— Mayura, a gente não deveria estar aqui.

— Deveríamos sim. — seguiu pelo caminho escondido entre arbustos, adentrando a mata cada vez mais cerrada.

— Como você é teimosa… — murmurou, acreditando que não seria ouvido, mas sem deixar de a seguir de perto.

— E você um curioso — sua voz divertida causou um pouco de frustração em seu acompanhante, que fez bico, mas continuou o trajeto.

Não muito tempo depois estavam em uma clareira, a luz da lua cheia parecendo um holofote de tão forte e concentrada. Mayura logo correu até o centro, abrindo os braços e sorrindo.

— É aqui, Shaka!

O lugar era lindo. Não era a primeira vez que iam ali, até porque era um ótimo refúgio para meditar e fazer suas leituras, mas nunca havia estado ali próximo da meia-noite em uma noite de lua cheia.

O jovem foi se aproximando, olhando desconfiado tentando capturar o máximo do entorno. Tudo ali o intimidava, não se sentia confortável em absoluto com nada do que estavam para experienciar. Não sabia o que sairia daquilo, mas sabia que envolvendo sua noiva, não era algo simples.

— Não precisa ter medo — disse ao examinar os movimentos lentos do seu noivo.

— Não é bem medo que eu estou sentindo.

— Pode não estar com medo de mim, da noite, da luz da lua ou da clareira, mas está com medo.

— O que a gente veio fazer aqui? Vai finalmente me falar?

— Apressado como sempre — se ajoelhou no meio da clareira, desamarrando o lenço que trazia consigo, revelando um baralho — e cético também. Estranho para um malich, não acha?

Shaka foi se aproximando, desta vez irritado o suficiente para se importar com as sensações que tinha. Enfim alcançou Mayura, ajoelhando-se a sua frente.

— Sou malich porque meu avô assim impôs, você bem sabe.

— Verdade… — estendeu o baralho para o amigo, para que ele o cortasse.

— Era preciso vir aqui para ler um baralho, Mayura? De verdade…

— Você é impossível, Shaka — com assombrosa maestria, ela começou a distribuir o baralho, as cartas pareciam ter vida própria, dada a velocidade com que eram postas. Sua noiva brilhava sob a luz intensa do luar, as cartas também, assim como ele próprio — a lua intensifica nosso poder, e você sabe disso.

— Eu não acredito em nada disso, você sabe.

— Mentira — o sorriso sereno nos lábios o atingia como um tapa, era irritante — mas eu vou deixar que você continue acreditando.

— Por que estamos aqui? Daqui a pouco vão nos procurar.

— Vim tentar fazer uma premonição.

— Do quê?

— Nosso casamento.

— Ah, não, Mayura. Pra que isso? A gente já sabe que vai se casar, e quando também. Fomos prometidos antes de nascermos, já tem até data!

— Sempre que vejo algo sobre nosso futuro, Shaka, não vejo nada. É branco, vazio.

— Alguém vai morrer?

Sua noiva sorriu, já sabendo a resposta. Ela tinha ideia do que iria acontecer, mas ela ainda não tinha certeza, por isso aquela tentativa de premonição.

Baralho montado na frente dos dois, Shaka arrepiado até os fios curtos de sua nuca, sentindo a energia fluir entre ele, Mayura e o baralho. Uma total sinergia entre eles e inclusive o ambiente.

— Você vai ter uma vida feliz, Shaka. A vida que todos desejam ao lado do grande amor de sua vida.

Ele arqueou a sobrancelha, incrédulo.

— E essa pessoa é você, suponho.

— Não — falou sorrindo — mas você já sabia disso.

— Fomos destinados um ao outro, é tudo o que sei.

— Mantira de novo — continuou a olhar o baralho — Você se sente preso a um mundo que não lhe dá escolhas, e pensa sempre em fugir. Em uma dessas fugas você o encontrará.

— E você está vendo tudo isso nas cartas?

— Não. Apesar de tudo, somos amigos, e sei como você se sente. Shaka, aqui não é o seu lugar, e você só será feliz sendo você mesmo, mas isso só acontecerá se você aceitar quem você é.

— E eu sou aquele arrogante cético que você sempre diz?

— Também. E cego para o mundo. Não adianta ter olhos se você não enxerga o mundo ao seu redor nem o mundo em seu interior.

— Eu não sou assim. Até sou cético, mas aqui é o meu lugar. Não há outro lugar para onde eu deva ir.

Mayura pegou novamente o baralho e o colocou à frente deles.

— Seu destino está bem claro até certo ponto, Shaka. Só que aqui também não deixa certo o que acontece depois de você encontrar essa pessoa. Você vai saber que é ele assim que o encontrar, mas precisa aceitar.

— Ele??

— Sim. Aqui diz claramente que é um homem que cruzará seu caminho.

No meio do silêncio da clareira, a voz do rapaz rasgou a noite em uma crise histérica de riso.

— Se você me chamou aqui para fazer graça da minha cara, saiba que você conseguiu. E espero que esteja satisfeita, e se me der licença, já estou voltando. Você que se vire.

— Espera, não terminamos!

— Terminamos sim. E agradeça que eu seja muito razoável de não terminar o nosso acordo.

Deu as costas e se foi, deixando Mayura sozinha para trás, indignado com tudo o que estava ouvindo.

A sua retidão de comportamento era apenas uma forma de manter o controle sobre absolutamente tudo o que pudesse, e lidar com a verdade acima da VERDADE que havia construído para si era doloroso. Para todos eram, não seria para ele menos doloroso.

Já conseguia avistar o acampamento quando a consciência bateu pesado. Eram amigos desde sempre, acima de tudo. Haviam combinado isso assim que lhes foi comunicado seu laço. Se davam muito bem, e decidiram manter assim.

Voltou imediatamente, preocupado com ela. Sabia que mesmo sendo cega de nascença, ela conhecia cada pedra e cada grama daquele lugar.

Chegando à clareira, sua surpresa foi ver que ela não havia sequer se levantado, e continuava com o baralho exposto.

— Sabia que voltaria.

— Eu sempre voltarei por você, sabe disso.

— Eu sei. E também sabia que você não estava pronto pra ouvir essas coisas.

Se ajoelhou no lugar em que estava antes, encarando o baralho.

— Acho que nunca estarei — declarou — pode continuar.

— Tem certeza?

— Absoluta.

— Pois bem, você vai passar por muita dor e sofrimento até se entender — ela direcionou seu rosto para o noivo e estendeu sua mão para ele — saiba que eu estarei sempre lá, é só me chamar.

— Eu sei — sorriu e retribuiu o contato.

— Você vai reconhecê-lo, mas vai lutar contra si próprio, sem aceitar.

— E o que eu faço?

— Você terá que decidir.

—————

Ouvia alguém batendo à porta, pensando se deveria ou não atender. Já estava cansado dos muitos malabarismos que fazia para seguir seu caminho, mas sua última conversa com a amiga e ex noiva o deixava com uma voz chata no fundo da mente que lhe trazia à tona as conversas de adolescente. Não queria ter que encarar a realidade, mas sabia que ali chegara em um ponto sem saída: ou decidia, ou decidia.

Decidiu abrir a porta, quase levando um tapa de quem estava lá em pé a esmurrando.

— Não achei que atenderia.

— Então por que se deu o trabalho de vir?

Era um ponto verdadeiro. Ficaram ainda um tempo se encarando, até que enfim Saga se pronunciou.

— Precisamos conversar.



˜CONTINUA



Notas finais
REFERÊNCIAS https://repositorio.ufpi.br/xmlui/bitstream/handle/123456789/1912/DISSERTA%C3%87%C3%83O%20Maria%20Raquel%20A.%20da%20Rocha.pdf?sequence=1