Malaxophobia
21 Acerto de Contas [3/5]
O espaço na loja era bastante reduzido. As roupas expostas pelas paredes e em cabides pelo centro eram desinteressantes, sem estampas ou cores que induzissem alguém a comprá-las.
Movida pela ansiedade, Henrietta andava à frente. Com alguma dificuldade Cartman segurava seu balde do KFC tentando não esbarrar em nada. Pela primeira vez entendia por que uma loja tão monótona teria um nome tão aberto a interpretações; ele e seus amigos sempre souberam da existência da Luv2Pain, mas jamais deram alguma importância ao lugar.
Chegando ao fim do lugar, a gótica e o antissemita pararam próximos a um balcão extenso. A atenção dos dois foi imediatamente captada por um cinzeiro que estava sobre ele, tão cheio de restos de cigarro que muitos caíam pelas beiradas. O odor intenso de nicotina ao redor era um indicativo de que não fazia muito tempo que alguém havia fumado. Em contrapartida, não tinha sequer uma alma viva no local que pudesse atendê-los.
Só de olhar para a gótica, Cartman já se divertia pensando em como poderia incomodá-la. Prontamente ganhou sua atenção quando se recostou no balcão de forma descontraída. Chegava a cogitar a ideia de usar preto mais vezes, tornava bem fácil ser notado por ela.
— E agora? — Eric perguntou. — Temos que falar uma senha secreta ou algo assim?
— Temos. — Henrietta abusou de sua falta de emoção. — Conhece Annabel Lee, certo?
— Quem?
— O último poema de Poe. Preciso que recite o quinto verso.
Silêncio. Toda a expressão facial de Cartman desapareceu, se igualando ao rosto da gótica.
— Foi uma piada. — a garota explicou sem mudar as feições. — Você sabe. Humor, diversão. Ha ha.
— Você não é muito boa nisso. — sorriu honestamente. — Na verdade, você é péssima.
Nem um pouco ofendida, Henrietta deu de ombros. Humor não era um conhecimento muito útil para góticos, afinal.
— Quer ouvir uma piada de verdade? — Eric continuou.
— Sei que vou me arrepender por isso, mas... — se apoiou ao lado dele no balcão. — Manda.
— Qual a diferença entre o judeu e a pizza?
Perplexa por antecipação, a gótica levou uma mão ao rosto.
— Diga, Eric. O que difere o judeu da pizza?
— A pizza não grita no forno.
Tentando lidar com essa resposta, Henrietta fechou os olhos. Ao passo em que Cartman pensou ter ido longe demais, teve a satisfação de ouvir o ruído de uma risada reprimida e de ver as bochechas da gótica se contraindo num sorriso tenso.
— Não adianta, Satã já ouviu essa risadinha. — Cartman acrescentou um comentário infame.
— Porra, que merda — se voltou para ele. — Não basta eu ter que ir pro inferno, vou ter que te aguentar lá também.
— Tá reclamando do quê? Vou ser a sua alegria por lá.
— Idiota.
Riram conjuntamente. Fitavam-se de forma distraída. Nenhum deles via necessidade em prorrogar a conversa, e Henrietta sorria abertamente desta vez.
Enquanto Cartman contemplava a expressão suave que ela tinha, se imaginou posicionando-se à sua frente. Prendendo-a naquele balcão, aprisionando-a entre seus braços e beijando-a calmamente até que não sobrasse batom algum em seus lábios. Pôde imaginar perfeitamente as mãos dela se desaparecendo em seu cabelo e seu olhar de desejo quando o beijo terminasse. Certamente teria o sabor do KFC que compartilharam, mas isso não iria incomodá-lo.
Porém, a realidade não era essa. Assim que Henrietta percebeu os ares estranhos do momento, desviou o olhar e limpou a garganta para retomar seu semblante azedo. Infelizmente para a mesma, podia sentir suas bochechas e orelhas queimarem.
Ouviram passos vindos dos fundos da loja. A gótica se afastou do balcão imediatamente, abraçando a oportunidade de escapar da situação. De um portal que levava a um ambiente sem luz, selado unicamente por uma cortina de contas escuras, irrompeu uma figura assombrosa. Um homem esguio e pálido, trazendo um cigarro entre os dedos, surgiu vestindo roupas pretas e totalmente justas. Se os dois adolescentes à sua frente tivessem que supor, diriam que ele tinha entre 40 e 50 anos.
Toda a sua vestimenta era coberta por tiras de couro e fivelas. Seu cabelo era alto, encorpado e completamente arrepiado, não seguindo qualquer padrão certo. A maquiagem ao redor dos olhos era densa e suas unhas estavam pintadas de preto, mas ironicamente nenhum dos detalhes o afeminavam. Completando sua aparência, em seu queixo estava um cavanhaque pequeno e triangular.
O ser peculiar caminhou até o balcão. Em silêncio, acendeu seu cigarro e passou o olhar gelado pelo rosto dos dois. Como se rejeitasse o antissemita, encarou Henrietta fixamente no aguardo por ela se pronunciar.
— Sua loja é bem discreta. — a garota usou do tom mais indiferente possível. — Já você...
— Sou como um ponto preto no meio da neve, eu sei. — aquele projeto menos amigável de Edward Mãos de Tesoura encarou o fã do nazismo com desconfiança. — É uma estratégia para espantar os conformistas. Esteve funcionando por alguns anos.
Como resposta, Cartman formou um semblante antipático. O gótico veterano permaneceu impassível.
— Decisão sábia, olhando por esse lado. — Henrietta prosseguiu, não percebendo a tensão do momento. — Bom saber que não desistiu de South Park, Grief.
“Grief.” o antissemita repetiu em sua mente. Então, os dois góticos se conheciam. Incrivelmente, esse fato não o incomodava mais do que estar sendo praticamente ignorado naquela conversa.
— Como eu poderia desistir? Seus amigos são compradores compulsivos. — o gestor da loja exprimiu a sombra do que deveria ser um sorriso. — Se não fossem as vendas online, só aqueles três já dariam meu sustento.
— A propósito — Henrietta olhou em volta. — Não era aqui que ficava a Hot Topic?
— Era, até um grupo de incendiários levar tudo abaixo.
— Ups. — a garota ergueu as mãos ironicamente, não fazendo questão alguma de demonstrar culpa.
Fechando um punho sobre a boca, Cartman pigarreou duas vezes para conseguir atenção. Teve sucesso em ganhar o foco dos dois, mas não positivamente e nem por muito tempo.
— E quem é esse aí? — Grief voltou a falar diretamente com a gótica, ainda agindo como se Cartman não existisse.
— Alguém inconformista o bastante pra não precisar se vestir desse jeito. — o rapaz revidou sem dar a mínima para as consequências. Não poderia tê-lo ofendido mais. — Existem muitas formas de conseguir atenção, Grief. Você não precisa se vestir feito um palhaço.
Sob a pintura carregada em torno dos olhos da gótica, havia uma demonstração de surpresa clara. Os arregalava para Eric, descrente de suas palavras. O aspecto frígido de Grief se intensificou, indicando o limite de sua paciência.
Após uma sessão de encaradas mútuas entre ele e Cartman, o gótico acenou bruscamente com a cabeça na direção do portal de onde veio, comandando-os a entrarem. Não desejando que aquele circo continuasse, Henrietta tirou os lanches das mãos de Eric, os deixou sobre o balcão, segurou seu acompanhante pelo braço e o levou consigo através da cortina de contas.
No novo ambiente, um aroma característico de velas queimando invadiu o olfato de ambos. Ao menos, de acordo com Cartman, era bem agradável se comparado ao fedor de cigarro. Diferente da gótica, Eric demorou bastante para adaptar sua visão ao escuro. Toda a luz do lugar era provida apenas por velas negras, seja nas paredes, em pequenas mesas ou no grande lustre vitoriano no teto. Se permitiu ser guiado por Henrietta até uma área aos fundos, parando somente ao se aproximarem de uma estante repleta de CDs e vinis. Bem ao lado, estava um toca discos extremamente retrô, que não passaria despercebido nem se quisessem.
Então, esta era a verdadeira face da Luv2Pain. Um lugar sombrio, repleto de expositores com roupas totalmente pretas. Por toda a parte havia crânios bem feitos demais para soarem falsos, diferentes velas ardendo e teias de aranha artificiais. Num sentido geral, a loja mais se parecia com um cenário de filme de terror da década de 40.
— O que foi aquilo? — largando o braço de Eric e se virando para ele, Henrietta indagou.
— Minha passagem de entrada pra essa porra de loja, talvez. — soou tanto orgulhoso quanto irritado. — Aquele cara queria muito me barrar, qual é a dele?
— Grief é um Trad Goth. Extremamente tradicional. Era gótico muito antes de eu ou você sequer nascermos, não deixaria qualquer um entrar aqui. — sacudiu a cabeça em incredulidade. — Você acabou de foder com o ego dele.
— Mas funcionou, não funcionou?
— Funcionou, mas eu não comemoraria se fosse você. Tenho certeza de que ele vai jogar seu frango fora pra se vingar.
Ao pensar nessa possibilidade, Cartman paralisou. Virou-se por impulso, prestes a voltar ao balcão e reivindicar a posse de seu KFC, mas Henrietta segurou-o pelo braço mais uma vez. Foi obrigada a suprimir uma risada.
— Relaxa, garoto. Compro outro depois.
— E deixar o filho da puta desperdiçar comida?! Tem gente morrendo de fome na África!
— Como se essa gente fosse deixar de morrer por isso.
— Meu Deus, que horrível — Cartman riu entre as palavras enquanto tentava parecer sentido.
— Ah, cala a boca. Você nem tem bússola moral. — rolou com os olhos enquanto falava, fazendo-o rir um pouco mais.
Sob o olhar de Cartman, a gótica se afastou para analisar os discos pela estante. Se pretendia dar a ele uma pequena amostra da cultura gótica, que fosse com melhor conteúdo possível. Empolgou-se ao notar que ele tinha se distanciado por conta própria, pondo-se a olhar alguns trajes em cabides próximos.
— Você não queria saber de que lojas consigo minhas roupas? — Henrietta retomou a conversa enquanto folheava diferentes discos. — Pois bem. Como pode ver, as roupas que compro são bem feitas e não se encontram em qualquer lugar.
— Ainda acho que você comprava as suas com o mendigo.
— Já tomou no cu hoje?
Mesmo sem ouvir uma resposta, Henrietta percebeu que Eric sufocou um riso. Acabou por sorrir em conjunto, ainda que minimamente.
— Já que tocou no assunto do mendigo de novo, saiba que sempre foi com o Grief que eu e os outros conseguíamos nossas coisas. — continuou. — Uma loja física fez falta enquanto estive fora, detesto ter que esperar dias por uma entrega.
— Bem, a culpa é toda sua. — iniciou na intenção de zombar dela. No entanto, ao se lembrar do pequeno interesse que teve por ela em sua infância e de quando descobriu que não estava mais em South Park, aos poucos o tom tornou-se sombrio. — Você não teria passado por tudo isso se não tivesse sumido da cidade. Devia ter ficado.
— Na verdade, a culpa não é minha. — na mescla de angústia e raiva, comentou sem pensar.
Arrependida por falar demais, Henrietta se desconcentrou de sua procura. Acabara de oferecer a oportunidade perfeita para Eric perguntar o motivo de seu sumiço, consequentemente oferecendo a brecha ideal para que começasse a ligar os pontos. Pôde senti-lo se aproximando, e tudo no que pensava era em que desculpas e mentiras poderia oferecer. Porém, ao se reerguer, tudo o que viu foi Cartman segurando um item fino e escuro, à primeira vista semelhante a um lápis, com um pequeno cone na ponta.
O sentimento nostálgico da gótica foi inevitável. Tratava-se de um suporte longo para cigarro, no mesmo padrão usado pelas melindrosas dos anos 1920. Usara um desses muitas vezes em seus nove e dez anos, e o que tinha foi perdido em sua mudança. Estava surpresa por Eric ter notado que não o usava mais, e mais ainda por ele se lembrar que ela usava. Não era algo exatamente útil, mas dava uma excelente impressão estética.
Henrietta segurou o suporte entre os dedos. Pacientemente analisou todos os pequenos detalhes. Suas bochechas queimavam por motivos que desconhecia. Portando o objeto como se um cigarro estivesse preso a ele, olhou para o rapaz com uma feição quase sarcástica.
— Me incentivando a fumar, Eric Cartman?
— Não. — ousou tocá-la no ombro. — Fumar é uma merda, mas o suporte é legal. Podia continuar sem pôr nada nele.
— Hah. Vá sonhando. — deu fim à discussão, retomando a busca pelos vinis.
Cartman estalou a língua, optando por se calar desta vez. Fazê-la parar de fumar era mais uma de suas metas a longo prazo.
Sem escolha melhor, Cartman caminhou novamente entre as roupas. Observava que, além de serem sempre pretas, geralmente não tinham estampas. O foco do vestuário gótico eram as variações de tecidos, costuras e acessórios, jamais abandonando a cor principal; não precisariam de cores ou desenhos enquanto tivessem diferentes texturas. Não era um estilo que ele pretendesse aderir, mas poderia ser interessante testá-lo de vez em quando – ainda mais quando encontrasse com uma certa gótica piromaníaca. Sorriu consigo mesmo ao pensar na tendência que Henrietta tinha para eliminar os problemas com o fogo, fosse uma loja, um terno ou ao acender um cigarro.
Não se virando demais, olhou para ela de soslaio. A gótica finalmente encontrou o disco que tanto procurava. Mesmo que estivesse costas, podia sentir que ela sorria.
A capa do disco era totalmente em preto e branco, com um design propositalmente envelhecido. Na sua ilustração estava a entrada de uma capela ou uma mansão antiga, encoberta pela sombra do que parecia um grande morcego pronto para um ataque. Logo abaixo estavam os dizeres “Bauhaus”, em fontes com aparência tão desgastada quanto o restante da imagem. Sob o nome, em letras que pareciam feitas a mão e quase imperceptíveis, estava o que deveria ser o título do álbum: Bela Lugosi’s Dead.
Henrietta retirou o vinil da capa com grande habilidade. Para a surpresa do antissemita, o disco era inteiramente branco, contradizendo a cor preta presente nos vinis comuns. Com toda a cautela, a gótica o inseriu no toca discos antigo e estranhamente conservado. Depois de posicionar a agulha num ponto certo, pressionou alguns botões. Com uma ociosidade de poucos segundos, foi iniciada uma batida musical bizarra acompanhada de chiados.
Se este não fosse Cartman, faria algum comentário positivo sobre a música estranha para agradá-la. Na melhor das hipóteses, se manteria em silêncio. Como não era o caso, sem nenhuma inibição, o rapaz expressou com toda a sinceridade de suas palavras:
— Que merda é essa?
— A canção que começou tudo isso. A primeira música realmente gótica já criada, bem durante a era pós-punk. Esse disco faz parte da versão original lançada em 79, limitada a apenas cinco mil cópias. — hipnotizada pela rotação do vinil, perdia-se na inveja por um passado que nunca teve. — Grief é um maldito fóssil vivo.
Depois do seu pequeno discurso, Henrietta voltou a fitar sua companhia. Notou em Cartman uma expressão reprovadora, como se estivesse ouvindo a música mais desagradável do mundo (sendo que sequer havia passado da introdução). Quebrando as expectativas dele, Henrietta ostentou um sorriso sutil.
— Não te julgo por achar uma merda. — declarou, despreocupada. Talvez com certo otimismo. — Ser introduzido à música gótica é como fumar um cigarro: ninguém gosta na primeira vez. Ouvidos acostumados ao mainstream precisam de mais algumas tentativas para apreciar o underground.
— Então você se forçou a fumar e a ouvir esse tipo de música. — convencido, fez uma afirmação em vez de uma pergunta. — Isso é bem conformista, se parar pra pensar.
— Parece que entendeu mesmo o significado de conformismo. Eu estaria orgulhosa, caso esse “conformista” não tivesse sido pra mim. — estreitou os olhos, levando-o a mostrar um sorriso folgado. — Você está errado. Meu gosto pela música veio naturalmente assim que encontrei meu estilo dentro da subcultura. Já meu primeiro cigarro... Eu fumei bem antes de sequer conhecer os costumes góticos.
Henrietta sufocou uma melancolia profunda. Estava perdida em más lembranças. O momento em que fumou pela primeira vez e as causas para tal pareciam tão vívidos em sua memória que era como se passasse por eles outra vez.
Sem se dar conta, estava estática no lugar. Mal parecia respirar, tendo as mãos unidas atrás do corpo e olhos fechados. Limitado a observá-la, Cartman estava desconcertado e ao mesmo tempo preocupado. Não conseguia saber se ela estava passando por algum problema ou se estava num ato de meditação bizarro.
— Eric. — sem sair de sua pose e quase o assustando, Henrietta iniciou de modo aleatório. — Existe alguma figura que você admire? Ou em quem você se inspire, talvez.
Aliviado por ela parecer bem, Cartman se apoiou na parede mais próxima. Sorriu de canto com alguma maldade. Poderia se divertir com isso.
— Que figura você acha que me inspira? — perguntou com audácia, curioso pela resposta.
— Francamente — seus lábios se encolheram para não sorrir. — Depois da águia nazista na sua dog tag e da piada da pizza eu tenho medo de responder.
— Henrietta, veja bem: Hitler foi um estrategista. Convenceu toda uma nação a concordar com seus princípios e fez tudo o que pôde pra restaurar a glória de um país quebrado. Não concordo com a parte de exterminar minorias e tudo mais mas o cara foi foda, quantas pessoas você conhece que foram adoradas como um deus?
— Não concorda com o extermínio de minorias? Você não tentou causar um segundo holocausto uma vez? — inclinou a cabeça para um lado, refutando completamente aquela afirmação. — E aquela vez onde tentou eliminar os ruivos. Ou aquela vez em que jogou uma pedra na cabeça do Token. Ou quando...
— Detalhes, detalhes, você tem uma memória boa demais pra coisas bobas. — escondeu o rosto, unicamente na intenção de fazê-la rir. Teve sucesso. — Espera. Ruivos fazem parte das minorias?
— Não sei. Deveriam.
Ao dizer isso, a gótica mudou repentinamente de humor. Apenas dessa forma,l Cartman pôde diferenciar a Henrietta alegre da Henrietta normal, ou talvez a alegre da irritada. Seja qual fosse, ela pareceu detestar mais os ruivos do que ele mesmo detestou em toda a sua vida. Pensativo sobre a causa dessa reação ter sido a conversa que teve com a ruiva do KFC, Eric se restringiu a rir por dentro; provocar ciúmes citando uma ex-namorada estava fora de cogitação. Ao menos, não propositalmente.
— Como eu ia dizendo — Henrietta fazia um claro esforço em parecer natural, mas mostrou ainda mais raiva ao ver Cartman sorrindo. — Se lembra que citei a porra dos Trad Goths?
— Deixa eu adivinhar: existem muitos tipos de góticos.
— Vários. Uma infinidade, tantos que nem sei se conheço todos.
— E onde quer chegar com isso, ó soberana das trevas? — zombou dela com uma reverência.
— Não te trouxe aqui só pra ficar de bobeira ouvindo Bauhaus, ó supremo senhor fodão. — zombou de volta com o mesmo gesto, porém mais contido. — Você não queria um casaco novo? Vou te arranjar um casaco novo.
— “Supremo senhor fodão”? — seu sorriso só não era maior do que seu ego.
— Olha só, eu já me arrependi de ter dito isso então faça o favor de não me amolar.
— Não, eu gostei, me chame assim mais vezes.
— Mais uma vez, vá sonhando. — dirigiu-se a uma partição de trajes masculinos. — Entre todos os arquétipos góticos, acho que dois combinam com você. E em ambos você pode seguir o seu... “Maravilhoso” exemplo.
— Então pra você é mais fácil me vestir feito um gótico do que dizer que não sou conformista. Entendi.
— Sabe Eric, tem horas que você merecia um soco.
— Também gosto de você. — se aproximava dela com um meio sorriso. Com algum nervosismo, Henrietta o olhava do canto dos olhos. — Está certo. Quais tipos combinam com a minha pessoa?
— Os tipos que ouvem músicas com sobre guerra, ódio e momentos históricos. — jogou um sobretudo para ele. Ou melhor: no rosto dele. — Rivetheads e Military Goths.
* * *
Escorada numa parede, Henrietta aguardava próxima ao corredor de provadores da Luv2Pain. Com pequenos conselhos, Cartman tinha escolhido por si mesmo todo um repertório visual e o equipava numa cabine próxima. Não podia negar que estava entretida por essa inversão de papéis.
Enquanto o esperava, a gótica não conseguia deixar de pensar: ela realmente o estava aceitando em seu mundo. Estava deixando que Eric se aproximasse e mostrando a ele os seus costumes. E quanto a “também gosto de você”... Henrietta não sabia como reagir ou o que pensar.
Ele poderia estar tirando sarro dela como sempre. Talvez estivesse sendo amigável. Poderia ter sido uma piada com a ironia do momento, ou quem sabe uma frase sem significado para preencher espaço. Ou... Quem sabe Eric correspondesse ao que ela sentia. Poderia estar correspondendo aos seus sentimentos, ou ao que ela questionava se sentia, e estivesse sendo bastante cuidadoso em avançar.
“Gostar” não era o que a assustava. Henrietta gostava dos seus amigos, por exemplo. Gostava de seus pais, embora não quisesse tratá-los como tal. Gostava até mesmo de seu maldito irmão adotado. Mas Eric... Eric revirava seu estômago e fazia suas mãos suarem. Um suor nas mãos ao olhar para ele foi o que a fez sumir, apenas para vários anos depois ela estar sofrendo do mesmo mal e se recusando a sair da cidade.
Como ela podia gostar tanto de uma pessoa tão irritante? Ou pior: como podia não querer que Eric se aproximasse demais, mas temer que ele se afastasse? Como uma pessoa tão inconveniente podia ter tanta astúcia, tanta honestidade, tanta personalidade e uma presença tão forte? E como se tudo isso não bastasse... Como aquele gordo filho da puta conseguia ser bonito daquela forma?
— Até parece que você acha ele gordo. — sussurrando, a mão falante apareceu do nada à sua frente. Henrietta foi tirada de seu transe por aquele sotaque áspero.
— Já tinha me esquecido de você. E gostaria de continuar esquecendo. — sussurrou de volta, de certa forma aliviada por ter algo para se distrair. — Pensei que não pudesse ler a minha mente.
— É, eu minto às vezes. — respondeu, negligente.
Forçando seu timbre para poder usar completamente a voz de sua hospedeira, Kerstin iniciou num volume um tanto mais alto:
— “Oh, Eric... Você é tão maravilhoso e eu sou tão traumatizada, por que não me come enquanto me segura com suas mãos fortes?”
Mais pálida do que sua maquiagem seria capaz, a gótica cobriu Kerstin por inteira com a mão útil, impedindo-a de continuar. Incapaz de piscar, não tinha coragem de verificar o corredor para saber se Eric estava por perto. No seu momento de distração, a mão possessa conseguiu se libertar.
— Fica fria, garota. Ele não te ouviu.
— Não fui eu quem disse isso, foi você!
— Oh, fui eu? A voz parecia ser sua. — a ridicularizou uma última vez antes de receber um olhar mortal. — Ei, não se preocupe, eu não queimaria tanto seu filme. Quero que as coisas entre vocês dois aconteçam naturalmente.
— E eu quero muito cortar você fora. Se pensa que está me ajudando em alguma coisa, está enganada. Não vou me envolver em nenhum romance e sei exatamente o que estou fazendo.
— Ah, Henrietta... Você é uma tonta. Nem todo relacionamento é igual, tenho certeza que você nem sabia o que era se apaixonar de verdade quando conheceu aquele guri.
— Não ouse tocar nesse assunto.
A reação agressiva fez a mão recuar. Todo o corpo da gótica ficou trêmulo. Seu nervosismo se mostrou tão grandioso que ela inconscientemente havia engrossado a voz em dois oitavos.
Kerstin já tinha visto sua hospedeira muitas vezes sob estresse, mas jamais nesse estado. Gostava de perturbar sua paz, mas sabia a hora de parar.
— Está bem. Eu considero seus motivos. Mas sobre você saber o que está fazendo... Eu duvido bastante, e acredito que você também. — depois de fazer o possível para tranquilizá-la sem deixar de lado o realismo, se virou na direção dos provadores. — Ele está voltando, controle seu útero.
— Quê? — não teve resposta, pois com o agitar de seus dedos Kerstin havia sumido.
“Mas é uma filha da puta, mesmo.” tentou algum contato mental para não ser deixada no vácuo. Vendo que ficaria por isso mesmo, rolou com os olhos e decidiu enfrentar o som dos passos. Assim que se virou para o corredor, Cartman já estava tão perto que ela se conteve para não se assustar.
Dando mais alguns passos para longe do escuro, a aparência do antissemita foi revelada pela pouca luz. Enquanto lutava contra um sentimento desconhecido, Henrietta pôde estar certa de duas coisas: as escolhas de vestimentas dele não poderiam estar melhores; e se o achava atraente antes, agora tinha um problema seríssimo para lidar.
Sua composição continha coturnos militares sobre calças pretas quase comuns, diferenciadas unicamente por uma corrente de aço envelhecido como cinto. Sua camiseta preta foi substituída por uma camisa branca de botões vista apenas pela gola, pois todo o resto estava abrigado por sobretudo que por somente um palmo não alcançava os tornozelos. O mesmo sobretudo, embora totalmente fechado sobre o torso por três faixas seladas por botões prateados, era inteiramente aberto dos quadris para baixo. O peito estava atravessado por uma faixa de couro na transversal e outra na horizontal, estando a segunda mais próxima do quadril.
Seu colar com dog tags estava exposto. As golas do sobretudo estavam adornadas por dois distintivos de cruz pátea. As mãos estavam abrigadas por luvas de couro que cobriam metade dos dedos e seu cabelo estava levemente bagunçado pelo esforço de se vestir. Agregando ainda mais valor ao traje e destacando-se sobre todo o preto, estava uma faixa totalmente vermelha ao redor do braço esquerdo.
Pelos muitos anos de hábito, o rosto da gótica estava sem emoção. No entanto, sem que estivesse consciente, tinha os lábios entreabertos enquanto rondava os olhos por Cartman. Ele não pôde evitar de sorrir com alguma malícia, sendo justamente esse sorriso que fez Henrietta cair na real. E corar violentamente sob a maquiagem, também.
Eric tomou distância para se ver num espelho. Com os braços para trás enquanto caminhava, o ritmo de seu andar foi semelhante a uma marcha. Contornado por uma moldura negra cheia de entalhes tipicamente góticos, o espelho era alto o bastante para refleti-lo por inteiro.
— E aí? — Henrietta perguntou o mais casualmente possível. — Como se sente?
— Como se tivesse dominado a humanidade e feito todo mundo de escravo. — respondeu sem tirar os olhos de si mesmo. — Porra, me sinto ótimo.
— Esse é o espírito. Eu acho. — sorriu com sutileza. — Ah, espera. Faltam algumas coisas.
Virando o rosto na direção dela, Eric a viu buscar por algo em sua bolsa. Ao tirar a mão de lá, segurava um lápis para contorno dos olhos e um pequeno estojo de sombras escuras.
— Mas nem fodendo. — o fã do nazismo limitou de uma só vez.
Sorrindo internamente e revirando os olhos, a gótica guardou novamente os objetos. “Não custou nada tentar”. Sem avisar, Henrietta deslocou-se até uma seção de chapéus, em sua maioria cartolas de diferentes proporções. Felizmente, o que a gótica procurava estava bem ao alcance: a peça fundamental de todo figurino Military Goth.
Com o achado em mãos, caminhou de volta até Cartman e o encaixou impecavelmente sobre sua cabeça. Lisonjeado, com um certo sentimento de honra, o rapaz viu o resultado no espelho: um quepe militar, obviamente preto, contudo com costuras brancas e ornado por duas pequenas cordas sobre a aba curta e arredondada. Destacado no adereço, estava um crânio prateado sobre um par de ossos. Mais acima, embora sem uma suástica tal como a faixa em seu braço, estava uma águia de asas estendidas segurando um aro nas garras.
Ele e a admiradora do sombrio não tinham escolhido essa indumentária aleatoriamente. A caracterização de Cartman era uma versão moderna – e socialmente aceita – do uniforme de um oficial da Allgemeine SS: a mais numerosa vertente da Schutzstaffel. Não que um verdadeiro gótico se importasse em parecer correto para a sociedade; apenas não valeria a pena ser preso por se vestir com mais fidelidade ao original.
— Você parece mais gótico do que eu, estou preocupada. — embora fosse um elogio indireto, Henrietta usou de seu tom morto ao falar.
— Então — ajustava mais o quepe de acordo com seu reflexo. — Isso é mais Rivethead ou Militar? Ainda não entendi a diferença.
— Na real, você conseguiu combinar um pouco dos dois. Num sentido amplo ambos ouvem música industrial, a principal diferença está sempre nos comportamentos e nos temas. Lembre-se disso.
— Músicas sobre guerras e fatos históricos, certo?
— Precisamente.
— Que tal me mostrar algumas depois? — mostrou um sorriso autêntico.
— Hm. — semicerrando os olhos, cruzou os braços em desconfiança. — Tá mesmo interessado nisso, Eric Cartman? Ou só está tentando me impressionar?
Unindo os braços detrás do corpo novamente e inclinando o rosto para baixo, Eric emitiu algo próximo de uma risada. Virou-se para a gótica de forma que ficassem cara a cara.
— Henrietta. — mantendo um profundo contato visual, Eric se aproximou um pouco do seu rosto. — ...Eu não preciso medir esforços pra te impressionar. Simplesmente acontece.
Suando frio, a gótica permaneceu estática. Não conseguia identificar, em primeiro lugar, o que causava sua postura covarde: suas palavras soberbas porém reais, o tom de voz que ele usou, a maneira como ele estava vestido ou a vontade que teve de aumentar a proximidade.
— Você... Parece seguro demais disso. — se odiou mentalmente por estar incapaz de dar uma resposta melhor. Em desespero interno, evadiu do olhar de Cartman e começou a caminhar sozinha até a saída. — Vamos embora, estou com fome e não aguento mais esse shopping.
“Meu Deus, não.” a agonia da gótica transformou-se em ódio, depois em agonia outra vez. A razão era apenas uma: por qualquer que fosse o motivo, Kerstin e Mitch assumiram controle de suas mãos e se reuniram de novo.
— Sabe que eu já tinha esquecido deles? — não se importando com o evento, o rapaz voltou a chegar perto da gótica com toda a serenidade.
— Não foi o único. — continuava a tentar se afastar, mas pelas mãos conectadas serem duas esquerdas seu ritmo era dificultado e ainda sentia desconforto no braço. Não demorou demais para desistir e parar no lugar. — E agora, Eric? Que merda a gente faz?! Vamos ficar andando de lado por aí?!
Rindo por dentro, Cartman se aproximou definitivamente. É claro que ele tinha a solução, e ainda poderia se aproveitar disso. Sendo vigiado pela gótica como se fosse cometer um grande crime, envolveu o braço esquerdo sobre os ombros dela. Quer ela se queixasse ou não, ambas as mãos agora estavam de um mesmo lado.
Tanto Kerstin quanto Mitch queriam que as coisas entre os dois acontecessem naturalmente. No entanto, como defendido pelo próprio Cartman, o início de um romance às vezes precisa de uma forcinha. E em outras vezes de um belo empurrão.
* * *
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