Maktub
2 Ninho de ratos
Notas iniciais

Gostaria da sua atenção por um pequeno momento. Se quiser pode sentar e tentar relaxar, mas, por favor, não durma. Sei que a história que irei contar não é um conto de fadas e mais se parece com a história das mil e uma noites.
Tudo começou quando eu ainda era muito pequena. Desculpe, não lembro a idade exata, mas digamos que eu tinha entre seis ou sete anos, e nesta época eu me chamava Regina, uma menina brasileira que vivia na linha da miséria com seus doze irmãos, amontoada em um barraco ao lado de um esgoto no alto de um morro. Não pense que eu era infeliz ou coisa e tal, felicidade para mim era poder brincar na rua, correr livre pelas vielas, saborear um doce e poder contemplar o mar. Eu não quero arrancar lágrimas com minha infância triste, por isso ocultarei alguns fatos dramáticos. Muito bem, onde nós estávamos? Ah sim, eu pequena. Quando se é pequena e faminta e alguém lhe oferece comida tudo parece ótimo.
Seria mais uma noite quente como todas as outras se não fosse por aquelas pessoas paradas no meio da cozinha que servia como sala e quarto. Suas roupas limpas com aspecto de novas e o perfume que emanava de seus corpos deixavam bem claro que eles não moravam naquele morro. Com meus olhos infantis percebia o quanto minha mãe estava chateada: limpava a mão o tempo todo na blusa. O casal falava rápido e sempre olhando pra gente que se amontoava em um canto próximo a uma velha televisão. Ao fim da conversa eles foram embora deixando um pedaço de papel com a nossa mãe.
As manhãs eram todas do mesmo jeito, café amargo para amansar a fome uma prece a Deus para ter algo para comer no almoço, mas naquele dia foi diferente. Minha mãe me fez tomar banho, me pôs o único vestido novo que eu tinha que também era dividido com minha outra irmã, mandou-me calçar os chinelos, fez uma trança em meu cabelo e saiu comigo deixando meus muitos irmãos com uma vizinha.
Como criança, a única coisa que eu pensava era no passeio de ônibus. A cidade era tão viva e barulhenta que mais parecia um parque de diversões com lojas, cheiros, e pessoas que andavam rápido. Eu nunca tinha entrado em um elevador, as paredes refletiam meus olhos famintos, estava muito claro que aquele ambiente não nos pertencia, os olhares acusadores das pessoas, mais parecia que éramos ratazana que não deveria estar naquele ambiente. Por vários anos eu veria aquele tipo de olhar.
Nós fomos para um quarto grande com paredes floridas e amplas janelas com vista para a praia. O casal da noite anterior falava apressado e com certa raiva com minha mãe.
— A senhora tem certeza que não quer dar um dos menores?
— Não! Tem que ser ela.
—Ela é bonitinha, mas vamos pagar mais barato.
— Quanto?
—Dois mil e duzentos.
—Posso pegar o dinheiro agora? Eu preciso comprar comida.
— Leve este dinheiro, amanhã a gente entrega o restante.
A mulher me analisou com certo nojo, eu tentava me esconder atrás de minha mãe. Talvez exista um caminho ou uma direção, ou alguém que possa prever o futuro e nos dizer o que ainda está por vir. Se o futuro existe ele pode ser bem cruel, principalmente para uma garotinha faminta.
Na volta para casa minha mãe me colocou em seu colo e me manteve bem apertada, nós passamos em um mercado para fazer compras, até doce compramos. Mal sabia eu que aquilo seria uma despedida, a minha despedida, minha última noite com minha família, a última noite que dormiria como rato. A vista do alto do morro era linda, as luzes das casas e apartamentos formavam um tapete de estrelas e o mar refletia a lua. Era como se eu estivesse flutuando no meio de dois céus estrelados. Sempre pedia para ir até o mar. Mesmo sendo apenas uma criança eu queria ver o mundo. Em meus sonhos infantis imaginava o que havia no final de um arco-íris, o que as nuvens escondiam. Havia tanta inocência em minha mente.
Eu escutei os choros abafados de minha mãe. Enquanto separava algumas roupas minhas numa sacola, ela acariciava a barriga, logo teríamos outro irmãozinho.
Olhei para os colchões espalhados no chão e tentei imaginar onde aquele bebezinho ficaria. Com um baque forte a porta foi aberta e aquele homem que morava com a gente entrou trôpego. Minha mãe encontrou meu olhar e tratou de me colocar junto dos meus irmãos maiores cobrindo a gente, apesar do calor abafado do barraco. Não me recordo do meu pai, mas lembro-me dos outros dois maridos de minha mãe, e aquele era o mais assustador. Ele não era assim, tinha acontecido algo e agora ele vivia bêbado.
Sei que você deve estar cansado de ouvir várias histórias de garotinhas pobres que sofrem até encontrarem sua salvação em príncipes encantados. Em minha história terá sim um príncipe, só que não será o salvador dela. Mesmo os homens sendo forte, s corajosos e destemidos eles somente aparecem no final das histórias, e enquanto isso as donzelas sempre têm de ficar esperando e posso afirmar que não sou deste tipo. Agora voltemos à garotinha de olhos cor de areia e pele morena deitada na cama, tentando mergulhar no mundo dos sonhos onde tudo é mais fácil.
Quando o sol começou a esquentar o telhado do velho barraco o casal bem vestido apareceu novamente. Uma sacola com três pares de roupa tinha sido cuidadosamente colocada sobre uma cadeira. Minha mãe estava com olhos inchados devido á lágrimas. Com muito cuidado aquela pequena sacola foi posta em minha mão. Ela também pegou um pedaço de pão e com todo o carinho beijou-me a testa. Sem perguntar, sem receber qualquer informação ou explicação, fui acompanhando aquele casal. A medida que descíamos aquelas escadas o barraco ia ficando para trás, assim como as brincadeiras com meus irmãos, e um pouco de minha doce inocência infantil.
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