Notas iniciais
Fala, galera, tudo belezíssima com vocês? Aqui tá uma loucura, mas tá bem haha! Estou com umas trocentas matérias pra gravar na faculdade, porém firme e forte para mandar esse capítulo pra vocês com todo amor. Tenho certeza que vocês não vão se esquecer desse cap tão cedo. Caso esqueçam podem me cobrar depois kkkkkkk Obrigada a todos que estão lendo! Aproveitem!

De volta ao carro. Já passava das dez quando Grissom e Sara se despediram da família. Eles não esperavam que pudessem ficar todo aquele tempo e tiveram que admitir que foi bom. Após a "maratona" no trabalho que envolvia viagens e pesquisas, sair para descontrair e conversar foi como receber uma injeção de ânimo.

— Não sabia que você jogava basquete. — falou o sargento, logo depois de dar a partida no carro.

Sara, que recostou sua cabeça no banco devido ao cansaço, virou o rosto para encará-lo. Riu brevemente.

— É... você não sabe muita coisa sobre mim e eu não sei muita coisa sobre você. — respondeu sorrindo.

Grissom dirigia lentamente pela rua residencial. Ele se virou para encará-la, também. Seus olhos o guiaram diretamente para seus lábios, que permaneciam com o sorriso aberto. Mas ele não podia ficar daquele jeito por muito tempo, logo precisou voltar sua atenção à rua.

— É... — Grissom comentou baixo.

O sorriso de Sara se desfez.

— Eles gostaram bastante de você. — disse ele, após um minuto de silêncio.

— Eu também gostei deles. Há tempos não... passava um tempo numa... reunião familiar como aquela. — Ela disfarçou e se virou para a janela do carona.

— Eu... eu não ia perguntar isso, mas...

— O que foi? — Um pouco desconfiada, ela ergueu uma sobrancelha.

— Percebi que você pareceu meio... abatida em certo momento.

A mulher o encarou e notou que ele estava sério, mais para preocupado. Se qualquer coisa ou sentimento ruim chegasse nela automaticamente o sargento se sentiria culpado por isso.

Sara se virou para o lado direito, e ficou observando a rua. Apoiou seu braço na porta e só depois de alguns segundos ela se voltou a Grissom.

— Digamos que... eu não... tive um bom relacionamento com a minha família. — disse em voz baixa — Teve um momento em que... eu... acabei me lembrando dos "momentos ruins".

Ouvindo isto Grissom não conseguiu responder na mesma hora. Uma onda de insegurança e preocupação tomaram conta de si. Era mais uma revelação de Sara que ele não tinha ideia que pudesse ter acontecido.

— Me desculpe. Se eu... soubesse disso eu não teria-

— Deixa... — Ela gesticulou com a mão — Eu me diverti, até. — Assentiu, sorrindo de lado — Tenho que agradecer à minha irmã, foi ela quem me "empurrou" pra isso.

— Você tem uma irmã, é? — Curioso, ele perguntou.

— Sim. Annastasia é minha irmã de criação. Quem sabe, numa oportunidade que vier, vocês dois possam se conhecer. Anaya me lembrou muito ela.

— Eu gostaria de conhecê-la. — Grissom fez um gesto positivo com o pescoço. Após algum tempo quieto, falou novamente — E... quero te agradecer de novo por ter aceitado o convite.

— Ah... — Sara balançou a cabeça e sorriu.

— Estou muito contente que você tenha vindo.

— Não é sempre que uma oportunidade com essa aparece, não é?

— Verdade. — respondeu olhando para ela. Se pudesse, ficaria olhando para aquele rosto por mais tempo — Mudando de assunto... não queria me intrometer, mas... Sobre o que você disse no jantar acerca... do seu ex.

Surpresa, imediatamente a detetive olhou para ele.

— O que tem isso?

Rapidamente ele se virou para a parceira, mas logo olhou para a rua.

— Sinto muito.

— Deixa pra lá. — A mulher fez um gesto com a mão.

— Eu concordo com o comentário de Jackson: azar é o dele. — Um pouco envergonhado, ele soltou as palavras.

— Você nem sabe o que houve. — Com um semblante desconfiado, ela retrucou.

— É, não sei. — Grissom argumentou — Mas ainda assim digo que o azar foi o dele em se separar de você. Foi ele quem perdeu a oportunidade de tê-la ao seu lado.

O sargento não soube explicar, mas dizer aquilo foi estranho, como se sua própria garganta relutasse para que ele ficasse em silêncio.

Se eu não te conhecesse bem... o que eu não conheço muito, diria que está flertando comigo, pensou a morena, observando-o mesmo após terminar de falar.

— Ah... — Ela suspirou — Obrigada pelo comentário, mas não foi assim. Nós não "terminamos" o namoro.

Grissom ficou em silêncio. Queria saber a resposta, mas ficou quieto para não parecer enxerido. Como Sara já imaginava sua curiosidade iminente, continuou:

— Se lembra de quando fomos ao Lehman e demos uma volta por lá?

— Sim.

— Quando nos separamos, ou melhor, quando me afastei de você, — Ela riu — eu... liguei para o... Hank. — terminou falando com ênfase.

— Hank era o nome do seu ex namorado? — Ao franzir o cenho, Grissom a questionou.

— Pois é, que coincidência, não acha? — Brincou, dando de ombros.

O sargento balançou a cabeça e sorriu de lado. Aproveitou o sinal vermelho para encará-la.

— Então, quando eu liguei pra ele, — O tom dela rapidamente mudou — quem atendeu foi justamente a sua noiva.

— Sinto muito... de novo. — Ele tocou em seu braço na tentativa de confortá-la.

— Não precisa "sentir muito", não foi você quem estava traindo a noiva comigo.

— Claro que eu sinto. Foi ele quem te perdeu. Não soube valorizar a noiva, muito menos você.

Sua vontade em tocar-lhe o rosto era forte. Ele não gostou de vê-la daquela forma e faria de tudo ao seu alcance para fazê-la sorrir... se tivesse um pouco mais de coragem.

— Grissom.

— O que foi? — perguntou sem prestar muita atenção.

— O sinal já tá verde. — Sorrindo, ela apontou para a frente.

— Droga... — Ligeiro, ele pressionou os volantes e seguiu adiante com o veículo, arrancando uma risada breve da parceira.

— Sabe, foi até bom eu ter ligado pra ele, assim eu descobri o que aquele safado estava fazendo. — Ela assentiu — Ainda bem que ele está bem longe de mim.

O sargento não respondeu, mas ficou feliz ao saber que enfrentava bem o término da relação. Só não podia, ou melhor, não deveria demonstrar reação como aquela.

Os dois passaram alguns segundos em silêncio, como quase sempre faziam. Não faltava muito para chegarem à casa de Sara e Grissom achou que poderia aproveitar um pouco mais de tempo com ela.

— Como você e o... Ivanenko estão... se saindo? — perguntou meio apreensivo.

— Bem... não tivemos muito progresso nesses dias. Fiz questão de ir à casa de onde o Lewis estava hospedado para saber se havia alguma prova do envolvimento dele com Zodíaco, mas... nada. Era uma moradia provisória, só.

— Ele era esperto. Não deixaria rastros à vista.

— Também pensei nisso. Por isso eu pensei em voltar à Baker e depois ir a Elko para saber se ele deixou algo importante no meio disso.

— Espera. Você vai até lá sozinha? — Grissom se virou brevemente para Sara.

— Vou, sim. Algum problema?

— Sim, claro! Você está indo para o norte do estado sem ninguém para te acompanhar!

— Ah, não, Grissom. Não vamos deixar que essa maravilhosa noite seja estragada por mais uma discussão. — Quase implorando, ela retrucou.

— Eu sei, mas... — Tentou argumentar, mas não conseguia buscar as palavras corretas — Nós mesmos não decidimos que seguiríamos com os arquivos das vítimas seguintes?

— Sim, mas a gente não poderia prever que o Lewis seria morto. Isso abriu espaço pra nossa investigação.

Ambos os pontos de vistas tinham suas vantagens e desvantagens. Não havia o certo e errado, o problema real era o tempo. Grissom estava convicto de seus argumentos, mas o maior motivo de relutar contra a possível decisão de Sara era que ela estava prestes a "viajar" sozinha.

— Olha, — A detetive ergueu a mão direita e fez um gesto — vamos deixar para discutir isso depois, tá? Eu não planejava seguir amanhã, ainda tenho que resolver o caso da morte de Lewis. Quem sabe se até lá você não está de volta ao trabalho e aí nós dois vamos juntos até lá.

Ele percebeu a tentativa de sua parceira em tentar amenizar a situação. Chegou a se sentir culpado por querer começar, sem a intenção, uma nova briga.

— Tá... — O sargento gesticulou com a mão — Me desculpe. — disse entre um suspiro.

— Esqueça, não vou te culpar por isso. Eu entendo o que houve com você anos atrás e o quão protetor você se tornou ultimamente. — Ela enfatizou as últimas palavras.

— Obrigado...? — Ele ergueu uma sobrancelha.

— Ah... — A mulher sorriu. Não conseguia ficar séria ao vê-lo se comportar daquele jeito. Era assim desde a época da conferência.

O restante da viagem se deu por momentos longos de silêncio. Havia uma vontade de conversar sobre outros assuntos, mas uma força maior os impedia.

— Veja só, chegamos. — Disse ela, quando se aproximou da porta de casa.

Grissom encarou a casa alguns metros à sua direita. O trajeto de volta pareceu mais curto que o da ida, para o seu descontentamento. O "término do dia" foi um pouco melancólico; as horas passaram rápido para eles que aproveitaram o tempo de pausa do trabalho.

Ele parou o carro na porta, mas não desligou o carro.

— Você ainda iria, caso eu não aceitasse o convite? — Sara perguntou de repente.

Grissom atentou para os olhos dela. Parecia falar sério ao fazer uma pergunta quase banal.

— Eu iria, sim, porque eles são meus amigos. Mas não seria tão bom sem a sua companhia.

— Pare de tentar me comprar. — Sara fez uma careta desconfiada.

— Estou falando sério.

Após trocarem olhares em silêncio, a morena se manifestou:

— Eu vou acreditar dessa vez. — disse, pegando sua jaqueta e o pote de isopor que continua o último pedaço da torta de mirtilo. Ela se preparava para deixar o carro, quando se virou para ele novamente — Quer entrar? Eu... vou te passar as informações que consegui lá até agora.

Meio surpreso, Grissom ergueu as sobrancelhas.

— Não acha que está tarde? Você tem que acordar cedo amanhã.

— Não vai levar muito tempo. — Ela riu ao ouvi-lo falar daquela forma — Vamos. — Insistiu, dessa vez estendeu a mão esquerda.

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— E então, o que está achando? — perguntou a morena ao caminhar para o interior da casa.

— Aconchegante, acolhedora... — Ele comentou ao observar cada canto da modesta residência.

— Ah, não te falei? — Sara deu meia-volta para vê-lo — A casa é boa, sim. Tenho que agradecer ao pessoal que me ajudou na adaptação daqui.

— Quer dizer que desistiu da ideia em se mudar? — Grissom ergueu os braços ao parar de caminhar.

— Não falei isso. — Ela sorriu intencionalmente — Só acho que vamos precisar adiar mais uma vez os "nossos planos" de mudança. Eu posso "aguentar" ficar morando aqui.

— Entendo. — Grissom parecia um pouco decepcionado, mas compreendia o ponto de vista dela.

Sara estava prestes a se aproximar dele quando parou de caminhar.

— Quer saber, eu vou tomar um banho. Eu suei bastante hoje e não vejo a hora de trocar de roupas.

Grissom levantou o indicador direito na tentativa de argumentar com a detetive.

— B-banho?

— Não vou demorar. — respondeu ao caminhar para a cozinha, onde deixou o pote com a torta em cima da mesa. Trouxe a jaqueta consigo — Pode se sentar, fique à vontade. — Ela apontou para o sargento com o indicador e o polegar.

Em pouquíssimo tempo Sara deixou a sala e Grissom. Imóvel, ele olhou para os lados como se não tivesse meios de escapar. Sentiu-se preso, sufocado, como se estivesse numa gaiola. Tudo porque estava em sua casa, ou melhor, na casa alugada de Sara.

Após ficar um minuto inteiro em pé, Grissom olhou para o sofá um pouco à frente. Não teve outra alternativa senão se sentar ou a encontraria em breve com uma cara de tolo ainda em pé. Lentamente ele caminhou para o móvel e se sentou no meio dele.

Não, não, não.

Rápido, ele se levantou e foi para o canto direito do sofá. Espaço pessoal. Então se recostou e cruzou a perna direita. Apoiou o braço direito no encosto, mas logo voltou à posição original. Acuado, tentou se distrair observando os outros móveis da casa. Não eram muitos, mas o bastante para quem não iria ficar por muito tempo ali. Por mais que procurasse, não encontrou detalhes ou objetos que tornassem o espaço pessoal, como porta-retratos. Quase todas as casas que ele via tinham porta-retratos, mesmo um simples quitinete alugado ou uma mansão luxuosa com donos que quase nunca ficavam no lugar. Talvez fosse um mero capricho de Sara não optar por "decorar" a casa com estes objetos ou por um motivo exclusivamente e profundamente pessoal. As palavras que ouviu da morena sobre família e a ausência de itens como aquele o deixavam cada vez mais intrigado.

Uns oito minutos se passaram desde quando Sara se afastou dele. A solidão de minutos o deixou ansioso e até mesmo preocupado. Ele pensou consigo mesmo que se ela demorasse mais tomaria coragem e procuraria saber o que estava acontecendo. Mania de policial.

— Ei, desculpe a demora. — disse a morena, retornando com pressa à sala.

Surpreso, ele se inclinou para a frente e assistiu à parceira se aproximar. Sara vestia um moletom preto largo e uma calça azul clara. Em seus pés, usava pantufas brancas.

— Não, não se preocupe. — Fez um gesto com a mão.

— Você está com fome? — perguntou ela, indo em direção à cozinha.

— N-não...

— Eu sei, é estranho perguntar isso logo depois de um jantar, mas... aquela partida me deixou com fome. — Ela disse em voz alta. Depois de um minuto ela retornou com o pote de isopor aberto e um copo de vidro enchido com vinho pela metade.

Grissom ficou quieto. A única coisa que fez foi sorrir e balançar a cabeça.

Enfim, a morena se aproximou dele e se sentou ao lado, vindo a deixar o copo na mesa de centro. Então se recostou e suspirou fundo.

— O que a gente ia conversar mesmo? — Brincou.

— Sobre o andamento do caso. — Se segurando para não rir, Grissom tentou se manter o mais sério possível.

— Oh, sim. A nossa suspeita, Hilary Gordon. Ela tem ficha por posse de drogas e prostituição, mas nunca por assassinato. — Ela comeu um pedaço generoso e levou a mão à boca — Eu tenho o arquivo impresso aqui. Depois eu te dou.

— Se isso for mesmo uma estratégia do Zodíaco ele escolheu bem. Isso afastaria qualquer suspeita de uma conspiração para matar o Lewis.

— Concordo. — Ela assentiu.

— Foram à casa dela?

— O último endereço registrado estava ocupado por uma família há algum tempo. Depois disso, sem registro mais recente. — Deu de ombros.

— E como foi o crime?

— Bem, — Sara tomou um gole do vinho e deixou o copo na mesinha — chegamos a uma hipótese que o Lewis pagou pelos serviços dela e após ter bebido e cheirado cocaína ele foi asfixiado com o travesseiro do quarto. — A morena olhou para o lado e se voltou para Grissom em seguida — O Ivanenko ainda reluta na hipótese de que a morte do Lewis foi encomendada.

Ele ergueu uma sobrancelha.

— Quanto mais distante de Zodíaco essa morte parece mais ela se encontra conectada. É o que acho.

— Eu também. Mas ainda assim precisamos manter cautela. Se a morte não tiver relação com o envolvimento dele no outro caso, o que sobra para nós? Mais trabalho e o lamento da perda de uma peça importantíssima no caso.

— Se isso servir de consolo, a morte de Lewis abriu espaço para a investigação de seu envolvimento na morte de Vanessa. — Ele inclinou o pescoço para a esquerda.

— Você não disse que o melhor para nós seria avançar nas outras vítimas? — Ela fez uma careta.

— Podemos tratar disto depois. Nada precisa ser descartado.

— Ok, então. — A detetive riu e depois comeu outro pedaço da torta — O que Amanda falou pra você? Ela confirmou que viu mesmo um relógio com o nosso cara?

— Foi difícil para ela relembrar e até mesmo me contar o que houve.

— Acho que foi pela surpresa em saber que uma pessoa totalmente diferente de mim apareceu. — Sara lamentou — Ela deve ter ficado arrasada.

— Eu tentei explicar para ela o que houve. — O sargento fez um gesto com a mão esquerda.

— Obrigada, mas no fundo... acho que até eu ia ficar por conta. — Ela baixou o olhar — Enfim, prossiga.

— Ela disse que tinha quase 100% de certeza que viu um objeto reluzente em sua mão antes de Cassidy encontrá-lo. Como isso aconteceu há um bom tempo, ela não descreveu totalmente as características do suspeito. Depois disso ela me falou alguns detalhes que pouco nos ajudariam no caso. Mas ela fez um esforço para tentar nos ajudar a trazer justiça para a amiga.

— Ah... — A mulher suspirou — Fico feliz que ela tentou... — Ao terminar de comer toda a torta, Sara deixou a caixa e o garfo na mesinha e se recostou no sofá, apoiando a cabeça no encosto. Ela olhou para cima e depois para Grissom — Sabe, tem horas que eu fico pensando: coincidência esta que nos trouxe aqui, trabalhando juntos pela primeira vez após 8 anos sem contato...

Observando-a ficar daquele jeito, ele virou o corpo de lado.

— Você acredita em coincidências?

— Acho que isso é incrível demais. Veja: eu era uma detetive que mal começara a carreira lá em São Francisco; e aí eu assisto a uma palestra sua, nos conhecemos e depois... depois a distância vem e nos separa e anos depois cá estamos nós. Tudo porque um homem que era amigo do comissário é morto pelo assassino que você está procurando. Então ele me indica para a polícia de Vegas e o resto é história. — concluiu ela, enquanto permanecia na mesma posição.

Após ouvi-la comentar sobre o que houve nos últimos tempos Grissom franziu o cenho.

— Por que você não... falou sobre a gente quando começou a trabalhar comigo? — Ele gesticulou com a mão esquerda — A situação poderia ter sido diferente entre nós.

— Ah... você iria acreditar em uma mulher desconhecida que veio de São Francisco? — Ela sorriu ao olhar para ele.

— Poderia tentar. — Deu de ombros.

— Sem chance. — Balançou a cabeça — Percebi muito bem como você estava naquele dia. Eu que não me arriscaria em tentar te lembrar. — Brincou — E você estava tão concentrado no caso e depois de tudo o que te aconteceu antes... — Sara balançou a cabeça — Acharia difícil. Ao menos a situação entre a gente melhorou. — disse, ao pegar o copo com o vinho. Ela tomou um gole — Nossa isso aqui está ótimo, tem certeza que não quer?

— Sara... — Grissom insistiu — Eu já bebi um pouco lá na casa da Rose. E não foi você quem me impediu de dirigir naquela noite lá no Lehman? — perguntou desconfiado.

— Eu sei, eu sei, mas só eu que está bebendo aqui. Estou me sentindo mal. — Mudando o tom de voz ela tentou persuadi-lo.

O sargento encarou a detetive, que olhava para ele com uma careta. Não pode deixar de se recordar dos tempos de outrora e o modo que conversavam e trocavam piadas um com o outro.

— Vamos, eu não conto pra ninguém. Só desta vez. — Mais uma vez ela tentou persuadi-lo.

Ele não resistiu. Aquele rosto que lançava um olhar quase carente o fisgou em cheio.

— Certo. Vou querer só um pouco.

— Ótimo. — Sem demora, Sara se levantou e levou o pote de isopor e copo quase vazio consigo até a cozinha.

— Mas vou querer um copo d'água depois. — Disse ele em voz alta.

— Você quem manda, sargento. — Brincou, fazendo um gesto de continência.

Com quase a mesma rapidez que ela foi, Sara retornou com dois copos de vinho. O dela estava um pouco mais cheio do que quando levou; já o dele continha menos da metade da bebida. Ela entregou o copo para ele e depois se sentou.

— Isso merece um brinde. — Sorridente, a mulher ergueu o copo para perto do rosto.

— Brinde pelo quê?

Por nós? Pensou a morena.

— Não sei... por estarmos juntos novamente após oito anos longe um do outro? Coincidência ou destino?

Ele encarou o copo em suas mãos e depois se virou para a mulher. Finalmente fez o gesto para o brinde:

— Um brinde à coincidência e ao destino.

Ambos sorriram e brindaram seus copos. Após isso Grissom foi o primeiro a tomar um gole.

— O que achou? — perguntou ela.

— Você tem bom gosto. — Assentiu.

— Bom saber. — Sara tomou um gole do vinho.

Os dois se entreolharam por algum tempo. Um tempo maior se comparado às outras vezes. Sem intenção ou com toda a intenção, seus olhares percorriam seus rostos e chegavam aos lábios. Aquela mesma troca de olhares não foi novidade; ocorreu da mesma forma há oito anos. A cada dia que se passava os recém-amigos ficavam cada vez mais próximos. Só de estar perto um do outro já era motivo para um sorriso ser aberto. Sorriso que atraía o olhar. De repente os dois não percebiam, um sentimento diferente que mexia com a mente e o peito. Mas aquilo foi passado.

— O que tem feito nestes... últimos anos? — O sargento disfarçou, só que não conseguiu evitar em olhar seus lábios. Chegou a engolir em seco.

— Eu... — A detetive procurou as palavras corretas — trabalhei e trabalhei duro. — respondeu em voz baixa.

— Pude notar. Ser indicada pelo comissário não é para qualquer um.

Ela sorriu e finalmente desviou seu olhar dele.

— Estou orgulhoso de você. — falou sem reservas — Eu sabia que aquela jovem de antes iria longe.

— Fala isso como se você fosse um idoso. — Brincou.

— Pareceu? — O homem sorriu de lado.

Sara assentiu, apenas. E não tirava aquele sorriso do rosto.

— Hum. — Ele tomou um gole da bebida — Talvez eu esteja ficando velho.

A detive apoiou o cotovelo direito no encosto do sofá e sustentou o rosto.

— Eu não acho. — Ela deu de ombros.

Grissom riu brevemente, tomou todo o restante do conteúdo em seu copo e o deixou na mesinha. Virou um pouco seu corpo para ficar de frente com Sara, assim como ela fez.

— Sabe... eu tô pensando naqueles tempos. — Ela disse, após olhar para cima — Você se lembra quando um cara insistiu em discutir com você sobre aquele caso do...

— Alex Mitchell? — Grissom a completou — Como eu poderia me esquecer... — Ele riu e balançou a cabeça. Irônico, para ele, dizer aquilo. Após todo um aparato que apagou de sua mente uma série de eventos, comentar sobre este assunto com tanta tranquilidade chegou a ser um pouco estranho.

— Eu estava me segurando para não chorar de rir lá na plateia! — A mulher fez um gesto com as mãos — Aquele homem insistia que o crime foi doloso quando na verdade foi culposo, praticamente um acidente. A questão era que você quem resolveu o crime! Ele queria bater boca com o próprio investigador!

Os dois caíram na risada. Percebendo aquilo, Sara se calou aos poucos e ficou olhando para o semblante de Grissom, muito mais leve que das outras vezes.

— Ei, há quanto tempo não te vejo assim, sorrindo... — Com o indicador, ela apontou discretamente para seu rosto.

— Pois é. — O sargento assentiu lentamente — Foi como nos velhos tempos. — Completou-se ao desviar o olhar dela.

— Confesso que sinto falta.

Ele a encarou nos olhos.

— Não somos mais aquelas pessoas de anos atrás. Nós mudamos.

— Mas isso não quer dizer que seja algo ruim. — Ela insistiu ao mover a mexa do cabelo para trás.

Silêncio. Silêncio dele, que engoliu em seco novamente ao vê-la fazer aquilo. Silêncio dela, também, que calou a si mesmo ao declarar aquelas palavras. Silêncio mútuo.

Grissom ergueu a mão direita e levou até o rosto dela, onde deslizou o polegar próximo de seus lábios. Imóvel, Sara não reagiu; o coração acelerou na velocidade de um projétil disparado. Tudo o que pôde fazer foi observar seu semblante neutro, calmo, quase frio, enquanto sua mão tocava em sua pele.

— Uma migalha da torta. — disse baixo após finalmente se afastar. Quase não conseguiu disfarçar o sentimento de satisfação que obteve ao fazer aquilo.

— Obrigada. — Quase sem voz ela agradeceu.

Ao apoiar os antebraços em seus joelhos e inclinar seu corpo para frente, Grissom soltou um suspiro:

— Está na hora, Sara. Eu tenho que ir.

No momento seguinte ela ficou séria. Nem pareceu que os dois passaram um bom tempo juntos naquela sala.

— Mas já?

— Você vai trabalhar amanhã, não quero que se atrase por minha causa. — Ele balançou a cabeça.

Você não precisa ir. Pensou ela, mas não teve coragem de falar. E fez certo, já que seus argumentos para se defender poderiam deixá-la mal. Sem olhá-la, ele se levantou. Sara não fez o mesmo em seguida; ficou olhando para o sofá na mesma posição de antes.

— Nos falamos depois? — perguntou descontente.

Só depois de alguns segundos, Sara finalmente se manifestou. Ela se levantou sem muita pressa e olhou para o parceiro.

— Está bem. —Ela fez um gesto com a mão para que ambos seguissem adiante.

Em silêncio, a morena se adiantou a ele e tocou na maçaneta, prestes a abrir a porta.

— Tomem cuidado vocês dois nesta semana. — Grissom falou, o que a fez afastar sua mão do objeto.

— Você é quem precisa tomar cuidado. Está sem a sua arma. — Ao olhar para seu rosto, Sara apontou para ele.

— Eu tenho uma arma reserva.

— Ah... por que eu sempre falo isso? — Sara riu discretamente e balançou a cabeça.

Novamente, quando ela estava prestes a abrir a porta, Grissom falou:

— É com você que eu me preocupo.

E mais uma vez ela voltou sua atenção para ele. Não perceberam, mas os policiais estavam a uma curta distância. O espaço quase não existia entre eles, o que não era de tão ruim.

— Me prometa que vai tomar cuidado?

Observando seus olhos e o quanto ele a rondava com seu jeito estranho, mas cuidadoso, Sara fez uma pergunta óbvia esperando uma resposta mais óbvia ainda:

— Por quê?

Ele ergueu as sobrancelhas brevemente. Balbuciou algumas vezes e depois disse:

— Porque eu me importo demais com você. — Ele não se conteve. Estas palavras ficaram entaladas em sua garganta e não havia outro momento melhor para dizê-las.

A lembrança da última vez que se falaram nos tempos da Conferência veio à tona. Um último olhar foi trocado. Um olhar que pedia algo mais e que a simples amizade não podia proporcionar. Aquela resposta arrancou um sorriso, mas que se desfez logo. Eles não perceberam, também, que além de estarem a uma curta distância, estavam mais próximos ainda após a resposta de Grissom.

Nada mais atraía seus olhares que os lábios. Havia um impulso, um forte desejo os que impedia de se afastar; pelo contrário, cada vez mais eles ficavam mais e mais perto um do outro. Foi quase do mesmo jeito que estavam naquela época, porém, foi finalizado com um simples adeus. O que ocorria no momento não era coisa de apenas dois amigos.

Ele tocou em seu rosto novamente, desta vez com a palma de sua mão direita. Grissom sabia muito que não devia, mas sua vontade era maior que qualquer outra dúvida. Então se inclinou para perto, muito perto. Ao sentir o toque, Sara fechou seus olhos por alguns segundos e tocou em sua mão brevemente. Para os dois, resistir era impossível. Quando encostou sua testa na dela não demorou muito; seus lábios se tocaram. Ambos de olhos fechados, o beijo simples durou três segundos. Depois disso, eles, ainda próximos, olharam um para o outro e se beijaram mais uma vez.

Não havia tempo para pensar no que estavam fazendo. Instintivamente Grissom deslizou suas mãos até a cintura dela e a puxou carinhosamente para mais perto, onde o beijo se intensificou. Sara aproveitou o gesto envolveu pescoço dele com suas mãos. Era intenso, inesperado, surpreendente; foi algo que mexeu com a mente, coração, corpo. Beijar devia ser a última coisa que Grissom e Sara deveriam fazer, mas era o que, no fundo, mais desejavam. O último dia da Conferência estava de volta porque não teve fim; foi o dia em que todos os sentimentos foram enterrados na pretensão de nunca retornarem. O tempo passou e tudo aquilo estava de volta. Tempo. Eles não calcularam quanto tempo durou aquele beijo. Cinco segundos, dez segundos, quinze segundos? Não importava. A única coisa que sabiam era que precisavam aproveitar aquele pouco tempo o máximo possível, porque quando terminasse... nada mais seria como antes.

Grissom foi quem finalizou o beijo. Lentamente ele afastou seus lábios, mas sua testa ainda estava rente a dela. Percebendo o término do gesto, Sara ainda o beijou rapidamente pela última vez.

— Sara... — disse, ainda próximo dela — a gente não devia... — Aos poucos, suas mãos, com muito custo, deixaram de tocar em sua cintura. O sabor doce do beijo foi substituído pelo gosto amargo do arrependimento.

— Não devia? — Confusa e até mesmo inconformada, ela tocou em seu rosto com ambas as mãos. Tentou alcançar seus olhos, mas ele insistia e desviava-se dela.

Tentando não parecer bruto ou insensível, com cuidado, Grissom pegou as mãos dela e deslizou para longe de seu rosto.

— Me desculpe, Sara. Eu preciso ir.

Sem esperar mais, o sargento seguiu até a porta, abriu-a e deixou a casa. Ela não o acompanhou. Tentou administrar o que acabara de ocorrer ao mesmo tempo em que desejava passar mais tempo com ele sem entender o que aconteceu por longas e longas horas. A noite em São Francisco finalmente acabou, não do jeito e principalmente no local desejado, mas acabou.

Notas finais
É, galera, estamos aqui, muitos surpresos não é mesmo? Após 54 capítulos temos o primeiro beijo GSR da fic! Acho que foi o momento certo para a fic, mesmo que não tenha terminado como nós, shippers, gostaríamos haha. Uma curiosidade: esse beijo era para acontecer em uma circunstância totalmente diferente. Porém eu achei o tema um pouco pesado no qual essa circunstância iria ocorrer. Pode ser que ocorra no futuro? Muito provavelmente, não. Enquanto estava escrevendo os capítulos um pouco a frente dos iniciais eu pensei nessa possibilidade, mas enquanto continuava a montar a história achei melhor mudar, então o beijo se sucedeu nessa circunstância, como se eles tivessem voltado ao passado. Eu gostei, a versão anterior também era boa, mas como disse, o tema seria pesado e não se encaixaria no ritmo da fic. Agora, meus amigos, depois desse beijo já era. Esse foi mais um evento no qual a perspectiva de um para o outro vai mudar completamente. E já adianto pra vocês que a relação deles foi afetada por causa do "depois do beijo". Então foi isso. Se não for sofrido não é Manhunters, né galera? Kkkkkkkkk rindo de nervoso. Muito obrigada ao apoio de todos vocês. Um grande beijo e até o próximo capítulo! ♥