Capítulo 2

“A mascara que uso em sociedade é tão frágil que na primeira oportunidade a deixo ruir, para que meu coração demonstre o quanto é capaz de amar.”


Às oito horas da noite eu e Dimitri estávamos na carruagem negra, ornamentada com ouro e prata, que ele tanto gostava de ostentar. Fingíamos ser um Duque e uma Duquesa, muito ricos, vindos recentemente do interior da Inglaterra. Desde que fizemos nossa aparição em Londres, éramos constantemente convidados para os bailes mais ilustres. Eu era obrigada a ir a todos eles, agüentar aquelas matriarcas irritantes e velhos babões que não tiravam os olhos do meu decote os quais, nem ao menos tentavam disfarçar.

Eu não me acho muito bonita. Para falar a verdade, Dimitri é incrivelmente belo; ele com sua presença obscura, olhos azuis, pele pálida, corpo musculoso, com os cabelos compridos e alvoroçados, que deixavam varias mechas caídas por seu rosto; sua beleza empalidecia a minha; era o que as moças sussurravam pelo salão constantemente. Ele arrancava suspiros por onde passava; e eu não era uma parva a ponto de pensar que ele não tinha alguma amante, ou várias; eu realmente não ligava, mas o fato de ele não deixar que nenhum homem se aproximasse de mim era muita hipocrisia. Não que eu tivesse me interessado por qualquer homem desde Simon...

Meus olhos verdes, minha pele pálida, meus cabelos ruivos e de cachos cumpridos; garantiam que eu não passasse despercebida aos olhos dos homens; meu corpo pequeno e repleto de curvas chamava atenção desnecessária, trazendo toda a ira e ciúmes de Dimitri à tona e o pior, contra mim. É claro que existiam jovens mais formosas que eu, mas por ser vampira os humanos ficavam incrivelmente atraídos por mim, acho que era alguma coisa haver com meu cheiro. Ou com a sensação de perigo que eu enviava a eles, o que não fazia sentido; a primeira vez que vi Dimitri eu só pensava em correr desse demônio.

— No que está pensando? — perguntou, olhando-me das sombras da carruagem, onde uma pessoa normal não conseguiria ver sua expressão, mas eu sim, o fazia, seu olhar era ameaçador e frio.

— O quanto eu odeio essas festas. — eu disse sem tirar meu olhar da rua deserta lá fora.

— Por que será que eu não acredito em você? — seu sarcasmo era algo que me irritava profundamente.

— O problema não é meu se não acredita. — dei de ombros e ele soltou um rosnado.

— Não teste minha paciência, Isabella.

— Eu não... — antes que terminasse de falar a carruagem parou e o cocheiro abriu a porta.

— Chegamos Vossa Excelência.

— Vamos Isabella. — ele me puxou com violência da carruagem, agarrando meu braço e o mantendo preso ao seu. — Quero que se comporte.

— Eu sempre me comporto, seu bastardo.

Entramos na elegante mansão, juntos com vários casais da alta sociedade, com suas filhas debutantes, que estavam à procura de um marido. O Conde e a Condessa Deveraux estavam á porta do grande salão, recepcionando os convidados. A filha deles, que era uma garota rechonchuda e baixinha estava logo atrás deles, acanhada e ruborizada por ver sua mãe apontando para vários rapazes que foram entrando no salão. Acho que seu nome era Annabelle. A pobre não era bonita, mas não duvidava que casasse logo, tinha uma fortuna para herdar dos pais.

Todas as vezes que ela via Dimitri por perto, era como se o ar lhe faltasse. Ela encolhia sua barriga proeminente, mesmo com o espartilho tentando fazer o máximo por ela. E suas bochechas ficavam ainda mais vermelhas. O desgraçado ainda jogava todo o seu charme na pobre garota. Ele já a havia visitado durante uma noite e fez questão de dizê-lo a mim. Como se eu me importasse. Sua memória havia sido apagada, mas ela continuava com sua paixonite por ele. Desde então ele nunca mais sugou o sangue de nenhuma pessoa acima do peso, disse que o sangue dela era muito gorduroso.

Quase vomitei quando ele disse isso dela, não por ter nojo dela, mas sim pelo modo de ele falar dela de uma forma tão asquerosa. Não duvidava nada de que ele a houvesse estuprado. Fechei meus olhos com força, tentando manter a pose. Ao menos ela não se lembraria da dor. Mas eu sim o faço.

— Duque e Duquesa Devonshire, é uma honra tê-los aqui. — Amélia sorriu falsamente para nós.

— O prazer é todo nosso. Isabella insistiu que viéssemos mesmo ela não passando tão bem. — ele olhou-me, com um sorrisinho de escárnio que, me deu uma grande vontade de chutar o traseiro dele e quebrar dente por dente.

— Oh, mas que gentileza de sua parte. Estou certa de que seremos grandes amigas. — ela sorriu e cruzou seu braço ao meu. — Venha querida! Estou certa de que os homens preferem conversar entre eles mesmos. Ou ir para a sala de jogos.

— Sem dúvida, Condessa. Isabella adora ficar com as senhoras. — eu o olhei com um ódio que, eu poderia matá-lo com um simples olhar. Ele riu mais uma vez, pegou minha mão livre e a beijou. — Morrerei de saudades, Mon amour.

— Homens são incrivelmente bajuladores quando estão apaixonados, não acha querida? — Amélia me perguntou sorrindo, mas o sorriso não chegava a seus olhos; ela estava claramente tentando me adular com seus elogios e engrandecendo minha relação com Dimitri, como se assim me fizesse falar mais sobre nossa relação conjugal. Fofoqueira da pior espécie. Ela sabia jogar.

— Uhumm, sim, eles são. — falei sem prestar a atenção.

— Oh, estou certa que, você sabe bem sobre isso. Seu marido me parece... Oh, não é a prima da Rainha, logo ali? — ela andou apressadamente, puxando-me rapidamente até a moça. — Lady Rutherford, é uma honra à senhorita ter nos brindado com sua ilustre presença.

— O prazer é todo meu, Lady Deveraux. Lady Devonshire. Estou certa? — ela perguntou olhando-me amavelmente, como se entendesse meu suplício ao lado daquela velha insuportável que, estava agarrada ao meu braço como um carrapato.

— Sim. É um prazer conhecê-la. — ela estendeu a mão para mim e eu a apertei, um gesto muito masculino para damas, mas eu gostei, era espontâneo. Seu cheiro me era familiar...

— Estou certa de que já conhece todas as senhoras mais ilustres da cidade, não é? — ela apontou para as amigas de Amélia. — Lady Deveraux, você se incomodaria de me emprestar lady Devonshire? Estou certa de que ela irá adorar conhecer minhas irmãs e minhas amigas.

— Oh, claro que não, Lady Rutherford. Acho mesmo que Isabella deveria conhecer todas as pessoas de bem de Londres, embora ela seja casada, ainda é muito jovem; ela deve conhecer algumas pessoas jovens. — desde quando tínhamos intimidade, para ela me chamar pelo meu primeiro nome em publico? Chamar pelo primeiro nome implicava que éramos amigas e isso, nós não éramos com certeza. Ela não estava feliz de perder as duas pessoas mais faladas da festa.

— Muito obrigada, Milady é muito gentil. — a prima da rainha pegou em meu braço e me puxou para longe da velha insuportável. — Estamos salvas agora. — ela me deu um olhar de cúmplice e sorri abertamente, eu gostei dela.

— Obrigada, eu teria matado cada uma delas se tivesse que passar a noite inteira as ouvindo falar mal da sociedade londrina. Obrigada, Lady Rutherford.

— Chame-me de Rosalie.

Eu sorri.

— Só se prometer me chamar de Isabella.

— Feito. — ela cruzou os dedos da mão esquerda e os beijou, selando a promessa. — Eu sei, elas são insuportáveis, mas faz algum tempo que aprendi como fugir delas. Eu irei lhe apresentar alguns jovens de Londres. — ela franziu o cenho e me encarou. — Eu a conheço de algum lugar?

— Provavelmente já nos encontramos em outras festas. — eu disse não me lembrava tê-la visto antes, mas tinha mesma sensação sobre ela.

— Sim... Provavelmente. Oh, meu Deus! Quer conhecer meu noivo? — ela sorriu entusiasmada, quase dava pulinhos e eu ri.

— Claro. Eu adoraria. — ela me puxou em direção a dois homens que estavam em um canto do salão conversando.

— Edward! Quero te apresentar uma pessoa. — o rapaz de cabelos escuros virou-se em nossa direção e seus olhos, que eram de um formoso tom de dourado, focaram-se em mim. — Esse é John Lancaster, amigo de Edward; e esse é meu noivo. — ela apontou para o homem que captou toda minha atenção.

— Milady. — o tal John, que era um homem loiro, magro e sem graça, falou e eu assenti para ele, mas meus olhos em nenhum momento deixaram os do outro.

Senti como se meu corpo ficasse em chamas; seu olhar me percorreu suavemente, de um modo que só eu pude perceber. Não era sensato que, um jovem rapaz olhasse uma dama daquele jeito; principalmente uma dama casada, mas eu gostei. Senti-me como se seus olhos estivessem me acariciando. E ele era tão bonito, lembrava-me dos olhos sensuais de Simon.

— Boa noite, Milady. — ele disse pegando minha mão e dando um leve roçar de lábios sobre a luva de renda branca. — Rosalie não me disse o seu nome Milady.

— Ora, mas não é culpa dela. Nós não conhecíamos uma à outra, até ela me salvar de Lady Deveraux. — ele riu de minha expressão de horror. — Sou Lady Devonshire.

— Lady Devonshire, tem um primeiro nome? — ele olhou para sua noiva que estava conversando com o homem que há pouco tempo, estava conversando com ele. E ela parecia muito à vontade com ele, talvez... Não. Ela gostava do loiro. Quem em seu juízo perfeito preferiria o loiro sem graça, a um homem sensual e intrigante como Edward?

— Isabella. — eu disse e lhe sorri, corei um pouco quando percebi que demorei a responder sua pergunta.

— Como a Deusa? — ele arqueou a sobrancelha direita de um modo inquisitivo que o deixou ainda mais bonito.

— Temo que não, eu sou casada. Não há nada de casto em mim, Milorde. — ele deu um sorriso torto, o qual fez minhas pernas tremerem.

— Oh, mas que falta de sorte a dos jovens solteiros... — ele se aproximou de mim e sussurrou. — A mulher mais bonita da festa, já tem um dono.

— Eu não tenho um dono, Milorde. — sorri para ele e inclinei-me para que ele tivesse uma boa visão de meu decote.

— Não? — ele levantou a sobrancelha mais uma vez, seus olhos gulosos sobre mim. — E como você explica aquele homem, olhando-me furioso?

— Onde? — eu olhei em volta e não o achei em lugar algum.

— Viu? Está com medo de ser pega conversando comigo.

— Oh, claro que não...

— Edward, papai quer lhe ver. — Rosalie olhou para mim e sorriu. — Meu pai adora Edward, acho que até mais que a mim. E quer vê-lo a todo o momento, como se ele fosse fugir de mim e deixasse de fazer parte da família.

— Oh, tudo bem, eu vou procurar meu marido. Foi um prazer conhecê-la Lady Rutherford. Lorde...

Ele lançou um olhar irritado para mim quando mencionei meu marido.

— Príncipe Pavlóvich Romanov. Sou o filho mais novo do Czar da Rússia.

— Você é um príncipe?

Ele assentiu e pegou minha mão, ele a beijou, dessa vez pude sentir seus lábios quentes por cima da luva. — Foi um prazer conhecê-la, Lady Devonshire. — e então ele sussurrou para que só eu o escutasse. — Carpe noctem, Isabella.

Eu assenti corada e me afastei, mas não pude deixar de olhar para trás uma ultima vez e vê-lo olhar para mim possessivamente. Corri para fora de seu campo visual como se minha vida dependesse disso.

O que estava acontecendo comigo? Eu estava vermelha até mesmo depois, quando já estava ao lado de Dimitri. Ele conversava com um sócio dele, enquanto eu divagava em pensamentos indecorosos, com o noivo da única pessoa que eu gostei de Londres.

— O que houve? — ele apertou meu braço, quando seu sócio se afastou, olhou em meus olhos. — Você está vermelha.

— Eu estou com fome. — falei a primeira coisa que veio a minha cabeça.

— Você acabou de se alimentar.

— Não me alimentei, eu só tomei aquele copo de sangue, quando estávamos no quarto, mas depois não bebi mais nada e aquele sangue estava muito fraco.

— Está com muita fome? — ele estreitou os olhos.

— Sim. Eu olho para o pescoço de cada pessoa que passa por mim.

Ele suspirou.

— Ótimo, era só o que me faltava. Vá lá fora e arranje um pescoço para morder, ou melhor, morda o pulso da pessoa, tente não se sujar e evite escândalos. — eu assenti e andei a passos largos até o jardim.