— Mas o que você está fazendo aqui? — Kanon estava desfrutando de sua folga no meio da semana e não imaginava ver seu irmão chegando em casa àquela hora do dia.

— Fui libertado — o tom sofrido na voz de Saga fez Kanon imediatamente pegar seu celular e ligar para o colaborador indiano tendo a intuição de que aquilo não acabara da melhor forma. E ao ouvir o recado indicando que o telefone estava desligado suas convicções só aumentavam.

— Você não deveria estar feliz com isso? — queria ter perguntado de imediato o que havia acontecido, mas queria dar tempo a si mesmo de alcançar os calmantes na gaveta do banheiro. Pressentia que se não estivesse devidamente controlado, que voaria no pescoço do irmão mais velho.

— Deveria sim — o tom de voz permanecia o mesmo, e depois de todo esse tempo o gêmeo mais velho ainda não era capaz de olhar para o caçula. — Kanon, eu quero descansar um pouco, tá?

Esperou estar sozinho para enfim dar um segundo passo. Não tinha certeza do que aconteceu, mas de alguma maneira Shaka conseguiu atingi-lo. O custo havia sido alto, era um fato, mas não o conseguia mensurar, e talvez não tenha sido um resultado tão bom.

“O que você quer?”

— Preciso de seus serviços.

“...você já foi bem menos desagradável ao falar comigo, sabia? Espero que esteja se referindo ao meu trabalho.”

— Com certeza — sorriu travesso — mas se quiser ampliar o leque de opções, saiba que sou todo seu.

“Não, obrigado. Fala o que você quer logo.”

— Pode subir aqui no meu apartamento? O assunto é sério.

—x-x-x-x-

Saga estava tão cansado que havia dormido o resto do dia e logo cedo se dirigiu para seu escritório sem nem mesmo esperar o irmão. Também não se importou com a demora de Kanon, já que ele fazia muito serviço externo.

— Ah, aí está você — o gêmeo mais novo entrou em seu escritório com inúmeros papéis em mãos — eu preciso que você assine esses papéis, Saga. É urgente.

Saga estava tão aéreo que só acatou o pedido do irmão, se dando conta de algo depois de assinar a última lauda.

— O que é esse contrato?

— Bom, irmãozão, digamos que sua experiência com Shaka me fez abrir os olhos para algo, e definitivamente você e eu precisamos de assessoria caso a gente queira seguir nosso plano.

— E o que esse cara tem a ver com assessoria?

— Você o conhece, sabe como ele trabalha.

— MAS VOCÊ NÃO SOSSEGA ESSE PAU, KANON!

— Não tenho porque sossegar meu pau com ele perto — respondeu debochado.

— Katsaros é insuportável, Kanon, e já temos o Aiolos trabalhando. Pra que esse contrato?

— Ele vai manter a gente na linha. Essa vai ser a função dele — puxou o contrato para longe do irmão que tentou pegar de volta — isso é sério, Saga. Eu respeitei e ainda respeito sua privacidade. Se não quiser contar o que aconteceu ontem, ok, mas algo me diz que você precisa muito ainda de ajuda para não falar merda. Só que o que está em jogo aqui é bem mais coisa do que apenas a sua consciência ou a falta dela.

Saga se incomodou com aquelas palavras e sabia que o irmão estava certo. Ele e Kanon estavam tentando ganhar vida pública de outra forma, e se todas as vezes ele fosse dar uma bola fora, então eles estavam muito ferrados.

— Dohko te convenceu fácil, hein.

— Com ele como alternativa, meu irmão, não precisava nem mesmo pedir — sorriu maroto — mas ainda que muito me agrade, o fato é que ele realmente tem o perfil perfeito para esse serviço.

Saga não tinha mesmo como negar. O sobrinho de Shion era um advogado íntegro, diferente do que o pai tentou a vida toda conseguir pro filho, e que de alguma maneira havia respingado nele próprio, Saga, e no irmão. Hoje, eles sabiam que o preço estava alto.

Acenou positivamente, dando por encerrado aquele impasse. Ao menos liberavam Shion e Dohko para trabalharem sossegados e enfim contratavam oficialmente uma babá que, esse sim, teria todo o trabalho de se estressar com eles dois.

Kanon ainda ficou um tempo ali observando o irmão mais velho, pra ver se descobria algo, mas nada. Sabia que Saga, mesmo de olhos fechados, estava ciente de sua observação. Sem forças, entretanto, não conseguia sequer responder ou falar nada, ainda absorto na sua cagada.

Desistiu e se pôs a sair. Quando estava prestes a fechar a porta, fez um pedido.

— Chama o Shura, por favor.

— Ele já estava a caminho. Disse que precisava conversar com você.

— Imagino… — falou pra si mesmo, mas alto o suficiente para que qualquer um ouvisse, inclusive o irmão.

— Participo dessa reunião? — o questionamento era válido, e em algum momento ele saberia dos acontecimentos, mas para lidar com Saga, precisava em determinados assuntos pisar em ovos.

— Sim. Você mata a sua curiosidade e economiza minha saliva.

— Você pode adiantar o papo para não me deixar ser pego de surpresa na hora também. Porque se te conheço, não vai ser só um pedido simples de ajuda. Com você nada é simples, Saga.

Observou bem o irmão, e às vezes detestava ter um gêmeo idêntico. Ver aquelas palavras saindo daquela boca naquele rosto e com aquela voz, tudo idêntico ao seu, era como se fosse um exercício muito doloroso de sempre falar a verdade pra si mesmo.

Explicou por alto o que aconteceu e admirou muito a atitude do irmão em tentar segurar seu ódio com tamanha maestria. Era visível em suas feições à vontade de pular em seu pescoço, mas ele fez a melhor cara de paisagem que pode e ouviu até o fim.

— E o que você vai fazer agora?

— Eu não sei.

Kanon odiava aquela resposta, porque as ações do irmão, quando impensadas, eram as mais traumáticas.



~CONTINUA