Manhunters
50 Desvio de caminho ou Não há nada tão ruim que não possa piorar
Notas iniciais
Sara chegou às pressas no local da cena do crime em Gateway District graças ao carro cedido pela polícia. Quando chegou no pequeno prédio de quatro andares já pode notar a presença de alguns policiais presentes do lado de fora guardando a entrada, além de impedir a aproximação de pessoas que não moravam no prédio. Uma viatura estava presente além de um carro comum, estacionado ao lado.
Ela estendeu seu distintivo para o oficial que a deixou entrar, informando-lhe, também, o andar e o quarto de onde o crime ocorreu. Assim que entrou no local, foi cercada por alguns olhares de moradores, que a enxergavam com incerteza e dúvida. Ela não se atentou para eles; preferiu se apresentar com um seco bom dia, um pouco irônico, até.
No segundo andar, precisamente, na porta 3, outro policial guardava a cena do crime. Ao se identificar, o oficial cedeu passagem a ela, que abriu a porta já marcada com a faixa amarela, entrando em seguida. O quitinete era pequeno; assim que entrou, já pôde notar o detalhe principal que a trouxe ali. Ao passar pela sala, a detetive seguiu para o canto esquerdo de onde ficava o quarto, que a propósito não era separado por uma parede.
— Ah, merda. — Foi a primeira coisa que ela disse ao ver o corpo.
Ela nunca imaginou que veria Franklin Lewis daquele jeito. Lá estava ele, deitado na cama. Seminu, apenas o lençol cobria suas partes íntimas. Sua mente já imaginou mil coisas que poderiam ter acontecido.
Além da presença dos peritos e do assistente do legista, um homem vestido de terno preto e gravata da mesma cor estava ao lado do corpo, analisando-o superficialmente para não prejudicar o trabalho dos outros. Era branco, um pouco alto, cabelos castanhos meio grisalhos e rosto quadrado; tinha olhos pretos, barba escura tradicional. Aparentava ter uns 36 anos; apresentava um semblante sério, olhos profundos e intensos. A primeira impressão foi de que ela não gostaria de ser interrogada por ele em momento algum. Assim que a viu, o homem descruzou seus braços, retirou seus óculos e caminhou em sua direção.
— Bom dia, senhorita. Quem é você? — perguntou desconfiado ao ficar próximo a ela, frente a frente. Os outros que estavam presentes se atentaram a ela por um breve momento. Sua voz rígida chegava a dar calafrios.
— Sou a detetive Sara Sidle. E você é...? — Apontou e respondeu da mesma forma desconfiada.
— Detetive Maksim Ivanenko. — Foi direto — Você é aquela oficial responsável pelo caso desse aqui não é? — perguntou, ao se aproximar dela e estender sua mão.
— Sim, sou eu. Infelizmente o sargento não poderá acompanhar o caso. — Ela retribuiu o gesto.
— Eu soube o que aconteceu. Uma pena. — Ivanenko deu de ombros. Ele deu meia-volta e voltou a se aproximar do corpo.
A morena ergueu uma sobrancelha e fez uma careta.
— Então, qual é a história? — perguntou Sara ao se aproximar também.
— Segundo o legista a provável causa da morte foi por asfixia. Os travesseiros e lençóis serão levados para a análise. Minha óbvia impressão foi que Lewis tinha companhia. — O detetive apontou para a cama — Provavelmente alguém que conheceu por aqui ou uma prostituta. Não acho que os peritos vão ter dificuldades de encontrar fluídos corporais por aqui ou pelo resto da casa. A chance de identificarmos a suspeita ou suspeito é grande.
— Hum. — A morena riu.
— Pronta para revirar a casa? — perguntou ele ao retirar suas luvas de látex do bolso do sobretudo.
— Vamos lá.
Sara pegou seu par de luvas e os dois, junto dos dois peritos presentes, começaram a vasculhar o pequeno quitinete. Não havia muita coisa, então o tempo de trabalho seria curto. Enquanto revistava os poucos pertences, parecia que a ficha não tinha caído para Sara. Era difícil ter que lidar com a repentina (e suspeita) morte de um dos principais suspeitos de ser cúmplice no assassinato de Vanessa. Aquilo foi estranho, estranho demais; tanto que a possibilidade de queima de arquivo foi a primeira hipótese que tanto ela quanto Grissom levantaram.
— Ele mal teve tempo de arrumar seus pertences direito. Estava proibido de deixar a cidade e voltar a Elko... ou a Baker. — Sara comentou após voltar da sala e se encontrar com Ivanenko no quarto. Seu tom de voz aparentava lamento.
— Se estivesse preso, talvez teria mais segurança. — respondeu — Ah, que ironia...
— Eu não duvido que a morte dele tenha a ver com o caso que ele estava envolvido.
Ivanenko ergueu uma sobrancelha e fechou o semblante.
— Vai um conselho: não vamos tratar esse crime de início como algo relacionado à morte daquela mulher, detetive Sidle. — O homem se virou para ela — A última coisa que queremos é que essa teoria caia na boca da mídia e da população.
— Mas isso não elimina o fato de que isso pode ter sido a causa principal da morte dele. — retrucou um pouco impaciente.
— Sei disso. — O detetive assentiu e quase deixou escapar uma risada — Mas o ideal é não tirar conclusões precipitadas, ainda que sejam hipóteses. Não encontramos a carteira ou o celular dele. Nada impede que uma garota de programa tenha sido enganada ou assediada por ele; ela se vinga e ponto. Ou que ele tenha pego a mulher de um cara furioso que veio e acabou com ele. — Maksim deu de ombros.
— Não encontramos sinal de luta corporal. Há rastros de cocaína pelo quarto e em suas narinas além de bebida alcoólica. O que estou achando até o momento: ele chama a garota ou garoto de programa, os dois bebem, cheiram, fazem sexo e o suspeito ou a suspeita se aproveita disso e o asfixia com um travesseiro ou outro material, leva dinheiro o celular e vai embora. Não seria difícil.
— Pode até ser. Só que aí estaríamos entrando em um caminho delicado. — alertou o detetive — Quem foi o mandante do crime, caso a sua teoria esteja certa? Porque tem que haver um bom motivo para que ele fosse morto daquela forma.
— E qual seria a sua teoria? — Erguendo uma sobrancelha, ela m cruzou os braços.
— O que eu disse antes: Lewis pediu por um serviço, chamou a mulher, e os dois se divertiram um pouco. Em algum momento ele passou do ponto, fez uma besteira com ela, a mulher se sente ameaçada e se defende.
Sara olhou para o quarto novamente. O corpo estava sendo retirado da cama pelo assistente do legista e junto de uma equipe. Aquele homem pagou pelo que fez segundo seu discurso pessoal. Tentou se safar por vários meios possíveis e acabou dentro de um saco preto, já sem vida.
Ela tinha pressa. Queria resolver esse "detalhe" o mais rápido possível para voltar às vítimas de Zodíaco. Se bem que Lewis poderia ser uma vítima do serial killer (como ela primeiramente imaginava) e, se a morte dele tivesse alguma relação com o caso, descobrir quem era o assassino (ou assassina) seria uma oportunidade de e possibilidade em descobrir a identidade do Zodíaco. A pressa era a inimiga da perfeição.
— Vamos falar com as testemunhas. — Ivanenko falou ao retirar as luvas de suas mãos.
— Ok. — Ela assentiu.
Quando começaram a se mover, no meio do caminho, o celular da detetive tocou. Ela retirou o aparelho do bolso e ficou surpresa ao ver quem ligava para ela.
— Tudo bem? — perguntou o detetive ao vê-la diminuir os passos.
— Vá na frente, já estou indo. — Ela disfarçou um sorriso e fez um gesto com a mão.
Ivanenko assentiu e seguiu seu caminho. Já Sara, parou em um canto discreto e atendeu à ligação.
— Oi, Grissom. — falou não muito empolgada — Por quê tá me ligando? Aconteceu alguma coisa?
— Quero saber o que vai acontecer com o encontro que você marcou com a amiga da vítima, Amanda.
A mulher ergueu as sobrancelhas. E com o passar dos segundos levou a mão esquerda ao rosto.
MERDA! Eu não acredito que me esqueci!
— Ah! Eu acabei me esquecendo disso. Que droga! — Ela resmungou.
— Você está investigando a morte do Lewis, não é?
— Mais ou menos. No começo estava apenas de "espectadora", só que pelo visto estou fazendo dupla com o detetive Ivanenko.
— Ivanenko? — A voz do sargento estava nitidamente surpresa. E esta surpresa parecia mais uma decepção.
— Sim, por quê?
— Não... nada. — Ele disfarçou e logo mudou de assunto. — Eu posso ir a Pahrump falar com ela, caso você esteja ocupada com o caso.
Pronto, mais um conflito de escolhas para ela. Ficar e trabalhar no caso com o detetive Ivanenko ou seguir a Pahrump e conversar com a amiga da vítima. As duas escolhas tinham seus riscos. A morte de Lewis poderia ser um mero infortúnio ou coincidência, e a conversa com Amanda poderia resultar em nada ou mais do mesmo.
— Você ainda está se recuperando, Gil. Não pode sair por aí dirigindo por uma hora até lá. — Ela mal percebeu que o chamou pelo apelido.
— Estou bem, Sara. Quase não preciso mais de um apoio. — O sargento relutou.
Ainda assim, Sara não se dava por satisfeita. A detetive sentia um "dever moral" no qual devia se encontrar com a amiga da vítima depois de tudo que disse a ela. Por outro lado, sentia-se no dever profissional ao acompanhar o andamento do caso da morte de Lewis.
— Céus...! — lamentou em voz alta — Olha, eu vou te falar, estou num embate forte aqui. Você faz muita falta, sabia disso?
Ter em mente que a presença dele era importante o deixou contente e ao mesmo tempo o deixou mal. Agora ela tinha uma difícil escolha para tomar.
— Sabia, e sinto muito. — Ele tomou um suspiro — Mas faça o que digo: continue no caso que eu mesmo vou falar com Amanda, está bem?
No fundo, no fundo, Grissom preferia que ela fosse a Pahrump. Mas se dissesse aquilo estaria apenas afirmando um sentimento pessoal. Um sentimento que tinha a ver com se sentir inconfortável ao saber que sua parceira tinha um "outro parceiro"; parceiro esse que era nada mais, nada menos que Maksim Ivanenko.
— Tem certeza disso?
— Vai ter que confiar em mim.
Do outro lado da linha se ouviu uma risada.
— Eu já ouvi essa frase antes.
— Então tenho certeza que vai atender ao meu pedido.
Após um período de silêncio, Grissom recebeu outra resposta e desta vez o tom de voz de Sara parecia um pouco abatido.
— Quando você falar com Amanda... peça desculpas a ela por mim?
— Por quê?
— Porque foi eu quem ligou pra ela marcando essa conversa. E depois do que a gente conversou, eu... me sinto mal em não aparecer lá.
— Não se preocupe, eu falo com ela.
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Após uma importante conversa com as testemunhas locais — o porteiro, alguns transeuntes e o próprio oficial que encontrou o corpo — uma base para o caso foi montada. Segundo o porteiro e outras testemunhas, Lewis chegou no prédio acompanhado de uma mulher por volta das dez da noite. O mesmo porteiro avistou a mulher deixando o local sozinha ainda pela madrugada, mais ou menos às quatro e meia da manhã. As testemunhas oculares que chegaram a foram trazidas para a delegacia para fazerem um retrato-falado da suspeita. O noticiário local informou a morte de um morador recente do prédio que não foi identificado, um alívio momentâneo para os policiais, já que uma hora a verdade seria encontrada pela imprensa.
Ainda no prédio da polícia, a nova dupla seguiu para o necrotério de onde o relatório da autópsia estava pronto. Os dois entraram na sala e se encontraram novamente com o legista-chefe e seu assistente. Albert Robbins terminava de lavar suas mãos quando percebeu a presença dos dois na sala.
— Olá, doutor Robbins. Viemos saber as novidades. — comentou o detetive.
— Claro. — O médico fez um gesto positivo com a cabeça e sorriu. Ele se apoiou em suas muletas e se aproximou dos dois, ação que logo despertou a curiosidade de Sara.
Robbins olhou para Sara, pessoa da qual não tinha reparado antes. Surpresa por isso, a mulher se voltou para ele.
— Me desculpe, você é nova por aqui? Não me apresentaram antes.
David, assistente do legista, se aproximou dele quando percebeu a conversa que se iniciara.
— Eu sou a detetive Sara Sidle. Vim da Califórnia para trabalhar num caso junto do sargento Grissom. — disse ela, ao cumprimentar o legista com um aperto de mão.
— Ah, então você é a Sara! Sou o legista-chefe Albert Robbins. Muito prazer. — respondeu o médico com um largo sorriso no rosto. Ele percebeu que David estava próximo então logo o apresentou também — Esse curioso aqui é o meu assistente, David Philips.
— É... muito prazer... — Um pouco envergonhado, David acenou timidamente para a mulher.
— Oi, David, o prazer é meu. — Ela sorriu, retribuindo o gesto.
— Bem, agora que todos foram apresentados, vamos falar dos negócios. — Al caminhou até uma mesa de onde uma pasta fina de papel se encontrava e entregou para o detetive. Depois ele fez um gesto com a mão para que o acompanhassem até a mesa de onde o corpo de Lewis estava.
Sara olhou bem para o rosto da vítima. Uma sensação estranha lhe sobreveio. Mal fazia uma semana que ela "conversou" com o suspeito e menos ainda foi o intervalo de tempo no qual o viu na audiência. Agora ele estava morto. Outro pensamento lhe veio à mente: sua esposa, ou melhor, ex, talvez não terá o apoio financeiro que recebia antes e o filho pequeno vai crescer sem a presença do pai biológico. Lewis poderia não ser o exemplo de pessoa e pai, mas ainda assim o garoto não poderá mais olhar o pai nos olhos e conversar com ele.
— Causa da morte: asfixia por obstrução das vias respiratórias. Hora da morte, entre duas e três da manhã. — Ivanenko leu o relatório — Lewis foi sufocado por um objeto que impediu a passagem de ar pelas vias respiratórias. O mais provável é que tenha sido o travesseiro. — O detetive fez um comentário — O resultado da perícia já vai sair.
— Encontrou ferimentos de defesa ou algo do tipo? — perguntou Sara ao legista.
— Não. Apenas ferimentos já se cicatrizados de anos atrás em algumas áreas do corpo. — O médico respondeu, mostrando os locais específicos.
— Deve ter sido o acidente de moto que ele e a ex esposa sofreram. — disse ela ao olhar para Maksim — A propósito, já avisaram à família dele?
— Um oficial ficou encarregado de fazer isso, não se preocupe. — Ivanenko respondeu ao olhar para ela.
— Encontrei uma presença de resquícios de cocaína nas vias nasais da vítima, além de bebida alcoólica no conteúdo estomacal. Resumindo: Franklin estava totalmente incapacitado para se defender.
— Foi um trabalho fácil para ela. — A morena disse.
Ela olhou novamente para o corpo sem vida.
— Obrigado por adiantar o trabalho aqui, doutor Al. — Ivanenko assentiu para o legista-chefe.
— Sem problemas, Max. Até mais pra vocês dois.
Antes que os detetives deixassem a sala, o doutor falou mais uma vez:
— Mande um oi para o Grissom.
Sara virou-se de lado para observá-lo. Tudo que fez foi assentir, sorrir de lado e responder com duas palavras:
— Tá bom.
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O relógio marcava 13h55min quando Sidle e Ivanenko se reuniram na sala do capitão Brass. Sara, que atuaria mais como uma "coadjuvante" neste caso, acabou se tornando não-oficialmente a nova parceira de Maksim.
— Então, o que conseguiram reunir até agora?
Os detetives que estavam um do lado do outro se entreolharam e depois voltaram para o capitão.
— Os técnicos estão analisando as câmeras de segurança do saguão do prédio, a única que funcionava por lá. As câmeras ao redor do prédio também estão sob análise. Os peritos voltaram da cena do crime com algumas digitais e amostras de DNA. O retrato falado já está sendo finalizado.
A morena ergueu as sobrancelhas e o olhou de lado. Ivanenko foi frio e cirúrgico. Parecia mais um robô que um ser humano. Mas tinha que admitir que no pouco tempo em trabalhou com ele, o homem demonstrou fazer um ótimo trabalho. Assim como Grissom.
— Ótimo. — Brass sorriu nitidamente satisfeito. Em seguida encarou os dois nos olhos — Tem alguma teoria? — Dirigiu-se a Sara — Sidle?
— Até... nós sabermos o histórico da suspeita, não podemos afirmar que a morte de Lewis tenha sido queima de arquivo. — Terminou olhando para o outro detetive, que sorriu de lado ao perceber que ela acatou à sua ideia inicial — Ainda assim não vamos descartar essa hipótese.
— O que houve com os policiais que estavam de vigia no Lewis? — Maksim cruzou os braços.
— Eu mesmo me encarreguei de falar com eles. Os homens que vigiavam o Lewis estranharam a demora dele para responder, quando bateram na porta dele. — Brass respondeu com desgosto o balançar a cabeça — A porta tava aberta e foi aí que um deles o viu.
— Ah, céus! — Sara lamentou devidamente irritada — Se sabiam que Lewis era uma peça importante porque o colocaram naquele lugar?! — questionou-o ao erguer os braços. Ivanenko ficou em silêncio, mas da mesma forma compartilhava o sentimento.
— Não fomos nós quem mandamos ele para lá, Sidle. A escolha do lugar foi decisão do Lewis e do advogado dele. Só fizemos o trabalho de vigiar o babaca enquanto esperávamos uma decisão definitiva. — A voz do capitão soou rígida.
— Pelo visto não adiantou. — lamentou ela. Se forçasse mais o tom poderia como uma afronta ao trabalho dos policiais.
— É, não adiantou. — Brass respondeu ironicamente — Foi uma perda de dinheiro público e tempo dos meus homens, que poderiam estar fazendo algo mais produtivo, não é mesmo?
Ela soltou um suspiro e fechou seus olhos por um instante.
— Voltem ao trabalho. — falou de repente o capitão. Alguns segundos depois Ivanenko se virou para ela e fez um gesto com o pescoço. Ela se dirigiu a ele e acatou ao silencioso pedido.
Maksim foi o último a sair da sala. Ele fechou a porta e alcançou a morena que já estava um pouco a frente.
— A ficha ainda não caiu, Ivanenko... — Ela resmungou enquanto caminhavam — Que merda, não dá pra acreditar que o Lewis está morto!
— Ninguém poderia imaginar que Lewis seria uma vítima.
— Eu imaginava. — Sara retrucou meio impaciente — Fizeram todo um trabalho para impedi-lo de voltar pra casa, colocaram policiais pra vigiar seus passos e olha no que deu. — Balançou a cabeça — Acho que ele estaria mais seguro se estivesse preso ou bem longe daqui.
— Acompanhei um pouco o caso. O advogado dele conseguiram recurso e o Lewis tinha conseguido responder ao processo em liberdade sob fiança.
— É... — Assentiu — Irônico, não acha? Lewis tentou de tudo para se safar da prisão e acabou sendo morto logo daquela forma.
— Alguns chamam isso de carma.
Ela ergueu uma sobrancelha.
— Se por um lado o desgraçado pagou pelo que fez, por outro, nós estamos pagando pelo que não fizemos...
Os dois chegaram à mesa do detetive, só que mal tiveram tempo de olhar o material que possuíam. O telefone da mesa de Maksim, começou a tocar e sem demora ele atendeu à ligação. Poucas palavras foram trocadas na curta chamada que se encerrou com menos de um minuto.
Ele olhou para sua nova parceira e falou sem reservas:
— Vamos, já temos um rosto para a nossa suspeita.
Ivanenko e Sidle foram para a sala de análise. O possível rosto da mulher estava pronto. Caucasiana, aparentava ter uns trinta anos. Tinha cabelos pretos lisos, olhos pequenos, rosto alongado e lábios exuberantes. Nenhuma das testemunhas afirmou ter conhecimento dela. Todo esse trabalho foi um conjunto de soma de resultados baseado no relato das testemunhas, que não tiveram muito tempo de contato visual com a mulher, além das imagens das câmeras. Não era um resultado 100% exato, mas servia como auxílio e base para a investigação. Assim que a montagem do possível rosto da suspeita terminou, a imagem foi lançada no sistema à fim de que recebessem um resultado relevante. As características físicas gerais também foram levadas em conta no mecanismo de busca. O resultado poderia levar horas se eles não tivessem sorte, ainda que o perfil da suspeita fosse de uma garota de programa, o que também foi incluído na busca.
Duas e cinquenta e seis da tarde. Após a cansativa maratona de idas e vindas no prédio da polícia, Sara e Maksim se encontravam no refeitório do departamento. Foi a primeira vez que Sara pisou naquele espaço, que mais parecia um refeitório dum colégio qualquer. Não que não gostou, mas se pudesse escolher, iria até o Rose's graças a influência de Grissom. Eles não ficariam ali por muito tempo, já que sairiam para as ruas da região de onde o crime aconteceu na tentativa de que alguém pudesse reconhecer o rosto da mulher.
— Então qual sua história aqui? — perguntou ele ao morder e engolir um pedaço do hambúrguer — Você veio de São Francisco para ajudar o sargento naquele caso do serial killer, não é? — Seu tom de voz parecia calmo demais para tratar de um assunto preocupante como aquele.
Sara, que estava prestes a dar uma mordida em seu sanduíche natural (no qual pediu no refeitório mesmo) ergueu as sobrancelhas ao ficar surpresa com a descontraída pergunta.
— Minha história...? — hesitou no começo — Nada demais. Eu... trabalhava em São Francisco quando fui chamada para resolver um caso junto do sargento Grissom. Uma série de fatores resultaram nessa "convocação" para deixar a Califórnia e vir pra cá.
— E vai ficar aqui definitivamente? — Questionou-a ao tomar um gole do refrigerante na lata.
— Como assim? — Retrucou sem saber aonde o detetive queria chegar.
— Após o caso você vai retornar à Califórnia ou vai ficar em Nevada?
A morena moveu seus lábios, mas não encontrou uma resposta. Passou tanto tempo a pensar nos motivos que a levaram aceitar o trabalho e suas motivações anteriores que mal parou para levar em conta este fato. O que fazer quando o caso Zodíaco for fechado? Bem, o que passava em sua mente era a proposta ou a oportunidade de trabalhar no FBI, então teria de se mudar para Quantico por algum tempo. Só que aí teria aceitar um outro fato que era deixar Las Vegas. E esse "deixar Las Vegas" se referia a ficar longe de Grissom. Depois de pensar nessas "amargas" possibilidades, Sara finalizou seu olhar avoado e distraído e respondeu à pergunta de Ivanenko:
— Bem, pretendo... tentar seguir a carreira no FBI. — Assentiu ao olhar para a mesa — Por quê? — perguntou ao se voltar para Maksim.
— Nada. — Deu de ombros — Acho interessante que conseguiram arranjar uma parceira para o sargento Grissom. Após anos trabalhando sozinho essa é uma novidade pra mim. — completou quase risonho.
A mulher riu brevemente. Nunca poderia imaginar que um homem de semblante sério como Ivanenko pudesse fazer comentários para descontrair.
— Mas e a sua história?
Ele ergueu as sobrancelhas.
— Minha história? Sou apenas um policial descendente de russos tentando ascender à uma boa carreira adiante. — Brincou — Sou policial há dez anos e... bem, é isso. Gosto do meu trabalho e pretendo subir de patente quando chegar a hora certa, se essa hora chegar.
— Hum. — Ela fez uma careta — Você está indo muito bem. Quero dizer... pelo pouco tempo que te vi trabalhando você demonstra uma... enorme capacidade... ou melhor, apresenta um ótimo trabalho.
— Obrigado, Sidle.
— De nada. — Sorriu de lado.
— Como está indo o sargento? — Ivanenko terminou de comer seu hambúrguer.
— O Grissom?
Quem sou eu pra dar um veredito a ele... Pensou ansiosa, com medo de dizer algo ruim, mesmo sem querer.
— Ele tem passou por alguns problemas, mas felizmente está lidando com isso.
— Bom. — Ele assentiu.
— Vocês se conhecem?
Maksim ergueu seu olhar para encará-la.
— Somos apenas colegas. Não temos muito contato... e nunca trabalhamos juntos. Mas sei que ele faz um bom trabalho.
— Entendi.
Alguns segundos após aquela resposta, Maksim falou novamente:
— Mande saudações a ele quando encontrá-lo.
A morena soltou uma risada involuntária, mas breve. Vendo-a daquele jeito, o detetive sorriu de lado. Para um primeiro dia de trabalho, a parceria funcionou bem. Depois da primeira experiência com Grissom no começo, trabalhar tão bem com Maksim foi algo surpreendente. O modo que ele e Grissom agiam era diferente, mas havia um detalhe no qual ela não descobriu que tornavam os dois policiais semelhantes.
Meros detalhes a parte, o importante era buscar respostas e correr atrás do tempo perdido. Se a nova dupla continuasse dessa forma, com certeza o bom resultado chegaria em breve.
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