Maldição Rom
13 Capítulo 13
A manhã com Shaka foi mais um desabafo do que uma conversa. O amigo nesses momentos ficava retraído e defensivo, o que dificulta muito qualquer diálogo real.
Não achava que ele estivesse errado ao querer retratação pela ofensa. Eles, os roma, sempre passavam por aquilo, e em pleno século XXI já não cabia mais aceitar ofensas gratuitas e estereotipadas. Só que eles também não eram mais crianças, e sabia desde o começo como tudo aquilo poderia acabar.
— Enfim você chegou.
— Boa tarde, Saga.
Dessa vez não foi tão difícil reconhecer o até então amigo. Havia chegado ali com uma ideia firme em sua cabeça, mas observando um pouco sua recepção, no mesmo instante suas convicções foram aniquiladas.
— Você me chamou aqui, não foi?
— Verdade, mas você já estava a caminho, não era?
Shura suspirou. Era um homem prático e até gostava de dar chances, mas não muitas, e muito menos espaço para muitas idas e voltas.
— Shaka me comunicou que não quer mais trabalhar com você. Ele passou pra mim a responsabilidade da empresa de vocês.
— Não esperava por isso, mas não me surpreende.
— Você parece bem confortável com essa decisão — Kanon estranhou e começou a se preocupar com as reações do irmão. Saga estava visivelmente chateado, claramente perturbado e intimamente magoado, e para a sua infelicidade, aquele era o estado no qual o irmão mais velho pior agia.
— Não estou, mas não posso fazer nada.
— É sobre isso, Saga — cortou o espanhol — pedi a Shaka para repensar a decisão e me dar uma devolutiva ainda hoje, mas já quero deixar avisado de antemão que eu não posso assumir a papelada da empresa de vocês, e se ele se mantiver firme em sua decisão, rescindiremos hoje o contrato.
— O QUÊ? — ambos irmãos não esperavam por aquilo, muito menos em um momento como aquele.
— Shura, a gente pede que reconsidere…
— Não sou eu quem tem que reconsiderar, Kanon.
— Então converse com Shaka, a gente te implora.
— Então implore a ele, Saga, não a mim. Tudo o que eu precisava conversar com ele eu já conversei, e agora a decisão não cabe a mim. De minha parte só cabe eu aceitar ou não arcar sozinho com o trabalho que vocês me demandam, e é muita coisa pra eu sozinho dar conta.
— Eu dobro o valor, a gente precisa do trabalho de vocês.
— Mas não se trata de preço, e só talvez você devesse começar a pensar por aí. Eu não vou tomar as dores do Shaka por inteiro, mas saiba que sou muito solidário dela. Você não ofendeu apenas ele, mas a mim também, e parece não ter noção disso. Eu estou aqui juntando o pouco de dignidade que essa situação não tirou de mim e mantendo meu profissionalismo acima do meu orgulho e tentando explicar o nosso limite como prestadores de serviço. E dessa recusa, Saga, você não pode me privar, porque seu dinheiro não vale mais que meu brio.
Kanon não ousou falar absolutamente nada depois daquilo, já seu irmão mais velho talvez tenha entendido enfim o grau da merda que fez. Seus olhos se moviam rápido entre os homens tentando captar qualquer reação que fosse. Viu que seu irmão estava estranho desde o começo do dia, aliás, desde o dia anterior.
— Desculpa.
Shura e Kanon se assustaram com o pedido sincero.
— Eu não tive nenhuma intenção em ser ofensivo, nem de humilhar, nem de causar qualquer mal estar. Se não quiser mais trabalhar conosco eu entenderei.
— Fácil assim? — estranhou a atitude do irmão.
— Sim. Já incomodei demais, não tenho o direito de me sentir incomodado ou lesado.
Aquele era um bom sinal na perspectiva de Shura. Tudo bem que estava ali falando de negócios, mas até então considerava Saga um amigo. Já se conheciam antes, e foi pela insistência do grego que começou a trabalhar com eles. Aquele gesto mexia muito com ele também, e não tinha como negar que ficava ferido com todo aquele show de intolerância.
Queria, de verdade, acreditar que Saga estava no primeiro grupo, no dos que ensinando, melhoravam. Precisava acreditar aquilo, e aquela conversa parece que atendeu suas esperanças. Não que a sensação de ofensa fosse menor por isso, mas era um indicativo de que podia melhorar.
— Então você sabe o que precisa ser feito, Saga. Não adianta apenas sentir muito e falar isso pra mim. Você sabe quem é que precisa ouvir seus pedidos de desculpa.
— Mas ele não vai me receber, Shura. Chama ele aqui.
— Eu não me meto mais nesse assunto, Saga. Isso é entre vocês. Só que esse não é o Saga Daskalakis que eu conheço. Você não costuma ter esse medo todo de enfrentar uma situação.
— Você está certo — respondeu hesitante — eu vou tentar resolver isso.
Ninguém ali esperava que ele fosse tentar naquele mesmo instante, mas de certo modo, ambos ficaram aliviados em ver a iniciativa do homem de negócios.
Mesmo que Shaka mantivesse sua posição, ele ao menos não perderia um amigo.
˜CONTINUA
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