Malaxophobia

18 Decadência e derrota


Mentalmente perturbada, incapaz de pronunciar uma reclamação sequer, Henrietta precisou parar para respirar fundo. Tentando manter a pouca calma que tinha, arrastou a mão livre pelo rosto em frustração completa, revirando os olhos até que as íris sumissem. Na tentativa de sustentar sua paciência, inspirou mais uma vez e arrastou uma das cadeiras da cozinha, onde pôde se sentar. É realmente difícil, quase impossível, de compreender que o controle sobre sua mão esquerda agora é apenas parcial.

Aquela mão, com rosto e voz própria, era como um organismo independente colado ao seu corpo pelo acaso. O mais bizarro de tudo, como se algum ponto em meio a todo esse caos pudesse ser pior que outro, era que a gótica entreabriu os lábios involuntariamente quando a mão pronunciou aquelas palavras. Quem observasse pensaria que a estivesse dublando, assim como fazem os profissionais do ventriloquismo. Se esta situação fosse pior do que ter se vestido de cheerleader, o que “felizmente” não era o caso, Henrietta certamente teria entrado em colapso. O retorno a South Park fazia a vida na cidade anterior parecer fácil.  

Fechou a mão disponível num punho apertado, levou-o à boca e inspirou pela terceira vez. Uma gótica, vestindo traje de dormir, acordada durante a madrugada numa cozinha escura e conversando com sua própria mão: era preciso muita, mas muita sanidade mental para não surtar. Num último esforço para começar a administrar a situação, escolhendo bem suas palavras, limpou a garganta antes de falar:

— Que porra, em nome de todos os deuses, é você? — tomou coragem para olhar nos olhos daquele... Ser.

— Eu? Eu tenho muitos nomes. — seu tom de fala era uma clara tentativa de criar uma introdução dramática. O forte acento estrangeiro em sua voz alongava os “E”s e os “I”s, transformava os “O”s em “U”s e dava uma sonoridade cortante aos encontros entre consoantes e vogais. — Na Suécia, onde por muitos anos atuei como camareira renomada num hotel da pequena cidade de Linköping, muitos me conheciam por...

— Eu não quero saber a merda da sua história. — fechando os olhos com força ao falar, a gótica a interrompeu. — Me responda: Você é alguma entidade lovecraftiana que veio me atormentar? Eu não frequento mais aquela porra de seita, estou falando sério.  

— Não sou nenhuma entidade, garota estúpida. Meu nome é Kerstin Persner, e estou aqui para pôr algum juízo nessa sua cabeça vazia.

Sem aviso prévio, em seu limite de paciência, Henrietta bateu com a mão na parede ao lado. Teve satisfação ao perceber que, enquanto “Kerstin” está em ativa, as dores sentidas nesta mão são nulas. De acordo com seu grito sufocado, a sueca teria que suportar estas dores sozinha.

— Se pretende dividir esse corpo comigo, é melhor parar de me xingar de graça, “vadiazinha”. — Henrietta a intimidou. Era como adestrar Bradley, tudo outra vez.

— De graça?! — Kerstin reergueu-se para se impor, soando um tanto desnorteada. — Estou sempre te ajudando, sempre fazendo o possível para não precisar dar as caras e você vive me batendo nas coisas sem necessidade, sua puta burra. Se precisei me expor agora, a culpa é toda sua!

Ainda mais pasma, a gótica a encarou fixamente. Nem mesmo o “puta burra” pôde tirar sua concentração. Todo um hábito gótico de inexpressividade indo pelo ralo.

— Espera. Há quanto tempo você está aqui?

— Desde que aquele rapaz simpático... Com uma mão esquerda adorável... — por um instante, soou aérea feito uma mocinha apaixonada. — Pareceu querer se aproximar de você. E vamos deixar algo bem claro: eu não “estou” na sua mão... Eu sou a sua mão.

— Mas... — sua incredulidade não a permitia sequer piscar. — Qual é a lógica disso, meus deuses?

— Querida, você vive numa cidade onde existem relatos de atividade alienígena, gnomos ladrões de cuecas, caranguejos mutantes, uma toalha viva, um cocô falante como símbolo do Natal e outras milhões de coisas sem sentido e quer procurar lógica logo em mim? — Kerstin zombou dela como se fossem questões óbvias. — Como vocês americanos dizem... “Não fode”.

Com o pânico ligeiramente amenizado, bem ligeiramente mesmo, Henrietta mirou os olhos para o piso: era obrigada a dar esta razão a ela. Cartman não era um insano por parecer falar com a própria mão, afinal de contas. Ou... Talvez ambos precisassem urgentemente de terapia.  

— Você... — Henrietta recuperava a compostura. Ainda existiam muitas dúvidas ansiando por respostas. — Disse que vive me ajudando. Parece querer o meu bem, de alguma forma. O que quer dizer com tudo isso?

— Oras. Eu faço parte do seu corpo, e o seu corpo é um templo. Um templo meio esférico... Espera, espera, estou brincando! — reportou-se no momento em que Henrietta teve a intenção de acertá-la outra vez na parede. — Como eu dizia: se você não estiver feliz, se é que góticos ficam felizes em algum momento, eu não terei sossego. Então, é óbvio que prezo pela sua preservação. É um modo de eu me preservar também.

— Então não se trata de mim, mas de você. — concluiu, retornando à postura sem emoção. — Eu devia ter adivinhado.

— Nem sempre é dessa maneira, meu bem. Existem atitudes que tomo sem esperar nada em troca.

— É mesmo? — repousou o cotovelo no balcão para apoiar o queixo sobre a mão direita. — Exemplos, por favor.

— Quem você acha que empurrou a cara daquele mauricinho metido a besta que tentou te beijar no restaurante mexicano?

— Clyde? — ergueu sutilmente uma sobrancelha. Ela se lembra da sensação de sua mão esquerda empurrá-lo sem que pensasse diretamente em fazê-lo. Como esta poderia ter sido uma atitude instintiva, não se deu ao trabalho de questionar.

— O próprio. A “líder de torcida” que viralizou no Facebook essa tarde. — Kerstin parecia maldosamente contente com isto. — Eu não deixaria aquele moleque farsante comprar um beijo seu com presentes, sinto de longe o cheiro de aproveitadores.  

— Eu jamais teria beijado ele. — formou uma expressão desgostosa, quase nauseada. — Não sou uma puta paga, nem uma conformista. Não me deixo influenciar por presentes e não tenho nenhum interesse em envolvimentos românticos.

— Será que não tem? Ou será que tenta provar isso a si mesma pra esconder sua incapacidade de superar seus traumas? — o tom de voz debochado e cheio de si daquela mão atingiu Henrietta diretamente no ego. Diante daquela face raivosa, antes que a hospedeira refutasse, Kerstin decidiu prosseguir. — E digo mais: no carro do rapaz que te levou ao cemitério, fiquei quieta até o fim só pra não quebrar o clima entre vocês dois. Perdi uma chance de me apresentar ao Mitch, apenas pelo seu bem, e funcionou. Aquele garoto te deu um beijo tão doce enquanto você dormia... — de um tom de voz nas nuvens, o humor mudou rapidamente para uma afronta agressiva. — Pena que você é essa obesa com sono pesado.

Desta vez, passaram a existir incontáveis tópicos para Henrietta se questionar. De onde essa mão surgiu? Quais são suas verdadeiras intenções? Como ela sabe que Clyde tornou-se viral sem ter acessado a internet? Quem diabos é Mitch? Mas o mais importante: Cartman... A havia beijado. A havia beijado enquanto dormia, como em miseráveis contos de princesas para iludir crianças. Este ponto em especial lhe roubara completamente as palavras.

Apenas o pensamento desta atitude ter sido real aqueceu vigorosamente suas bochechas, revirou seu estômago, a fez engolir em seco, e ao mesmo tempo a deixou extremamente enraivecida. O rapaz havia tirado dela um beijo não autorizado, num momento vulnerável, e vem agindo como se nada tivesse acontecido desde então, sempre com aquela maldita cara lavada. Ela depositou nele sua confiança, para agora receber esta notícia de terceiros.

Para piorar, – afinal, tudo se tornar pior é sempre uma possibilidade – em vez de estar decepcionada com Eric, desejou ter estado acordada para saber como foi. Tentava tirar esse pensamento da cabeça, tentava de verdade, mas continuavam voltando e voltando para importuná-la, como tortura.

Compreender que estava realmente sentindo algo por Eric Cartman a fazia querer cometer suicídio. Não... Homicídio. Não, melhor ainda: atear fogo em outra Hot Topic, com vários vampiros dentro, e assisti-los queimando até a morte para amenizar o ódio em sua alma. Tanto tempo foragida de South Park, solitária, sem amigos, na intenção de evitar estes sentimentos... Não serviram de nada.

A insistência e a personalidade do bastardo jamais permitirão que ela se afaste, mas manter uma amizade com ele nunca poderá acontecer ou funcionar. Podem chamá-la de egoísta, desalmada, antissocial ou o que for, mas sua preservação sempre virá primeiro. Que doa a quem tiver que doer.

— Me pergunto o que aquele carinha viu em você. Acho que a sua maior sorte é não ser uma gorda feia. — Kerstin iniciou outra provocação. — “Olhem só como sou das trevas, como sou superior e como não me importo com nenhum de vocês. Vejam como sofro mais do que o mundo inteiro e como digo que sei tudo sobre a vida sem ter vivido nem 1% dela.” — riu de forma maldosa, na mais pura intenção de enfurecê-la. — Você é mesmo uma comédia, Henrietta Biggle. Ei, o que está fazendo?  

Sem se deixar levar por nenhum dos insultos, enquanto a mão tagarelava tranquilamente, Henrietta tinha se levantado. Havia posto uma tábua de corte sobre o balcão e amarrava com firmeza um elástico em seu pulso esquerdo, a dois dedos de distância de Kerstin, feito um torniquete improvisado. Existe algo que ela odeia, bem mais que conformismo, líderes de torcida, jogos de conquista ou até mesmo ser chamada de Etta: quando passam dos limites ao chamá-la de gorda.

— ...Biggle? — enquanto posta à força sobre a tábua, Kerstin tremia.

Ao ouvir um som cortante, assim que sua hospedeira encontrou e retirou um objeto da gaveta abaixo, gotículas de suor puderam ser vistas pela face da mão esquerda enquanto se tornava inteiramente branca de pavor. No seu ponto mais alto, a lâmina espessa reluziu à luz da lua.  Vindo de um gótico, citar Poe numa situação de morte seria bastante conveniente.

— “E o Corvo disse...” — a notívaga, com tom e olhar tão sóbrios que ocultavam sua insanidade, ergueu um cutelo afiado. — “Nunca mais.”

A reação da mão falante foi imprevisível. Tão imprevisível que a fez hesitar em “cortar o mal pela raiz”. Kerstin deixou de lado toda a sua postura hostil, toda a sua coragem exacerbada, para gritar desesperadamente por sua vida.

— Cala essa boca — Henrietta exigiu aos sussurros. — Kerstin, porra, dá pra você...?!

Interrompendo o momento, a luz do ambiente se acendeu repentinamente. Paralisada, ainda com o cutelo erguido e sem mover nenhum músculo, Henrietta olhou para o portal de acesso à cozinha. Bradley, com rosto exausto, usando seu ridículo pijama rosa bebê com estampa de folhas de menta, estava parado lá, e a encarava sem entender absolutamente nada. O cansaço e a frustração de ter sido acordado no meio da noite não o permitiam abrir a boca para reclamar, mas sua expressão por si só indicava muita coisa.

Os gritos tinham cessado antes que as luzes se acendessem. Como Henrietta suspeitava bem antes de retornar a atenção à Kerstin, ela tinha desaparecido. Os desenhos de boca e olhos haviam sumido, como se nunca tivessem estado ali, e o controle total sobre a mão estava de volta. Mais uma vez, nenhuma explicação coesa.

Felizmente, a gótica sabia que Kerstin não foi um mero delírio seu. Ela foi real; tão real quanto todas as maluquices desta cidade. E, oficialmente, mais um problema que precisaria aguentar.

* * *

Durante a manhã de mais um dia letivo, num corredor movimentado, Cartman aproveitava da ausência de seus amigos para reorganizar os pertences em seu armário. Tinha pegado os livros necessários para a primeira aula, guardado os que por ora não seriam úteis e ordenado os que mais tarde poderia precisar. Em meio à desordem, encontrou itens que não se lembrava de ter guardado. Dentre eles, uma capa de CD da Faith + 1, sua velha banda de rock cristão, e uma foto de si mesmo tirada na montanha russa do Cartmanland, o parque de diversões adquirido por ele próprio com a herança deixada por sua avó.

De todas as fotos tiradas em sua infância, aquela provavelmente era a que estava mais genuinamente feliz. Um parque apenas para si, sem gritarias ou filas, conseguido pelo próprio esforço. Sempre apreciou a própria companhia e sempre detestou esperar demais para fazer algo.

Por um instante, chegou a sorrir com as duas recordações. No momento seguinte, suspirou tristemente, lembrando-se que ambas as conquistas um dia foram frustradas. A imagem que passava aos outros quando criança, por motivos justos diga-se de passagem, era de alguém que não merecia ser feliz ou se dar bem em algo na vida, e todos os seus sucessos resultavam num tiro saindo pela culatra. Ao menos, o dinheiro que guardou às escondidas nas duas situações serviu para poder comprar seu próprio carro nos tempos atuais.

Ter o pedido de uma Ferrari negado por sua mãe enquanto um garoto mimado o tinha deixado com uma pequena obsessão em conseguir um veículo por conta própria, tão logo tivesse idade para dirigir. E conseguiu. Não era o carro que sempre quis, mas era seu. Um grande ponto de influência em seu amadurecimento.  

Talvez seja este o segredo para finalmente ter planos funcionais a benefício próprio: realizá-los em silêncio. Não compartilhar informações de suas conquistas com os outros, nem mesmo com seus amigos. Difícil saber como as pessoas ainda não compreendiam sua irritação acerca da ganância e ambições judaicas: poucas coisas na face da Terra são mais financeiramente destrutivas que a inveja de um judeu.  

Encerrado o momento de reflexão sobre os achados no armário, outro item passou a lhe chamar a atenção: um palito de dente, com uma pequena bandeira do México colada no topo. Este era um enfeite espetado em todos os pratos servidos no Casa Bonita. Se Clyde tivesse dado atenção a esse tipo de detalhe, talvez não tivesse aceitado nachos de estranhos. Cartman olhou para a mão esquerda, a qual Mitch fingia não fazer parte; a marca de queimadura na mesma, junto a esta lembrança do Casa Bonita, obrigaram-no a lembrar-se, unicamente, de uma pessoa.

Outro suspiro irritado. Sua relação com Henrietta era como outra realização frustrada: começou muito bem, e aos poucos vem sendo atrapalhada por terceiros. Essa mão infeliz, que deveria está-lo ajudando, continuava fingindo não existir mesmo depois do que aconteceu no dia de ontem. Todo um processo de melhorar as coisas para o seu lado, toda uma conversa amigável, estragados. Porém... Estaria mentindo se dissesse que não foi um momento agradável. Pagaria para ver Henrietta sentindo ciúmes de Jenny de novo.

Cansado de remoer falhas, o fã do nazismo ajeitou a mochila num dos ombros e fechou seu armário. Ao olhar para o lado, teve um mini susto ao ver Patty agarrada à prancheta de seu clube, irritada e o observando.

Eric controlou-se para não sorrir ou fazer uma piada. Era como se todas as garotas do mundo tivessem decidido se irritar com ele de repente.

— ...Bom dia? — saudou-a sarcasticamente.

— O diretor há pouco me comunicou que Henrietta simplesmente saiu do meu clube. — ignorou totalmente o cumprimento. — Por acaso, acabo de vê-la chegar. Tentei acenar para ela, porque queria tirar essa história a limpo. Sabe o que aconteceu depois disso, Eric Cartman?

— Ela te ignorou?

— Ela me ignorou. — sorriu ironicamente, sabendo de quem era a culpa. — Henrietta parecia tão puta comigo que tive vontade de me encolher em posição fetal e me perguntar o sentido da vida. Nunca vi tanto ódio nos olhos de alguém.

— É... Eu conheço esse olhar. — coçou o maxilar de forma despreocupada. Sua expressão facial era de pura negligência, talvez até mesmo de sono.   

Patty apertou o dorso do nariz entre os dedos. Havia sido bastante ingênua em achar que ele se sentiria culpado.

— Eric. — teve uma pausa para massagear o rosto e respirar. — Dá pra me dizer o que aconteceu?

Antes que o antissemita respondesse, recebeu um empurrão bruto em seu peito, dado por alguém que não viu chegar. Tendo seu objetivo concluído, tão rápido quanto passou, a pessoa se foi. Quando deu por si, Cartman estava segurando um blazer de terno, deixado no lugar onde foi empurrado. A surpresa do ato tinha feito sua respiração falhar no momento do impacto, e a força imposta o fez cambalear num passo. Foi como receber um coice.

Analisou melhor o terno agora em suas mãos. Não era apenas um terno: era o seu, completamente liquidado. Percebeu marcas amarrotadas, manchas secas de chocolate e um forte cheiro de cigarro e álcool, uma combinação não muito segura. Ao olhar para trás, afirmando suas apostas, avistou Henrietta afastando-se a pisadas firmes, captando impensadamente alguns olhares de curiosos. Sua ira era tanta que chegou a empurrar um aleatório que esteve em seu caminho.  

— ...Tu fez merda, não foi? — a Nelson caçoou dele, sorrindo com satisfação. — Ha-ha. Pelo menos ela tá puta com você também.

Ainda observando Henrietta ir embora, o rapaz tinha os olhos cerrados; ora por dúvidas, ora por raiva pela violência gratuita, ora por descrença em todo o jogo de ignorância estar se repetindo. Depois de um ímpeto de reflexão, assustando Patty e fazendo-a se encolher por não estar esperando por essa, Cartman sorriu deliberadamente: em sua convicção pessoal, isso poderia ser divertido. Pôs-se a seguir a garota gótica, sem avisar ou se despedir, e tudo o que a fã de música clássica pôde fazer foi piscar.

— E lá vamos nós. — possuindo um meio sorriso, falando consigo mesma, Patty rolou com os olhos.

Ainda que apreciem um ao outro em quesito de amizade, ela sabia que este era um bom motivo para o namoro dos dois não ter durado: alguém como Cartman precisa de um relacionamento caótico, baseado em implicâncias mútuas, problemas a serem resolvidos e discussões nem sempre saudáveis. Henrietta, realmente, era uma opção apropriada.

* * *

“Esse puto não está vindo atrás de mim.” a gótica tentou se convencer em pensamento. Com uma olhada rápida por cima do ombro, avistou Cartman a uma curta distância. “Ah, não é possível.”

— Já devolvi o seu terno, agora some. — Henrietta declarou grosseiramente, sem mais olhar para trás, quando o sentiu se aproximar.

— Claro. Devolveu todo cagado — caminhando em seu mesmo ritmo, o rapaz sacudiu o terno em frente ao seu rosto. — Sua família é tão pobre que você precisa usar a roupa dos outros como guardanapo?

— Quer roupinhas limpas, é? Contrata uma empregada, garoto. Não tenho mais nada a ver com isso, se esqueceu o terno comigo o problema é seu.

Cartman se emburrou no mesmo instante. Se ela queria provocar sua ira, estava conseguindo.

— Sua família deve ser tão pobre que não tem 25 centavos pra alugar uma máquina da lavanderia. — a perturbou novamente. E não pararia por aí. — O que mais? Sua família é tão pobre que precisa comprar suas roupas com um mendigo?

Estarrecida, Henrietta parou de andar subitamente. Satisfeito por ter conseguido tocar num ponto que a afetasse, Cartman parou com o próprio andar no momento seguinte, mantendo da gótica um espaço de quase dois metros. Voltou-se para ela com o contentamento claro em suas feições, não sendo atingido em momento algum por seu olhar mortal.

— O que você quis dizer? — apesar de ofendida, Henrietta perguntou a frio modo. Um pouco do seu bico irritado ameaçava aparecer.

— Antigamente tinha um mendigo que vendia roupas idênticas a dos góticos na frente do U-Stor-It. A um preço que sua família pode pagar. — sorriu perversamente.

— Eu nunca compraria minhas roupas com um mendigo, seu ignorante. Tudo o que visto é comprado de ótimas lojas.

— Você tem provas? Você não tem provas. — apenas para dar veracidade à sua afronta, fingiu analisar o traje dela por meio segundo. — Parecem roupas vagabundas pra mim.

Pasma, perplexa e ainda mais ofendida, a boca da gótica (que porventura decidiu usar batom preto) transformou-se num O indignado.

— Eric — manteve a postura, de olhos ainda mais irritados que antes. — Vai tomar no seu cu.

— Hm. — levando uma mão ao queixo, fingiu pensar sobre o assunto. — Não, obrigado. Mas posso aceitar se fizer o convite em outro contexto.

Henrietta ergueu o indicador direito de forma trêmula, desconcertada mais uma vez. Com o nervosismo em seu extremo, semi-abriu os lábios no propósito de rebater este ultraje, mas sequer sabia o que poderia ser dito. A mão levantada se apertou num punho, enquanto fechava os olhos para respirar fundo. Ele estava mesmo tentando tirá-la do sério.

Somente então, Cartman percebeu nela dois detalhes preocupantes. A mão esquerda de Henrietta era a única coberta por uma luva, feita de renda preta e sem dedos, e essa mesma mão segurava uma garrafa térmica aberta onde um pequeno vapor podia ser visto sair pela borda.

— Você tem alguma ideia do que é isso aqui? — a gótica perguntou com impaciência, aproximando dele a sua garrafa ao perceber que ele a havia notado.

— O café que a sua família pobre teve que passar com um pé de meia furada?

— Olha, Eric... Vá à merda. — Henrietta chegou a corar de raiva. O rapaz teve a audácia de rir como resposta ao seu insulto. — Isso não é só café, seu desgraçado. É um café péssimo. Mais de 80% dessa abominação é açúcar. — devido à ira exacerbada, a seguinte frase foi dita entre dentes: — E eu odeio café doce demais.

— Então por que tá bebendo essa merda? — mesmo ele demonstrou repulsa apenas por imaginar o sabor.  

Esta tonalidade de voz. Esta maldita, infernal, insuportável, tonalidade de voz de quem parece não ter a mínima noção de tudo o que anda acontecendo. O beijo, os pesadelos, seus desejos reprimidos, seu alto consumo de doces, as mãos que falam e assumem o controle quando querem, todas coisas que ele até poderia não ter conhecimento de boa parte, mas tratava as que sabia como normalidades. Sua fúria, sua atual concentração desbalanceada de açúcares no corpo, sua intolerância ao que julgava ser atuação, foram fatores capazes de ferver seu sangue e fazê-la tremer de ódio. E, é óbvio: Eric não chegou nem perto de se intimidar. Pelo contrário: parecia achar graça de toda a situação.

— Quer saber por que estou bebendo essa merda? — se não fosse a base facial, todo o seu rosto estaria vermelho fúria. — Estou bebendo esta merda porque você está fodendo com a minha vida. Com a minha vida, com o meu psicológico, e ainda fica com essa maldita cara de cínico achando que tudo isso é um jogo!

Se não fossem as conversas paralelas no corredor, os dois teriam entrado no mais tenso dos silêncios. De início, o antissemita cogitou usar as palavras dela numa piada previsível, mas seus questionamentos acerca do que foi dito acabaram causando uma enorme seriedade.

Mesmo com os acertos, ele parecia estar cometendo grandes falhas com ela, o tempo inteiro, e a repelindo cada vez mais. Nada disso fazia sentido. Um mais irritado que o outro, compartilhavam apenas contato visual, sem perceber alguns desocupados que há muito decidiram prestar atenção à conversa.

Em meio à troca de olhares antipáticos, sem que esta fosse sua intenção, Henrietta acabou se desviando do foco. Contra a sua noção e bom senso, passara a prestar atenção em outros detalhes no rosto à sua frente.

Mais especificamente, atentava-se à cor dos olhos de Eric. Numa rápida percepção, ambos possuíam o mesmo tom de castanho; porém, ao olhar com mais cuidado, podia-se notar a tênue diferença entre um e outro. A íris esquerda parecia ligeiramente mais clara e menos detalhada que a direita, como se fosse artificial.

Outro ponto que lhe roubou a concentração, lembrando-a de todo o sonho tido esta noite, era uma cicatriz em seu nariz. Discreta, muito bem recuperada e praticamente imperceptível. Wendy poderia tê-lo quebrado ao acertar seu rosto várias vezes naquele brinquedo de playground, e o estrago pode ter sido reparado com uma pequena cirurgia de correção.

A sensação desagradável de empatia lhe retornava. Ainda pior: continuava não se arrependendo, em momento algum, por tê-lo consolado numa realidade da própria mente. Faria tudo outra vez, de novo e de novo, e teria feito no mundo real se pudesse voltar no tempo, por mais estúpido que pudesse parecer. Cartman não precisava saber disso, e ela não precisava aceitar tudo isto como verdade.

Por motivos óbvios, Henrietta odeia a líder vampira. Odeia verdadeiramente, com todo o seu coração. De quebra, Cartman já esteve com ela. Também jamais foi com a cara de Wendy: nunca teve saco para sua moralidade exagerada e hipócrita, e ela tem altas chances de ter sido uma paixão vivida pelo rapaz. Já Patty... Tinha raiva dela. Raiva por sua falta de compromisso e por fazê-la perder tempo. Pela conversa que esta última e Eric tinham antes da gótica aparecer, e por compartilharem o mesmo clube, só faltava ter tido algo com ela também.

O sentimento repentino que se apossou de Henrietta, por falta de costume, não foi identificável. Doloroso, constrangedor, irritável... E possessivo. Ela não sabia o que sentia, mas sequer hesitou em fazer o que o sentimento deu vontade: sem arrependimentos, mirando no rosto, arremessou a garrafa de café ruim com toda a força em Cartman. Mesmo que tivesse sido rápido para se defender, evitando ser acertado, o café denso pelo açúcar havia sujado seus tênis, seu casaco e a camiseta que estava abaixo. Se antes uma pequena parcela de intrometidos prestava atenção neles, agora todos os intrometidos possíveis os olhavam.

Sem dizer nada, em seu cúmulo de ódio, o rapaz a olhou impassível. Ser civilizado diante dessa atitude estava totalmente fora de questão.   

Quando subitamente ergueu Henrietta nos braços, pegando-a totalmente desprevenida, e a sustentou num dos ombros à força, o antissemita concentrou tudo de si para ignorar seus protestos. A manteve estável segurando-a pelas costas e pela dobra dos joelhos, e precisou de muito respeito – e autocontrole – para não golpeá-la na bunda na frente de todos agora que inevitavelmente ganhou facilidade de acesso. O gritinho assustado dado por ela quando foi pega, contradizendo toda a sua postura de gótica, chegou a fazê-lo reprimir uma risada.

“Leve” não era uma palavra que combinasse com ela, principalmente neste contexto, e se tivesse que segurá-la por muito mais tempo seus ossos não terminariam este dia vivos para contar a história.  

— Filho da puta! — enquanto carregada para um destino que desconhecia, Henrietta debatia-se e o socava nas costas para tentar se libertar. — Me larga! Seu...

— Vou te soltar quando me conseguir um casaco novo. — ditou com toda a serenidade.

— Quê?!

— Porra. Virou surda, agora?

— Vá pro inferno, Cartman! Vá se foder!

— Melhor controlar a boca... — reter o sorriso maldoso foi impossível. Ser chamado por seu sobrenome, ao menos nesta situação, passou a ser engraçado. — Tá todo mundo te olhando, se ainda não percebeu.

Deste campo de visão, parando de espernear no mesmo instante, a gótica foi tomada por imensa vergonha. Recebia olhares, muitos olhares, neste patético estado de fraqueza. Mesmo Pete, que acabara de chegar, podia ser visto ao longe, olhando-a como todos os outros. Se seus amigos tinham suspeitas sobre sua convivência com este suposto conformista, agora teriam certezas. Era o fim da linha.

Cartman resolveria estas questões, de uma vez por todas. Como antes dito, sempre detestou esperar demais. Esclareceria as pendências entre eles; não ali, mas agora. Mesmo que isso fosse lhe custar algumas faltas e problemas de coluna.

* * *