra falar, não é?
— Você é bem esperto, parabéns. — respondeu Grissom, revirando os olhos por breves segundos, quase imperceptivelmente — Vou te contar o motivo de estar aqui... de novo. — Terminou, vindo a apertar no botão do gravador para começar a registrar a conversa.
— Pode falar.
— Disse que não tinha nada a ver com o assassinato da mulher, certo? E que não viu ninguém mexer na câmera de segurança ou viu o suspeito passar pelos cantos do parque.
— Certo. — Ele concordou, sem problemas.
— Sendo que... nós descobrimos, que isso não foi exatamente verdade.
— Como assim? — O guarda franziu a testa.
— Segundo o relato de um dos seus colegas, tudo isso foi um esquema para auxiliar o criminoso naquela noite, ou seja: vocês foram pagos para deixar o assassino entrar no parque e matá-la. Sem contar que um de vocês moveu a câmera para que ele não fosse visto.
O homem frente ao sargento piscou várias e várias vezes como uma resposta. Não responde de cara como quase sempre fazia. Pelo contrário, ficou revezando entre encarar Grissom e a mesa um pouco abaixo de si.
— Não tem nada a declarar? — perguntou Grissom, se fazendo de curioso.
— Eu...
— Um dos seus colegas concordou em fazer um acordo em troca de falar toda a verdade. E nesse momento, minha parceira, a detetive Sidle, está negociando em fazer um acordo com outro. — Ele apontou com o dedo polegar para o guarda — O tempo tá acabando, Davis. Tem certeza que você não tem nada a ver com isso?
— Não, — Davis ergueu a mão direita — peraí-
— Já esperamos tempo demais, senhor Davis.
O guarda fez um som com a boca, um pouco inconformado por estar naquela situação.
— I-isso é mesmo verdade?
— Claro que é verdade. Inclusive, nós temos a conversa gravada do guarda que contou isso.
É, Sara...
A detetive tinha plena convicção e certeza de que Pedro Hernández falara a verdade, e ela confiava nas palavras dele, de alguma forma. Na conversa que ela e o sargento tiveram anteriormente, Sara se mostrou relutante em divulgar o áudio para os outros e expor o guarda tão repentinamente. Teve uma ideia melhor, em pressionar os outros guardas ao mesmo tempo, na tentativa de convencê-los a contar a verdade arbitrariamente e "chantageá-los" com o fato de que um deles contou a verdade. Eles tinham de fazê-lo. Apenas a palavra de Hernández não era suficiente para o júri ou para movimentar um caso. Se cada um admitisse a verdade, seria uma vitória para os dois policiais.
Ela confiava na palavra do guarda. E Grissom? Bem, ela era sua parceira, precisava confiar nela.
Ele confiava.
— Vocês têm, é? — Davis ergueu uma sobrancelha.
— Nem pense nisso, Davis, nós não vamos divulgá-la a você, mas tem a minha palavra que ela existe, que não é mais um blefe ridículo. — O sargento apoiou as mãos na mesa e recostou-se na cadeira — O que sobra a você é: acreditar no que eu falo; chamar um advogado, se quiser, e tentar fazer um acordo.
— Ou? — questionou, em voz alta.
— Ou você vai ser preso por cumplicidade, no mínimo, e por obstrução da justiça. — Grissom deu de ombros.
O guarda franziu a testa. Não gostou do tom que o sargento usou.
— Veja só: nós não precisamos de você, realmente, Davis. — Grissom quase zombou dele — Já temos o depoimento de um dos guardas e logo, com certeza, teremos o depoimento dos outros. — Ele se inclinou para a frente. Então entrelaçou os dedos das mãos e o encarou de perto — Estamos te dando a oportunidade de não se ferrar feio. O barco está afundando e você sabe disso.
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— Eu tenho o dia todo para esperar, Philip. Mas, tem gente que não. — A detetive deu de ombros — Se eu fosse você tomaria logo uma decisão sobre isso.
O guarda Philip novamente se recostou na cadeira e cruzou os braços e as pernas.
— Se você continuar assim, nós vamos prosseguir com o caso de qualquer forma. E não vão ser eles que vão sofrer as penas mais duras. — Ela sorriu ao final da sentença.
Sara o encarou atentamente após terminar de falar. Viu que ele se apresentava um pouco mais nervoso que antes, porém, ainda tentava se manter no controle de si próprio.
— Não precisa disfarçar, Philip, sei que está nervoso.
Ouvindo isso, George revirou os olhos para a direita.
— Queria saber se também estava assim em dois de fevereiro... — Sara olhou para os arquivos na mesa.
Ele mordeu o lábio inferior e começou a batucar a mesa com os dedos. Descruzou as pernas e continuou com o gesto, claramente impaciente.
— Chegou a vê-la, antes que fosse morta? — perguntou, ainda olhando para os arquivos.
— Eu quero um advogado. — Philip cuspiu as palavras.
— Deve ter sido emocionante ter mexido na câmera... e depois esperar lá no seu cantinho... posto de trabalho, o assassino ter tirado a vida dela. — Sara fez uma pausa, depois abriu a pasta e pegou uma foto de Vanessa, enquanto viva — Ela era bem bonita.
— E daí? Já falei, quero um advogado.
— Aposto que você teve algum desejo por ela, não é? — A morena o encarou, deixando-o mais irritado ainda.
— Você está louca?! Eu não fiz nada com aquela mulher! — Ele apontou para a mesa com o indicador.
— Ah é? Bem, achei que sim, já que nos registros que eu vi, muitas mulheres reclamaram que foram incomodadas por você. Umas até tentaram levar isso para a polícia.
— Elas eram loucas! A única coisa que eu fazia era conversar. Elas que inventaram essas merdas!
— Então você não fez nada com ela, não é? Só mexeu na câmera e depois esperou que ela fosse morta! — A detetive aumentou a voz, e se inclinou para a frente — Aposto que você ficou por perto e a assistiu morrer, decepcionado por não ter a chance de tocá-la!
— Eu não fiz isso! — retrucou em voz alta — Eu só mex- — Ele mesmo se interrompeu.
— Mexeu no que, Philip?! — Sara franziu o cenho, se fingindo de confusa. Acabara de confundir sua mente e induzi-lo a falar a verdade... parte dela.
O guarda cerrou os dois punhos e estava prestes a ranger os dentes.
— Eu quero um advogado. — resmungou, ao olhar para a porta.
Ela sorriu com a ignorância do homem à sua frente. Gostaria muito de rir, mas guardou a risada para si.
— Como quiser, senhor Philip. Mas saiba, que se ainda quiser se omitir de falar a verdade, sua vida vai ficar complicada. — Sara comentou, enquanto guardava a foto na pasta de arquivos. Ela se levantou e pegou a pasta e o gravador, pronta para deixar a sala.
— Eu vou falar a droga da verdade, mas só com um advogado. — Ele disse, cruzando os braços e olhando para baixo.
— Ótimo.
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Ela se encontrava na sala de conferência, também chamada sala de descanso. Era como a copinha, só que com diversas cadeiras e um sofá no fundo do espaço, e com menos variedades alimentícias. Pensativa, sentou-se no sofá e inclinou a cabeça para trás. Não adiantava fechar seus olhos para descansar, sempre os abria por causa de um ou dois pensamentos quaisquer. Então se manteve fixada ao teto, esperando por algo que nem mesmo ela sabia.
— Ah, aí está você. — Ele disse — Me fez andar uma boa parte do andar, sabia?
Era Grissom, que tentou parecer engraçado quando entrou na sala. Mas só tentou; pareceu mais um chefe meio irritado por não achar a subordinada.
— Fiquei meio desorientada então vim para cá. — A detetive respondeu, ainda olhando para o teto.
— Certo.
Ela soltou um suspiro.
— E então, o Davis abriu o bico?
— Ele relutou bastante.
— Nem tanto quanto o Philip, posso te garantir isso.
— Mas no final, ele contou a verdade, só com a presença de um advogado.
— Idem.
O sargento assentiu e se aproximou da morena, que voltou àquela posição, recostada no sofá e com a cabeça inclinada para trás. Fez um pequeno esforço e se sentou à direita dela. Também se recostou.
— Você conseguiu, Sara. — Grissom falou, virando o rosto para fitá-la.
A detetive soltou um sorriso e balançou a cabeça.
— Confesso que... no começo eu tive receio, mas depois, vi que o plano tinha tudo para dar certo. — O homem admitiu.
— Ah é? — Ela ergueu uma sobrancelha.
— Me desculpe. Você conseguiu, novamente. — completou-se em voz baixa. Você chegou na hora certa.
— Nós conseguimos, Grissom. Ou melhor, — Sara ergueu o dedo indicador direito — estamos conseguindo. Ainda falta uma carta do baralho: Lewis.
— Mesmo assim. Teremos a palavra de três contra um. E logo logo, Franklin Lewis não terá outra escolha a não ser contar a verdade.
Os dois se entreolharam por alguns segundos, que foram interrompidos pelo desvio de Sara, que se voltou para o teto, mais uma vez.
— Se Lewis foi o homem a quem Zodíaco entrou em contato, será que ele poderia descrevê-lo para um retrato falado, caso eles tenham conversado pessoalmente? — Ela deu de ombros — E aí vem outra pergunta: como Zodíaco entrou em contato com ele; por que ele?
— Era o supervisor daquele turno, então tinha certo "poder". E voltando à outra pergunta; acho difícil que os dois tenham entrado em contato pessoalmente. Acha que ele mostraria o rosto para qualquer um, com o risco de ser exposto caso descobríssemos o envolvimento deles?
— Pode ser isso... — A mulher balançou a cabeça — E mais: quem deve ser esse "investidor"? Será que é alguém próximo ao Zodíaco? — Continuou com a retórica — Deve ser, quem sabe... para agirem em operações como aquela. — Ela esticou os braços para a frente — Daqui a pouco os advogados dos nossos homens vão chegar. Espero que não demorem muito. Como hoje é domingo, não sei se terão tanta facilidade para encontrar um defensor público.
Sara se voltou para Grissom e o encontrou na mesma posição que antes; rosto e olhar direcionados a ela. Levou um pequeno susto.
— Bom trabalho, Sara. — O sargento assentiu, e falou numa voz incrivelmente afável.
Na mesma hora ela se virou para a frente na tentativa de amenizar o desconcerto. Ela sabia que não devia ficar daquele jeito, mas deixou escapar a reação.
— Vejo que aquela garota do passado evoluiu bastante.
Logo a vermelhidão do desconcerto pintado em suas bochechas desapareceu. E novamente o sargento voltava com o assunto do passado.
Ela franziu as sobrancelhas.
— Pois é, deixei de ser aquela garota ingênua. — A detetive retrucou um pouco irritada — Está tocando naquele assunto de novo.
— Pois é, eu estou. — percebendo aquela atitude, o sargento respondeu no mesmo tom.
— Você não vai desistir disso, não é? — Sara cruzou os braços e virou o rosto para a esquerda.
— Não, não vou. — Grissom suspirou brevemente — E não sei porque você responde dessa forma todas as vezes em que eu tento falar no passado.
— Deve ser porque não consigo reconhecer o Grissom de antes. — Ela deixou-se levar pela emoção e acabou respondendo daquela forma dura.
As palavras dela ecoaram como um sopro frio dentro da pequena sala.
— Ah... — Ele balançou a cabeça. De novo não.
— Eu só queria saber, Grissom! Por que você se esqueceu? — Não dava mais tempo de impedir a si mesma em fazer-lhe aquela pergunta. Tarde demais.
E novamente aquele questionamento pairava sobre os dois.
— Sara, eu... — Grissom levou a mão direita à testa e deslizou-a sobre o rosto — eu não queria me esquecer. — disse em voz baixa — Só que... não sei como dizer isso...
Diga logo, Grissom.
Ou talvez nunca mais poderiam se aproximar novamente.
— Aconteceu algo na minha vida. Algo que... — Ele tocou em seu joelho direito e fechou o punho com força. Tinha claras dificuldades em prosseguir; raramente hesitava daquele jeito — uma coisa que me afetou muito.
A mulher ergueu as sobrancelhas. Nunca o tinha visto daquele jeito antes, era surreal.
— Esses acontecimentos me abalaram e... me fizeram perder parte das minhas memórias.
Os lábios dela se movimentaram; ela estava prestes a lhe dar uma resposta, mas ficou boquiaberta. Ela o encarou, mas ele continuava a olhar para baixo. Foi doloroso para ouvir aquilo, mas não tanto quanto foi para ele dizer.
Não dava para imaginá-lo daquele jeito. Sara viu um Grissom desorientado, abalado, que mal conseguia completar as sentenças de uma vez só.
— Eu não... quis e nunca quis me esquecer de você, Sara. — O sargento suspirou — Mas aconteceu.
Sara fez um leve movimento com a mão esquerda, mas se conteve. Da mesma forma que se compadeceu por ele, não estava satisfeita.
— O que aconteceu, Grissom?
— Sargento, detetive?
De repente, um rapaz que vestia o uniforme da polícia apareceu à porta da sala e os chamou. Fim da discussão... novamente.
— Os defensores dos suspeitos acabaram de chegar. O capitão Brass pediu pra chamar vocês.
— Já estamos indo, obrigado. — respondeu Grissom. Então ele fez novamente um esforço e se levantou. Sara apenas o assistiu fazer aquele processo cansativo.
O sargento se virou para ela.
— Vamos, Sidle. Está na hora.
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