Mais quinze dias haviam se passado e Saga estava na casa de Shaka, lhe servindo como um mordomo. Claro que por ser quem era, o grego não sabia sequer ferver uma água, mas teve que se virar para atender as demandas daquele que, agora, chamava de sociopata cínico.

Demorou bastante até, mas havia percebido que, além de não ser pobre, também não era cego. Saga precisava ficar o tempo inteiro ao lado de seu mais novo “amo”, que lhe concedia poucas horas no dia apenas para voltar em casa, tomar um banho, pegar uma muda de roupa e voltar pro seu castigo.

Shaka fazia questão de colocar Saga nas piores situações possíveis, só pra mostrar o que era humilhação. Óbvio que não era nada de mais, mas coisas corriqueiras, como vez ou outra deixar cair um caderno ou livro, ou solicitar coisas simples que qualquer pessoa em plena posse de suas faculdades poderia realizar.

Estava ainda relutando entre seu orgulho ferido e a proposta do sócio e cliente de tentar fazer Saga abrir os olhos de maneira mais amigável.

Não que essa estratégia fosse das piores, já que com os dias, ao menos o grego ia se apercebendo da eficiência e habilidades do então descoberto administrador e que ele tinha um negócio próprio. Seu lado empresário logo aflorou, olhando o loiro não mais como alguém a temer, mas com visão analítica e estratégica. Havia ganhado um pouco mais de respeito aos olhos do grego.

Não era porque o irmão ficava responsável pela parte burocrática que ele era totalmente alheio ao que acontecia com sua empresa.

— Se me permite, o que você faz? – não conteve a curiosidade. Via o loiro afundado no escritório o dia inteiro, sempre atendendo ligações, checando e-mails e preenchendo planilhas, tudo com muita maestria digna de um workaholic. Shaka parecia efetuar todas essas atividades com total perfeccionismo.

— Tenho uma empresa que fornece serviços de consultoria em administração e projeções. – falou enquanto colocava uma xícara de chá ao seu lado, sobre a mesa onde trabalhava.

— A gente na empresa trabalha com uma firma similar a sua.

— Oh, é mesmo? – sorriu de canto, fingindo não saber do que se tratava.

— Sim... Shura é um dos cabeças. Aquele que você conheceu na minha sala, ele também é... Como você – ia falar “cigano”, mas se lembrou do motivo de estar ali e segurou a língua, coisa que o administrador percebeu.

— Gente como eu é rom. – falou se virando para o homem que estava de pé ao seu lado. Era de certo modo divertido ver alguém com todo o poder que o multiempresário Saga tinha ali, submisso as suas ordens. – Esse é o termo adequado, Saga – falou num tom didático, sem parecer grosseiro ou petulante, afinal, queria deixar claro que havia gostado do esforço do outro.

— Eu não sabia – falou verdadeiramente interessado – Você e o Shura são de etnias similares? É assim que se fala?

— É por aí – respondeu bebendo do chá – somos rom, que é um grande grupo, mas nos subdividimos em grupos menores. Eu sou Romnichal e o Shura Kalderash, mas por sermos rom, nos reconhecemos algo como irmãos.

— E como você sabe a linhagem do Shura? Tem algum sinal, um símbolo...

— Somos sócios. – respondeu, bebendo novamente o chá, se preparando pra ver a reação nos olhos do outro – Inclusive, você é meu cliente.

— O QUÊ?

Apenas arqueou uma das sobrancelhas aguardando a reação seguinte, que foi no máximo o bater de boca abobalhado do grego. Jurou para si mesmo que deixaria Saga descobrir que não era um mendigo, mas sim seu cliente, e parece que a hora havia chegado. Bem tarde, inclusive, mas chegou.

Saga não conseguia acreditar na desfaçatez daquele indivíduo.

— Ué, meu nome aparece claro nos documentos que eu envio para vocês. – respondeu terminando seu chá e se voltando para os documentos na sua mesa, fingindo ignorar o grego ao seu lado.

Realmente, o nome de Shaka aparecia, mas nunca cogitara ser aquele Shaka. Talvez fosse mais alheio à burocracia do que imaginava.

— Agora já pode tirar a xícara e levá-la para a cozinha, Saga.

Aquilo ferveu o sangue do homem em pé.

— Você tá me gozando? Eu achei que tinha vindo aqui pra me redimir de um erro, quando na verdade você está é tirando uma com a minha cara? – se inflamou.

— Talvez eu esteja sim, mas também talvez essa seja a sua penitência, já parou pra pensar? – respondeu Shaka à altura, se levantando e o encarando. Tá que Saga era bem uns centímetros mais alto, mas não diminuía a imponência do administrador.

Sem saber o que pensar ou responder, Saga se retirou levando a xícara pra cozinha, e o administrador pode ouvir quando a porta bateu.

Não deu nem vinte minutos, o homem entrou novamente no seu local de trabalho.

— Você pode me explicar o que é que eu estou fazendo aqui afinal? Eu estava aqui achando que eu havia cometido um grande erro, e que estava aqui expiando ele, mas na verdade você está só se aproveitando de mim!

O sangue do cigano ferveu, fazendo-o praticamente explodir.

— Céus, depois de todo esse tempo você ainda não entendeu nada? Você cometeu sim um grande erro, e você está sim expiando ele. Como você pode não ver isso?

— Não tem como ser, você sabe quem sou, e está apenas brincando comigo. Aquela garota lá que veio aqui, aposto que vocês encenaram aquela ladainha. E eu aqui admirando seu profissionalismo. Grande profissional que você se mostra.

Na cabeça do indiano, aquele era o limite. Por motivo nenhum segundo sua percepção, Saga havia dado um chilique. Sabia mais ou menos o motivo, e sabia que precisaria falar em voz alta, mas não conseguia.

Juntou todo o resquício de coragem e paciência que ainda lhe restava e fez o que achava precisar fazer.

— Você veio atrás de redenção por ter cometido um erro, ou veio atrás da redenção midiática? Aquela na qual um rico percebe a beleza de se submeter a alguém inferior, e ao ser tocado por tal simplicidade você e sua esmola seriam bem vistos por todos?

Silêncio como resposta.

— Foi o que imaginei — dessa vez, sem óculos ou fotofobia para ocultar os olhos azuis, a humilhação transbordou nas íris, mas dessa vez ali também tinha frustração e decepção.

Olhou para as suas mãos apenas como artifício de ocultar seu rosto e as lágrimas que começavam a querer se avolumar.

— Shaka, eu…

— Esquece — cortou, sem nem ao menos querer ouvir o que o outro tinha a dizer — Pode ir, Saga. Eu tiro a maldição de você. Por favor, ao sair, tranque a porta e jogue a chave por debaixo dela.

Sentou-se e voltou a trabalhar, como se estivesse sozinho ali. O grego ainda tentou falar algo, mas sentiu que uma grande muralha havia sido erguida entre eles.

Ao ouvir o som da porta fechando, pode deixar o mundo que estava em seus ombros caírem.

~CONTINUA