Suprir a necessidade do fumo tornou-se obrigação. Mudar de escola, de cidade e de vida tornaram-na ainda mais reservada. Sozinha, sem seus amigos góticos, Henrietta não conseguiu fazer sequer um amigo novo e o único colega que teve para conversar foi Bradley, seu irmão irritante. Detalhes como esses já são capazes de demonstrar que os anos distante de South Park não foram nada bons para ela, exceto por uma coisa: Henrietta não é mais capaz de amar. Anos e anos de resistência ao amor tornaram-na forte.

"Amor é para os tolos." Um lema que bem lhe serve e traz ótimos resultados.

Mesmo sem os amigos, Henrietta manteve seu estilo e personalidade. As roupas góticas mudaram de um vestido longo e sapatilhas para outros tipos de roupas que ainda mantêm o design macabro e, como sempre, em tons variantes de preto. No momento, ela usa botas over the knee de couro, saia cintura alta preta e uma camisa branca de botões com mangas curtas. Já seu colar de crucifixo não foi abandonado. Jamais poderia.

Henrietta se lembra que sua altura aos 9 anos de idade fazia o crucifixo do colar quase alcançar sua cintura. Atualmente, o crucifixo destaca-se em seu peito. Seu cabelo escuro encontra-se num corte onde as madeixas repicadas seguem até pouco acima dos ombros. Aliás, o estilo de cabelo não muito modificou-se. Henrietta gosta dele assim: mal cortado e indomável. Por razões relacionadas à sua primeira (e única) decepção amorosa, o estilo capilar exótico a faz sentir-se mais forte. Faz manutenção para manter o tipo e deixou crescer menos de meio palmo.

Se parar para olhar-se dos tempos passados para hoje, ela quase não mudou de fato. As poucas diferenças incluem sua resistência ao amor, o novo pavor a jogos de sedução e seu emagrecimento sutil. Continua gordinha, mas não excessivamente acima do peso. Seu corpo é bonito, tem curvas graciosas, mas as roupas sem vida que usa, mesmo pondo em relevância os detalhes mencionados anteriormente, não a fazem tão atraente.

Suspirou fortemente. Sua pele está desacostumada ao clima frio. Horas mais cedo esteve num carro com sua mãe, pai e irmão a caminho de uma cidade nevada entre montanhas onde voltará a morar daqui em diante. Já no momento, a gótica degusta de uma xícara de café sentada à mesa da sala de jantar da nova casa.

Ela e sua família estão de volta à South Park. Os motivos são simples: os Biggle só saíram da cidade para que Henrietta não tivesse o coração machucado mais uma vez. A mãe da gótica sabe pelo que a filha passou e lembra da aflição sentida na época. Como poderia negar um pedido dela, que implorou de joelhos para que saíssem da cidade? Sra. Biggle sempre cumpriu os caprichos da filha e não poderia deixar de fazê-lo naquela situação.

Como Henrietta já se sentia segura o bastante para retornar à cidade com temperatura abaixo de zero, a família também pôde retornar. A distância de South Park para onde os pais de Henrietta trabalham é muito mais curta do que a distância que tinham da antiga cidade, então, seria economia de tempo e dinheiro. Tudo estará nos eixos, agora.

— Quer mais açúcar no seu café, meu docinho? — uma mulher, em seus 45 anos, pergunta à filha com tom amável na voz.

— Está querendo me matar? — Henrietta responde em arrogância. — Esse café já está doce demais. Sabe que prefiro mais amargo.

— Oh, desculpe — não perde o tom para com ela. Não poderia se aborrecer com sua pequena princesa, mesmo que quisesse ou muito tentasse. — Quer mais alguma coisa? Uns biscoitinhos? Alguns bolinhos, talvez?

— Não. Só quero que me deixe sozinha.

Tomou mais um gole do café, tentando ignorar a doçura inadequada. A mãe retirou-se da sala de jantar sem perder seu sorriso. Sempre foi desta maneira: a mãe sempre engoliu sua má-criação e sempre fez o que a filha desejou. À sua família, Henrietta possui um pavio curto; por isso, responde aos pais e discute com o irmão a quem chama de "pirralho" (mesmo eles tendo apenas 1 ano de diferença) e o faz ofensas por ser filho adotivo e ter poderes estúpidos de menta e frutas.

Sobre fazer tudo que ela deseja... Bem, as decorações góticas para o quarto da garota, como tapetes, cobertores estilizados, posteres de bandas ou filmes de horror e crânios humanos para usar como suporte de velas, são coisas caras. São compradas também roupas sombrias, grãos de café importados e livros igualmente caros. E, claro, o maior capricho de todos: os pais deixam-na fumar cigarros. Não aceitam, não concordam, mas desistiram de interferir.

— Estou saindo. — disse o pai da gótica enquanto passava pela sala de jantar.

— Aonde vai? Gastar todo o seu salário num bar e beber com seus amigos até que perca a consciência e não consiga achar o caminho de casa? — pôs a xícara vazia sobre a mesa. Sua voz eternamente debochada e sem vida. — ...De novo?

— É. É por aí. — bagunçou levemente o cabelo da filha. Começou a retirar cédulas do bolso. — Aqui, um dinheirinho pra comprar alguma coisa calada e não se meter no que eu faço. 

Henrietta nada diz. Nem ousa expressar alguma emoção ao ver as notas sendo postas à sua frente. Aguardou até que seu pai saísse da casa para, finalmente, tirar um cigarro e um isqueiro do bolso.

— Bebum conformista. — murmurou antes de finalmente levar o cigarro à boca.

* * *

"Estudar por vários anos, se formar e trabalhar feito um desesperado até morrer. É... A existência é ótima."

Henrietta chamava atenção por onde passava. Os olhares dos alunos da nova escola foram voltados a ela quando caminhou pelos corredores. Não que a achassem visualmente atraente, não por ser bela ou desejável; o impacto causado nos alunos do ensino médio de South Park tem como justificativa seu visual... Exótico.

Naturalmente, ninguém lembra-se dela. Era conhecida apenas como a gótica gorda que ninguém se importava. A mudança em sua aparência poderia mascarar sua identidade. 

Henrietta chamou tanta atenção que seu lado grosseiro quase a fez perguntar "estão olhando o quê?" para alguns curiosos. Não importaria a escola onde estudasse, Henrietta sempre receberia olhares atravessados no primeiro dia. E nos posteriores.

"Como se a opinião deles fosse importante ou influenciasse em algo na minha vida." seus dedos apertaram-se na falta de um cigarro. "Patético."

— Sentados, por favor. — pede um professor calvo, com camisa verde vibrante. Sentado numa mesa menor ao lado da do professor, um homem com roupas de couro indecentes.

"Garrison?" pergunta-se a gótica ao rever o professor. "Anos e anos longe daqui e ainda teremos aula com esse cara?"

A gótica vê que a maioria dos alunos da antiga South Park Elementary também estão ali. Definitivamente, uma cidade pequena e com poucas opções. Como sempre, os demais preferiam se sentar nas cadeiras mais à frente. Isso era bom, já que assim as cadeiras ao fundo ficavam disponíveis.

No mesmo momento em que caminhava até uma das carteiras ao fim da sala, a gótica olhou sutilmente para os rostos na classe. Todos diferentes, amadurecidos, e em maioria agraciados pela puberdade. Quando Henrietta terminou a contagem, viu que todos os alunos da 4ª série de South Park Elementary, todos mesmo, meninos e meninas, estavam presentes. E praticamente todos eles, meninos e meninas, tinham uma aparência bela e saudável. Até o quarteto de conformistas composto por Kenny, Stan, Kyle e Cartman ganhou uma melhor aparência.

Ok. Principalmente o último citado.

Cartman parece... Atraente. Claramente perdeu um quilo ou outro, mas não demais. Cada palavra que diz durante uma conversa entre seus três amigos emana confiança. Para a felicidade interna de Henrietta, ao olhar para o gordo transformado, não sente nervosismo ou suor nas mãos. Não sente absolutamente nada. Excelente. A alegria é tamanha por sua superação, tanto que seus lábios tomaram de canto. Há tempos que ela não dá um mínimo sorriso.

Henrietta se senta numa carteira por ela escolhida e repousa a bolsa em seu colo. Para distrair-se, olhou para suas unhas pintadas. Alguma distração antes da aula ser iniciada.

— ...Henrietta? — pergunta alguém sentado numa carteira ao lado. — Meus olhos me enganam?

A garota se espanta por alguém tê-la reconhecido. A voz calma que disse seu nome com surpresa evidente a fez encarar um rapaz com franja e cabelo onde as cores vermelha e preta se misturavam.

— Pete? — a gótica afasta os próprios fios de cabelo do rosto, na tentativa de enxergar o outro melhor.

Sim. Era ele. A franja o denunciava. O rapaz, alegre por Henrietta tê-lo reconhecido após tantos anos, exibiu um meio sorriso. Teve que admitir: em sua opinião, Henrietta ficou uma beleza de mulher. Incrível como não mantiveram contato durante esses anos distantes.

Aliás... Nenhum dos dois sequer tentou.

Henrietta olhou através de Pete e viu que a carteira ao lado estava vazia. Aquele era o lugar onde o líder gótico devia estar.

— Michael repetiu um ano outra vez. — disse o rapaz de cabelo bicolor antes que Henrietta perguntasse.

— Ah. — deu de ombros. Não era algo inesperado ou algo que o próprio Michael se importasse.

Havia muito papo para se colocar em dia. Explicações, mudanças, acontecimentos antigos e recentes...

— Quietos, bando de macacos! — Garrison gritou abruptamente, causando impacto imediato na sala.

...mas aquele não era o momento.

— Garrison continua doce assim? — Henrietta pergunta à Pete. É como se os anos afastados fossem inexistentes. Os melhores amigos se conhecem como ninguém.

— Você não faz ideia. — bufou, rolando com os olhos.

— Conformista.

— É.

— Como sabem... — o professor prosseguiu. — Há dois anos, eu estive em crise. Fiz cinco transições de gênero e repensei minha sexualidade outras dezenas de vezes. Quando vi que o casamento entre Senhor Escravo e Big Gay Al acabou, defini que sou homem e sou gay. Agora, eu e Senhor Escravo estamos felizes juntos outra vez. Sem meus conflitos e com minha decisão final, voltei a dar aulas. Dei aulas a todos vocês no ano passado e agora, para a felicidade total, estou de volta.

Os alunos reclamaram em coro com grunhidos altos e reclamações. Garrison sempre foi o professor mais desagradável de South Park e isso não havia mudado.

— Calados! — pediu à turma novamente. — Saibam que estou, sim, dando aulas a vocês nesse ano. Comemorem por eu ser responsável apenas por um disciplina, pois caso contrário, vocês sofreriam comigo. E, pela audácia de vocês com meu anúncio, saibam que esse será um ano duro e longo! Muito duro e muito longo!

— Minha nossa... — disse Senhor Escravo com seu sotaque usual, corando em seguida.

Os dois góticos começaram a retirar materiais de suas respectivas bolsas. Por acidente, Henrietta deixou cair uma caneta. No mesmo segundo onde levou a mão para recuperá-la, Pete fez o mesmo gesto. Por fim, a gótica acabou por deixar que o rapaz a pegasse e entregasse a ela, com um meio e incomum sorriso no rosto.

Henrietta ainda não esboçou reações. Dificilmente esboçaria.

* * *

E finalmente, apesar dos pesares, chegou-se o intervalo. A maioria das pessoas foi ao refeitório; a outra parte, aproveitava o tempo livre para usar a quadra de esportes. Os góticos, porém, são sempre mais reservados.

Na nova escola, não poderiam deixar de encontrar um cantinho especial onde poderiam se sentar num tapete, ouvir músicas e fumar. Tem hábitos que são imutáveis.

— Bem vinda de volta. — disse o líder, guiando os góticos até o lugar exclusivo. Utilizava a bengala em seu andar.

— Obrigada. — Henrietta respondeu ao líder sem comoção, como se o tempo sequer tivesse influenciado o quanto se conheciam.

"Todos mudaram." pensou a garota, observando os detalhes em Michael, o líder gótico, Pete, seu melhor amigo e Firkle, o anão que já não era tão anão assim, pois agora estava quase na altura de seus ombros.

Enfim chegaram ao local. A gótica observava os rapazes se sentando no tapete e retirando seus cigarros dos bolsos. Educadamente, aguardou de pé que convidassem-na a se juntar a eles.

— Não se acanhe. Sinta-se em casa. — disse o líder, usando a bengala para apontar um local vago onde Henrietta pudesse se sentar.

Assim ela o fez. Sentou-se junto deles, ajeitando corretamente sua saia. Deveras, ela se sentia em casa. Na verdade, melhor que em sua casa. Enfim, entre amigos. Mas o verdadeiro amigo que ela precisava no momento era uma fonte de tabaco.

Não demorou mais que alguns milésimos para que a mesma tirasse um cigarro de sua bolsa e o repousasse à boca, acendendo-o em seguida. Tragou um pouco da fumaça para, por fim, liberá-la. Quem no momento se alimentava no refeitório não conhecia os prazeres que esses góticos conheciam.

— E então...? — o líder olhou para Henrietta, esperando que ela dissesse algo.

— O que? — ergueu a sobrancelha, sem compreender.

— Não vai nos contar? — pergunta Pete.

— Contar? — continuou desentendida.

— Explique a razão de você ter sumido durante anos. — disse o mais baixo de uma só vez. Por alguma razão, Firkle segurava um canivete. — Sem avisos, sem adeus, apenas para aparecer agora como se nada tivesse acontecido. 

— Hã... — ela olhou para todos os cantos, buscando por qualquer mentira. — Bom, eu... Fui transferida de escola. Terminei os estudos por lá e voltei pra cá. Foi tudo tão rápido que não tive tempo de contar a vocês.

— Transferida? — Pete questionou. — Por que transfeririam você? 

— Pete, peço gentilmente que não se meta demais na minha vida. — tragou o cigarro, exausta demais para bolar uma mentira melhor. 

 Pete piscou, ligeiramente estarrecido. Este tipo de resposta fazia parte dela, ele apenas se esqueceu de como lidar.

— Certo, certo, já basta. — concluiu o líder, pouco paciente e devidamente satisfeito. — O importante é que você está de volta. Vamos comemorar no Benny's esta noite.

— Ótimo. O café do Benny's é melhor que o café banhado de açúcar que minha mãe faz. — prosseguiu com seu cigarro. — E melhor ainda, aquele idiota do meu pai me deu dinheiro pra gastar.

E instaurou-se o silêncio. O que se ouvia eram as tragadas nos cigarros e as canções coldwave tocando ao fundo. Tédio, quietude incômoda, mas Henrietta sentiu falta disso. Sentiu falta de ter alguém além de Bradley para trocar ideias.

Michael sentiu falta da amiga; foi com ela que fundou o grupo gótico. Firkle não sentiu tanta falta assim, ou pelo menos obrigou-se a se convencer disso por todos esses anos. Já Pete... Bem, está em festa internamente.

Para ele, o mundo era uma grande merda cinza. Sem sua melhor amiga, o mundo era uma grande merda cinza e solitária. 

Todos os pensamentos funestos foram interrompidos. Os rapazes do grupo ficaram em alerta quando cerca de dez adolescentes, usando maquiagem sombria, presas falsas, purpurina na pele e trazendo taças contendo molho de tomate passaram lentamente à frente deles. Henrietta percebeu, pelas expressões de seus amigos, que havia algo de estranho ocorrendo ali.

— Quem são eles? — Henrietta perguntou, estranhando o fato de os adolescentes com presas falsas estarem andando em câmera lenta encarando-os fixamente.

— Os vampiros. — disse Michael. — Não ligue para a purpurina na pele, o olhar morto e estarem andando desse jeito enquanto olham para nós.

— Estão tentando refazer uma cena de "Crepúsculo", onde os Cullen aparecem pela primeira vez. — Firkle revirou os olhos. — Todo dia é a mesma merda.

— A febre de Crepúsculo acabou há anos e esses viadinhos continuam tentando deixar essa moda viva. — Pete pronunciou após expelir fumaça de cigarro. — São nossos rivais.

— E quem é aquela? — Henrietta referiu-se a uma garota de cabelos negros e arco roxo na cabeça, usando grandes presas em seus dentes e comandando os vampiros.

— Jenny Simons. — o líder de cabelo crespo jogou o que restou do cigarro num canto. — É a líder vampira.

— Tá, né... — Henrietta pronunciou, tomada por uma súbita e genuína vergonha alheia. Tirou o olhar de Jenny, fazendo de conta que não a havia notado.

— Não se preocupe com ela. — Firkle brincava com o canivete. — É só uma retardada que comeu um bolinho com raiz forte, cagou nas calças, quis cometer suicídio de tão envergonhada e hoje se gaba de "vampira imortal" porque sobreviveu.

— Conformista. — diz Pete.

— É. — dizem os demais juntos. Henrietta sentiu falta do "É" coletivo.

Então, os góticos têm inimigos. Nada demais, afinal, são só adolescentes bestas que gostam de se maquiar e fingir que bebem sangue.

Mesmo assim, por alguma razão, Henrietta sente-se bem desconfortável na presença da líder vampira. Poderia tomar medidas se ela se apresentasse como um real problema.

* * *