Já não era virgem daquele palpitamento — era familiar, mas não frequente (e estupidamente descuidada á essa lembrança). De calça de malha e uma blusa que eu fazia de pijama nos dias mais frios, corria pela avenida com um desespero de quem quer sair da própria pele. A pulsação não se dava á corrida, eu sabia. Era algo maior. A ansiedade transava com a adrenalina na minha corrente sanguínea e eu acelerei meu solado. O vento que fustigava meu olho me fazia marejar. Ou talvez eu já estivesse chorando. Meu rosto podia estar explanando tudo que minhas palavras não ditas lamuriavam garganta abaixo ou também podia estar indecentemente desinteressado — nem uma suspeita de dor. Brequei subitamente e por sorte não havia outros corredores causando possíveis acidentes. Me apoiei nos joelhos, tentei recuperar meu fôlego. Estava difícil. Meu cabelo empapado de suor e gordura fazia uma cortina frente á meu rosto. Me restabelecendo, ergui a coluna. O sangue impeliu nos meus ouvidos com sua visão, muito parecido com uma miragem, coisa digna de uma foto em preto-e-branco revelado em um quarto escuro. Fiz menção de afastar os fios do rosto, mas eles covardemente fizeram fronteira contigo, parado no acostamento da estrada em cima de uma bicicleta de corrida me olhando com um sorriso quente, banal e ridiculamente erótico. A arritmia da antecipação me permitiu um vislumbre do que seria desmaiar pela primeira vez. Inspirei. “Só pode ser brincadeira” eu lembro de pensar ao me aproximar. E sentir um enorme vazio enlaçado á uma raiva colossal e uma tristeza mórbida. Mas tudo que pude fazer foi te cumprimentar com um beijo formal na bochecha e um “como vai?” cheio de educação. Não me lembro do seu papo costumário, eu posso jurar. Eu estava fria, disso recordo, não só literalmente como metaforicamente. Quando acabou e você fez o retorno eu estava grudada á pista, trêmula, gelada (literalmente) e toda ciente da sensação pré-você. Eu também tinha um discurso ensaiado cheio de frases de efeito, gritos muito persuasivos e uma saída triunfalmente digna. Eu treinara ele dias frente ao espelho antes de quebrá-lo esperando pela oportunidade de topar com você na fila da pão, mesmo que seja geograficamente ridículo atravessar a cidade por dois reais de pão mal assado. A impressão seguida á sua retirada era pior que a porra da palpitação que eu acreditei ser sedentarismo ao me enfiar dentro de uma roupa de corrida.