Maktub
3 Terra distante
Notas iniciais

Os fios desbotados e secos caíam no chão em silêncio. Aquela mulher andava de um lado para o outro, a fumaça de seu cigarro me fazia engasgar. Depois de tomar um banho eu coloquei uma camiseta e uma calça, e ao me olhar no espelho meus olhos me enganavam. Ali, parada diante de mim, estava minha cópia, porém, não era uma menina e sim um guri de olhos cor de areia. Eu realmente não lembro como fui parar naquele outro país, só lembro-me de um copo de suco, de uma fatia de torta e de adormecer profundamente.
As vozes eram todas muito estranhas, as pessoas pareciam recitar uma prece ou cantar uma música infantil indecifrável, aos poucos minha consciência se organizava. Havia alguém, uma mulher de cabeça coberta, com uma argola pendurada no nariz, devagar levantei minha cabeça e a vi sorrindo para mim. Ela parecia feliz em me ver.
Sabe aqueles pesadelos estranhos que nunca tem sentindo algum? Tudo ali parecia sem nexo, fora do lugar. Afastei-me da mulher que não me olhava mais com sorriso e sim com certo espanto.
Quantas pessoas gostariam de nascer com olhos na cor verde, azul, violeta...Isso é o sonho da maioria dos homens e mulheres. Lembro-me da cor dos olhos de meus irmãos, era todos pretos, escuros como a noite, mas o meu era diferente, não era verde nem a popular cor de âmbar, realmente estava mais para amarelo ou como eu logo descobri cor de areia ou olhos de cobra. Não sei se devo agradecer à cor dos meus olhos pelo meu destino, ou amaldiçoá-lo,é difícil dizer, talvez tenha sido apenas coincidência tudo o que aconteceu comigo e mesmo que não tivesse olhos cor de areia eu passaria por tudo aquilo. Pelo pouco que eu compreendia pude entender que o casal estranho que não falava minha língua não iria mais ficar comigo, tinha desistido do negócio e isso não soava muito bem. Eles queriam uma criança para ter como filho, mas não aceitaram que fosse uma menina de olhos amarelos. Por algum tempo não houve conversa, somente um longo e assustador silêncio naquele quarto. Quando a mulher de véu saiu acompanhada do homem de turbante e a porta foi fechada. O casal que tinha me levado para aquele lugar começou a discutir. As palavras pareciam fogos de artifício sendo gritadas em minha direção. Meu pequeno corpo se encolhia.
Pela pequena janela do quarto eu tentava ver a movimentação na rua: ele não me deixava sair. Enquanto espremia meu rosto naquele vidro embaçado eu lembrava da vez em que ganhamos um rouxinol amarelo, um pássaro muito triste que nunca cantava, até o dia em que meu irmão mais novo abriu a portinha da gaiola e ele voou feliz, cantarolando em direção ao céu azul, e naquele momento tudo que eu gostaria era poder ver o céu. Eu já sabia que estávamos muito longe do Rio, em outro país. Ouvi a mulher dizer que todas aquelas pessoas eram árabes. Naquela noite recebemos a visita de um homem muito assustador. Seu rosto fino, seu nariz pontudo, seus dentes tortos e amarelos tinham, muita semelhança com os de um rato. O problema de ser uma criança assustada é que não se consegue ver a verdadeira face do ser humano. Por fora Amim era assustador, mas por dentro um homem gentil aproximou-se bem de mim e estendeu sua mão entregando um pequeno cubo de açúcar. Apesar de todo o meu medo ele acabou encaminhando-me para algo bom.
Viajamos por horas montados em camelos sob o sol escaldante com o deserto a nossa volta. Eu não reclamava, pois assim eu podia sentir o vento na pele e ter uma breve sensação de liberdade, uma liberdade que me deixava louca por água. Sempre imaginei que as pessoas vivessem em casa, seja ela feita de madeira ou tijolos, mas aquelas pessoas viviam em tendas. As mulheres estavam cobertas com uma capa preta e nem os olhos ficavam à mostra, outras apenas usavam véu. Amim colocou-me próxima de algumas cabras que estavam bebendo água e minha reação foi instantânea: me debrucei-me sobre o cocho com água e comecei a beber. Pude ouvir alguns murmurinhos sobre meus ombros, mas nem me importei, já tinha sentido dor de fome mais nunca de sede. Depois de algum tempo ele voltou com uma senhora mancando de uma perna, que me analisou e depois entregou um saquinho ao homem.
— Esta é a senhora Fadwa, de hoje em diante você será a *handmaid dela, compreende isso?
Balancei minha cabeça em confirmação mesmo não entendendo nada. Ele disse que eu seria empregada daquela mulher,mas na verdade, não sabia que não seria assim: eu tinha me tornado escrava e perdido minha liberdade.
Naquela noite comecei a descobrir os mistérios do deserto, que pode ser muito inóspito para quem tenta se arriscar em suas areias, mas ele também pode ser acolhedor, protegendo muitas pessoas da guerra. E com as areias batendo na testa fui mergulhando no sono profundo.
O deserto está sempre em transformação. Muitas vezes ninguém percebe, mas ele muda a cada movimento do vento, suas areias estão sempre se deslocando levando sua história e seu tempo. Eu também não poderia ficar presa a costume e hábitos do passado. Não era fácil viver no deserto, procurar por água, sempre se protegendo das tempestades de areia, sempre atenda para não se perder. Lembro-me das primeiras semanas com aquela senhora. Não entender sua língua, não compreender seus hábitos, tudo isso fazia-me tomar várias surras ao longo do dia. Apanhava por não cuidar das cabras, apanhava por não saber fazer um chá, apanhava por não rezar quando os sinos da Meca tocavam, ou simplesmente apanhava por que talvez ela estivesse apenas triste. Com o passar do tempo comecei a compreender aquela senhora que tinha ficado viúva: seus dois filhos estavam lutando na guerra. Guerra era algo que devastava cidades e ceifava vidas, mas não no deserto que com suas areias criava ilusão e protegia aquele povo que o desvendava a cada dia.
Durante a noite Fadwa pegava um velho livro que chamava de alcorão e ficava lendo para mim, fazendo-me repetir suas palavras e aos poucos eu ia compreendo aquela língua. A primeira vez que compreendi uma palavra eu estava no meio de uma surra. Fadwa segurava uma tira de couro enquanto gritava para mim, então compreendi o significado de *thralla. Em meio a lágrimas causadas pela dor eu sentia uma alegria de compreender, mesmo que o significado fosse algo que sempre temi aceitar, algo que me fazia lembrar que eu jamais seria livre novamente. A cada palavra aprendida eu gritava ao vento , senti que tinha ficado muda por muito tempo e à medida que meu vocabulário e minha compreensão das palavras aumentavam eu ganhava confiança de me arriscar no deserto.
O deserto me fez forte, gostava de me arriscar com o pequeno rebanho à procura de água. Claro que o fato de todos acharem que eu fosse um menino de olhos de cobra me trazia certa segurança. Fadwa nunca deixava meu cabelo crescer me fazia usar roupas de garotos, sabia que todo aquele selo era para me proteger, pois as mulheres naquele país eram tratadas com diferenças, tinham que sempre manter o olhar baixo e aceitar as ordens masculinas mesma que essas fossem ofensivas e até violentas.
Aquelas pessoas que viviam no deserto eram chamado *badawīe. Todos tinham orgulho disto. Sempre que me aproximava de alguma cidade aproveitava para fazer comércio de produtos, aprendi a barganhar com outros comerciantes os melhores preços para aquilo que vendia. A senhora Fadwa sempre pedia para algum homem da tribo vender os tapetes que fazia e alguma cabra e eu adorava poder andar pelos mercados das cidades vendo suas artes e produtos.
Com talvez onze anos eu cresci muito, era mais alta que muitos garotos que insistiam em me chatear toda vez que ia buscar água no poço. Certa vez vários garotos resolveram cobrar das meninas que estavam pegando água e aquilo me deixou com raiva. Lembro muito bem de um daqueles garotos, seu nome era Aaqil. Mesmo seu significado sendo inteligente e sábio aquele garoto de nariz torto não era nada disto, Quando resolvi ajudar uma menina a pegar a água e o impedi de cobrar da garota a confusão foi formada. Apesar de eu ser magra era ágil o suficiente para desviar do soco de Aaqil. Nós dois rolamos no chão. Desajeitada eu tentava bater no garoto, porém tudo o que consegui foi arranhar seu rosto e morder seus braços gordos.
Naquele momento selvagem eu sentia tanta adrenalina que nem me importei com o sangue saindo do meu nariz, eu sentia algo estranho dentro de mim, uma espécie de felicidade. Alguém me sacudia pele braço enquanto recitava frases do alcorão: mesmo com a boca e o nariz sangrando eu não deixei de apanhar. Por dias fiquei cultivando aquela sensação estranha dentro de mim, era algo que me preenchia por dentro, algo como se tivesse me despertado para o mundo. Claro, não era fácil brigar com garotos, na maioria das vezes eu sempre acabava apanhando e voltava com a boca ou o nariz sangrando. Fadwa enfurecia-se cada vez que me via voltar suja e machucada.
— Allāh ponha juízo nesta *thralla.
Mesmo com todas as suas broncas e surras eu não parava, a cada briga eu aprendia um jeito novo de me defender, decorava como o garoto me batia e nas próximas brigas eu usava meus conhecimentos. Certa vez um grupo de viajantes parou em nossa tribo. No meio das crianças tinha um menino magrelo que ficava perturbando as cabras. Isso me deixou brava e fui brigar com ele. Mesmo ele sendo mais alto eu consegui derrubá-lo na areia e pela primeira vez não foi meu nariz que sangrou. A sensação de vitória inundou cada molécula de meu corpo Kalil, como bom derrotado não contou a ninguém sobre a briga, ele disse que eu me movia como uma verdadeira naja.
Certas noites o ancião reunia as crianças em volta da fogueira para contar as lendas do deserto. Naquela noite ele escolheu falar da cobra de chifre que se camufla nas areias. Fadwa dizia que eu me parecia com essa cobra pela cor dos olhos e o modo como me camuflava no meio dos homens.
Apesar de tarde eu não tinha sono, em minha mente eu revivia a palavra do ancião sobre a jovem princesa que tentou mudar seu destino e foi condenada a se transformar em uma cobra. Eu sempre o escutava dizer Maktub:/ “já estava escrito”. Fiquei questionando sobre o que já tinha sido escrito para minha vida.
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