Malaxophobia

34 Período de adaptação [1/3]


Sob o casaco laranja, Kenny ainda tinha um braço engessado e costelas enfaixadas. A metade do rosto atingida já estava livre, mas permanecia com hematomas roxos e verdes. Ainda precisava tomar comprimidos para ajudar no processo de cura e para amenizar a dor de tempos em tempos. Apesar de tudo isso, foi considerado apto a abandonar o hospital e retomar os estudos. E assim o fez.

Estar no Passo para o Inferno por algum tempo – pela enésima vez – não foi de todo ruim. Foi visitado por amigos, pelos irmãos e por Tammy praticamente todos os dias.

Cada visita de Tammy foi memorável.

Às vezes, começavam mal. Kenny ouvia dela coisas sobre si mesmo que não queria ouvir, embora precisasse. A conclusão que alcançavam era sempre a mesma: o problema nunca foi sobre o rapaz se envolver com várias garotas. A Warner, na verdade, não se importava com essa parte. O problema estava nos meios que usou para isso.

Mesmo quando as visitas começavam dessa forma, terminavam bem. Em questão de personalidade, Tammy Warner não parecia tão diferente do que ele conheceu há tantos anos.

A morena era simples. Leve. Podia conversar livremente com ela sobre qualquer besteira, o tipo de companhia da qual ninguém se cansa. Tammy não tinha vergonha em ser quem era: uma garota vivendo sua sexualidade com prudência, que se distanciou de uma escola onde foi duramente julgada por isso. Kenny ouviu histórias suficientes sobre ex-namorados dela para deixar de sentir incômodo e começar a achar graça. Ele, de forma alguma, era melhor do que ela.

O loiro mancava um pouco ao andar pelo colégio. Vez ou outra, cumprimentava algum colega contente em vê-lo de volta.

Ao avistar Tammy acidentalmente, vindo em sua direção, teve uma sensação estranha. Foi como se seu próprio coração o socasse no peito, de dentro para fora. Uma única batida mais forte que as demais. Teve calafrios apenas ao imaginá-la sorrindo outra vez, com aquele aparelho nos dentes que adquiria uma cor diferente todos os meses.

Nada o preparou para o que viu em vez disso. Diante dele, Tammy não estava mais com seu aparelho ortodôntico, que usava há quase cinco anos. Kenny a viu sorrir com dentes livres, pálidos e perfeitamente alinhados. Um sorriso perfeito, acompanhado do brilho nos olhos que só quem suportou tal sacrifício poderia explicar.

— Surpresa! — Tammy continuou sustentando aquele sorriso para ele, deixando-o levemente desconcertado.

— Tammy, você... — o loiro esforçava-se para não soar um completo idiota. — ...Tirou o aparelho.

— Tirei! Tá entre as dez melhores coisas que já fiz na vida. A trajetória foi um porre, mas o resultado...

— Isso é... Muito legal. — tentava escapar do contato visual. — Já sabe o que vai fazer agora?

— Ah, claro que sei. A começar por jogar no lixo todos esses anos de restrição alimentar. — sorriu novamente. — Eu e você vamos à praça central hoje. Você precisa respirar ar fresco, e eu preciso me entupir de pipoca.

O McCormick riu honestamente. Parecia um desejo bobo, mas achou compreensível. Acessível, também.

Não podia negar a alegria que cresceu dentro dele com a possibilidade de saírem juntos de novo, ainda que para algo menos glamouroso que um musical da Broadway. Talvez, desta forma, pudesse funcionar. Achou interessante que ela estivesse decidindo aonde iam e o que fariam; devido às experiências com outras garotas, Kenny estava acostumado ao contrário.

— Mais uma coisa. — a morena seguia. — Consegui um emprego pra você, Ken. Se aceitar, não dou uma semana de trabalho pra conseguir seu PSP de volta.

Agora, foi o olhar dele que se iluminou.

— Tá falando sério?

Muito sério. Não é nada espetacular, sabe? É um emprego de meio período num comércio. Uma loja de artigos esportivos.

— Tammy, isso é perfeito. Como conseguiu?

— Bem... Declan soube do que aconteceu com você. Acho que também se sentiu culpado por você ter se arrebentado. A família dele tem filiais dessas lojas em alguns estados, por isso vivem viajando.

— Puta merda. — radiante, Kenny levou uma mão ao rosto. Começava a gostar do ex-namorado surfista e claramente drogado da Warner. — Diga a ele que só preciso saber quando começo.

— Esse é o espírito. — segurou serenamente no braço de Kenny, deixando-se ser guiada.

Enquanto caminhavam juntos rumo à primeira aula, o rapaz sondava tudo ao redor procurando por Cartman. Uma informação não solicitada sobre o gordo e a gótica revoltada estarem juntos chegou aos seus ouvidos graças a Butters quando também o visitou no hospital. Kenny precisava ver com os próprios olhos para acreditar.

Não era exatamente um casal difícil de se enxergar de longe. E, ao que tudo indicava, era bastante real.

Um ponto preto e um ponto vermelho interagiam um com o outro no pátio aberto. Não com o carinho que se espera de dois namorados: Henrietta tinha os braços cruzados e uma expressão fechada e Cartman parecia se divertir com toda a situação. Talvez a maior diferença em relação às interações anteriores era que a gótica não parecia prestes a sair correndo de repente. A proximidade física era notável. O flerte em forma de perturbação soava bem mais perceptível, também.

Quem pensa conhecer Cartman poderia dizer que esta era uma cena típica. Que era comum ele perturbar a namorada e que nos relacionamentos anteriores tinha sido exatamente igual. Porém, não era uma verdade. Kenny nunca antes viu o melhor amigo eterno tão à vontade num relacionamento. Parecia ter carta branca para ser um cuzão, pois a garota em questão saberia como retrucar.

Isso poderia mesmo funcionar.

No caminho, o McCormick passou por Clyde. O moreno também contemplava o novo casal; parecia menos indignado que nas últimas vezes. Quando os dois rapazes cruzaram olhares e deram de ombros, a aceitação e o pensamento foram os mesmos: o gordo venceu. Injustamente, talvez. Mas não era surpresa para ninguém.

Ao procurar por Henrietta e Eric de novo, Kenny não os avistou; definitivamente não estavam vindo para a aula. Também não se surpreenderia se cabulassem juntos de novo.

Ao menos, a novidade do casal de gordinhos distraía as garotas do fato de que estava de braços dados com Tammy Warner. Por enquanto.

* * *

Dias antes.

Depois de abandonar a calçada dos Simons, Henrietta conduzia o horrendo carro da mãe pelas ruas da cidade. Vestia seu disfarce de conformista, com que foi capaz de manipular a mãe de Jenny e tirar definitivamente a ex-vampira do caminho. A desconfortável peruca loira que usou para tal descansava no banco traseiro. Agora, dirigia serenamente até seu próximo destino, até que uma visão à frente fez seu sangue gelar.

Estacionou o carro lentamente ao lado do rapaz em trajes góticos militaristas que caminhava pela calçada. Estranhando a aproximação, Cartman parou para olhar quem vinha. Tamanho foi o choque do fã do nazismo quando viu quem era e como estava a garota que dirigia.

— Merda. — ao vê-la em rosa e jeans, Cartman pronunciou sem pensar.

— Merda. — repetiu Henrietta, que com tudo o que se passou esquecera as roupas que ele decidiu usar no colégio hoje. E do motivo para tal.

Sem pedir permissão, o rapaz abriu a porta do carona e entrou serenamente. Não muito surpresa pela falta de noção do outro, Henrietta apenas o olhava.

— Pra onde tá indo? — ele perguntou.

— Pra casa, oras.

— Ótimo — fechou a porta e se acomodou. — Também tava indo pra lá.

— Estou indo pra minha casa, Eric.

— Eu também tava indo pra sua casa. — sorriu, maldoso. — Vai dirigir ou vai ficar aí reclamando?

Trocaram olhares. Ela, sem expressão.

— Que direito acha que tem de...? — interrompeu-se. Ao se dar conta, seu tom furioso sumiu e sentiu o rosto ferver.

O olhar dele lembrou-a rapidamente de todos os fatos. O terrível sorriso ainda mais maquiavélico, também.

— Por acaso sabe como um namoro funciona, Etta?

Silêncio. Ele sabia a resposta.

— Bom. — decidiu continuar. — Saiba que está incluído no pacote, que por acaso você concordou com todos os termos quando disse “sim”, coisas como: andarmos juntos, sairmos juntos, toque físico e também acesso à casa um do outro. E não é nem a metade.

— Pensei que fosse necessária uma apresentação aos pais antes desse “acesso”.

— Você quer isso? Pensei que não fosse seu estilo.

— Claro que não é, idiota.

— Ótimo. Então, dirija. — colocou tranquilamente o cinto de segurança, encerrando a discussão.

Henrietta emitiu um grunhido raivoso. Retomou a direção, acelerando o carro com um solavanco. Silenciosamente, Cartman duvidou da afirmação dela sobre dirigir melhor. Ela podia ter as técnicas, mas era uma motorista inconsequente por opção.

Chegaram à residência dos Biggle em minutos. A gótica abandonou o carro no gramado, sem a menor vontade de guardá-lo na garagem. Entraram juntos na sala de estar, silenciosa como o resto da casa.

— Devo saber o porquê de você estar vestida desse jeito? — Cartman indagou assim que a garota fechou a porta.

— O quê? Isto? — olhou para as próprias roupas, sentindo repulsa. Para escolhê-las, foi simples: bastou usar tudo o que mais odiava. Rosa, jeans e sua cor de cabelo natural. — Estive dando um basta na Simons. Me fiz de conformista pra amolecer o coração da mãe dela, mas no fim talvez nem precisasse. Alguém denunciou a sanguessuga pro diretor, a garota se fodeu em todos os níveis.

— Uau. Ótimo plano, usou carência e lágrimas?

— Como sabe?

Eric sorriu. Se sentou no sofá, sem esperar por autorização.

— Somos mais parecidos do que imagina.

— É, tá, que fofo. — caçoou, embora por dentro estivesse quente. Permaneceu de pé e cruzou os braços, evitando contato visual. — Já você, não preciso perguntar por que se vestiu assim.

— O quê? Isto? — a imitou, fazendo-a rolar os olhos. — Achou que eu perderia a oportunidade de mostrar pra todo mundo que tô com você? A cara de cu dos seus amigos foi impagável.

Sem jeito, a gótica fechou os olhos. Sim, ela achou. Por reflexo do trauma, chegou a pensar que Eric gostaria de manter o relacionamento em segredo. Se bem que, de fato, não faria sentido: o rapaz era um exibicionista, que dedicou meses para “conquistá-la” e desafiou todas as adversidades. Como poderia ficar calado?

Bem. Mesmo sabendo desses detalhes, ainda achava comovente ser assumida por ele.

Quando abriu os olhos, percebeu que o rapaz removera o quepe e o sobretudo pesado, deixando-os no braço do sofá. Mantinha apenas a camiseta vermelha, calça e botas negras e o colar de dog tag nazista, fatores que o tornavam mais parecido com ele mesmo. Olhava-a nos olhos, esperando por qualquer movimento.

Vendo-o tão despojado e com aquele ar presunçoso, olhando para ela continuamente, Henrietta sentia como se as paredes ao redor estivessem se fechando. Se sentia atraída por ele, e isso a deixava nervosa. Ao perceber que Eric pretendia dizer algo, a garota disparou até as escadas.

— Vou trocar essa roupa ridícula. Tenta não quebrar nada.

Acostumado a atitudes similares, Cartman não esboçou grandes reações. Isso ainda mudaria. Para passar o tempo, começou a reparar no ambiente: uma sala de estar comum, com visual suburbano e muitas fotos de família pelas paredes. Nada mais. Se parecia com qualquer outra casa da cidade, até a estrutura era sempre a mesma. Pelo estilo de Henrietta, perguntava-se o quanto seu quarto poderia se parecer com qualquer outro. Talvez em nada.

No silêncio, refletia: Henrietta conseguiu, mesmo, calar Simons. Fez o que ninguém, nem ele mesmo, foi capaz de fazer. A gótica poderia não querer uma anunciação do namoro aos próprios pais, mas Cartman fazia questão de apresentá-la à mãe na primeira oportunidade. Sua mãe, Shelly, até Mitch, todos estiveram certos sobre ela; Liane certamente iria apreciá-la.

Não demorou pra garota em questão retornar. Embora usasse um vestido médio e coturnos pretos, ambos simples, estava gótica como lhe era característico, com maquiagem escura, batom preto e o colar de crucifixo. Soava extremamente tensa, e Cartman percebia isso; só para vê-la irritada, olhava-a fixamente durante todo o caminho para se sentar ao seu lado.

— Isso é muito estranho. — Henrietta iniciou, fazendo esforço para olhá-lo de volta.

— O quê?

— Você sabe do que tô falando. Não se faça de besta.

— Pode ser estranho pra você, mas eu tô bem de boa. — deu de ombros.

Provocar aquela expressão de ódio em Henrietta devia ser considerado um esporte olímpico.

— Tá. — aborrecida, cruzou as pernas. Apoiou o cotovelo no braço do sofá e sustentou a cabeça na mão, fitando o nazista plenamente. — Se tudo é tão simples, então como eu deveria agir?

— Já tá agindo. Não esperaria que agisse diferente, passou a vida toda fugindo de situação parecida.

— Isso não me ajuda em nada.

Eric teve um meio sorriso. Isso poderia ser divertido.

— Só tem a gente aqui?

— É. Como sabe, meus pais trabalham até tarde. E Bradley está com os nerdolas do Clube de RPG.

Cartman assentiu mentalmente. Começou a se aproximar dela, eliminando a pequena e segura distância que tinham um do outro no sofá. A viu paralisada, como se fizesse um grande esforço para não reagir.

Chegou bastante perto do rosto dela. Olhos e bocas à mesma altura. A expressão de Henrietta era gelada, mas ele já a conhecia nesse sentido: praticamente sentia o cheiro do nervosismo.

— Não vai ser a primeira vez que beijo você. — ele disse.

— ...Eu sei.

— Nem vai ser a primeira vez que me beija de volta.

Dessa vez, a gótica não conseguiu responder. Estática, lembrava-se do beijo à porta dessa mesma casa na noite anterior. E de todos os anteriores.

Se aproveitando da sua vulnerabilidade, Eric plantou um beijo demorado em seu pescoço exposto. A sentiu tremer, enquanto ele mesmo farejava o cheiro delicioso da pele pálida.

Não teve pressa em se distanciar. Tornou a olhá-la, permanecendo perto demais.

— Se quer mesmo alguns conselhos — olhou por apenas um segundo para os lábios dela. — Ficar nervosa não vai tornar as coisas mais fáceis. Eu sou o mesmo de sempre e você também é, um relacionamento sério é só um detalhe.

— Um detalhe com... Alguns termos. Como você disse.

— Com que você concordou, não se esqueça disso. — sorriu. Fazia o impossível para manter o foco. — “Termos” foi só uma forma de expressão. Eu particularmente diria que é um detalhe com vantagens.

— Olha, talvez eu... — teve um momento para escolher as palavras. Por mais que entendesse que as novidades eram positivas, ainda parecia ser muita informação. — Talvez eu só precise de um tempo pra me adaptar.

— Por mim, tudo bem. — o rapaz se afastou, dando de ombros. — Já esperei pra caralho, tudo o que vem agora é bônus.

— Engraçadinho.

Permaneceram quietos. Ele tornou a observar a casa, procurando por algum detalhe que valesse um comentário. Com rosto e orelhas fervendo, Henrietta evitou um instinto de morder o lábio.

— Você ainda pode me beijar, se estiver a fim. — deu tudo de si para parecer que não se importava.

Cartman riu, sincera e maldosamente. Quando se virou para ela, olhou-a nos olhos como se enxergasse a alma.

— Tá ansiosa por isso, não está? Está ávida por isso, louca pra me beijar.

— Você é um puta babaca.

— Você gosta.

Se aproximaram muito naturalmente, eliminando toda a distância. Os lábios se encaixaram com uma perfeição que ambos não esperavam, arrancando suspiros de êxtase. As sensações que o cheiro e o toque um do outro causavam era surreal, despertavam um sentimento incontrolável de urgência.

Henrietta envolveu o pescoço dele num abraço. Tal como seu rosto, o corpo queimava. Enquanto Eric devorava sua boca, acariciando a língua dela com a dele mais com fome que com delicadeza, também passeava as mãos pela lateral do seu corpo. Apertava a cintura da gótica como se não tivesse medo de machucá-la – porque não tinha. Sentia a textura macia da carne como se fosse a mais deliciosa que já tocara – porque era. Tudo dentro de uma linha de respeito que ele mesmo definiu: era o primeiro dia oficialmente juntos e a primeira vez completamente sozinhos. Não passaria dos limites; não ainda.

Por mais que houvesse um limite bem estabelecido, quando Cartman a apalpou com firmeza no quadril, a gótica sentiu algo quente entre as coxas. O afastou com um empurrão no peito instintivamente.

Abobados, olhavam-se, tentando retomar o fôlego. Nenhum dos dois sabia como um dos joelhos dela foi parar sobre o dele, ou quando uma das mãos dele começou a segurá-la ali. Henrietta surpreendeu a si mesma quando o puxou de volta, dando um beijo breve, mas profundo. A vontade de recomeçarem ainda pulsava.

— É melhor você ir. — ela disse, embora discordasse.

— Duvido que diga isso porque não gostou. — sorriu de lado. O lábio manchado de preto e ainda úmido.

— Como eu disse antes... Período de adaptação. E Bradley deve chegar a qualquer momento, é a última pessoa que eu gostaria que me visse... Assim.

— “Assim”? Você diz, entregue, vulnerável, dando uns amassos em quem jurou que não ia conseguir nada com você?

— Nossa. Você é mesmo um maldito bastardo, se pudesse te esfaquearia.

Cartman riu, satisfeito por ora. A trouxe para perto segurando-a no rosto, deixando nos lábios um beijo de despedida. Acariciou o joelho da gótica antes de afastá-lo para se levantar.

— Não importa. — ficou de pé. Recolheu o quepe e o sobretudo, que segurava à frente do corpo. — Ainda vamos nos ver hoje, não pode fugir por muito tempo.

— Se atrase e vai ser um homem morto. Vou estar com meu melhor vestido e um estômago vazio.

— Então é melhor se preparar pra melhor noite da sua vida.

* * *

Pisar naquele lugar, com aquelas paredes cor de rosa tenebrosas e decoração mexicana, era nostálgico e até cômico. O Casa Bonita continuava exatamente igual, mas o casal que se sentava numa mesa para dois não era mais o mesmo da última vez que esteve ali.

Estavam de frente um para o outro. Entre eles, havia petiscos e pratos mexicanos suficientes para cobrir a mesa. Só não devoravam tudo mais avidamente pois também dedicavam a atenção a conversar – e rir. Henrietta ria muito abertamente, em sua perspectiva por estar nas nuvens com a variedade e quantidade de comida à disposição. Mas, mesmo que não admitisse, só estava se sentindo muito à vontade. Estava feliz por estar lá.

E pensar que, da última vez que esteve nesse lugar, Clyde tentou dar em cima dela. O maldito Clyde, alguém que hoje ela enxerga como um dos Top Caras Patéticos de South Park. Talvez só perca para Kenny McCormick. Henrietta nem entendia como o imortal e Eric conseguiam ser grandes amigos, mas de alguma forma funcionava.

Eric, por sinal, estava vestindo um terno diferente. Preto fosco, com uma gravata vermelha escura, feito sangue seco. Pudera: Henrietta acabou de vez com o blazer do seu terno antigo. Ainda não estava nem aí para isso.

E ela, quando esteve ali antes, compartilhando uma mesa com vários conformistas, usou um vestido formal simples. Um traje selecionado conforme o desânimo da ocasião. Não esteve exagerando quando avisou que vestiria o seu melhor esta noite: Henrietta estava num vestido longo espetacular. Não dava sequer para ver seus pés. A peça cobria seus braços com um tecido esvoaçante, embora os expusesse por um corte nas laterais. Marcava bastante a cintura, acentuava o volume dos quadris e tinha um decote bem generoso, por onde o colar de crucifixo caía.

Embora abobalhado com a beleza e a sensualidade da gótica, rica e sombriamente maquiada como se carregasse a noite em si mesma, Cartman julgava aquele vestido como uma escolha cruel: era difícil manter contato visual sendo que aqueles seios macios, quase saltando do decote, pareciam chamá-lo a cada mínimo movimento que ela fazia. Caso ela se levantasse, deixando que ele visse aquele corpo desenhado pelo tecido e o formato do enorme traseiro outra vez, estaria perdido. Quem não poderia se levantar seria ele, provavelmente até a próxima encarnação.

Nesse jogo, a fã do macabro também não estava vencendo. O terno negro, o uso da cor vermelha que tanto o destacava, o perfume, o queixo levemente quadrado, o cabelo castanho arrumado porém não excessivamente, o porte grande, as mãos masculinas visíveis... Era um conjunto perfeito para a tensão sexual. O motivo para respirar tão pesadamente e pro seu coração estar batendo tão rápido. Eric parecia um demônio em trajes elegantes.

Como o rapaz há muito tempo concluiu, ela era uma ótima companhia para comer. Ambos comiam sem parar e sem pressa, a níveis industriais. Chegavam a chamar a atenção alheia no restaurante, em que sussurravam comentários ácidos e apelidavam o casal de gordos com os piores nomes concebíveis. No entanto, eles próprios não se julgavam. Havia apenas uma sensação maravilhosa de liberdade.

— A isso. — disse Henrietta ao levantar sutilmente sua taça de drink não alcoólico. Ainda eram menores de idade e o Casa Bonita era bem restritivo quanto a isso.

— “A isso”? Que porra é “a isso”?

— O quê? Tem uma ideia melhor?

— De todos os motivos pra brindar, é esse que você escolhe? — sorriu. — Você é mais criativa que isso.

— Caralho. Tá. — soprou com raiva uma mecha solitária do cabelo curto. — Um brinde... Ao mariachi. Por ter colocado, de forma totalmente acidental, esse bastardo no meu caminho.

O rapaz riu. Provavelmente era o máximo de expressão romântica que conseguiria dela, e isso o divertia demais. Levou a própria taça em direção à dela – o drink dele uma combinação cítrica e apimentada, o dela uma bebida escura e adocicada com pequenas caveiras de açúcar. Selaram o brinde com uma intensa troca de olhares.

* * *

Enquanto Shelly os abraçava coletivamente, dando pulinhos e gritinhos de felicidade, Henrietta permanecia estática e com uma cara de poucos amigos. Estava dividida entre ficar indignada pela demonstração de afeto pública da cybergótica e pela sua vontade insuperável de matar o racista ao lado.

A gótica comentou que encontraria seus amigos no Benny’s para... dar a grande notícia. Dessa vez, a todos. Esteve preparando-se psicologicamente para lidar com Shelly Marsh. Também celebrariam a queda de Simons, ex-líder dos Vampiros, assim como a dispersão gradativa desse grupo infernal. A essa altura, todos já sabiam o que aconteceu com Henrietta durante o jogo de baseball e o quanto isso influenciou na suspensão de Jenny. Saber o que mais aconteceu entre um evento e outro era a grande questão.

Só não contava que Eric se predispusesse a ir com ela. Não podia negar que, de início, essa ideia a perturbou. Porém, não tinha justificativas para impedi-lo: o maldito já tinha mostrado para meio mundo e para a maioria dos seus amigos que estavam juntos, então, que diferença faria? Além do mais, se Shelly seria uma perturbação, que Eric a aguentasse também.

Só que, ao menos na cabeça de Henrietta, ele iria com o visual Military Goth. Parecia uma decisão óbvia. Faria os amigos dela negarem tudo o que pensam sobre ele ser um conformista apenas pela presença. Tornaria tudo muito mais fácil para ela.

Em vez disso, Eric estava... Como Eric. Camiseta preta, jaqueta vermelha de couro, coturnos, jeans. Exatamente do jeito que ela gostava, mas não de um jeito que os góticos fossem incluí-lo.

Henrietta tinha muito o que falar com eles a respeito do que Sofia disse sobre ser gótico. Dos estereótipos e do elitismo que erroneamente reproduziam. Michael não ia gostar nem um pouco. Um Eric esteticamente conformista por perto não ia ajudar.

Shelly liberou-os do abraço. Continuava olhando para os dois como uma mãe orgulhosa. Na mesa atrás dela, sentados num grande banco em semicírculo, Michael, Firkle e Karen os encaravam do lado direito; Karen, bem mais expressiva e radiante que os outros dois. Henrietta sentiu automaticamente a ausência de Pete.

— Diz ele que não está muito legal. — o líder esclareceu assim que notou a expressão da outra. — Algo de saúde, talvez. Pete não pôde vir, mas pediu pra avisar que está feliz por você. Deve te procurar depois.

— Entendi. — disse ao acompanhar Shelly, sentando-se depois dela.

Por último, Cartman também se sentou, bem ao lado de Henrietta. Soava bastante tranquilo e à vontade, quase tirando sarro dos outros rapazes à mesa sem dizer uma única palavra. Firkle e Michael, bebendo seus cafés já servidos, olhavam-no de volta com repulsa notável. Com dois gordinhos à mesa, o semicírculo parecia um pouco apertado.

— Vão começar a falar ou vou ter que fazer perguntas? Porque tenho várias. — Shelly piscava docemente os olhos.

Henrietta suspirou, impaciente. Depois de pedir um café para si, desatou a explicar.

Tentou poupar detalhes que não precisavam ser divulgados. Como, por exemplo, ter sido carregada desacordada nos braços, o beijo voraz no ferro-velho e minúcias do momento romanticamente gay que tiveram à beira do Lago Stark. Mas Cartman fazia questão de interrompê-la e mencionar o que ela tentava evitar. Pisou no pé dele várias vezes sob a mesa, mas ele simplesmente não parava – preparado para que isso acontecesse, decidiu usar meias reforçadas.

E claro: Henrietta destacou a maldita insistência dele. Que aceitar um relacionamento era custoso para ela, pois como todos bem sabiam ela tinha decidido há anos que permaneceria em eterno celibato, até essa criatura ao seu lado aparecer. Era um risco que, finalmente, se predispôs a correr. E todos estavam autorizados a aniquilar o fã do nazismo ao primeiro sinal de não a merecer.

Depois do principal ter sido esclarecido, o clima fluía bem. Todos bebiam vários cafés; Eric, inclusive. Pareceu surpreender os demais, mas ela já conhecia esse hábito. Um incômodo para Henrietta se dava, unicamente, pelos amigos estarem fumando ao seu redor.

Ao terminarem um cigarro, acendiam o próximo. A gordinha se contorcia silenciosamente no assento, apertava as mãos no desejo de fazer o mesmo. Aparentemente, os outros góticos ainda não tinham notado que ela não participava, tão acostumados a associá-la ao ato de fumar. Não pensou que dar a notícia sobre sua restrição médica seria ainda mais complicado.

Diferente de todos eles, Cartman notou. Percebeu prontamente o estado em que ela se encontrava. Acompanhava com os olhos cada movimento perturbado que ela reprimia.

O que um bom namorado faria? A confortaria, certamente. Colocaria uma mão em seu ombro, talvez tomaria a frente e declararia a todos a sua condição, livrando-a do fardo. E ele até poderia fazer tudo isso. Mas, primeiro, tinha outra ideia, que envolvia distraí-la do vício. Afinal, ele também precisava se distrair; inalar toda aquela fumaça, fumando passivamente com os outros, estava se tornando insuportável.

— E então? — iniciava Firkle, olhando para o casal. Tragou seu cigarro e expeliu a fumaça antes de continuar. — Quando começa a temporada de acasalamento de morsas?

Pelo som oco emitido e pela reação de dor do anão, ficou evidente que Michael o golpeou na perna com a bengala. Não bastando, Karen deu um beliscão em seu braço, bem menos discreta que o líder.

— Merda. — decidindo ficar quieto, Firkle esfregava a região, olhando para dentro da própria xícara. — Vocês não têm senso de humor.

De início, Henrietta se controlou para não rir dele. Ao vê-lo apanhando, esquecera completamente da raiva que a piadinha lhe causou. Depois, controlou o pulo assustado que pretendia dar. Tentava manter a expressão nula, mas os olhos levemente arregalados e a sensação do suor se formando na testa eram difíceis de disfarçar.

Silencioso como um felino, Eric pousou a mão em sua coxa. Acariciava, apertava e arranhava a pele sensível da parte interna sobre o vestido. Em vez de apertar as mãos no ímpeto por um cigarro, agora Henrietta apertava o banco na tentativa de não colapsar.

Ao olhar para ele, o viu tranquilo como se nada estivesse fazendo. A garota, simplesmente, não sabia como reagir.

Sentindo-a arrepiada e trêmula, dando pequenos espasmos, Cartman teve que beber do café para sufocar um sorriso maldoso. Como ele imaginava: se reprimir por tempo demais acabou tornando-a sensível ao menor dos estímulos. Ter essa experiência pela primeira vez também contribuía para a reação. Ele não estava nem perto de tocá-la intimamente demais, mas parecia ser o suficiente.

Embora estivesse nervosa pela possibilidade dos dois outros casais à mesa descobrirem o que se passava, ao menos, graças ao Eric, Henrietta não pensava mais em fumar. Mas, mais do que nunca, queria matá-lo.

* * *