Notas iniciais
Essa fanfic começou como um desafio lançado pelo Knight Beast X em sua história "Sombra do Passado e a Luz do Futuro". Como leitora, recomendo a qualquer um que leia a fic em que o desafio começou. Depois de Knight me [ameaçar] inspirar tão gentilmente a escrever isso aqui, não tive muita escolha. Avisos superimportantes: A linha temporal da série aqui utilizada se limita à temporada 16, que era a mais recente na época em que começou a ser escrita (2013). Heidi, a COVID, até Creek, nunca aconteceram aqui por conta isso. É isso. Boas vindas! Espero que goste dessa trajetória tanto quanto gostei de escrevê-la ♥

Era como sempre faziam: enquanto o restante das crianças da South Park Elementary se entretinha com brincadeiras e jogos durante o horário recreativo, quatro góticos sentavam-se ao chão sobre um tapete escuro. Bem isolados do resto das crianças, próximos aos fundos da escola, ao som do estilo musical que mais apreciam: rock gótico. Seja sobre solidão, decepções ou corações despedaçados.

Cada gótico tem uma razão para ser o que é neste grupo. Estes, em particular, não são góticos só por apreciarem um gênero determinado de música ou por terem um estilo próprio de vestir-se e maquiar-se; era bem mais complicado que isso.

O mais alto, também mais velho entre todos os góticos, está no grupo tanto por sua taciturnidade natural quanto pela separação de seus pais há cerca de anos. Como todos os góticos, usa delineador. Seu cabelo é crespo, usa coturnos, camisa social branca, sobretudo preto aberto e um brinco dourado de pentagrama invertido na orelha esquerda. Tem um sério problema para controlar surtos de ira graças a separação dos pais e por isso é obrigado, por sua mãe, a frequentar uma classe de gerenciamento de raiva aos fins de semana. Como se sua raiva tivesse chances de ser gerenciada, que dirá por um "puto conformista", em suas próprias palavras.

O mais alto, também graças a trágica separação de seus pais, teve dificuldades nos estudos e precisou repetir anos escolares, sendo obrigado a estudar no 5º ano do ensino fundamental junto de mais dois góticos em seu grupo. Às vezes, ao pensar em toda a sua situação, o mais alto torna-se tão depressivo que perde o equilíbrio. Daí a razão dele ter adquirido o hábito de usar uma bengala como terceira perna, embora opte por não usá-la em casos isolados. Dentre todos os tópicos, a separação dos pais foi a maior influência para ter fundado o grupo dos góticos.

  Pois, quando se está angustiado na maior parte do tempo, é difícil não acreditar que a vida é apenas dor.

O mais baixo de todos, do jardim de infância, chamado por todos de "anão", é o mais sinistro do grupo, contradizendo com sua aparência adorável. Tão jovem, e aparenta não possuir uma alma. Usa camisa, calças e sapatos pretos. Seu cabelo é liso, preto e posto com uma franja longa na lateral do rosto. Conseguiu tamanha frieza por ter sido abandonado pelos pais biológicos logo após seu nascimento e encontrado aos prantos numa caçamba de lixo. Um casal tristonho que não podia ter filhos foi quem o havia encontrado.

"Um presente de Deus" foi o que disse o casal ao bebê. Adotaram o pequeno e o trataram com amor, mas... O casal nem se deu ao trabalho de esconder do filho que o mesmo foi encontrado numa lata de lixo e adotado. O anão tem seus motivos, mesmo que fúteis, para justificar sua frieza. Faz questão de mostrar-se cruel aos seus colegas de grupo e tem suas razões para sentir raiva de seus pais descuidados.

Mas, em sua casa, longe dos olhos de todos, torna-se uma criança amável e divertida igual a qualquer outra.

E ninguém descobrirá isso.

Jamais.

O garoto de estatura comum para uma criança de 9 anos estuda na mesma sala com o gótico mais alto e outra gótica de sua idade. Usa camisa cinza social, gravata texana, calças pretas e sapatos winklepicker roxos com fivelas. O que mais chama atenção nele é seu cabelo onde o vermelho e o preto se mesclam, criando uma franja semelhante a garras suaves, lançada no ar frequentemente para ser afastada de seus olhos e permiti-lo enxergar melhor. Franja esta que, aos olhos de garotas, tornam-no charmoso. Aos olhos dos garotos, bem... "Gay".

E este foi o estopim de seu trauma.

O garoto com cabelo bicolor não possui um trauma familiar como seus colegas em preto; tornou-se gótico pois queria ser um. Usou as mesmas roupas, ouviu as mesmas músicas, fez um corte de cabelo escondido dos pais. Quando apareceu na escola com o cabelo ao novo estilo, foi humilhado e surrado pelos garotos até que pôde escapar. Trancou-se no banheiro da escola e chorou onde estava por horas a fio, tendo apenas seus fones de ouvido e um celular com a memória interna abarrotada de darkwave como companhia.

Infelizmente, após perder um dia inteiro de aulas e o intervalo, em algum momento ele precisaria sair de seu refúgio. Precisou ficar isolado até ter certeza de que todas as crianças da escola tinham ido embora para, finalmente, sair do esconderijo.

Para seu azar, ou sorte, nem todos da escola haviam ido embora. No corredor, fumando um cigarro, estava a garota gótica que o ajudou a se reerguer das trevas... Ou abraçá-las como sua salvação. A mesma garota apresentou-o ao grupo gótico, o acolheu e se tornou sua melhor amiga desde então.

Henrietta Biggle, a única garota gótica do grupo. "Cheinha", com os cabelos curtos num corte incomum, tem um passado ainda mais incomum para alguém de sua idade. Usa maquiagem pesada, batom roxo e tem as unhas pintadas de preto. Usa sapatilhas, luvas cujos dedos ficam expostos e um longo vestido; todos igualmente pretos. Em seu pescoço, leva um colar com um grande crucifixo de prata. Entre todos os góticos, Henrietta é a que mais fuma cigarros.

Possui uma personalidade forte. Não se acovarda a ninguém: enfrenta qualquer um, até mesmo sua própria mãe. Henrietta foi a segunda a entrar no grupo e, respectivamente, o gótico de cabelo bicolor foi o terceiro e o anão foi o quarto.

Stan Marsh foi um quinto gótico, afastado por seu próprio conformismo. Um falso-inconformista. Um gótico de verdade teria assumido este compromisso para sempre e o levaria consigo para o túmulo.

Henrietta tem um lema que segue e, em suas notas mentais, jamais deixará de seguir: "amor é para os fracos. Você não é fraca, você não pode amar". É dolorosamente cômico pensar que, antes de criar o lema, a gordinha não pensava desta forma. O que a fez mais resistente foi a decepção com seu primeiro amor.

Tinha 8 anos quando se interessou por um garotinho de sua classe. Uma paixão precoce, à primeira vista. Decidiu abordá-lo a partir da amizade, não demorando demais para Henrietta e o garoto por quem estava interessada tornarem-se próximos. Foi lamentável que, no fim das contas, o coração dela foi pisoteado por sapato de salto fino.

Bem... A história de Henrietta é algo que deve ser contado mais tarde. É longa, complicada, capaz de impregnar com pena o mais gélido dos corações. A mesma compaixão que ela odiaria receber. Seu trauma, apesar de entristecedor, pode ser facilmente esquecido se mantiver-se focada em outras coisas. Entre essas outras coisas, Henrietta sofre pela família desaprovar seu jeito de se vestir e pela mesma família estar sempre convivendo com problemas internos.

A gótica é uma verdadeira sobrevivente quando se trata de aguentar a família. E, ainda por cima, Henrietta tem seu lado tímido. Assim, precisa se sentar nas últimas cadeiras ao fundo da sala de aula junto com o gótico alto e o gótico de gravata texana, razão para ela e os amigos passarem por despercebidos na classe.

— Cara... — iniciou o gótico com cabelo bicolor. Sua voz, como sempre, tão monótona que transmite calma. — Isso aqui tá um tédio.

— Não está satisfeito? — manifesta-se o gótico mais alto. — Isso é o que fazemos todos os dias: fumamos e ouvimos música. O que quer fazer para "matar o tédio"?

— Que tal escrevermos poesias sobre nossa dor? — sugere a única garota do grupo logo após tragar seu cigarro. — Já elaborei uma poesia, um poema e duas prosas na noite de ontem.

— A apresentação de poesias sobre a dor é só amanhã. Hoje é dia de apresentarmos poesias sobre como o mundo é patético. — responde o líder do grupo.

— Que tal nos queixarmos dos conformistas? — sugere o mais baixo de todos.

— Certo. — concorda o líder. — Sobre quem reclamaremos desta vez?

— Vampiros? — sugere o anão novamente.

— Já falamos deles. Que tal as líderes de torcida? — Henrietta manifesta-se.

— Já falamos delas umas mil vezes. — diz o garoto dos sapatos roxos. — Por que não falamos daqueles quatro garotos esquisitões?

Isso tocou quase que imediatamente a gótica. Henrietta quase engasgou com o cigarro em seus lábios ao ouvir as últimas palavras do melhor amigo. Ela sabe muito bem de que garotos o gótico de cabelo bicolor está falando: um judeu, um ex-gótico, um pervertido e um... Gordo antissemita.

Por alguma razão, Henrietta torna-se bem nervosa sempre que se lembra do último citado. Nada muito preocupante.

Por ora.

— Falando no diabo... — o mais alto revira os olhos. — Lá estão eles, jogando futebol americano.

— Conformistas. — diz o melhor amigo da gótica.

— É. — dizem todos os góticos juntos em concordância. Ou... Nem todos. Não Henrietta.

"Ele é mesmo um conformista?" a gótica se pergunta em sua mente.

De acordo com o dicionário, "conformista" é quem se conforma com as tradições. Que não busca ser diferente em nada. No pensamento deste grupo de góticos, conformista é aquele que aceita qualquer coisa, que obedece aos padrões, que não tem personalidade própria. Aquele que só segue o fluxo. São como... Zumbis da sociedade. O que leva a gótica a pensar no assunto? Simplesmente por ela não saber se um daqueles garotos se encaixa nesta definição.

Stan Marsh é um conformista de marca maior, tanto que tornou-se gótico e saiu do grupo em pouco tempo. Kenny McCormick tem suas razões para também ser. Kyle Broflovski... Esse, nem se fala. E Eric Cartman? Onde está o conformismo de Cartman? Manipulador, astuto, cria suas próprias normas e não costuma respeitar a dos outros, dobra imposições sociais às suas vontades.

Cartman, definitivamente, não é um conformista.

— Henrietta, por que não concordou? — o garoto com botas roxas cobra a amiga. — Sabe que devemos concordar em tudo.

"Mas... Concordar em tudo não seria conformismo...?" a garota reflete novamente em silêncio. Ela nunca antes parou para pensar que, enquanto o grupo em que está tenta fazer de tudo para não ser igual aos outros, estão sendo idênticos entre si. Mesmo gosto musical, mesmo estilo de se vestir... Concordarem todos juntos, em tudo, já é demais. Henrietta não é uma conformista.

— Não concordei porque não concordo, oras. — a garota leva o cigarro à boca.

Os outros três góticos a encaram fixamente. Em segundos, a garota fica constrangida ao receber tanta atenção.

— O que foi? — encara-os de volta com cenho franzido.

— Por que não concorda conosco, "Etta"? — o mais alto pronuncia. Henrietta não gosta nada de quando o líder a chama desta maneira, e ele sabe disso muito bem. — Não acha que eles são conformistas? Então, por que não vira amiga deles? Vá viver um conto de fadas.

— Não precisa falar assim, cara — o melhor amigo de Henrietta defende-a. — Não tem nada mais conformista do que concordar em tudo. Deixe que Etta expresse sua opinião.

A gótica sente-se feliz... Por dentro. Henrietta quase nunca sorri, mas tem seus momentos de felicidade interna. Sua felicidade surgiu por, mais uma vez, seu melhor amigo tê-la defendido. O gótico com a franja de garras é um bom amigo, sabe respeitar o espaço da garota e a defende quando preciso. Claro que estaria muito mais satisfeita com o ato do amigo se o mesmo não tivesse chamado-a pelo apelido proibido.

— Está bem. — o líder suspira. — Essa posso deixar passar.

As últimas quatro palavras foram seguidas por silêncio, só com a música depressiva ao fundo. Isso se repete muitas vezes. Os góticos nunca têm lá muitos assuntos e só têm conversas longas no momento de recitar poesias ou ir aos encontros da seita.

As mentes dos garotos do grupo, mais uma vez, encontram-se vazias. Como sempre ocorre nos momentos onde o assunto é finalizado, estão remoendo seus passados, como se exercitassem constantemente uma melancolia. Todos eles quase não sentem tristeza, mas raiva, ao lembrar-se de uma das razões para serem o que são. Mas Henrietta, por motivos desconhecidos, sente um incômodo terrível ao lembrar-se do garoto que a fez sofrer na antiga cidade em que morava. As mãos dela, também "fofas" graças ao seu tipo físico, suam copiosamente.

A gótica nunca parou antes para pensar no quanto Cartman pode ser um não-conformista. Para ela, todos além de seus colegas são conformistas. Henrietta sempre concordou com tudo e, desta vez, não concordou.

"Frequentamos uma seita para tentar fazer do mundo um lugar sombrio" pensa a garota. "Não é isso que o gorducho quer fazer? Mudar o mundo para agradar a si até nos atos menores? Cartman não é um conformista. Ele tem personalidade própria. Ele é..."

Henrietta não pode crer. Passar por isso... Outra vez. Observar o péssimo desempenho de Cartman no meio do pátio da escola ao jogar futebol americano a fez notar quantos pontos admiráveis Cartman tem se comparado com o garoto de sua antiga escola que, hoje, leva nas mãos cada metade de seu coração gelado.

"Coração gelado". O garoto que levou seu coração parece ter voltado para devolvê-lo curado, quente e vivo. E, agora, seu coração aquece por outro garoto. Logo por Eric Cartman?! Oh, por Deus!

Os olhos da gótica se umedecem ao lembrar-se de tamanha decepção que viveu. Seu melhor amigo percebe sua mudança de humor repentina, mas a falta de coragem não o deixou questionar.

"Não posso passar por tudo aquilo outra vez" Henrietta se decide. "Não outra vez. Não por ele". A mãe da gótica faz tudo que a filha deseja, então, Henrietta sabe que se pedir para mudar de cidade, a mãe concederá o pedido sem problemas. Se usar uma estratégia, fazendo-se de menininha triste, sua mãe não terá chances de negar suas vontades.

Assim que possível, Henrietta sumirá e não deixará vestígios de que esteve aqui. Não dirá sobre sua partida nem ao seu melhor amigo. Sem preocupações, afinal... Quem poderia sentir sua falta?

* * *