Malaxophobia
35 Período de adaptação [2/3]
Henrietta subiu as escadas. Caminhou pelo corredor do primeiro andar, até alcançar o quarto com a porta aberta. De braços cruzados, se encostou no batente. Olhava fixamente para o rapaz no interior, sentado à escrivaninha e concentrado no celular em sua mão. Sua jaqueta vermelha e o cabelo castanho refletiam a dezena de luzes de led do gabinete.
Não demorou para Eric notar sua presença. Quando se virou para ela e sorriu, Henrietta por pouco não perdeu a pose zangada. Aquela alegria genuína nos olhos apenas em vê-la a derreteu por dentro, completamente. Desejou que seu coração ficasse quieto na presença dele ao menos uma vez.
— Bom — procurou endurecer a voz e a expressão. — Aqui estou.
— Sabe que adoro te ver com raiva? — largou o celular na mesa. Se levantou e começou a ir na direção dela. — Se me permite dizer sem respeito nenhum, você tenta me intimidar, mas só consegue ficar muito gostosa.
Henrietta corou.
— Pois essa “gostosa” adoraria te ver numa cova. — empinou o nariz. — Que maldita ideia foi aquela, Eric Cartman?
— O quê? — já se aproximando, sorria com maldade. — Esqueceu do cigarro, não foi?
— Seu...
Quando ele a beijou, foi o suficiente. Os joelhos dela cederam, obrigando-o a segurá-la. Enquanto a gótica o tocava no rosto, retribuindo o beijo e desligando os pensamentos, Eric a guiava calmamente até a beira da cama. Verdade fosse dita, ela esteve desarmada desde o momento em que chegou.
Cartman a tinha convidado até sua casa. As instruções foram simples: estava sozinho, a porta da frente estava aberta, o encontraria no andar de cima. Aos olhos de qualquer um, pareceria um convite mal-intencionado, mas o rapaz fez questão de deixar claro que não era o que parecia. Quando a garota indagou por que razão ela devia sair do conforto de seu lar para ir ao “chiqueiro” em que ele vivia, a resposta por mensagem foi igualmente amável: “Vem logo, porra.”
Embora a euforia do relacionamento se iniciando fosse bastante natural – e mais expressiva da parte dele, embora ambos a sentissem – não pretendiam ficar grudados um ao outro 100% do tempo. Primeiro porque, por mais que apreciasse a companhia de Cartman e as novas experiências que proporcionava, era difícil para Henrietta lidar com todas essas informações; segundo, porque tinham seus respectivos círculos de amigos; e terceiro porque, embora tivessem muitos gostos e pensamentos em comum, também tinham muitos interesses particulares. Para a gótica, Eric era um inconformista em personalidade, mas nos demais quesitos não se diferenciava muito da maioria – exceto pelo gosto dele por ouvir alguns gêneros do metal, o que ela admirava. Gostavam de estilos musicais diferentes, de frequentar lugares diferentes e de diferentes programações. Seria nessas horas que teriam momentos para si.
Contrariando muitas expectativas, era um relacionamento com tudo para ser saudável.
E, apesar de terem suas individualidades preservadas, naturalmente não suportariam ficar distantes por tempo demais. Se Cartman não a irritasse ao menos três vezes ao dia, provavelmente entraria em colapso.
Sentados lado a lado, deram o beijo por encerrado. Apesar da dinâmica dos dois muitas vezes mais parecer com uma rivalidade, também podia haver momentos de carinho. Eric deu mais alguns selos calmos nos lábios dela e nos cantos, acariciando o cabelo curto na nuca, enquanto ela aceitava de olhos fechados, limitando-se a segurar firme em sua mão. Era um bom avanço.
Quando o sentiu parar, Henrietta olhou ao redor. Estava bem longe de ser uma bagunça – ou chiqueiro, como ela tinha zombado. Na verdade, já imaginava: desde o dia que o conheceu reconheceu-o como alguém ordeiro. Era um quarto com paredes neutras, guarda-roupa embutido, uma televisão com dois diferentes consoles de videogame, nichos pelas paredes em que organizava os jogos, uma poltrona reclinável, a escrivaninha em que ficava o computador com dois monitores e uma cama de casal, na qual se sentavam. “Vai ver, ele também sempre precisou de mais espaço” a garota supôs ao analisar que os dois tinham camas do tipo em seus respectivos quartos. Tudo no cômodo era incrivelmente alinhado, aconchegante e limpo. Muitos caras e também garotas considerariam um espaço desses como um pequeno paraíso.
— Eu pensava que você fosse meio sociopata, mas acho que só é muito sem noção. — ela disse.
— Pode questionar meus métodos, não meus resultados.
— Então pretende me molestar toda vez que eu tiver uma recaída?
— Eu não te molestei ainda. — retrucou com toda a serenidade, ao que Henrietta prendeu a respiração. Corou do pescoço às orelhas. — Espero que seus amigos tenham levado em conta o que você disse. Sobre precisarem interpretar melhor a cultura gótica e tudo mais. Não reclamaria se pelo menos mais dois de vocês parassem de fumar, ainda não consegui tirar o fedor de cigarro de mim.
— Pessoalmente, não contaria muito com isso. Já foi um alívio eu não ter sido jubilada do grupo, simplesmente impus que não vou mais fumar e que muito do que entendíamos sobre o gótico estava errado e ainda saí impune. Sem Shelly e Karen eu estaria perdida.
— Se importa mesmo com isso? — Cartman franziu o cenho. — Em não te aceitarem mais? Deviam ter medo que você não quisesse mais andar com eles, não o contrário.
A gótica parou para pensar por um minuto. O desgraçado tinha razão.
— Imagino que se lembre que foi Michael quem me acolheu quando me mudei pra cá pela primeira vez. Quando criança, costumava ficar só na companhia dos garotos. Não fiz amizades profundas enquanto estive fora, não achei que alguém fora da minha cultura valesse a pena. Andar com os góticos é tudo o que eu conhecia, é o pensamento que meu grupo alimentava.
— Tô pouco me fodendo pra esse pensamento. — sorriu de canto. — Vai ter que me aguentar, agora.
Henrietta não conseguiu conter a vontade de retribuir o sorriso. Mas conseguiu conter o desejo de se aconchegar nos braços dele.
— Então? — ela começou a indagar. — Tô aqui só pra fofocar sobre meus amigos?
Balançando a cabeça negativamente, Eric emitiu um riso curto. Se inclinou ao pé da cama, de onde levantou uma capa negra que abrigava um pequeno instrumento. Ao identificá-lo, a gótica petrificou.
— Acho que te devo algumas aulas. — o rapaz descansou o violino no colo dela. Henrietta olhava o objeto coberto com receio.
— ...Não acho que seja uma boa ideia.
— Etta. Você costumava sonhar com isso, ninguém pode tirar isso de você.
A admiradora do macabro podia jurar que viu os olhos dele em chamas. Um ódio concentrado por alguém que Eric teve o desprazer de descobrir o que fez. Tudo o que fez. O quanto a afetou e atrapalhou a ele também.
— Já foi o meu sonho. Agora é só algo que admiro, não algo que eu me sinta capaz de fazer.
— Vai mudar de ideia. Posso ser um ótimo professor. — sorriu consigo mesmo. De fato, um dia foi. Graças a ele, uma turma inteira de adolescentes do gueto foi aprovada no vestibular. Como disse antes: podiam questionar os métodos, não os resultados. — Se depois achar que isso não é pra você, sem problemas. Mas não vou te deixar sair daqui sem tentar.
Henrietta parou. Suspirou. Por fim, decidiu puxar o zíper da capa do violino. Retirou-o dali, parando para admirar a madeira polida. As curvas. As cordas finas de crina animal.
Não podia negar: era belíssimo. Também não poderia recursar a oferta. Tentar não a mataria.
Cartman passou o resto da tarde a instruindo. Concedia explicações com paciência e detalhes, porém sem menosprezar sua inteligência. Não hesitava em tocá-la nas mãos para mostrar alguns manuseios: qualquer oportunidade de tocar a pele dela era aproveitável.
“Maldito.” a gótica pensava, trocando olhares com ele. “Consegue mesmo me fazer gostar mais dele.”
E pensar que ainda havia no mundo quem achasse que ele era a fonte de todo o mal existente. Como já mostrou em diferentes gestos, desde sempre, Eric Cartman podia ser ótimo. Se lhe fosse conveniente e da sua vontade.
* * *
O presente.
Saíram do colégio com a mesma tranquilidade com que entraram minutos antes. Não precisavam ficar grudados o tempo todo, mas às vezes, o queriam. Na urgência por um momento a sós, aguardar até o fim do horário letivo se tornou irrelevante. Podiam ter um relacionamento saudável, mas eram uma péssima influência um para o outro.
Depois de escaparem da instituição de ensino médio, andavam por South Park... De mãos dadas. Não por influência de Mitch, ou de Kerstin – que, honestamente, nenhum deles sentia a menor falta. Estavam gratos pelas mãos vivas terem dado uma trégua. O nazista e a gótica andavam de mãos dadas, unicamente, porque parecia certo.
Para Henrietta, era notadamente complicado. Uma situação fofa e açucarada, que sempre julgou quando via em outros casais. O semblante dela era puro incômodo, um sentimento de vergonha de si mesma por sua hipocrisia. No entanto, como Eric podia perceber pelo aperto em sua mão, ela seguiria em frente. Parecia querer provar para si, e também para ele, que era capaz de usufruir de tudo que o relacionamento envolvia. Que não aceitou esse desafio para amarelar agora. “Pelo menos minha mão não tá suando”, pensava.
Henrietta – ou melhor, a personagem criada por ela à sua semelhança – caminhava por uma cidade vitoriana e decadente. Munindo um bacamarte e um enorme cutelo, enfrentou cidadãos hostis, lobisomens, corvos gigantes e algumas criaturas incompreensíveis pelas ruas. Ao alcançar uma ponte de pedra, começou a atravessá-la lentamente, até uma fera da altura de um edifício se lançar no caminho.
A Besta Clerical gritava e atacava sem piedade, ao som de uma trilha instrumental clássica e intensa. Henrietta deslizava, atacava e desviava de golpes com uma maestria surpreendente. Toda a experiência de quem completou aquele jogo e enfrentou aquele inimigo antes. De novo e de novo.
Naquele momento, Cartman era um mero expectador. Não podia negar sua admiração: Henrietta, sentada sobre o tapete tal como ele, à frente dele, entre suas pernas, estava num estado de concentração absoluta. Parecia uma só com Bloodborne, um jogo conhecido tanto pela estética macabra e referências a Lovecraft quanto por sua dificuldade.
O gosto por videogames era algo mais que tinham em comum. Eric se lembrava dela na fila para a compra do PSP, evidentemente; também se lembra que ela escolheu o lado do PlayStation 4 num período sombrio conhecido como Black Friday. Agora, tudo fazia sentido: não poderia jogar Bloodborne, jogo exclusivo da PlayStation, num XBox.
A admiração dele não se dava apenas pela habilidade e foco da gótica: jogos como aquele, da mesma linha do famigerado Dark Souls, não estavam entre seus favoritos. Cartman gostava de um bom desafio, uma boa dificuldade... Mas aquilo já era demais. Caso tentasse, teria arrebentado seu console na primeira semana.
— Gosta mesmo desse jogo. — comentou, ainda embasbacado. A forma como ela subjugava a Besta fazia parecer fácil.
— Tá brincando? É o meu favorito. — sorriu com olhos brilhando, embora ele não pudesse ver. — É o único que me prestei a platinar. A estética gótica, a história por trás dos itens, a música, as referências literárias... É simplesmente perfeito.
Apesar dela também não poder enxergar, Cartman sorriu, igualmente. Por mais que o jogo não fosse do interesse dele, sentiu um calor no peito ao ouvi-la falar do que ama. Poderia assisti-la jogando o dia todo e se divertir com isso.
Ao lado dos dois, duas latas de refrigerante pela metade e alguns salgadinhos de qualidade duvidosa recém consumidos. Tal como crianças, fugiram dos estudos para jogar videogame e comer porcaria. De fato, eram más influências um pro outro. A decisão ainda parecia bastante certa.
Olhava mais um pouco para o quarto da gótica. Totalmente fora da curva, como ele esperava. Pouca luz, muito preto, muitas velas vermelhas e roxas em candelabros, algumas inclusive queimando. Pôsteres de bandas que ele não conhecia, morcegos, crânios, muitos livros em estantes e uma ou outra pelúcia macabra. Uma escrivaninha grande com um notebook e uma cadeira neoclássica; tinha espaço demais e muitos papéis, devia usá-la mais para escrever. Uma cama de casal e um grande tapete no chão, no qual estavam.
Não era exatamente convidativo ou aconchegante, Eric precisava admitir. Mas era uma parte dela. Um reflexo da mente e da personalidade da Henrietta, e ele estava ali por sua permissão e vontade. Podia não ter sido o primeiro: seus amigos frequentavam o espaço há anos, até o maldito Mysterion já entrou no antigo quarto dela há muito tempo. Mas o significado de estar ali era diferente de todos eles. E, é claro: ninguém além dele a tocou ou tocaria naquele quarto da mesma forma que ele poderia.
Acomodando-se, o rapaz se escorou na cama atrás dele. Enlaçou a gótica com os braços, acima dos quadris, trazendo-a para perto de si. Assim que Henrietta percebeu a movimentação, instintivamente quis paralisar e recuar. Com esforço, relaxava os músculos aos poucos, se permitindo ser conduzida.
Sentiu as costas tocando o peito dele. Eric apoiou o queixo no ombro dela, continuando a assistir ao jogo.
Apesar de estar indo bem, o dano e a vida da personagem da gótica eram baixos. Era apenas o início, o primeiro chefe a enfrentar. Sem mais seringas de cura, sem balas, com apenas um sopro de vida e com a Besta necessitando de mais dois golpes para ser abatida, já distraída do que estava fazendo, Henrietta viu-se morrendo vergonhosamente. Mesmo acostumada com a cena, suspirou.
— É. — concluiu. — Nem experiência te impede de morrer.
Cartman riu brevemente. A envolveu com mais vontade. Abandonando lentamente o controle, a gótica selou os olhos. Amolecia nos braços dele.
Eric era gordinho, com uma barriguinha protuberante assim como ela. Era incrivelmente macio e confortável. E cheiroso. Um calor humano na medida certa.
Não souberam ao certo por quanto tempo permaneceram nesse estado. Aos poucos, Henrietta se acomodou, o suficiente para se posicionar de lado. Deixou-se encostar a cabeça no ombro de Eric, posicionando as pernas por sobre a dele.
O silêncio. A atmosfera de meia luz sob as velas. O quanto o sentimento e as sensações eram boas, e o quanto se sentia acolhida. A gótica ainda achava tudo muito estranho; no entanto, não o suficiente para parar.
Quando Eric a beijou no topo da cabeça, cheirando seu cabelo rebelde, e ela o envolveu de volta por sobre os ombros, Henrietta teve certeza: a vida é dor, mas não o tempo todo.
* * *
À noite, sozinha no quarto e vestida para dormir, ela ainda tinha a trilha sonora de Bloodborne na cabeça. Os violinos e violoncelos frenéticos, o clima de suspense e os mórbidos cânticos em latim. Era perfeito aos seus ouvidos, e o jogo era perfeito aos seus olhos. Por dentro, estava alegre por ter compartilhado todo aquele momento com ele. Alegre por cada um dos pequenos segundos.
Se deitou na cama e se cobriu. De olhos fechados, tinha um sorrisinho nos lábios. Sumiu rapidamente com ele. Estava se esquecendo de deixar a guarda alta; aquela alegria toda poderia acabar num instante. O relacionamento começou com dificuldades, mas poderia terminar num sopro. Ao menos, na perspectiva dela.
Antes que pegasse no sono, pensava nos instrumentos da trilha do jogo. Se especializar no violino parecia não encher mais os seus olhos, talvez pela melancolia envolvida nas lembranças. Mas poderia tentar outra coisa.
Ampliando os olhos num pequeno susto, Henrietta acordou no meio da noite. O barulho que ouviu não veio de um sonho, tinha certeza. Teve noites tranquilas desde que ela e Eric se acertaram.
Lentamente, se ergueu. Se sentou apoiada nos braços e olhou ao redor. A escuridão era quase completa e, a princípio, nada parecia fora do normal. Até notar a cortina movendo-se com o vento.
A janela fora aberta. Tinha certeza. Como sempre, se certificou de trancá-la antes de se deitar. A sensação de não estar só, de estar sendo observada, era muito clara.
Não se desesperou. Com cuidado, esticava a mão até abaixo do travesseiro. Procurava por uma adaga ornamentada, daquelas usadas na feitiçaria, porém afiada, ao contrário das que tinham esse fim. Já assistiu documentários de true crime o suficiente para ter ao menos alguma precaução. Se gritasse, apenas despertaria a ira do possível invasor e se tornaria mais uma nas estatísticas antes que alguém da casa chegasse; optando pela calma e por uma arma, ainda que se ferisse, teria alguma chance de se defender. Ou, ao menos, de atrasar o agressor.
Entretanto, não encontrava o objeto. Tensa, porém silenciosa e apática, movia os dedos de um lado para o outro sob o travesseiro. Não estava lá.
— Procurando por isso?
O coração dela quase saltou pela boca quando ouviu a voz grave e áspera. Virou o rosto instintivamente na direção de onde veio. Uma figura totalmente negra, que parecia usar uma longa capa, olhava para ela com olhos faiscando em vermelho.
O peito da gótica mais parecia uma bomba relógio. Quando o ser levantou uma das mãos, pôde ver a adaga que procurava em sua posse. A lâmina faiscou sob a luz da lua, que invadia o quarto pela fresta entre as cortinas. Henrietta também observou, na mão masculina que julgou familiar, o brilho de algo de aço entre os dedos.
Viu nitidamente quando ele fincou a adaga na cômoda às costas. Rápido e sem esforço. A aproximação dele, ao contrário, era lenta. Lenta e intimidadora.
Henrietta se levantou num salto. Mantendo contato visual com o invasor, andava de costas, tateando ao redor na busca por outra coisa com que pudesse se armar. Até que o viu.
Os olhos já não ardiam em vermelho. Era alto, notadamente acima do peso, com músculos fortes e ares selvagens. Na perspectiva em que estava, a gótica jurava que poderia ser engolida por ele. Seus detalhes eram pouco nítidos devido à pouca luz, mas suficientes para conseguir reconhecê-lo.
Apesar do porte robusto, o traje parecia perfeitamente ajustado ao corpo. Favorecia a força acima da gordura corporal elevada. Usava botas de combate, calças cinzas num tom que muito se aproximava do preto e camisa com mangas longas de mesma cor, exceto pelo centro: branco acinzentado, com um “C” estilizado no peito. O cinto tinha compartimentos de conteúdo desconhecido, a capa vermelha e escura acoplada aos ombros era tão longa que por pouco não alcançava os tornozelos; parecia capaz de tirá-la facilmente se precisasse, não passava de uma peça de apresentação. Um cabelo castanho desalinhado aparecia detrás da máscara animalesca, coberta de pelos grossos. A expressão na máscara fazia-o parecer em ódio perpétuo, o olhar quase não parecia humano.
O coração de Henrietta batia com força, excessivamente. Uma vontade de rir cresceu subitamente dentro dela. Porém, quando ele começou a vir na sua direção, encerrando a distância rapidamente com passos pesados, ela percebeu que na verdade não via graça. O que sentia era nervosismo. Desejo. E um pouco de medo.
O Coon. Aquele que controlou o deus Cthulhu. Que dizimou hippies, destruiu sinagogas e livrou a terra da ameaça do Justin Bieber. Primeiro, um herói guaxinim buscando reconhecimento, depois traído e moldado em antagonista pelo grupo que ele mesmo ergueu. E, principalmente: o herói de infância da gótica. Não necessariamente uma figura por quem teve uma queda – afinal, decidiu por não criar paixões bem antes de conhecê-lo — mas alguém por quem teve uma admiração genuína. Uma gratidão que, um dia, beirou a devoção. Uma figura misteriosa que agora, graças a ele mesmo, Henrietta sabia quem verdadeiramente era.
Isso explicava como ele sabia da adaga sob o travesseiro. O desgraçado estudou o seu quarto.
Coon a prensava contra a parede. Uma luz piscou no céu, adentrando o quarto; um relâmpago oculto pelas nuvens densas. Ele apoiava um braço sobre a parede, ao lado do rosto dela. As faces a centímetros de distância. A sombra de sorriso que Henrietta esboçou antes há muito desaparecido.
Não esperava que fosse vê-lo dessa maneira algum dia. Tinha adaptado bem demais o traje, mantendo fidelidade ao original e eliminando detalhes inúteis que ela mesma tinha observado. Quando ele tocou seu rosto, Henrietta sentiu o frio do aço, arrepiando-se por inteira, e identificou o que ele tinha preso aos dedos: em vez de garras, Coon usava socos-ingleses com pontas afiadas. A combinação perfeita para espancar e rasgar a carne. Constatando esse fato, sem saber exatamente por que, a gótica fechou os olhos e mordeu disfarçadamente o lábio.
E a voz. O que foi aquela voz? Sabia que era dele, e ao mesmo tempo era totalmente diferente. Completamente firme e autoritária.
Chegou a pensar em zoar com ele. Tirar sarro da fantasia, mesmo que seu corpo não achasse graça nenhuma. Censurá-lo por ter roubado a adaga de segurança bem sob o nariz dela e depois invadido seu quarto em plena madrugada. Qualquer reação, qualquer coisa. Entretanto, quando ele segurou seu pescoço numa mão, aço gelado contra a pele sensível, apertando de uma forma perigosamente agradável, não viu mais sentido em abrir a boca para algo que não fosse suspirar.
Henrietta sentia beijos indelicados distribuídos por seu ombro. Chegou a inclinar a cabeça para um lado para conceder mais espaço. Quando ela tocou o peito do anti-herói, esmagando o tecido e trazendo-o para mais perto, pôde sentir que ele sorria contra a pele dela com escárnio.
Coon tomou os lábios da gótica. Nada além de necessidade primitiva, e foi correspondido da mesma forma. Pareciam competir pelo comando. Não existia mais nada entre eles, nem um átomo de espaço. A segurava contra a parede e a agarrava na nuca à medida em que ela explorava suas costas e o que mais estivesse ao alcance das mãos. Quando ela o envolveu com uma das pernas, era como se um demônio apoiado em seu ombro ordenasse que a tocasse nas coxas e a explorasse sob a curta camisola de seda. Uma peça tão fina e tão desnecessária.
A luz entrou pela porta recém-aberta. Fora do quarto, Bradley os encarava vestindo o maldito pijama rosa com frutinhas. De sono leve, acordou com o menor dos ruídos.
Quando Coon e Henrietta notaram que foram flagrados, ambos soltaram um grunhido de ódio. Se separaram tão rápido quanto tudo começou, todo o clima indo pra casa do caralho. Continuar com aquilo na presença do loiro seria impossível.
— Eu... — Bradley pensava no que dizer. Apertava os olhos nos dedos como se os tivesse queimado. — ...Esquece. Me lembre de nunca mais pensar em te socorrer.
— Sai daqui, merda! — Henrietta ordenou, e antes que avançasse nele a porta já estava fechada.
Ela esfregava as têmporas, tentando reunir as últimas gotas de calma.
Procurou por Coon. Já não estava no quarto. Ao olhar para a janela, viu uma parte da capa dele escapando para fora.
Caminhou até lá. Olhou através, para o gramado coberto de neve baixo, procurando qualquer sinal dele. Tinha sido real, real demais, e com Bradley como testemunha duvidava muito que tivesse sido um sonho ou alucinação. Mas não o viu.
Escondido estrategicamente atrás de galões de lixo feito um verdadeiro guaxinim, Coon observou quando a gótica fechou as janelas com uma pancada, trancando-as de novo e reunindo as cortinas. “Eu continuo deixando a guarda baixa”, Henrietta assumiu em pensamento, detestando-se. “Mas... Foi bem legal.”
* * *
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