Maktub

7 Menina Mulher e sua tranformação


Notas iniciais
É preciso estar preparado para tumultuosas e intermináveis ondas de transformação. citação de Elizabeth Gilbert peço desculpa por ter demorado tanto para postar, mais graça a deus chegou os ultimo meses do ano e com isso terei mais tempo.. obrigado a todos que dedica um pouco de seu tempo para ler meu texto.....

Alguns dizem que os beduínos vivem parados no tempo, mas isso não é verdade, pois o tempo não pára, não importa quem você seja. Senti algo escorrer pela minha perna, talvez fosse uma gota de suor, levei a mão para secar. Olhei a cor vermelha nas pontas dos meus dedos, um temor tomou conta de mim, tinha chegado meu fim , eu estava morrendo.

Entrei na tenda, Fadwa não estava, tirei a saia para ver onde eu tinha me machucado, não havia corte nas minhas pernas, o sangue escorria de dentro de minha, pela minha...

Fadwa entrou na tenda e viu meu estado, nem consegui falar, apenas mostrei a roupa manchada. Fiquei meio chocada com seu olhar de alegria, ela tocou meu rosto e beijou minha testa, praticamente dançava à minha volta, chamava outras mulheres para a nossa tenda. Como elas poderiam estar festejando? Eu estava sangrando, Allāh estava me castigando e eu logo morreria. Vendo meu olhar assustado uma das mulheres puxou meu braço para que eu me sentasse ao seu lado.

—Naja, como Allāh é bondoso com você, não é uma árvore seca. – Naquela época eu fiquei assustada até compreender que não passava de minha primeira menstruação.

Fadwa não me deixou trabalhar naquele dia, fez um chá para aliviar o incômodo na minha barriga, mas o pior foi ver ela contando a Raafi. Ele ficou meio espantado, pois aquilo significava que ele teria que encontrar um marido para mim. Mesmo sendo uma escrava, Fadwa fazia questão de me casar com algum vendedor. Justo agora que Raafi tinha começado a me ensinar boxe...Não consegui esquecer seus ensinamentos.

—Põe esta perna para trás, essa para frente, agora dobre os cotovelos nesta altura, com a direita você protege o rosto e com a esquerda você bate. Agora repete tudo de novo.

Com o véu enrolado em minha mão, eu escutava os ensinamentos do alcorão, cada frase não fazia sentido algum para mim. Já fazia duas semanas desde que minha menstruação havia descido e por esse motivo, eu não podia ficar mais circulando sozinha pelo deserto.

Até em casamento Fadwa estava pensando para mim. Sei que meu corpo estava mudando, mas eu continuava querendo apenas uma coisa. Queria poder lutar com os garotos, sentir o gosto do sangue, ter a pequena sensação de ser dona do meu destino.

“Como tudo poderia mudar tão rápido?”, pensava. “Em um dia eu era apenas uma menina magrela, e hoje acordei mulher, já pronta para arranjar um marido e começar uma família.” Como se eu tivesse alguma escolha. Talvez não fosse tão ruim assim, poderia me casar com algum comerciante, uma mentira que eu tentava contar a mim mesma. Dentro de mim, algo lutava contra as correntes da obediência tentando se livrar para poder fugir, para poder lutar, ser livre.

Talvez muitos nunca terão o prazer de ver uma chuva de estrelas cadentes. O céu negro, as estrelas que mais pareciam diamantes, e de repente elas começam a se movimentar, todas voando para longe do manto negro, são minutos únicos. Os anciãos dizem que são anjos vindos para a Terra, limpar os pecados. Meu único pecado era não aceitar ser escrava. Acompanhei com os olhos a estrela descendo pelo céu, desejando que ela mudas-se minha vida, desejando algo melhor.

Naquela semana houve um casamento, a criança era bem mais nova do que eu, tinha olhos tão assustados, de certa forma me fez lembrar de mim mesma, quando aquele casal me levou da casa de minha mãe.

Observei suas mãos pequenas, cobertas com tatuagem de rena, seu rosto infantil. Sorrateira como uma serpente deslizei para longe daquela festa, e fui me refugiar no único lugar que me sentia segura e livre. Sob uma solitária palmeira eu me sentei. Tentei reviver lembranças infantis na minha memória, como o gosto do sorvete de morango! Quer saber, naquele momento eu não tinha nenhuma. Era como se meu corpo tivesse habitado duas pessoas diferentes, a primeira uma menina magrela assustada e agora uma garota que prefere a solidão do deserto, que nada a assusta a não ser seu destino de escrava.

Fechei meus olhos e adormeci sob o céu azul. Não houve sonho, acordei com algo deslizando sobre meu corpo. Já viu uma naja de frente, aqueles pequenos olhos, a beleza de suas escamas?Acreditem ou não, mas a centímetros de meus olhos eu encarei aquela serpente, admirando-me, se perdendo nos meus olhos amarelos. Sei que você deve estar se perguntando como eu ainda estou viva. Talvez tenha sido apenas um milagre, mas eu acredito que aquela serpente conseguiu ver dentro de minha alma, desvendou meus segredos, como ela eu só queria ser livre.

Notas finais
deixe usa opinião ela é importante para mim.. beijos