Acordei aborrecidíssima e não conseguia me lembrar porquê. Tomei suco de laranja com mel, porque é o que eu sempre faço, cortei uma fatia de mamão. Comi olhando pro nada, o nariz fungando em intervalos de tempos muito pequenos, a alergia mais grave do que já fora. Nota mental de marcar uma consulta no otorrino. O fixo tocou e era mamãe, pra me dar bom-dia. Ela estava viajando com o namoradinho que a fazia sorri como quando ela se casou com aquele cara, meu pai. Mandei beijos e eu te amo, corri para não perder o metrô das sete, calcei um salto que era fino demais, mas precisava valer o investimento. Desci os lances de escada correndo, mas sem pular nenhum deles. (…) O transporte coletivo estava cheio e um rapaz bonitinho, meio charmoso, entrou. Ele estava ao telefone e tinha uma aliança no dedo. O aborrecimento de mais cedo voltou intenso e eu retornei para “A política sexual da carne”. (…) No meio da tarde um entregador saiu do elevador e entregou um buquê de flores para uma colega de escritório que fazia aniversário. Foi um presente da ex dela e seus olhos já estavam úmidos enquanto lia o cartão. Observei tudo de longe, rabugenta, querendo dizer para aquela garota que ela tinha o que queria ao alcance das mãos, bastava ir buscar. Pessoas são sempre tão estúpidas. Pulei o happy hour, entrei no metrô meio cheio meio vazio, esqueci de ler. Subi os degraus devagar, com preguiça e tédio. Chequei as mensagens no celular que esqueci em baixo do travesseiro. Liz, mamãe, Jorge. O carinha que pediu meu número na última sexta, na pizzaria vegana do Pelourinho. Nada me aquecia, me acalentava. Eu me sentia tão nervosa. Banho, cereal. Ligue a tevê com um casal que me agredia com beijos. Era mentira. Eu sabia porque estava nervosa. Eu sabia por quem estava nervosa. Liguei naquela rádio, a tal para me entorpecer na rotina patética. E lembrava dolorosamente o sonho que tive com você e ela, você e eu, você e não-sou-seu, não me procure, mas não me esqueça.