Malaxophobia
19 Acerto de Contas [1/5]
A fama de Cartman sempre foi a de se envolver em problemas. Ou melhor, ser a causa deles. No entanto, para quem o via nesta circunstância, o problema da vez não parecia fazer sentido algum.
Por corredores e pelo pátio, até que finalmente chegassem no lado externo da escola, curiosos assistiram a uma cena incomum: o antissemita, com suas roupas manchadas, estava carregando à força num dos ombros a única garota do grupo gótico. E ambos, a todo momento, travavam uma batalha interna incansável.
A impressão tida por quem presenciou essa situação não foi das mais esclarecedoras. Uma cena com causas tão inexplicáveis que os rostos dos espectadores eram de pura confusão. Os outros adolescentes sequer faziam alguma ideia de que o rapaz mais gordo do terceiro ano (e talvez de todo o ensino médio) possuía alguma proximidade com o excêntrico grupo dos góticos.
Afinal, os góticos são... Bizarros. Reservados, tomam-se como superiores e estão sempre julgando os outros sob suas nuvens de fumaça de cigarro. Entretanto, Cartman ser próximo a pelo menos um deles não era algo tão surpreendente a quem procurasse analisar. Justamente para gerar transtornos, o rapaz racista sempre foi bastante sociável e sempre conheceu as pessoas certas.
Mesmo que vissem os esforços de Henrietta para tentar se libertar, nenhuma alma viva que se preze teve a decência de se aproximar para ajudá-la. Não apenas pela natureza dos habitantes de South Park ser de individualismo, nem por saberem que tentar atrapalhar os esquemas de Cartman era sinal de problemas: Henrietta, simplesmente, não parecia querer ser salva. Tão semelhantes e tão diferentes, os dois gordinhos formavam um intrigante contraste aos olhos dos desocupados.
— ...Mas que porra acabou de acontecer? — no pátio junto a outros conhecidos, Kenny testemunhava incrédulo o fã do nazismo levando a garota gótica para fora dos portões da instituição.
— Não dá pra acreditar. — Clyde, já irritado por ouvir risadas a todo instante graças ao seu recente “sucesso” na internet, aproximou-se para se queixar. — Enquanto a gente se matava por aquela merda de aposta, o gordo esteve agindo debaixo dos panos.
— Vocês se mataram, eu não. Se fodam aí. — Craig exibiu-se, mostrando os dedos médios. — Não é covardia saber a hora de abandonar o barco, é bom senso.
— Caralho, vocês não estão vendo?! — o mais vaidoso entre os três tinha ira nos olhos. — O filho da puta armou tudo.
— Do que você tá falando, cara? — Kenny perguntou de forma despreocupada.
— O mariachi no Casa Bonita, porra. É certeza que foi o Cartman, que outro doente botaria alguém no hospital só pra se beneficiar?
— Ah, tá, claro. E você vai fazer o quê? Dar porrada nele? — o loiro desafiou. Quase riu ao ver Clyde se encolher com a afronta. — Não é nem de longe a pior coisa que ele já fez. Esquece essa merda e segue com a sua vida.
— Me surpreende a sua tranquilidade com tudo isso, McCormick. — Craig voltou-se a ele, inexpressivo como sempre. — Até entendo que você e Cartman se dão melhor por causa dessa viadagem de “Melhores Amigos Eternos”, mas você foi o primeiro de todos nós a querer aquela garota.
— Digamos que conheci a força da revoltadinha bem de perto. — encarou a mão que foi esmagada pelo armário, lembrando-se da dor perfeitamente. — Perto o bastante para reconhecer que nunca tive os culhões que pensava ter. Se o gordo está conseguindo o que nenhum de nós conseguiu o que ele merecia é uma medalha, pouco importa quais meios ele usou.
— Diz isso porque não foi você que quase morreu por intoxicação alimentar. — Clyde opôs-se novamente. — Tem alguma noção do que é ter queimaduras de segundo grau internas?
O imortal conteve-se para não rolar com os olhos. Não era nada comparado a ser queimado vivo. De novo e de novo.
— Caso não se lembre, o gordo já me colocou em situações perigosas muitas vezes. Praticamente todos vocês já puseram. A diferença entre mim e você é que eu não preciso fazer drama quanto a isso. — ao ver Tammy à distância, junto ao seu pequeno novo grupo de amigas, Kenny formou um sorriso franco e acenou. Prontamente, ganhou dela um aceno amigável e uma pequena visão de seu aparelho. — Além do mais... Existem coisas mais importantes para se preocupar. Se conhecêssemos um pouco mais daquela garota antes de começar tudo isso, concordaríamos que nenhum de nós venceria a aposta.
— E se pensarmos, concluímos que a Biggle é como um Cartman de saia. — o moreno de touca peruana adicionou. — Se ele se vestisse de mulher mais uma vez como fazia antigamente, eu não saberia a diferença.
— Depois dessa, acho que vou vomitar. — Clyde possuía uma expressão enojada.
— Diz isso agora mas foi o que esteve mais próximo de beijá-la. — Kenny não desperdiçou a chance de perturbá-lo outra vez. — Francamente, Clyde. Até perto da vitória você é incompetente.
— Kenny, na boa, por que não vai chupar um canavial de rolas em Nova York? — correspondeu com uma citação desagradável ao seu passado.
— Opa. Não seja por isso, podemos ir eu e você. Se usar a roupa de cheerleader você ganha mais, tem ideia de quanta gente tem fetiche?
— Por que ainda estou aqui perdendo meu tempo? Vão se foder vocês dois. — cansado da conversa, Craig pôs-se a se afastar, abandonando seu amigo e o loiro pervertido.
Numa questão de tempo, o sinal para o início das aulas soou por toda a parte. Clyde também se foi sem avisos, deixando somente Kenny para trás. Ainda não compreendendo o que tinha presenciado, o loiro continuou olhando por mais algum tempo para os portões que agora se fechavam.
Para precisar cabular aulas, Cartman certamente devia ter algo muito importante, e urgente, a tratar com a admiradora do sombrio.
* * *
— Miserável — Henrietta falou entre dentes, tentando ferir as costas do seu raptor no aperto de suas unhas. — Espero que você morra, seu desgraçado. Que tenha a morte mais lenta e solitária do mundo e que os vermes devorem a sua cara.
“Nossa.” o antissemita doeu-se em pensamento, grato por sua expressão aflita não poder ser vista por ela. Ofensas de gótico eram pesadas até mesmo para ele, principalmente se vindas desta gótica em si.
Conter um animal selvagem certamente seria mais fácil do que contê-la. Seu ombro já estava dormente por sustentá-la, mas não a soltaria sob nenhuma circunstância. Henrietta não poderia evitá-lo desta vez.
Por ter planejado um passeio solitário ao fim das aulas – afinal, a programação que tem em mente não se inclui no gosto dos homens para saídas em grupo -, Cartman estava mais do que grato por ter escolhido justamente este dia para usar seu carro. Seu trabalho de levar Henrietta onde queria seria aliviado, conseguiria uma companhia digna por não-tão-livre vontade e resolveria as diferenças entre eles. Em resumo, uniria o útil ao agradável.
Seguindo pela calçada com Henrietta em sua posse, Cartman finalmente alcançava a vaga onde deixou sua estimada e vermelha BMW M3. Por se tratar de um rapaz americano, é claro que iria se referir ao seu carro pelo feminino. Mesmo que a tivesse por mais de um ano, revê-la sempre lhe provocava um sorriso tolo: esportiva, moderna e chamativa, mas não exagerada o bastante para não poder usar em seu dia a dia. Com um esforço visceral para continuar dominando a gótica, Eric catou algumas moedas do bolso e, a contragosto, as inseriu no parquímetro. Em sua mochila, que por todo o tempo esteve no ombro oposto junto ao blazer repulsivo, recolheu as chaves do veículo e apertou um botão para destravar as portas.
— Seu puto maldito — a gótica exaltou-se no mesmo instante. — O que pensa que vai fazer?!
— Adivinha... — retendo a vontade de rir, Cartman usou de um tom malicioso para amedrontá-la.
De olhos arregalados, Henrietta passou por uma confusão de emoções divergentes. Todos os tipos possíveis de pensamentos errados passaram por sua mente, e o pior: alguns deles fizeram suas pernas se juntarem. Sua consciência estava em desespero, mas seu corpo estava tendo uma reação de desejo.
— Você não ouse, seu desgraçado — iniciou agressivamente, mascarando seu pânico com ira. — Eu juro, Eric Cartman, juro que quando descer daqui eu vou acabar com você!
— Ah, entra nessa porra de uma vez — com a porta de passageiro aberta, jogou-a sem mais nem menos para dentro do carro.
Quando caiu sobre os bancos dianteiros, algo notado por Henrietta foi bastante peculiar: Cartman não a havia jogado de forma bruta. Ao menos, não o bastante para machucá-la. Pode até mesmo dizer que o impacto foi bastante confortável.
Milésimos antes de fechar a porta e bloquear esta e todas as outras, não permitindo que a gótica tivesse tempo de compreender a situação, Cartman teve um rápido vislumbre de sua bunda empinada. Sua saia havia se elevado por meio palmo, exibindo um tanto a mais de sua pele através das várias tramas da meia calça. Definitivamente, uma visão a mexer com seus instintos.
Por todo o percurso onde a havia carregado, o rapaz se lamentou por ter que se conter em não tocá-la nesta área. Henrietta, diga-se de passagem, possuía uma comissão traseira fantástica, digna de uns bons tapas. Cartman poderia tê-lo feito, mas não se sentiria confortável tocando uma mulher em áreas particulares sem autorização; já tinha visto sua mãe nesta situação vezes demais, com homens repugnantes demais, para vir a pensar em fazer o mesmo.
Ao finalmente retornar à realidade, a gótica se sentou e tentou desesperadamente puxar a maçaneta interna do carro. Sem sucesso, tentou levantar o pino que travava a porta, porém suas unhas tornaram o método impraticável. Apertou ininterruptamente o botão para que a janela descesse, mas nada aconteceu. Sendo assustada, ouviu três toques feitos pela lateral da mão de Eric no vidro ao lado e viu-o sorrindo cinicamente através do insulfilm escuro. O que, de tão terrível, ela havia feito em suas vidas passadas para merecer este tormento?
Do lado de fora, não compreendendo de início, Cartman teve dela uma visão disforme. A viu estreitando os olhos para ele, recuperando completamente sua inexpressividade natural. Dramaticamente, Henrietta levantava sua mão direita, que entre os dedos continha uma das toalhas de emergência que o antissemita reservava no veículo. Quando a garota começou a enrolar a toalha em sua mão, foi a vez dele de surtar.
— Mas nem fodendo que você vai quebrar a janela do meu carro! — Cartman tinha corrido até o outro lado e aberto a porta do motorista numa velocidade tão alta que a havia espantado.
— Não?! Me veja fazendo! — com o punho bem protegido, preparou-se para acertar o vidro com toda a força.
Rapidamente, movido pelo desespero, Cartman entrou no carro e segurou a mão dela com suas próprias. Encarando um ao outro com ira nos olhos, duelavam arduamente pela posse da toalha, ambos tentando mover suas mãos em direções opostas. Mentalizando uma saída rápida, Eric levantou o apoio de braço entre os bancos e segurou Henrietta firmemente pelo tornozelo, puxando-a para si e obrigando-a a se deitar. Elevou-se sobre ela, segurando ambos os seus pulsos e prendendo as pernas dela sob as suas. Mediante sua expressão de ódio e seus cabelos negros desordenados, o rapaz gargalhava abertamente enquanto a via se debater.
Por vergonha intensa, o rosto da gótica aquecia como nunca. Seu coração pulsava com tanta força que poderia explodir no peito. Conforme Cartman via graça em sua humilhação, sua raiva e constrangimento aumentavam gradativamente. Com dentes trincados e movendo o rosto para ambos os lados, xingava-o de todos os nomes possíveis enquanto inutilmente tentava se libertar. Chegou a desejar que este fosse apenas mais um de seus sonhos, mas tudo estava real e palpável demais para sê-lo.
De onde Eric tirava toda aquela força para contê-la? De onde tirou forças para erguê-la do chão como se ela pesasse o mesmo que uma pena? Henrietta, habituada a estar no controle de todas as situações, deparava-se com um oponente que não podia controlar. Admitisse ou não, estava impressionada: caso suas suposições sobre a derrota na luta contra Wendy estiverem erradas, Cartman certamente tinha se esforçado por muito tempo para superar os próprios limites.
— Ei. — Eric, satisfeito por ter conseguido dominá-la, chamou-a com suavidade.
— Moleque imbecil — orgulhosa demais para demonstrar o quanto se sentia desamparada, fingiu não ouvi-lo. — Tenho ódio de você. Ódio. Tanto ódio que nem na minha lista de ódio você merece estar. Tanto ódio que...
— Ei.
— O que é?! — dirigiu-se a ele, impaciente demais para continuar escutando sua insistência.
Ao finalmente encará-lo, Henrietta visualizou o rosto de Eric a apenas alguns centímetros acima do seu. Não perto o suficiente para tornar a situação ainda mais comprometedora, mas não longe o bastante para evitar que suas bochechas queimassem.
A gótica se viu aprisionada naqueles olhos. Novamente, intrigada pela suspeita diferença de cor entre os dois. De pulsos seguros, impensadamente baixando sua guarda, as feições dela se amenizavam. Tanto o olhar quanto o pequeno sorriso de Eric, por motivos que ela desconhecia, transmitiam um afeto indecifrável.
Cartman, por seu lado, se permitiu admirá-la por algum tempo. Pela primeira vez, dava atenção devida à cor de seus olhos: cinzas, quase azuis, ou talvez o contrário. Mesmo que sua maquiagem se remetesse à morte, era bela e lhe aspirava vida, algo que ele não conseguia compreender. Poderia ser apenas uma impressão criada pelo momento, mas Henrietta parecia infinitamente mais bonita que na última vez onde viu seu rosto desta distância.
O antissemita já tinha passado por muitos desafios com garotas, mas nenhum deles tão complicado ou interessante quanto este. Um pouco de cavalheirismo e algumas palavras ditas na hora exata foram todo o necessário em suas outras conquistas, mas não serviriam para esta. Conquistou Wendy por vingança, Patty por orgulho, Jenny por autobenefício e outras duas garotas pelo capricho de estar com alguém, mas nada disso se comparava a sua atual vontade de querer Henrietta por perto.
Queria beijá-la. A avidez por isso era tão intensa que chegava a doer. Normalmente, ele não hesitaria em arriscar tudo para alcançar um objetivo, mas Henrietta era um caso à parte: ou ela o estimava, ou ela o abominava. Uma tentativa ousada demais poderia estragar seu convívio com esta gótica para sempre e não estava disposto a falhar com ela outra vez.
Se fosse para se aventurar num beijo direto, duas condições seriam necessárias: uma que Henrietta não mais tivesse este temor desconhecido em sua presença. Outra, que ela o desejasse ardentemente, a ponto de implorar com os olhos para ser beijada. Ainda melhor se implorasse com palavras.
Orgulhoso, pretensioso e egocêntrico. Se alguém um dia disser que estas são suas características, ele dirá que está com razão. Para se distrair das próprias vontades, Cartman iniciou da forma mais cínica possível:
— Tá tudo bem com você? — mostrou o mais insolente dos sorrisos.
A gótica, incrédula, deixou as pálpebras caírem até metade dos olhos, numa expressão entediada.
— Eu pareço bem pra ti?
— Olha. Se você soubesse respeitar minha autoridade, nada disso teria acontecido.
— Sua autoridade? — estreitando os olhos, foi obrigada a mostrar um sorriso arrogante. — Me poupe... Você acha que tem alguma autoridade sobre as pessoas, Eric. Acha, mas não passa de um fracassado.
— Acho que tenho bastante autoridade sobre alguém nesse exato momento, não sei você. — não perdeu o sorriso ou a postura atrevida em momento algum; as afrontas dela eram como música para seus ouvidos. Suas sobrancelhas se inclinando em desprezo e seu bico irritado foram tudo o que ele precisava. — Quanto a me odiar... Agora são você e mais metade do mundo, mas só porque a outra não me conhece ainda.
— Humilde da sua parte. — abusou de sarcasmo.
— Eu nunca disse que me orgulho. — saía de cima dela aos poucos para sentar-se devidamente no banco do motorista. Arrastando-se na direção oposta para lhe conceder espaço, a gótica se acomodou ao seu lado.
— E não se orgulha?
— Claro que me orgulho. Eu só não tinha dito isso.
Henrietta, mais uma vez, ficou desacreditada em tamanha cara de pau. Devia ter esperado por essa. Mesmo tentando impedir, teve um riso breve. Cartman era um tipo perfeito de idiota benigno: alguém capaz de fazê-la esquecer dos motivos para odiá-lo.
— Você é inacreditável, Eric Cartman. — olhando para baixo, ocultou seu fraco sorriso de devoção.
Eric, por sua vez, também sorriu. Provavelmente, foi o melhor elogio que já recebeu, mesmo que a intenção dela não fosse de elogiá-lo.
— Engraçado. — depois de fechar a porta que restava, o antissemita sentia um aumento gradual no próprio ego.
— O quê?
— Você já me chamou de tudo, menos de conformista. — mostrou-lhe um sorriso convencido. — Estranho, vindo de uma gótica que “me detesta”.
Comprimindo os lábios, Henrietta olhava para frente na falta de respostas. Sentindo o olhar pretensioso de Cartman sobre si, pensou em como contornar a situação.
— É claro que já chamei. — ergueu o rosto e cruzou os braços sob os seios, tentando aparentar segurança. — Você que tem uma memória péssima.
— Não, não chamou. Eu me lembraria se tivesse. — sorriu travessamente. — Fico sempre esperando um “conformista” sair entre as suas milhares de ofensas, mas nunca sai. Chego a me sentir especial.
— Por que me trouxe aqui, criatura? Foi só pra me fazer perder tempo? — o olhou, evadindo do assunto o mais rápido possível.
Para sua raiva, Eric continuou a observá-la, julgando em silêncio. Felizmente, ele optou por se contentar; Henrietta ter desperdiçado um momento perfeito para chamá-lo de conformista certificava tudo o que ele suspeitava e um pouco mais.
— Não. — ele respondeu finalmente, não insistindo no assunto. — Eu só preciso de algumas respostas. E acredito que você também.
Antes que a gótica indagasse, se viu inquieta e corando novamente. Submetendo ambos a estabelecerem um contato visual apreensivo, Eric tomou delicadamente sua mão esquerda e removeu com cautela a luva de renda que a cobria. Após uma pequena pausa, a mesma mão se elevou, assumindo seu próprio controle. Agitou seus dedos algumas vezes antes de se fechar, formando subitamente a forma de um rosto.
Com toda a serenidade, Cartman fitou aquele ser por um segundo. Depois, voltou a olhar para Henrietta. Mesmo sem expressão alguma, os olhos da gótica claramente suplicavam por socorro. Assim como acontece com ele próprio nestes casos, Eric viu a boca de Henrietta se entreabrir sem sua ordem.
— Olá, mocinho simpático. — a mão fez um cumprimento cordial. Seu acento sueco soando mais forte do que nunca. — É um prazer conhecer o homem disposto a suportar essa garota. Ou você é um grande herói, ou você é muito, mas muito burro. Tem minha consideração, de qualquer forma. — inclinou-se em respeito.
— ...Kerstin? — após dias de silêncio, Mitch Conner finalmente deu as caras. Quando Cartman deu por si, ele já estava lá.
As duas mãos se aproximaram para iniciar uma conversa privada, aos sussurros. Suas palavras eram tão bagunçadas e desconexas para seus donos que apenas as mãos compreendiam. Compartilhando o pensamento do quão ridículo soava tudo aquilo, Eric e Henrietta estavam indecisos entre olhar para suas mãos e olhar um pro outro.
— Devo perguntar como vocês se conhecem ou é melhor eu não saber? — Cartman perguntou como se nada disso fosse anormal, fazendo o queixo da gótica cair antes que Kerstin precisasse dela para falar.
— Nos conhecemos a alguns meses, num aplicativo de relacionamentos. — a sueca esclareceu tranquilamente. — As pessoas que viam minha foto ignoravam, achando que era alguma brincadeira. Até Mitch aparecer.
— Cheguei a pensar que você não era real. Que era mesmo a brincadeira de mau gosto de alguém. — Mitch aparentou tanto alívio quanto angústia. — Me aproximei tantas vezes... Você nunca pareceu estar aí.
— Pensei que você não tivesse certeza se a mão dela tinha vida. — Cartman acrescentou, irritado e indignado. — Você até disse que ela precisaria usar a mão como fantoche por conta própria primeiro.
— Já é constrangedor admitir que usei o Tinder, eu não iria me precipitar e passar por idiota. — Mitch refutou. — E eu não menti sobre isso, em algum momento ela deve ter feito a mão falar.
— Mas você não era gay, porra? E aquele caso com o Ben Affleck?
— Não seja tolo, mocinho. — Kerstin interveio. — Mãos não tem sexo, não parece óbvio? Só temos gênero nos nomes pra corresponder às nossas vozes.
— Puta que pariu — Cartman imprensou no rosto a sua mão disponível, lidando com todo tipo de lembrança desagradável. — Fui obrigado a masturbar o Ben Affleck sem necessidade.
Ao contrário da reação que esperava e para o constrangimento de Mitch, Kerstin gargalhou.
Cortando todo o assunto, os três começaram a ouvir baques baixos e repetitivos, como pancadas numa superfície sólida. Voltaram-se para Henrietta e a viram inclinada para a frente ao máximo, batendo a testa preguiçosamente no painel do carro entre pausas periódicas. Para remediar e ao mesmo tempo zombar da situação, Cartman dobrou a toalha que iniciou tudo isso e a colocou cuidadosamente sobre o lugar onde a gótica batia a testa, obrigando-a a parar com o gesto logo que notou não emitir mais som.
— Isso está mesmo acontecendo? — Henrietta perguntou com o rosto apoiado no painel. — Esse tipo de coisa não é possível sem a influência de algo sobrenatural. Ou é, eu não sei mais.
— Você se acostuma. — Cartman acariciou suas costas em consolação. Henrietta mostrou-se receosa, mas não pareceu rejeitar. Encolheu-se apreensivamente por sentir o calor de outra pessoa. — Devia ter passado mais tempo na cidade, quase nada te surpreende depois de alguns anos.
Diante dessa cena, as duas mãos esquerdas se entreolharam empolgadas. Ou com toda a empolgação que dois rostos desenhados pudessem demonstrar.
— Tão fofos — comovida, Kerstin iniciou em alto e bom som. — Numa hora parece que vão matar um ao outro e em outra parece que vão trepar com carinho.
— Cala essa boca. — sua hospedeira ordenou no auge do constrangimento.
— Como se eu estivesse errada. — voltou-se para o hospedeiro de Mitch, aproximando-se um pouco mais para ter certeza de que passaria corretamente sua mensagem. — Você precisava ver. Nessa madrugada, eu disse a ela que você a beijou enquanto dormia e ela acreditou.
Suando frio, os olhos de Cartman se expandiram. Aquela mão tinha falado mais do que a boca e agora tentava ajudá-lo. Ao receber o olhar desconfiado e assassino da gótica, o manipulador rapidamente encobriu suas emoções para entrar no jogo.
— Bota uma fé nisso? — Kerstin prosseguiu, forçando uma risada convincente. — Precisava ver a cara que ela fez.
— Até eu teria essa reação. — Cartman usou de uma atuação natural. — Tá tentando fazer com que ela me deteste mais ainda? Se quer me foder me beija.
— Oh meu doce, peço desculpas. Mas não nego que a brincadeira valeu à pena, já vi tomates menos vermelhos que essa menina.
— Continua falando de mim como se eu não estivesse aqui pra você ver. — a gótica ameaçou.
— Não querendo ser grosso, mas já sendo — Cartman tomou a dianteira da situação, dirigindo-se às mãos com seriedade. Graças ao dia fatídico onde discutiram no teatro, Henrietta teve um par de pensamentos impuros. — Se conheceram, tudo muito legal. Agora sumam vocês dois que temos mais o que fazer.
— Dois ingratos, era só o que me faltava. — Kerstin se queixou.
— Você ouviu. Some. — Henrietta recuperou sua luva, vestindo-a sobre Kerstin à força e obrigando-a a desaparecer.
Mitch, sem mais alternativas, teve que sumir por conta própria. Para Cartman, a dúvida sobre as mãos era um problema a menos para lidar. E apenas a ponta de todo o iceberg.
Henrietta esfregava as têmporas com um semblante exausto. Sua mão ter encontrado um relacionamento à distância por aplicativo sem que ela notasse, há meses e com a mão de Eric, pôs sua sanidade à prova. Ainda desconfiava sobre Kerstin ter ou não mentido sobre Cartman tê-la beijado, mas... Ela realmente se importava? Já não sabia dizer.
— Que porra foi tudo isso? — sem pensar, resumiu toda a sua desordem mental numa única pergunta.
— Mais um dia em South Park. — Eric respondeu serenamente. — Você ainda deu sorte. Eu mesmo aguento o Mitch há sete anos.
O rapaz levou uma mão até debaixo do banco, onde recolheu o blazer do terno que tinha caído. Só para confirmar, o aproximou do rosto. Tossiu em aversão ao sentir novamente a mistura de cheiros desagradáveis.
— Por que meu terno tá cheirando a álcool?
— Eu ia queimar ele. — Henrietta deu de ombros.
— Tudo isso porque não queria me devolver pessoalmente? Podia ter entregado a um dos meus amigos, por exemplo.
— É, podia. Só não estava a fim de interagir com conformistas.
— Então não me acha um conformista. — o sorriso agora era de pura convicção. Não tinha perguntado, mas afirmado. — Acabou de provar isso de novo. Qual vai ser a sua desculpa agora?
— Pra onde pretende me levar, garoto?! — escapou do assunto mais uma vez, inteiramente furiosa. — Você disse que temos mais o que fazer.
— Ué. Aceitou ir comigo? Não vai nem tentar fugir? — zombou dela, multiplicando toda a sua raiva. — Te dou cinco minutos de vantagem.
— Olha. Quero resolver nossas pendências tanto quanto você. Estou cansada de fugir. — o olhou no fundo dos olhos. Em seguida, sorrindo num canto dos lábios, cruzou os braços novamente. — E aceito seu pretexto para matar aula.
Cartman espelhou seu sorriso. Até pensou em provocá-la mais um pouco, dizendo que se ela queria tanto parar de fugir deveria admitir de uma vez que não o considerava um conformista. Mas, desta vez, julgou ser melhor ficar quieto e se aproveitar de seu bom grado.
Repentinamente, o rapaz se sentiu nauseado. O odor do café impregnado em suas roupas, por culpa dela mesma, se espalhou por todo o carro. Se o café tivesse estado apenas um pouco mais quente e não usasse uma camiseta sob o casaco, teria realmente se queimado. Esticou a mão até o porta luvas, coisa que Henrietta não compreendeu inicialmente, e dele tirou uma camiseta preta e bem dobrada. Eric realmente era alguém pronto para quase todas as situações.
— Fez esse café com o que? Água do esgoto? — Cartman indagou, olhando as manchas ligeiramente frustrado.
— Teria feito se soubesse que jogaria em você.
Em retribuição, Cartman ameaçou beliscar sua cintura para lhe fazer cócegas. Henrietta, contudo, foi capaz de se defender, mas riu sutilmente sem nem mesmo ser tocada. Cada sorriso e risada que ele tirava desta gótica eram uma diferente oportunidade de se sentir incrível.
Sem perder mais tempo e sem dar a ela um aviso prévio, o antissemita tirou seu casaco manchado em poucos e rápidos movimentos. Correspondendo ao que tinha sido sua intenção, Henrietta o olhou fixamente ao fazer isso. Mesmo envergonhada, continuava a olhar para seu corpo com expectativa. Não parecia reprovar. O sorriso convencido estava de volta.
— Pretende virar pra lá ou prefere que eu continue? — não satisfeito, piorou a situação. Henrietta corou violentamente.
— Idiota. — voltando a si, se virou para o outro lado instintivamente.
Enquanto Eric despia sua camiseta imunda, Henrietta sentia toda a agitação ao lado. Percebendo que poderia ver seu reflexo no vidro, ela se forçou a tapar os olhos numa atitude desesperadora. Da forma como queria arriscar olhar, um pouco que fosse, perguntava-se se enfrentar seus problemas em vez de fugir deles poderia ser mesmo uma boa escolha.
Em pouquíssimo tempo, a atividade ao lado cessou. A gótica ouviu o carro sendo ligado e viu a janela ao seu lado descer um terço, apenas para aliviar o odor de café ruim no interior. Supondo que Eric já estava composto, arriscou olhá-lo; como imaginava, o preto lhe caía bem. Uma dog tag gravada, que mantinha dentro das roupas em seu dia a dia, caía pelo pescoço dele, dando um interessante ar militarizado. Tal aparência deu a Henrietta vários referenciais de arquétipos góticos que ele poderia se adotar, caso se interessasse. E a visão de seus braços, agora cobertos apenas por mangas curtas e justas... Ela realmente precisou olhar para qualquer outro lugar.
Enquanto o rapaz começava a dirigir para sabe-se lá onde, com um suspiro de aceitação, a garota se permitiu acomodar confortavelmente no banco. Ela ainda não sabia para onde iam, mas isto era algo a mais para sua lista de coisas às quais não dar importância. Seu melhor amigo a havia visto com este suposto conformista, sua resistência estava sendo posta à prova e sua vida estava de pernas pro ar. Se Eric deseja resolver as diferenças entre eles na calma de outro ambiente... Que assim seja.
* * *
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