Manhunters
45 Carpe diem
Notas iniciais
Ele estava de volta em seu apartamento. Sentado no sofá enquanto tomava um café após um banho quente, Grissom encarava o nada como se ainda sentisse o "choque" que recebeu a pouco tempo atrás. Não esperava que a conversa sobre seu passado tomasse aquele rumo. Também não imaginava que Sara se importasse tanto com ele. Uma atenção que, em sua opinião, não merecia de forma alguma. Passados oito anos desde o último encontro deles, imaginar que ela ainda pudesse transmitir sinais de "carinho" foi realmente inacreditável.
Um dos sentimentos que o rodeava e o fazia entrar em conflito consigo mesmo era o remorso. Se não fosse tão inseguro e introvertido, Grissom poderia chamá-la para trabalhar com ele Vegas; afinal, Sara já se mostrava ser uma detetive brilhante (melhor que ele, em sua opinião) e sem dúvidas se adaptaria facilmente ao ritmo da polícia de Nevada. Poderia ter sido ela a sua parceira; já tinham certa afinidade antes e com certeza se dariam muito bem em resolver os crimes. Talvez, se tivesse chamado Sara, Holly poderia estar viva.
Não, Gilbert, já chega de pensar no passado. Reprovou a si mesmo.
Mas era difícil não pensar e imaginar as dezenas de possibilidades que tinham chance de ocorrer se ele fosse mais esperto, mais confiante ou mais cauteloso. Sara já disse e estava certa: ele se martirizava demais, machucava a si mesmo e aos outros à sua volta. De seis anos para cá a dor era tão presente que chegou a se acostumar a ela. Todavia, se foi pelo passado que Grissom carregava um fardo, foi pelo passado que seus olhos foram abertos. Sara se tornou o único remanescente bom do seu passado. Se ele estava triste no momento foi porque passou oito anos longe dela e havia se esquecido disso.
E então, os momentos que passou com Sara nas últimas horas voltavam... e voltavam. Essa "volta" ao passado não muito distante o cercava constantemente. Foi um círculo vicioso, ele não conseguia pensar em outra coisa.
Uma prazerosa sensação tomou conta de si. Poderia ser egoísmo de sua parte, mas se pudesse escolher passar mais um tempinho com ela, aceitaria sem pensar duas vezes.
— Também senti a sua falta. — falou baixo, um pouco melancólico.
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Ao entrar em sua casa e fechar a porta, Sara largou um suspiro demorado. O coração, aos poucos, voltava aos batimentos normais. Não acreditou no que acabara de fazer, mas não tinha como impedir a si mesma a não fazê-lo. De certo modo foi "atraída" por ele, o que apenas confirmou a dúvida que carregava há um bom tempo: Ela sentia algo por Grissom e esse algo ia muito além de amizade. Não sabia se ficava contente ao entender o que se passava dentro de sua mente, ou se ficava nervosa e apreensiva ao finalmente entender, sem dúvidas, que ainda estava apaixonada pelo homem que conheceu na Conferência em São Francisco.
Ela tentou, realmente tentou deixar de lado aqueles momentos que passou com ele, não porque ficou com raiva, mas era necessário fazê-lo. Só que, de tanto que tentou se esquecer, pegou-se a lembrar de um passado distante.
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Final do quarto dia de Conferência. Eram quatro e pouca da tarde. Como de costume, o promissor caçador de homens e a jovem detetive seguiram para o Café local. Em pouco tempo se acostumaram com a agradável rotina.
— Você ficou um pouco quieta hoje, Sara. — Ele puxou conversa, logo quando se sentou à mesa — Quase não fez perguntas.
— Quer dizer que eu falo bastante? — A jovem retrucou sorrindo.
Surpreso, ele arqueou as sobrancelhas.
— Não! Eu não quis... dizer isso. — Ele ergueu a mão direita na defensiva.
— Eu sei, estava apenas brincando com você. — Ela riu e depois tomou um gole do café. Enquanto o fazia, percebeu que conseguiu arrancar um sorriso dele — Quer dizer que você percebeu, é? Bem, a gente tem conversado esses dias todos... — Ela deu de ombros, sorrindo — acho que minhas perguntas se esgotaram.
— Um detetive precisa sempre questionar-
— Já sei. "Ele nunca deve se contentar com o básico e superficial. Precisa sempre estar buscando questões novas." — A jovem brincou ao fazer um gesto com a mão.
— Então você gravou o que eu disse.
— Anotado e grifado.
— Bom, muito bom. — Ele apontou para ela, que sorriu em reposta — Eu fico feliz que- — O homem interrompeu a si mesmo. Sentiu o celular vibrar no bolso de sua calça então o pegou. Era uma mensagem. O semblante em seu rosto mudou gradativamente para a seriedade.
— O que foi? — Ela perguntou preocupada.
— É... — Hesitou brevemente após guardar o celular. Seu rosto já evidenciava que a notícia não seria boa — Recebi uma mensagem e... amanhã terei de voltar à Vegas assim que a palestra terminar, talvez antes.
Assim que o ouviu, o semblante da jovem detetive também mudou. Baixou seu olhar e ficou em silêncio. Não imaginava que quatro dias se passaram tão rápido. Logo aquele homem iria embora e ela, voltaria à sua vida.
— Achei que... — Ela estava prestes a comentar sobre a decisão dele em ficar mais um pouco em São Francisco para outros eventos conseguintes. Mas se calou e mudou de ideia — Deixa.
Ele percebeu que a jovem detetive ficou nitidamente decepcionada. Então esticou a mão direita para tentar alcançar a sua mão, apoiada sobre a mesa.
— Ei, nós... podemos aproveitar o tempo que resta.
— Fazendo o quê? — Ela se adiantou. Nitidamente estava decepcionada.
— Nós...
O detetive piscou várias vezes. Ele foi pego de surpresa, já que em nenhum momento esperava receber uma pergunta tão direta como aquela. Até ficou envergonhado.
— Eu não, sei...! — Soltou uma risada. Não era comum para ele, já que não era do tipo que distribuía risos a todo o momento.
Ao encará-lo e perceber seu nervosismo em sua resposta e reações, a jovem detetive não pôde se conter e acabou sorrindo. Mas o gesto se apagou rapidamente. Lentamente a detetive afastou sua mão da dele. O encarou com olhos tristes.
— Eu vou tentar voltar o mais breve possível, Sara. Haverá outros eventos aqui e eu-
Pareciam até um casal de amantes. Mas eram apenas "recém-amigos". A resposta não pareceu convincente; ela não se deu por satisfeita. Queria receber algo mais que aquelas simples palavras. Poderia ser egoísmo dela, mas a jovem detetive queria passar mais tempo com ele. De alguma forma o homem à sua frente chamou-lhe a atenção que nenhuma outra pessoa conseguiu.
— Está bem. — Interrompendo sua resposta, ela soltou um breve sorriso de lado.
— Vai deixar que as nossas últimas horas juntos sejam... ruins? — Ele insistiu ao inclinar seu corpo para a frente.
A jovem detetive cruzou seus braços e se recostou à cadeira. Após desviar a atenção dele, o encontrou com um sorriso esperançoso.
— Você não quer... conversar sobre a nossa profissão, ou... andar de montanha-russa...? — Ele calou a si mesmo antes de falar outra coisa — Se bem que eu não... conheço parques de diversão aqui em São Francisco.
Ela fez uma careta. Não tinha um minuto em que ela não sorrisse ao ouvir um comentário daquele detetive.
— Enfim, — disse ele, mais confiante — vamos aproveitar o tempo que temos da melhor forma possível. Carpe diem.
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Ao final de tudo, os detetives não se aventuraram em outros lugares como o parque de diversões ou qualquer outro lugar. A verdade é que eles aproveitaram o tempo, sim, mas do jeito deles. O que mais se recordava daquele dia, ou daqueles dias, foram os momentos em que passaram conversando. Por mais banal que fosse para alguns "aproveitar o tempo" ao lado de uma pessoa a conversar e tomar um café, para Sara, aquilo foi especial. Ela mal se lembrava, na época, de como era bom ficar ao lado de alguém que se gostava. Só se deu conta após o último dia da palestra, quando estava sozinha novamente e o seu "novo amigo" já tinha ido embora.
Ficar perto dele novamente era bom, muito bom. Todavia, de nada adiantava amar alguém que não sentia o mesmo. Poderia ser egoísmo sentir o desejo de ser amada, da mesma forma que amava. A não reciprocidade doía, e o maior medo de Sara tinha chances de se comprovar. Como saber se ele sentia o mesmo por ela sendo que Grissom, logo ele, era um dos homens mais difíceis de se alcançar?
Entrou em conflito. Guardaria aquele sentimento para si até que fosse enterrado completamente, ou tentaria "se declarar" a ele? Parecia ridículo e inviável. Era ridículo e inviável, para ela, ao menos. A verdade era que o medo de não ser correspondida tomava conta de sua mente e a deixava "paranoica". Todavia, se deixasse que o medo a dominasse por completo, tinha uma grande possibilidade daquela chance escapar.
Sara foi para o banheiro e tomou um longo banho quente. Tentou esvaziar a mente já que continuaria, mesmo em casa, a trabalhar no caso; afinal, faltavam poucos para Zodíaco atacar novamente.
— Droga.
Tanta coisa para pensar ao mesmo tempo, e Sara acabou se esquecendo deste fato. Em algum lugar do estado o assassino faria mais uma vítima, que provavelmente morreria com onze punhaladas. A única coisa que conseguiram em doze dias foi a prisão de quatro homens, sendo que o mais importante se recusou a contar a verdade. A pior derrota. Mais sorte da próxima vez.
Passou da hora de perder tempo.
Carpe diem.
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