Maldição Rom
12 Capítulo 12
Shura tentava ser uma pessoa calma e paciente.
Tentava com muita força.
O mundo, entretanto, parecia querer ver Shura sempre no limite de sua paciência.
Mal havia acordado e percebia uma mensagem do sócio, falando algo sobre um e-mail. Nem ligava mais, já que Shaka adorava uns protocolos que só serviam pra fazê-lo, em sua perspectiva prática, perder tempo.
Se não fosse a situação nada usual na qual eles estavam inseridos, deixaria pra ver o e-mail apenas depois do almoço, mas sua curiosidade (que ele adorava chamar de intuição) lhe dava ordens expressas de verificar de uma vez o que acontecia.
E se Shura surtasse, aquele seria o momento perfeito.
Tomou ar. Precisou respirar e ler mais algumas vezes para internalizar tudo aquilo.
Entre a leitura do e-mail, tomar banho, tomar café, arrumar sua pasta para conversar com os clientes na parte da tarde, repassar mais alguns e-mails, checar a comida do Arthur, pegar um táxi e se dirigir até a casa do sócio não tomou do seu tempo uma hora inteira.
— Agora que estamos cara a cara, pode me explicar exatamente o que aconteceu.
— Bom dia para você também, Shura. Entre, por favor.
— Me economize de seu deboche, Shaka, porque já nos demos bom dia por mensagem. E quero uma explicação muito boa pra sua decisão de rescindir nosso contrato de serviço com os Daskalakis.
— Eu não falei em momento algum sobre revisão de contrato, apenas disse que passaria para você tudo relacionado aos gêmeos. Não quero mais lidar com nada deles.
— A gente dividiu o trabalho para justamente darmos conta dele, Shaka. Se você passa pra mim a responsabilidade que era sua, ou a gente rescinde o contrato dos Daskalakis ou dos Katsaros. Não existe a possibilidade de manter a qualidade do serviço assim, e você sabe disso.
O estresse subia cada vez mais, mas pelos anos que se conheciam, Shura não podia deixar de fazer Shaka entender, nem que na base da consciência pesada, que ele estava fugindo da responsabilidade.
— Ele não consegue mudar, Shura — sentou-se em um dos sofás — a última conversa não foi das mais agradáveis.
— E…?
— E nada! Não posso trabalhar com alguém assim. A gente não deveria trabalhar com gente assim! Não posso me submeter a esse tipo de atitude, Shura, não mesmo.
Um silêncio e um suspiro. O espanhol de certo entendia a humilhação pela qual o indiano estava passando, mas não havia muito que ser feito. Ao menos não naquele contexto.
— Shaka, a gente andou conversando nesses últimos dias, e pelo que você me relatou, esperava o que exatamente?
— Esperava que ele entendesse seu erro, que percebesse que estava sendo um imbecil.
— E exatamente como você fez isso? — Não ouviu resposta do loiro a sua frente, e vendo sua cara de indignação, apenas continuou — tudo o que você fez foi humilhá-lo, ou melhor, tentar humilhá-lo como você mesmo se sentiu. Você apenas revidou o que ele te fez sentir. Isso nem de longe é educativo.
— Eu não tenho que educar um homem de trinta anos, Shura. Não sou o pai dele.
— E como você queria que tudo isso se resolvesse, Shaka? Me diga! Acha de verdade que ele perceberia a cagada que fez e que assim ele pediria desculpas? Gente como ele só pode ser de dois tipos: ou nunca muda, ou você é pedagógico.
— Ele não aprendeu porque é um egocêntrico.
— Pelos céus, você está se ouvindo? Não dá pra querer que pessoas como ele aprendam por conta própria, e você sabe disso muito bem. Pessoas como Saga ou a gente acredita que podem mudar e investe esforço, ou a gente desacredita e manda pastar. E tudo o que você fez até aqui foi bancar a mártir arrependida, porque sofreu horrores nas mãos de um babaca preconceituoso, mas sabendo desde o começo o que estava no jogo.
Não queria de maneira alguma dar o braço a torcer, e se encolhia em si mesmo conforme o sócio lhe passava um bom sabão. Só não aceitava, e não se achava na obrigação de aceitar também, seu orgulho e seu próprio ego feridos não lhe permitiam.
— Justo você, que até pouco tempo também não era tão diferente dele. E nem ouse retrucar ou fazer cara de chocado, porque você nunca quis participar de negociações com qualquer cliente nosso por não querer se relacionar com qualquer gadje.
— Para evitar pessoas como Saga.
— E funcionou? — A pergunta pareceu mexer fundo com o indiano — Você sempre fugiu, Shaka, e sabe muito bem do quê. Nunca falei sobre isso, e não será hoje que vou entrar na sua intimidade. Sei que Mayura sempre te alertou quanto aos seus próprios sentimentos, então não é como se fosse uma grande novidade. Só que aqui estamos em um impasse profissional e preciso que você tome uma decisão definitiva.
— Aonde você vai? — estranhou o amigo se levantar tão de repente.
— Estou indo embora, pois daqui a pouco preciso estar no escritório dos gêmeos. Acho que já falei demais aqui, e você precisa pensar também. Só te faço um pedido: até às 20h de hoje, eu preciso saber se você vai querer ou não continuar trabalhando com eles.
CONTINUA
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