Malditas Mentiras

4 Victor! Arrependimentos!


Notas iniciais
Há umas fantasminhas por ai?

Victor

Se arrependimento matasse eu já estaria morto. É algo que nos consome de dentro para fora. Que devora, e nos enfraquece.

É pura agonia. É o meu tormento, a minha aflição. Uma dor que nunca acaba, por mais que tente tira-lo de dentro de mim. Sinto-me inquieto. O arrependimento é o meu martírio. Viverei com ele para sempre.

Mesmo que seja perdoado pela Paolla, nunca vou conseguir livrar-me desse sentimento de culpa que perdura em mim e assombra-me durante a noite.

Quando a vi bêbada senti-me ainda pior do que já estava. A Paolla não bebia. Não era uma alcoólatra. Pelo menos antes não o era. Agora já não sei muita coisa a cerca da sua vida. Embora só tenha passado três anos.

Muitas vezes pensei em ligar-lhe mas, depois, desistia da ideia. Eu não sabia o que dizer-lhe. Fui-me embora sem despedir. Não estava a espera que ela aceitasse isso pura e simplesmente sem fazer perguntas. Não estava pronto para lhe dar as respostas. E, ainda não estou. Mas a culpa está a tornar-se num peso demasiado pesado para ser carregado. Eu estou a perder as forças. Já não aguento mais.

Voltei especialmente porque quero contar-lhe tudo o que tem de ser dito. Já não quero mentir mais. Não aguento mais mentiras. Quero contar-lhe todas as mentiras que guardei estes anos todos. As mentiras que estão entaladas na minha garganta sem vontade para sair. Também quero contar-lhe as verdades que querem sair como se fossem beijos que voam até ela. Criei um mundo onde estou preso. Um mundo cheia de mentiras e meias verdades. Pensei que aquele mundo de fantasia era perfeita para nós, mas estava enganado. Nunca foi perfeita. E a nossa relação cresceu sufocada pela mentira e pela verdade que está por dizer. O problema foi sempre eu. Eu que sempre pensei que estava a proteger a Paolla ao esconder-lhe a verdade. Por não lhe contar as mentiras inventadas por mim quando nos conhecemo-nos. Por tê-la iludido quando ainda não passava de uma criança.

Agora, aqui estou eu. Dentro do nosso pequeno apartamento a impor-lhe a minha presença. A verdade é que eu não tenho outro lugar para ir. Nessa cidade ela é a única pessoa que realmente se importa comigo. A minha única família. Vejo nos seus olhos a compaixão que ela sente por mim. E no seus modos.

Só uma breve espreitadela no guarda-roupa é suficiente para me mostrar o quanto eu sou importante para ela. Tal como ela é importante para mim.

As minhas roupas continuam nos mesmos lugares. Mas, ao contrário do que imaginei, estão arrumados ao meu gosto. As camisas e os t-shirts estão arrumados por cores. E os fatos estão com as capas protetoras, que impede o pó de sujar as peças únicas. Não há pó em lado nenhum.

Isso é a prova que ela esteve esses três anos a minha espera.