Malaxophobia

20 Acerto de Contas [2/5]


Depois do percurso, Cartman finalmente estacionava seu carro numa de muitas vagas a céu aberto. Sua acompanhante gótica, percebendo que o passeio estava chegando ao fim, passou a encarar de forma duvidosa a imensa estrutura que se estendia à distância: um prédio imenso, modernizado o bastante para não condizer com o restante da cidade e com janelas altíssimas, ofuscadas devido ao frio.

Assim que Henrietta leu os dizeres da enorme placa na fachada, sua feição caiu em completo desgosto. Tratava-se de South Park Mall: o maior centro comercial de South Park... E único shopping center da cidade.

— Um shopping. — sua aversão pelo lugar pareceu aumentar ao pronunciar a palavra. — De todos os lugares do mundo pra uma conversa, você me trouxe a um maldito shopping.

Cartman sorriu diante de sua reação previsível. Depois de alguma convivência, começava a entender o modelo gótico de pensamento: tudo o que se torna acessível demais, popular demais, é acrescentado ao rol do conformismo.

— Eric — não satisfeita, Henrietta prosseguiu com a reclamação. — Tem ideia de quantos conformistas frequentam lugares como esse?

— A escola é cheia de conformistas e você frequenta do mesmo jeito. — provocou-a de forma descontraída, terminando de desligar o carro.

— Porque não tenho escolha. Ao contrário disso.

— Hm. — fingindo reflexão, o rapaz coçou uma barba inexistente. — O que posso dizer? Talvez você devesse ter pensado nisso antes de jogar café nas minhas roupas.

— Oh. Achou ruim, foi? — desdenhou com falsa empatia. — Ainda acho que o que fiz foi pouco. Ninguém te merece, garoto.

— Tá, tô sabendo. — entretido por suas palavras, sorriu num semblante pacífico. — E você pretende fingir que me odeia até quando?

— “Fingir”? — estreitou os olhos para ele. — Ninguém precisa fingir te detestar. Você é insuportável.

— Eu sou? — modificando todos os ares da conversa, mostrou uma seriedade súbita.

Diferente da postura segura que sempre aparentava, Eric parecia ansioso por uma resposta. Henrietta precisou de um momento para entender que não foi uma provocação ou uma pergunta retórica. Pateticamente tocada, suspirou; ele parecia ter alguma necessidade pela sua aprovação. Não fazia nenhum sentido.

— Não. — torcendo os lábios, a gótica respondeu com honestidade. — Eu... Não posso te detestar de verdade. Você é de longe a pessoa mais legal que já conheci.

Descrente, Cartman ficou em silêncio. No momento seguinte, tinha satisfação em seu olhar, assim como um sorriso insolente no rosto.

— Mas não se acostuma. — orgulhosa, a gótica se autocorrigiu.

— Eu também não posso te detestar. Você é a pessoa mais fofa que eu já conheci, por mais irônico que isso seja. — apenas pelo prazer de irritá-la, Cartman apertou sua bochecha entre o indicador e o polegar.

E, feito isso, se arrependeu. Ao olhar para os dedos, o rapaz viu neles resquícios de maquiagem. Nos espaços agora limpos no rosto da gótica, pôde ver a verdadeira cor de seu rosto: muito mais corado e humano do que aparenta, apesar da palidez natural de quem não se expõe demais ao sol.

— Não repita isso. — Henrietta ordenou, esfregando a bochecha para cobrir a falha. — E ambos sabemos que não sou fofa, não se faça de idiota.

— Você é, sim. — fez uma pausa para analisar os pormenores. — Às vezes.

Indisposta a argumentar, Henrietta rolou os olhos.

— Será que podemos ir de uma vez? Vou ficar claustrofóbica se continuarmos aqui.

— Posso abrir a porta pra você dessa vez? — ofereceu, pondo a mão sobre a maçaneta ao lado.

— Não. — respondeu de forma seca, abrindo a porta por si mesma e se retirando do veículo.

O antissemita não esboçou reações. Desapontado, mas não surpreso. Divertindo-se internamente, limpou a maquiagem dos dedos no casaco vermelho imundo que foi deixado para trás e saiu do carro, trancando-o em seguida e certificando-se de não ter esquecido de nada. Ao procurar por Henrietta, encontrou-a a vários metros de distância, caminhando sozinha em direção ao shopping, apenas para frustrá-lo.

A alcançou com alguns passos rápidos, fazendo a tentativa de frustração se voltar contra ela mesma. Mais do que isso, foi recompensado: pôde admirar seu rebolado natural mais uma vez antes de se aproximar.

— Por que um shopping? — se mostrou indignada outra vez ao vê-lo caminhar ao seu lado. — Um shopping, Eric. Francamente...

— Preciso de um casaco novo e você estragou o que eu uso sempre. Uma troca justa. — encarou os próprios pés, cujos tênis manchados não puderam ser substituídos. — Eu realmente gostava daquele casaco. E desses tênis.

— Mesmo? Não faz ideia da imensidão do quanto eu não me importo. — seus lábios se apertaram para controlar um sorriso maldoso. — E, caso não saiba, existem meios de remover manchas de café hoje em dia. Em que século você vive?

— Não sou pobre como você. Se alguma roupa minha fica fodida, eu compro uma nova.

Sem se abalar, Henrietta nada respondeu. Calada, desfez um botão de sua camisa e, de seu sutiã, retirou um amontoado de cédulas. Todas dadas a ela dia após dia para “compensar” uma falta de atenção paterna.

Certamente havia cerca de trezentos dólares ali, mas o rapaz não conseguiu prestar qualquer atenção ao dinheiro. Havia sido distraído demais pela breve visão de seu seio esquerdo.

— Tá aqui a sua pobre. — Henrietta sacudiu as notas no ar para depois guardá-las outra vez. No mesmo lugar.

“Meu Deus.” Cartman proferiu em pensamento, voltando-se para frente e tentando a todo custo soar impassível nesta situação. Obviamente, seus seios eram pálidos como todo o resto, e isto era demais para sua imaginação. Quem diabos guarda dinheiro nos peitos? Limpou a garganta na busca de algum tema para conversa; seria melhor não dar a Henrietta algum tempo de se dar conta do que fez.

— Acho que vou comer primeiro. — iniciou aleatoriamente.

— Hã? — a gótica indagou com ausência de expressão.

Suor se formava na testa do antissemita. Perdera totalmente o jeito com as palavras, a frase deve ter parecido sem pé nem cabeça.

— Comer... Antes de procurar o casaco. — tentou contornar a situação, olhando em volta com despreocupação forçada. — Preciso comer alguma coisa.

— Já tá com fome? Não devem ser nem dez horas.

— Henrietta. — sorriu consigo mesmo, incrédulo por pensar numa piada autodepreciativa. — Gordo não sente fome. Gordo tá sempre comendo.

A garota pausou. Então, conteve outro sorriso, mas não rápido o bastante para que ele não notasse. Se góticos tivessem códigos de conduta para não reagir a brincadeiras tolas, o antissemita certamente já a fez quebrar todos eles. Com os ânimos recuperados e uma possível amizade em reconstrução, a dupla adentrou as portas automáticas do shopping.

Cartman sempre defendeu a união entre pessoas semelhantes, seja física ou mentalmente. Quanto a isso e outras milhares de opiniões próprias, jamais negou que estava certo. Jamais poderia negar o quão agradável foi ter dito aquilo a alguém que, em vez de depreciá-lo ainda mais, apenas se manteve em silêncio e compartilhou de sua condição.

* * *

A ausência quase total de outros adolescentes pelo shopping era a maior vantagem do horário. Afinal, estavam ali numa manhã de um dia de semana, e todos com idades equivalentes às deles estavam onde estes dois fugitivos também deviam estar.

Assim como o refeitório de South Park High, a praça de alimentação de um shopping era um dos muitos locais capazes de fazer um gótico se sentir deslocado. Por ter o hábito de fumar, diferente do rapaz ao seu lado, Henrietta não desejava se alimentar na ocasião. Encarou a imensidão de mesas vazias, a baixa movimentação de pessoas nos arredores e as muitas franquias de lanchonetes famosas por todos os lados: um cenário tão conformista quanto shoppings em si.

Depois de encontrar visualmente o lugar onde pretendia comprar comida, Cartman voltou-se à gótica com uma provocação pronta, apenas para não perder o costume.

— Pode esperar sentada, se quiser. — iniciou com uma expressão perversa.

— O quê? Não quer que eu morra aguentando meu próprio peso? — não se esforçou para evitar seu sorriso de desdém. Ficou satisfeita ao ver Cartman se emburrar por ter sua ideia roubada. — Olha quem fala, o cara que vai encher o rabo de fast food.

— Você também vai querer. — deu meia volta com ansiedade. — Eu já volto.

— Espera.

Ao senti-la segurar seu pulso, Eric paralisou surpreso no lugar. A própria gótica não compreendeu por que o fez, e tê-lo segurado com a mão direita eliminava toda e qualquer liberdade de dizer que Kerstin foi a culpada. Ocultando quaisquer sentimentos, o soltou lentamente.

— Isso no verso da sua dog tag — cutucou o adereço, fazendo o rapaz voltar o rosto para baixo. — É uma águia nazista?

— Hã... É. — impressionado por sua percepção, Cartman ocultava o colar no interior da camiseta. — É por isso que geralmente eu escondo essa merda.

— Não deveria. — cruzou os braços, erguendo o rosto negligentemente. — Se você concorda ou discorda de algo, defenda, mesmo que isso te torne um escroto. Moralistas e conformistas que se fodam. — após suas palavras, sorriu de canto com uma breve análise. — Pelo seu histórico, você acredita em patriotismo americano, admiração ao nazismo, na superioridade branca... Não me surpreenderia se você fosse um skinhead.

— Não seria ruim se não fosse pela parte de raspar a cabeça. — acariciou os cabelos feito um bem precioso. Com um meio sorriso, sentiu-se obrigado a comentar. — Me surpreende que diga tudo isso sem me achar a escória da humanidade.

Inspirando pela boca, Henrietta rolou com os olhos.

— Eric, vivemos na cidade mais preconceituosa do país. Praticamente todo mundo aqui já fez ou disse alguma atrocidade, seria uma tremenda hipocrisia te julgar. — passou por ele sem nada mais a acrescentar. Antes, contudo, parou em seu caminho para olhá-lo por cima do ombro. — E não preciso bancar a boazinha.

Finalizada sua mensagem, Henrietta seguiu sua trajetória na direção da infinidade de mesas. Cartman, impressionado, a via ir embora com sua dog tag mantida livre e exposta, como sempre devia ter estado.

Não chegaram a trocar palavras diretas enquanto esteve em sua fase mais terrível, mas Eric sabia que seus feitos jamais passaram despercebidos. Pela primeira vez em sua vida, deparava-se com uma garota que não tentaria mudar seus piores aspectos, nem por quem precisaria agir como se os tivesse mudado.

Era realmente irritante ter que agir feito um santo para se aproximar de uma garota. Ter evoluído como ser humano não significava que a essência foi esquecida.

Enquanto Eric seguia por seu próprio caminho, Henrietta se sentava à mesa mais isolada possível: perto das grandes janelas, felizmente embaçadas o bastante para livrá-la da luz do dia. Largou sua bolsa na cadeira ao lado e cruzou as pernas por hábito. Decorridos dois segundos, começou a tamborilar nervosamente as unhas sobre a mesa; um gótico num shopping é como um peixe tentando viver em terra firme.

Para todos que a encaravam ao passar, exibia sua melhor face de desprezo. Sem muitas opções para se distrair, fez uma busca visual por Eric.

O avistou em frente ao KFC. Era o último numa fila formada por mais duas pessoas. Mesmo que a espera fosse baixa, Cartman parecia tão impaciente por ter que esperar quanto ela mesma, algo que fez a gótica sorrir em seu íntimo.

À distância, absorta nos próprios pensamentos, Henrietta voltou a admirar seus braços. Faziam um contraste perfeito com a camiseta preta. Admirou seu corpo, cuja massa a mais o tornavam inegavelmente mais atrativo, ao menos para ela. Eric era alguém grande, no melhor dos sentidos, com mãos tão grandes quanto o corpo sugeria. Grandes o suficiente para... Talvez...

Mordendo a boca, hein...? — o acento estrangeiro de Kerstin foi inconfundível. — Não sou nenhuma especialista, mas acho que você vai acabar encharcando a cadeira se continuar com esses pensamentos.

Retornando a si em total desespero, Henrietta fitou sua mão esquerda. Kerstin não estava lá. Sua luva de renda permanecia intocada.

Na sua cabeça, idiota. — se comunicou outra vez no interior de sua consciência. — E caso esteja se perguntando, não, eu não consigo ler seus pensamentos. Mas algumas fantasias são bem previsíveis.

— Dá o fora. Da minha. Cabeça. — ordenou pausadamente, se encolhendo para não receber atenção indesejada.

Ah, vou mesmo. Já me arrependi de ter chegado até aqui, só tem lixo nesse lugar. — sons de coisas aleatórias caindo e sendo arrastadas foram ouvidos do além. Eram como ecos no interior de sua mente. — Tanto rancor desnecessário guardado... Por isso você é sisuda desse jeito.

Pressionando o rosto nas mãos, a gótica passava por outra prova de estabilidade mental, seus pontos de sanidade estavam quase no fim. Em compensação, seus pontos de estresse estavam em níveis máximos. Precisava desesperadamente de um doce e, no instinto, chegou a olhar ao redor como se um fosse surgir magicamente.

Ei, quem é aquela falando com o seu homem?

Rapidamente, Henrietta ergueu a cabeça. Sentiu uma pontada desagradável no peito. Tensa, procurou por Cartman novamente. Ao encontrá-lo, percebeu que o rapaz já havia alcançado o caixa.

Quem o atendia era uma garota ruiva, com o rosto tomado por sardas e cabelos presos tão alaranjados que chegavam a doer os olhos. Magra e quase ausente de curvas, trajava o uniforme comum do KFC e óculos de grau com lentes grossas e armação fina. Sua aparência, na perspectiva da gótica, era a de uma típica garota sonsa que ganha a vida se fazendo de pobre coitada. Eric parecia cumprimentá-la simpaticamente, enquanto a ruiva soava assustada e relutante, apesar de alegre em sua presença.

Dentre todo o observado, algo lhe era mais do que claro: os dois se conheciam de outros carnavais. Desta vez, sim, Henrietta havia ultrapassado a sua margem de raiva.

Na falta de uma fonte de açúcar, vasculhou por sua bolsa arduamente até encontrar seu isqueiro e um cigarro. Por ora, teria que servir. Não dando a mínima para quem estava por perto ou para as leis sobre fumo em lugares fechados, apoiou o cigarro nos lábios e cobriu a ponta oposta com uma mão para acendê-lo.

Para sua ira imediata, Cartman tinha chegado sem a mesma se dar conta e furtou o cigarro de sua boca. Na mesa à frente, estava o lanche que ele havia comprado. O nível de raiva da gótica multiplicou-se por cinco.

— É meu último, seu filho de uma...

— Foda-se. — olhando-a de cima, Cartman a interrompeu com um tom de voz severo. Encarou o cigarro em seus dedos com repulsa. — “Dose de morte” deveria ser o nome disso, nem a porra da maconha dos hippies consegue ser tão tóxica.

— O destino de todos é a sepultura, estou apenas acelerando o meu processo. — estendeu a mão imperativamente. — Agora devolve meu cigarro.

Bem diante dos seus olhos, antes que pudesse pensar, viu Eric amassar o cigarro em sua mão repetidas vezes, até destruí-lo por completo. Quando julgou tê-lo estragado o suficiente, deixou as sobras sobre a mão estendida da gótica, cobrindo-a “carinhosamente” em seguida com dois tapinhas de consolação.

Henrietta olhou para aquela catástrofe de papel triturado e pó de tabaco que um dia foi seu cigarro. Furiosa demais para esboçar reações, fitou o culpado, que aparentava estar tão sério quanto ela e bem mais próximo do seu rosto do que antes.

— Já fumei isso uma vez, e é péssimo. — Eric declarou por fim, sem arrependimentos visíveis. — Não vai fumar essa merda enquanto eu estiver aqui.

— Não? — se aproximou um centímetro num impulso involuntário. Seus olhos ousadamente estreitados. — Vou invadir sua casa à noite e acender duzentos cigarros no seu quarto enquanto dorme. Me aguarde.

— Pois eu adoraria ver você tentar. — espelhou seu ato com um sorriso de desafio.

Por vários segundos, encararam-se no fundo dos olhos sem temor algum. Uma disputa por intimidação em silêncio... Onde ambos eram tão qualificados à vitória que nenhum dos dois poderia ganhar.

Ao constatar este fato, Cartman expôs um sorriso contido. Henrietta também expressou sua diversão minimamente, mesmo sob a atmosfera de ira. Não descontente pelo empate, o rapaz se sentou na cadeira à frente e empurrou o balde de frango até o centro da mesa. Um convite para que a gótica o acompanhasse.

— Te garanto que não vai querer saber dessa porra de cigarro quando provar isso aqui. — pegou um pedaço de frango frito para si mesmo.

— Quê? Sem chance, não vou comer as suas merdas.

— Então vai ficar aí, me assistindo comer?

— Vou ficar aqui, fingindo que você não existe até que termine.

Depois de olhá-la por mais um segundo, Cartman deu de ombros. Indiferente, arrastou o balde de volta na própria direção. Se ela não queria, melhor para ele. Entretanto, pouco acreditava que a gótica conseguiria se negar ao KFC por muito mais tempo.

Em seu pacto de silêncio, Henrietta continuava relembrando a cena presenciada. O aroma do frango frito quase a fazia abrir mão de sua teimosia para prová-lo, mas se lembrar da garota ruiva que o havia vendido facilmente a livrava dessa vontade. O som da mastigação satisfeita de Eric por um lado lhe despertava o apetite, mas por outro conseguia irritá-la como nunca antes. Iria explodir se não fizesse um comentário.

— Pensei que não gostasse de pessoas ruivas. — cruzou os braços, se negando a olhá-lo.

— Disse alguma coisa? — saiu de sua concentração após arrancar toda a pele de um frango com os dentes.

— Surdo. — levou a mão até o copo grande de refrigerante e começou a bebê-lo vorazmente. Finalmente, um pouco de açúcar para amenizar seu estresse.

Sem compreender, Cartman assistia incomodado a garota tendo todo o refrigerante para si. Tinha pegado apenas um maquiavélica e propositalmente para que dividissem o mesmo canudo, mas ela começar a beber tudo sozinha não estava nos seus planos.

Assim como fez com o cigarro, apertou o canudo com os dedos para impedi-la de continuar. Recebeu seu olhar enraivecido com um sorriso descarado.

— A sujeira que você fez com o meu terno, o café ruim e agora isso. — levou o canudo à própria boca, pouco se importando com a mancha de batom preto sobre ele. Poderia até mesmo dizer que este detalhe deu um sabor a mais. — Você deve ter sérios problemas com açúcar.

— ...Talvez. — optou por uma resposta imprecisa, receosa em se abrir demais. — Mas isso só acontece quando eu fico puta da vida.

— Eu te deixo puta com facilidade, então. — sorriu de canto sem nenhum pudor.

— Não me diga. — zombou com uma expressão de tédio. Cartman riu sutilmente como reação. — E quanto a você, senhor “sequestro garotas por diversão”?

— Eu estou bem, obrigado. — teve um pouco mais da bebida, abusando de sua canalhice apenas por implicância.

— Para com isso, que coisa chata. — sorriu involuntariamente ao falar, tirando o refrigerante das mãos dele. — Responde a merda da minha pergunta.

— Primeiro que não entendi onde quer chegar com a sua pergunta. Segundo que de todas as garotas que conheci, você foi a única louca o bastante pra eu ter precisado chegar ao ponto de sequestrar.

— Uau, hein. Que honra. — desdenhou novamente enquanto apoiava o queixo sobre a mão. Apesar de irritante, era interessante ver que Eric nunca se afetava por seu sarcasmo. — Eu me refiro à facilidade que você teve pra me levantar. Nem sob tortura vou continuar massageando seu ego, mas... — torceu os lábios, engolindo o próprio orgulho para prosseguir. — Você é forte. Sei que não sou nenhuma florzinha leve e delicada, quero saber de onde você tirou forças pra me carregar.

Por um momento de reflexão intensa, Eric uniu as mãos e as repousou sobre os lábios para inspirar profundamente. Henrietta aguardou pela resposta com expectativa.

— ...Ela diz que sou legal e que sou forte, mas se recusa a admitir que não me acha conformista.

— Ai, meu... — foi a vez dela de respirar fundo, apoiando o rosto nas mãos. — Eric, não me faça arrepender por ter dito isso.

— Ta legal, ta legal, já parei. — ergueu as mãos, assumindo uma falsa derrota. — Já que está tão curiosa, saiba que desde sempre foi assim. Minha força sempre dependeu do quanto eu estava puto. — seu entusiasmo desapareceu ao ter uma série de lembranças desagradáveis. — O foda era quando me acertavam desprevenido.

Seu dom com as palavras, sua habilidade de persuasão, seus planos elaborados para se vingar de quem o prejudicava... Foram seus primeiros e mais úteis meios de defesa pessoal. Era o mínimo que podia fazer por si mesmo, visto que por muitas vezes apanhou das pessoas sem nenhuma capacidade de se defender. E, na maior parte dos casos, sem que o agressor tivesse tido muito esforço. Kyle que o diga, que com um mínimo soco foi capaz de fazê-lo chorar.

Em contrapartida, deu grandes demonstrações de força enquanto realmente irritado. Quando confundiu a tabela de crescimento dos garotos do 5º ano com uma tabela do tamanho de seus pênis, ficou furioso o bastante para quase erguer uma mesa de ferro à qual vários de seus colegas estavam sentados. Quando convenceu todos a medirem seus pênis para uma nova lista e viu que o dele continuava sendo o menor, pôde quebrar uma cadeira de madeira maciça em vários pedaços apenas ao jogá-la numa parede durante a rebelião de uma classe de gerenciamento de raiva.

Felizmente, apesar de atuar mal na maior parte das coisas, o tempo consegue ser bem recompensador em outras. A frequência de academia aos fins de semana junto à dedicação a um esporte fortaleceram um potencial físico que se escondia no medo. E o crescimento, além de deixá-lo mais alto que boa parte de seus amigos, também compensou razoavelmente outras de suas injustiças físicas.

Suas dívidas estavam quitadas. Não havia do que reclamar. A pior parte era apenas se lembrar de tudo isso.

— Bem... — Henrietta se continha com muito sacrifício para não levantar suspeitas em sua pergunta. Coberta de inquietação, fitava a cicatriz rasa no nariz dele. — Quem sabe você tivesse ganhado contra a Testaburger se tivesse estado um pouquinho mais puto.

— É. Quem sabe. — expressou um sorriso sociável. Sociável, e não honesto.

Considerando a conversa encerrada, o antissemita voltou a comer. A gótica, incomodada, dava seu melhor para não transparecer o sentimento amargo que a atingia. Aquela foi a evidência que precisava: sua teoria sobre o passado dele com Wendy jamais teve tanta veracidade. Estava realmente sentindo tanto tristeza quanto aquele maldito sentimento de posse e fugir da companhia de Eric não era mais uma opção a ser seguida.

Henrietta desejava a amizade dele. Soube que era bom tê-lo por perto e que continuaria a desejar sua presença desde o momento onde trocaram suas primeiras palavras. Mas... Se sentiria bem em manter esta amizade vendo-o livremente com outras garotas? Se não pode estar com ele, não pode segurá-lo, tampouco poderia atrapalhar suas eventuais investidas românticas. Não se reduziria a este tipo de baixaria, cometida exclusivamente por quem não tem autoestima.

“Você é uma estúpida de merda, é isso que você é”, ofendeu a si em pensamento com um suspiro.

— Concordo.

“Calada.” respondeu à Kerstin que reapareceu em sua mente.

— Me dá um pouco disso. — enunciou, já tomando posse do balde do KFC.

— Todo seu. — Cartman lhe sorriu, pacientemente vendo-a degustar seu primeiro pedaço de frango. Para sua satisfação, a reação dela foi extremamente positiva. Mas vê-la comer avidamente e pegar outro pedaço antes de terminar o primeiro o obrigou a tentar puxar o balde de volta em total desespero. — Não literalmente, porra!

— Isso é bom — cobria a boca para ocultar o grande sorriso, olhando para o pedaço de frango em sua mão como se fosse a melhor coisa no mundo. — Isso é muito bom.

— Eu sei que é. Prova o molho. — ofereceu o pequeno pote com molho de cor convidativa.

Henrietta tirou tanto molho em seu pedaço que Cartman chegou a se espantar. Se perguntava onde foi parar a gótica que viu no Casa Bonita, comendo pequenas porções de comida mexicana com uma moderação quase exagerada. Era surpreendente pensar no quão bem disposta a comer ela podia ser ao se sentir socialmente confortável.

— Meus. Deuses. — olhava para o nada com uma expressão vazia. — O molho é a melhor parte.

— É mesmo? — usando de um tom cínico e uma expressão facial neutra, empurrava discretamente o refrigerante na direção dela. — Parece que alguém gostou da comida de conformista.

— É. E se contar isso a alguém, você é um homem morto.

Como Cartman previa, a gótica se esqueceu completamente de que ele também bebeu daquele copo. Pôs os lábios na mesma área onde ele tinha posto e bebeu despreocupadamente, retornando à realidade apenas depois de vários segundos. Mais especificamente quando se deu conta do olhar de Eric sobre si.

— Que foi? — perguntou, familiarizada aos seus olhares de muitas intenções.

— Nada. Só... — bateu fracamente com as mãos na mesa. — Acho que crianças diriam que isso foi um beijo indireto.

Em suas veias, o sangue da gótica pareceu congelar. Seu corpo e mente pararam. Por outro lado, o desgraçado estava claramente entretido por ter lhe provocado essa reação.

— Quanta maturidade. — mesmo com emoções praticamente inexistentes, deixou seu aborrecimento bastante claro. — Isso foi babaca, Eric. Não é brincadeira que se faça.

Como retorno, o humor de Cartman diminuiu aos poucos. Não podia negar que estava esperando por uma reação semelhante. Foi divertido incomodá-la, mas não o fez apenas por diversão.

Todo esse momento com ela foi ótimo. No entanto, não poderia se esquecer de por que estavam ali para início de conversa. Para iniciar o assunto que precisava, se reteve em não tocar a mão dela; as respostas a seguir poderiam tornar a situação bastante delicada para se permitir um avanço do tipo.

— Etta. — chamou sua atenção no modo mais ponderado possível. Considerou adequado criar um apelido para tornar o momento mais impessoal.

“Ihh, ele te chamou pelo nome que você odeia.” — a sueca não resistiu em deixar uma palavra. — “Vá. Diga a ele que detesta ser chamada assim, eu te desafio.”

De rosto avermelhado sob a base e tremendo de raiva, Henrietta engoliu em seco antes de oferecer sua resposta.

— Sim? — pronunciou quase no mesmo tom. Kerstin, dentro de sua cabeça, gargalhou como nunca. Se Pete visse esta cena, se sentiria injustiçado: Cartman possui privilégios com a mais orgulhosa das góticas que nenhum de seus amigos jamais teve.

Das muitas palavras de Cartman que vieram em seguida, Henrietta teve certeza de ter escutado vagamente algumas das primeiras. Algo de mais importante estava acontecendo à distância, impedindo-a de dar a ele uma atenção devida. De uma loja de roupas aparentemente comuns, saía um casal de góticos cujo rapaz era bastante conhecido. Firkle, acompanhado de uma garota um tanto mais alta e com roupas bastante sombrias apesar de obviamente baratas, saíam pelo shopping sorrindo e de mãos dadas.

Firkle estava sorrindo. Nenhum indício de sua imagem sanguinária transparecia, pois ele estava sorrindo. O coração de Henrietta falhou uma batida quando o gótico e garota ao seu lado deram um mísero sinal de olhar em sua direção. Num terror repentino, se debruçou sobre a mesa e se escondeu miseravelmente atrás do balde de frango. Cartman não fez questão de amenizar sua frustração.

— Henrietta, eu realmente gosto quando prestam atenção em mim e você não tá fazendo isso direito. O que tanto você tava olhando? — Cartman se virou para trás, procurando o que havia de tão interessante.

— Não olhe, seu retardado. Eles vão nos ver — ainda em sigilo, o puxou pelo braço para tentar fazê-lo se virar de volta.

— Puta merda, aquela é a Karen? — finalmente se voltou para Henrietta, porém por conta própria. — Aquele seu amigo baixinho não era gay?

— Eu estou tão surpresa quanto você. — apesar do tom morto, os olhos da gótica estavam estranhamente arregalados. — Eu e os outros sabíamos que ele estava interessado em alguém, mas ninguém imaginava que iria tão longe.

— Olha. Sinto informar, mas você não está muito bem escondida. — levantou o balde, eliminando todo o “esconderijo” que ela tinha. — Com medo de que seus amigos te vejam comigo? Devia dizer a eles o quanto não me acha conformista.

— Eu devia te mandar pro inferno. — se levantou apressadamente ao notar que o casal havia sumido de seu campo de visão.

— Aonde vai? — observava a gótica limpar as mãos com guardanapos e depois recolher sua bolsa sem muito cuidado.

— Correção: aonde vamos. — pegou Eric por seu pulso, praticamente arrastando-o consigo em direção à loja de onde aqueles dois tinham saído.

Na concepção do rapaz racista, aquele era um momento único. Não bastava Henrietta estar perfeitamente acomodada em sua companhia mesmo durante as amostras mais desagradáveis de sua personalidade; ela o estava conduzindo e fazendo questão de sua presença. Se permitindo ser levado, a observava se movendo ao caminhar. Não lhe ocorria nenhum problema para dedicar sua preocupação... Até se lembrar dos lanches que ficaram para trás.

— Pera aí — se soltou da gótica e deu meia volta, andando a passos largos na direção da mesa onde estavam.

Antes que ele retornasse no mesmo ritmo, Henrietta riu internamente pela visão. Pode considerá-lo atraente, mas mentiria se dissesse que um gordo correndo agarrado a um balde de KFC e um refrigerante pela metade não era engraçado.

Lado a lado novamente, retomaram o rumo até a loja de roupas banais. Ou, ao menos, banais para aqueles que não conheciam os métodos góticos de manter seu conteúdo distante de conformistas, vampiros e wannabes – ou num termo menos interno, os góticos de fachada. No topo da loja, uma placa luminosa porém feita sob medida para não chamar atenção dizia todo o necessário para suas suposições: Luv2Pain.

* * *