Maldição Rom
9 Capítulo 9
Notas iniciais
— Interessante… — Mayura encarava a borra do café na xícara de Saga, deixando o grego ansioso e o indiano angustiado.
— O que diz aí? Eu vou me livrar da maldição?
— Não é bem assim que funciona, Saga — respondeu Shaka. Era claro o desconforto em sua voz.
— Então…?
— Eu apenas interpreto o que está aqui, Saga, nada mais nem nada menos. O futuro não é um livro já escrito, com todos os detalhes já programados, mas sim uma roleta de inúmeras probabilidades.
— E o que as probabilidades dizem?
— Parece que você já tem a sua resposta.
— Resposta para quê? — o grego não entendia nada do que era dito.
— A resposta do que você tanto quer. Do que sempre quis na sua vida.
— Mas e a maldição?
Mayura enfim ergueu o rosto para o grego, tirou seus óculos e o encarou diretamente.
— Dependendo de como você a encarar, você não vai se livrar dela.
Saga arregalou os olhos e chegou o corpo um pouco para trás. Apesar daquelas palavras lhe trazerem um pouco mais de angústia, encarar os olhos foscos da mulher o assustou ainda mais.
— Você está brincando comigo? — não sabia se ficava nervoso por uma cigana cega ler seu futuro ou se ficava irritado por uma cigana cega lhe pregar uma peça, porque se ela era cega, óbvio que não estava vendo nada.
— Eu tenho muita coisa pra fazer, Saga, pra usar meu tempo pregando peças nos outros.
Saga mudou de cor, e agradecia a cegueira da mulher na sua frente, mas o sorriso que ela deu o fez ter certeza de que ela havia entendido o que acontecera. Apenas se sentou, no maior perfil desolado que ele poderia encarnar. Já Mayura apenas colocou seus largos óculos escuros de volta ao rosto, sabendo que aquele objeto trazia mais conforto a quem a olhava e ouvia.
— Não quer que eu veja a sua borra, Shaka? — estendeu a mão também para o amigo, que se encolheu mais ainda no seu lugar.
— Não, obrigado — colocou a xícara em um lugar suficientemente distante da amiga, mesmo sabendo que aquilo não faria diferença alguma.
O tempo de silêncio fez os dois roma se atentarem para o grego.
— Tudo bem, Saga?
— Não. Pelo que eu entendi, eu achei algo que sempre quis e não faço ideia do que é, e também me parece que eu não vou me livrar da maldição.
— Eu disse que ouvir o futuro não era fácil.
— Tá bom, Shaka, mas agora foi. Só que como que eu vou lidar com isso? Como viver com essa maldição? E o que é essa coisa que eu sempre quis, já tenho, e não faço ideia do que seja?
— Apenas deixe o tempo trabalhar, Saga — Mayura percebia a aflição no grego, e era isso o que mais lhe preocupava. Já Shaka tentava colocar mais um pouco de café em sua xícara.
— Minha vida depende do fim dessa maldição! Não posso esperar o tempo determinar se posso ou não ser livre.
— Liberdade, prisão… Todos esses conceitos são relativos, grego. Não adianta ser livre se seus olhos estão fechados. A prisão nada é para alguém cujo espírito encontrou sua própria liberdade. Você não percebeu ainda, mas o que você tanto queria é o que você mesmo chama de maldição.
A xícara na mão do homem loiro caiu no chão se espatifando em inúmeros cacos. Ligeiramente irritado, não se deu sequer o trabalho de aguardar Saga agir, apenas se levantou e foi buscar os utensílios para limpeza.
Saga olhou aquilo tudo atordoado. Ele, o homem mais supersticioso da Grécia desejando ser amaldiçoado? Era muita incredulidade, mas seu temor falava mais alto.
— Saga — se virou gentil para o homem — às vezes as coisas que mais desejamos acontecem de um jeito que não é como esperávamos, e normalmente as deixamos passar — segurou na sua mão, sorrindo gentil — se permita.
Toda a calma e gentileza da mulher de alguma forma o acalmavam, e ele foi capaz de relaxar pela primeira vez desde que tudo começara.
Terminaram de conversar na hora que o indiano chegava para a limpeza.
— Shaka, eu sinto muito, mas já preciso ir embora.
— Deixa que eu cuido disso — o grego se apressou para pegar os utensílios — vai dar atenção a sua amiga.
— Muito obrigada pelo café, Saga. Espero tomá-lo mais vezes.
— Obrigado pela conversa, Mayura — acenou para a mulher, mesmo estranhando o papo do café.
Já do lado de fora, os amigos ainda conversaram mais um pouco, Shaka sendo castigado pela forte claridade.
— Achei que ficaria pro almoço, pelo menos.
— Eu ia mesmo, mas creio que o melhor agora seja ir.
— Obrigado por vir. Eu estava precisando de ajuda, mesmo que tão pouco.
— Sempre que precisar você pode contar comigo — segurou as mãos do amigo e sorriu terna — e Shaka, aquilo também serve para você. Se permita, ok? Se você vai tentar mudar a cabeça de Saga, estava aberto para uma possível troca. Tudo nesta vida pode servir de aprendizado, basta estarmos abertos.
Despediram-se e ao entrar em casa viu o grego tentando limpar a sujeira, mas com pouco sucesso. Mesmo assim, era visível em seus olhos a vontade de fazer certo, e aquilo aliviou um pouco seu espírito.
Talvez desse certo.
~CONTINUA
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