Maktub

6 Apenas aceite


Notas iniciais
A religião assemelha-se à chuva: quando cai em bom terreno, refresca as plantas e fá-las crescer. citação do alcorão. palavras árabes e seus significados *ḥarāam: significa pecado

As pequenas lutas se tornaram um passatempo, sempre tomando cuidado para o sacerdote da tribo não descobrir, afinal eu era uma menina, e nas leis dele a única coisa que eu poderia fazer eram: lavar, cozinhar, cuidar de casa aprender a dançar e ficar trancada na tenda à espera de um marido.

Aprendi cedo que aquele país super valorizava o sexo masculino, e que nascer mulher certamente gerava sofrimento, por causa da cultura machista. Presenciei muitos casamentos de meninas jovens, mais pareciam crianças enfeitadas. Mas nada marcou minha mente como ver, uma mulher ser apedrejada viva.

Parecia ser apenas um dia comum quando escutei os gritos, mães escondendo suas crianças, homens alvoroçados. Pus o jarro que carregava perto da tenda e segui os gritos, a jovem suplicava clemência ao sacerdote da tribo, mas ninguém a escutava, já tinha sido julgada e tinha chegado a hora de sua sentença. Seu marido foi o primeiro a jogar a pedra certeira em sua cabeça, era insuportável escutar seus gritos de dor e agonia à medida que as pedras arrancavam sangue, e seus gritos eram abafados pelo barulho das pedras batendo em seu corpo.

Quando todos começaram a se afastar, eu continuei congelada onde estava, assistindo à quela cena cruel, sem nada poder fazer. Caída no chão toda ensanguentada, apenas sua perna mostrava que ainda estava viva. E para acabar com sua agonia, vi aquele homens carregando uma enorme pedra e jogando sobre ela. Esmagando sua cabeça, como se aquilo fosse um ato de misericórdia. Nem percebi que meu corpo tremia ou que estava em prantos, a única coisa que sentia era minhas entranhas se revirando, não podia haver pecado tão grave para aquele tipo de morte.

No calor da tenda, eu ainda sentia frio, ouvia as conversas das pessoas sobre aquela mulher. Não haveria velório, iriam queimar o corpo.

—Fadwa, por que fizeram isso com ela?

Com as pontas dos dedos, ela enxugou minhas lágrimas e alisou meu rosto, pegou minha cabeça e repousou em seu colo.

— Criança, não chore! Aquilo não irá acontecer com você se seguir as leis do alcorão.

— Qual foi o ḥarām que ela cometeu?

—Ela não aceitou o destino dela, queria fugir do marido.

—Ele batia nela! Ela não o amava.

—Que é o amor, Naja? Um sentimento como qualquer outro.

Devagar levantou meu rosto, encarando-me com seus olhos sábios. Podia ver a marca do tempo em volta deles. Quantas cenas como aquela ela não tinha presenciado!

—O amor vem com a convivência, o único amor que nasce é o de uma mãe pelo filho.

Ela respirou fundo. Imaginei uma jovem moça de olhos castanhos e lábios finos se casando, com um homem que ela nunca viu, vivendo ao lado dele sem saber o que era amor, pelo simples fato de seguir uma tradição.

— Escute criança, essa mulher tentou mudar o destino dela, queria dobrá-lo à sua vontade, mas não é assim, a vida é Maktub. A vida é como um rio, cheio de correntezas seguindo o mesmo curso. Mas se você tenta nadar contra a correnteza, você acaba se cansando e se afogando.

Minha mente ficou confusa.Todos tinham que aceitar a infelicidade? Ser uma escrava era o meu destino? Tantas dúvidas em minha mente, mas a única certeza que eu tinha era que não teria o mesmo destino que aquela mulher.

O medo é o sentimento mais devastador que existe dentro de nossa mente, ele é capaz de anular qualquer sonho que temos. Em minha mente os gritos daquela mulher vinham me assombrar sempre.

Dentro de mim os sentimentos sempre se tornavam confusos. Apesar de parecer aceitar meu destino, eu sentia que precisava lutar por algo melhor para a minha vida. Mesmo aquela família não sendo tão ruim para mim, sabia que aquele não poderia ser meu destino.

Talvez eu pudesse tentar forjar meu destino à minha vontade. Ou continuar aceitando meu possível destino de escrava.