Malu pós você
2 02
Eu espero ser uma boa mentirosa porque sem isso não tenho porquês. Lembro da noite em que o sentimento era ardente e borbulhante. Foi um festival de lágrimas ácidas que ao se aconchegarem aos lábios corroeram as palavras doces não ditas, as declarações mortas na garganta e as gentilezas esquecidas em função de ti. Nessa madrugada que eu chamo de “divisora de águas” a chaga estava aberta golfando sangue lascivamente. A náusea de sua lembrança era firme e vívida. Seus olhos de um castanho claro tão grosseiros me enfrentando, sua boca roxa de beijos me humilhando transcendentalmente, sua fala embriagada e incoerente me cuspindo. A piedade, a frigidez, o golpe de misericórdia. Sal na ferida, me espanque, me mastigue, jogue-me aos sarnentos. A necessidade de abandonar a própria pele, o desejo vivaz de desaparecer na lama e no caos, a morte tão indiferente á minha prece. O latejar aos ouvidos cansados de seu silêncio, a antecipação chamejante das lágrimas através dos globos, a boca seca do grito sem voz. Estava difícil entender meus próprios motivos, meus velhos princípios, meu jogo inventado e que foi um total fracasso, mas não tem importância se a culpa for sua, a culpa é sua, que bom que sim porque mais uma eu não poderia. Que bom que eu sou uma boa mentirosa porque fingir minha própria dignidade tornou-se deliciosamente simples embora não fácil; me peguei tentando escolher um tempo pra ti agora mesmo, mas não há, você está em cada instante e o tempo é só uma ilusão e nessa meu último capitulo de novela eu perco o jogo eu perco você, mas não perco o salto e meu orgulho que está entranhado em algum lugar por aqui.
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