Make a Wish (Revisando)
5 Chapter - V The Wickery bridge
Este é apenas um jogo perverso. Será que vai lavar com a próxima chuva. Não pode desistir, eu não posso desistir. Eu estou tentando duramente, não é suficiente. Atiro-me ao desconhecido. Como uma pedra pulando. Um eco na água" Skipping Stones — Claire de Lune
CAROLINE
Na manhã seguinte, descobri que planejar uma pequena sabotagem era muito mais fácil quando você era uma vampira. Fiquei alguns minutos deitada, encarando o teto do quarto enquanto repassava as possibilidades que havia descartado na noite anterior. Minha versão vampira poderia chegar à ponte sem ser vista, mover alguma coisa pesada o bastante para bloquear a passagem e desaparecer antes que alguém percebesse. Minha versão humana tinha dezessete anos, força perfeitamente medíocre e uma mãe xerife que provavelmente reconheceria meu carro antes mesmo de sair da viatura. A ironia não melhorava quando lembrava que eu mesma tivera a ideia de usar alguma coisa relacionada à ponte para obrigar os Gilbert a seguir por outro caminho.
Rolei para o lado e alcancei o despertador antes que começasse a tocar novamente. O quarto já estava claro, e o calor do verão entrava pela janela apesar das cortinas. Durante aquela semana eu tinha começado a reconhecer pequenos hábitos daquela vida que haviam desaparecido da minha memória, como o barulho da minha mãe preparando café no andar de baixo quando estava em casa pela manhã ou a necessidade de ligar o computador e esperar pacientemente enquanto ele decidia se pretendia colaborar comigo naquele dia.
Tomei banho, prendi parte do cabelo para trás e desci ainda terminando de colocar um brinco. Encontrei minha mãe sentada à mesa da cozinha com uma caneca de café diante dela, o jornal aberto ao lado e uma pasta cheia de papéis que parecia ter trazido do trabalho. Perfeito.
“Bom dia”, falei enquanto abria a geladeira e procurava alguma coisa para comer.
Liz levantou os olhos por cima da caneca. “Você acordou antes do meio-dia.”
“Eu sempre acordo antes do meio-dia.”
“Nas férias?”
Fechei a geladeira com o suco na mão e estreitei os olhos para ela.
“Eu não gosto dessa campanha difamatória que você começou contra mim.”
Minha mãe sorriu e voltou aos papéis enquanto eu pegava um copo. Observei-a discretamente enquanto servia o suco, tentando descobrir uma maneira de perguntar o que faria a polícia interditar uma ponte sem soar como uma adolescente planejando interditar uma ponte. Não encontrei nenhuma.
Sentei-me diante dela mesmo assim.
“Posso te perguntar uma coisa?”
“Pode.” Liz virou uma página da pasta e continuou lendo. Apoiei o copo entre as mãos e fiquei alguns segundos organizando a pergunta.
“O que precisa acontecer para vocês fecharem uma estrada?”
Minha mãe parou de ler. Devagar. Levantei o copo e bebi um gole.
“Uma estrada?”, repetiu, baixando os papéis.
“É.”
“Por quê?”
“Curiosidade.” Liz me encarou. Eu sustentava interrogatórios muito melhor quando podia compelir o policial depois.
“Desde quando você tem curiosidade sobre os procedimentos de trânsito?”
“Desde agora.” Dei de ombros e alcancei uma torrada da cesta sobre a mesa, tentando parecer ocupada demais para estar escondendo alguma coisa. “Ontem passei pela Wickery Bridge e fiquei pensando como aquela coisa ainda está aberta.” A expressão dela mudou pouco, mas percebi que havia conseguido sua atenção.
“Tem algum problema na ponte?”
“Eu não sei. Você é a xerife.”
“E foi você quem trouxe o assunto.”
Mordi a torrada para ganhar tempo. “Ela é velha.”
“Metade de Mystic Falls é velha.”
“Isso explica muita coisa.” Liz segurou o sorriso antes de tomar outro gole de café.
“Uma estrada pode ser temporariamente fechada por acidente, árvore caída, problema estrutural, obra, inundação ou qualquer situação que represente risco para quem passa. Por quê?”
“Então se uma árvore cair, vocês fecham.”
“Se estiver bloqueando a passagem, obviamente.”
Olhei para minha torrada. Uma árvore. Não. Eu era humana. Não conseguiria derrubar uma árvore, e começar a aprender a operar uma motosserra na véspera do acidente provavelmente terminaria comigo no hospital antes que os Gilbert chegassem perto da ponte.
“E problema estrutural?”
Minha mãe estreitou os olhos. “Caroline.”
“Que foi?”
“Você pretende fazer alguma coisa com Wickery Bridge?”
Quase engasguei. “Meu Deus, mãe.” Coloquei a torrada no prato e ri, talvez um pouco mais alto do que deveria. “O que exatamente você acha que eu conseguiria fazer com uma ponte?”
Liz me analisou dos cabelos aos pés. “Esse é um argumento razoável.”
“Obrigada pela confiança nas minhas capacidades.”
“Disponha.”
Ela voltou aos documentos, aparentemente satisfeita, e eu aproveitei para terminar o café da manhã sem fazer outra pergunta suspeita. Já tinha conseguido informação suficiente para confirmar o óbvio: eu precisava criar um motivo que parecesse perigoso, não necessariamente um perigo verdadeiro. O problema continuava sendo como.
Depois que minha mãe saiu para trabalhar, subi novamente para o quarto e passei quase uma hora diante do computador. Pesquisei notícias antigas sobre interdições, obras e acidentes, abrindo páginas numa velocidade que me fez sentir saudade da internet do futuro. Quanto mais lia, mais percebia que quase todas as opções envolviam uma quantidade de equipamentos, conhecimento técnico ou irresponsabilidade que eu não possuía.
Poderia fazer uma denúncia falsa. Essa possibilidade era muito mais simples. Se ligasse dizendo que tinha visto alguma coisa errada na estrutura, talvez mandassem alguém verificar. Só que uma inspeção poderia durar poucos minutos e terminar justamente antes de Miranda e Grayson passarem. Eu precisava de algo que garantisse a interdição durante algumas horas. Afastei-me da escrivaninha e comecei a andar pelo quarto. Talvez estivesse pensando grande demais outra vez. Eu não precisava destruir nada. Precisava apenas fazer parecer que alguma coisa precisava ser examinada.
Minha atenção caiu sobre a bolsa deixada na cama, e uma lembrança surgiu de maneira tão banal que quase ri. Tinta. Durante trabalhos de manutenção, marcações apareciam em ruas, calçadas, árvores, postes. Eu não precisava convencer um engenheiro de que a ponte estava caindo. Precisava convencer uma pessoa comum de que alguém já havia identificado um problema e depois fazer uma denúncia suficientemente alarmada para que ninguém quisesse assumir a responsabilidade de ignorá-la. Era uma ideia péssima. Também era a primeira que não envolvia derrubar árvores ou provocar acidentes.
Peguei as chaves.
A loja de ferragens cheirava a madeira, tinta e alguma coisa química que eu provavelmente não deveria respirar por muito tempo. Passei vários minutos fingindo saber exatamente o que procurava enquanto analisava prateleiras cheias de produtos cujas diferenças eram incompreensíveis para mim. Um funcionário se aproximou.
“Precisa de ajuda?”
“Não.” Ele parou. Olhei para a quantidade de latas diante de mim. “Sim.” O homem sorriu discretamente.
“O que você está tentando fazer?” Essa era uma excelente pergunta.
“Um projeto.”
“Que tipo?”
“Escolar.” Era verão. Merda. “Para o próximo semestre”, acrescentei rapidamente, pegando uma lata qualquer para parecer comprometida com a mentira.
“Gosto de me preparar.” Ele olhou para a lata em minha mão.
“Isso é selante à madeira.” Coloquei de volta. “Então definitivamente não é esse.”
Quinze minutos depois, saí da loja com tinta spray própria para superfícies externas, fita de sinalização e a certeza de que aquele funcionário contaria sobre mim no jantar. Joguei a sacola no banco do passageiro e fiquei olhando para ela. Eu, Caroline Forbes, estava prestes a vandalizar uma ponte histórica para impedir um acidente que ainda não tinha acontecido. Se minha mãe descobrisse, eu morreria uma segunda vez. Dessa vez pelas mãos dela.
Esperei até o fim da tarde. Não queria aparecer em Wickery Bridge no horário em que qualquer policial pudesse reconhecer meu carro facilmente, mas também não podia ir tarde demais e começar a vagar sozinha pela floresta no escuro. Estacionei mais distante do que no dia anterior e caminhei pela lateral da estrada com a sacola escondida junto ao corpo sempre que algum veículo se aproximava. Meu coração batia depressa. Era ridículo. Eu tinha enfrentado Klaus Mikaelson. Mesmo assim, bastou ouvir um carro diminuindo a velocidade para eu quase jogar a tinta no mato e fingir que estava fazendo uma caminhada recreativa. O veículo passou. “Patética”, murmurei enquanto retomava o caminho.
Quando cheguei à ponte, esperei até a estrada ficar vazia e me aproximei da estrutura lateral. Não pretendia danificá-la. Essa parte era importante, principalmente porque qualquer estrago verdadeiro poderia acabar provocando exatamente a tragédia que eu tentava impedir. Precisava apenas de algo convincente à distância.
Agachei-me junto a uma área de metal já envelhecida e observei as junções. Eu não fazia ideia do que um engenheiro procuraria ali, então resisti à tentação de inventar rachaduras cinematográficas. Em vez disso, marquei alguns pontos discretos com a tinta e prendi um pequeno trecho da fita próximo à lateral, como se alguém tivesse começado uma inspeção e abandonado o trabalho. Afastei-me. Parecia suspeito. Não necessariamente oficial. Mas o suspeito era suficiente. Talvez.
Meu celular estava na mão quando ouvi um carro se aproximando. Recolhi a sacola e me afastei depressa, caminhando para a vegetação até o veículo atravessar sem reduzir. Soltei o ar. Ainda precisava fazer a parte realmente importante. A denúncia. Voltei para o carro, dirigi alguns quilômetros e parei diante de um telefone público. Fiquei olhando para ele. Claro. Meu plano envolvia um telefone público. Quase senti saudade de ser morta.
Desci do carro, peguei algumas moedas e caminhei até o aparelho. Quando coloquei o telefone junto ao ouvido, meu coração começou a bater tão forte que precisei respirar fundo antes de discar. Eu não precisava inventar um colapso. Bastava ser uma motorista assustada. Quando alguém atendeu, deixei minha voz subir um pouco, aproximando-a da Caroline adolescente que sabia muito bem como parecer alarmada quando queria atenção.
“Oi, eu não sei se estou ligando para o lugar certo, mas acabei de passar pela Wickery Bridge e tem alguma coisa estranha na estrutura.” A mulher do outro lado fez algumas perguntas, e respondi apenas o suficiente. Disse que tinha visto marcações, uma parte que parecia danificada e alguma coisa pendurada na lateral. Não afirmei ter visto uma rachadura enorme nem inventei que a ponte estava desmoronando. Só plantei dúvida.
Quando desliguei, minhas mãos estavam suadas. Voltei para o carro e permaneci alguns segundos olhando para o telefone público pelo para-brisa. Era isso. Eu tinha feito. Agora alguém verificaria. Se desse certo, no sábado a ponte estaria interditada ou, no mínimo, sob inspeção suficiente para obrigar os Gilbert a usar outra rota. Se não desse... Não. Eu ainda tinha tempo para outro plano. Liguei o motor e comecei a voltar para casa.
Pela primeira vez desde que acordara em 2009, eu tinha feito mais do que simplesmente reagir ao passado. Eu tinha tocado nele. E agora precisava esperar para descobrir o que aconteceria quando o passado respondesse.
…
No sábado, descobri que existiam poucas maneiras dignas de passar uma tarde escondida dentro de um carro com binóculos no colo, e eu certamente não tinha encontrado nenhuma delas. O calor acumulado no interior do veículo já começava a me irritar, mesmo com uma das janelas parcialmente abertas, e a posição que parece perfeitamente aceitável vinte minutos antes agora fazia minhas costas doerem. Eu tinha estacionado longe o bastante da casa dos Gilbert para não chamar atenção, mas perto o suficiente para enxergar a entrada com clareza, embora começasse a desconfiar de que qualquer pessoa que passasse por ali e olhasse para mim por mais de cinco segundos chegaria à conclusão óbvia de que eu estava espionando uma família suburbana.
Baixei os binóculos para conferir o relógio e senti a impaciência crescer ao perceber quanto tempo ainda faltava. Esperar era a parte que eu menos suportava, principalmente quando sabia o que vinha depois. Cada minuto parecia avançar devagar de propósito enquanto eu repassava todas as possibilidades que havia considerado nos últimos dois dias e descartado por serem perigosas, absurdas ou simplesmente impossíveis de executar sem poderes vampíricos. No fim, eu chegara à conclusão pouco brilhante de que precisava estar ali e, se Miranda e Grayson tentassem sair, encontraria alguma maneira de impedi-los. Não era exatamente um plano digno de Batman, mas também nunca tinha alegado ser Batman.
Um carro entrou na rua algum tempo depois, e erguiu imediatamente os binóculos, reconhecendo Miranda antes mesmo que o veículo terminasse de estacionar diante da casa. Grayson saiu pelo lado do motorista enquanto ela abria o porta-malas, e observa os dois começarem a retirar as compras. Ele chegou a se distrair conversando com um vizinho, mas bastou Miranda tentar equilibrar sacolas demais nos braços para que interrompesse a conversa e fosse ajudá-la. Ela disse alguma coisa que eu não consegui ouvir, ele respondeu enquanto tirava duas sacolas de suas mãos e Miranda sorriu antes de fechar o porta-malas. Depois caminharam juntos em direção à casa, tão confortáveis na companhia um do outro que aquela pequena interação provavelmente nem seria lembrada por nenhum dos dois no fim do dia.
Fiquei observando por mais alguns segundos antes de baixar lentamente os binóculos. Eles eram bonitos juntos, pareciam felizes e, depois de tantos anos de casamento, ainda havia uma intimidade fácil entre os dois que tornava doloroso pensar no que aconteceria naquela noite. Durante muito tempo eu tinha invejado Elena por aquilo, não apenas porque Miranda e Grayson formavam o tipo de casal que meus pais nunca tinham conseguido ser, mas porque haviam escolhido Elena. Eles descobriram que não podiam ter filhos, receberam aquela menina e fizeram dela sua filha sem que o sangue fosse necessário para transformar aquilo em família.
Uma parte mais jovem e muito menos generosa de mim tinha conseguido sentir inveja até disso. Às vezes parecia que Elena era escolhida por todo mundo, enquanto eu passava a vida inteira me esforçando para convencer as pessoas de que também valia a pena escolher. Agora eu conseguia reconhecer o quanto aquele ressentimento tinha sido injusto, especialmente depois de aprender que uma família podia surgir de maneiras que jamais imaginaríamos. Lizzie e Josie não tinham chegado à minha vida da forma que um dia pensei que meus filhos chegariam, mas isso nunca as torna menos minhas. O amor simplesmente acontece, sem pedir minha opinião sobre biologia primeiro, e pensar nelas fez uma saudade tão violenta apertar meu peito que precisei desviar os olhos da casa dos Gilbert por alguns instantes.
Essa era outra consequência que eu evitava examinar por tempo demais. Eu estava tentando mudar um futuro no qual minhas filhas existiam e não fazia ideia de quantas alterações seriam necessárias antes que aquele futuro deixasse de existir completamente. O pensamento era assustador demais para ser resolvido dentro de um carro estacionado numa tarde de verão, então respirei fundo e voltei minha atenção para a casa. Não podia permitir que o medo do que talvez mudasse servisse como justificativa para assistir Miranda e Grayson morrerem quando sabia que aquilo aconteceria.
Eu já tinha considerado maneiras demais de impedir que saíssem e nenhuma parecia particularmente inteligente. Poderia tocar a campainha e inventar alguma emergência, fingir que minha mãe precisava falar com Grayson ou criar algum problema que os obrigasse a permanecer em casa, mas todas essas alternativas dependiam de mentiras que provavelmente desmoronaram depois de duas perguntas. Ainda assim, alguma coisa teria de funcionar. Eu sabia o que aconteceria naquela noite e estava ali justamente porque me recusava a ficar esperando que a história se repetisse sem tentar interferir.
Estava tão concentrada na casa que não percebi alguém se aproximando do carro até três batidas secas contra o vidro me fazerem dar um pulo. Os binóculos escaparam das minhas mãos e caíram no colo enquanto eu me virava depressa, sentindo o cinto travar contra meu peito.
Tyler Lockwood estava do outro lado da janela.
Por alguns segundos, simplesmente o encarei.
Era Tyler, só que mais jovem do que a versão que minhas lembranças insistiam em procurar. Não havia ainda o peso das transformações, dos híbridos, de Klaus ou de tudo que viria depois. Diante de mim estava apenas o garoto arrogante que eu conhecia muito antes de descobrir quantas coisas podem quebrá-lo, olhando para mim através do vidro com uma mistura de curiosidade e desconfiança.
Naturalmente, ele conseguiu estragar o momento assim que abriu a boca.
“Forbes, por que você está vigiando os Gil...”
Abri a porta tão depressa que Tyler precisou recuar para não ser atingido e saí do carro já levando a mão à boca dele. “Fala baixo”, sussurrei, olhando por cima do ombro para verificar se alguém na casa tinha percebido alguma coisa antes de voltar a encará-lo.
Tyler afastou minha mão e apontou para dentro do carro, onde os binóculos permaneciam no meu banco como uma prova particularmente humilhante. “Você está escondida num carro com binóculos e eu é que tenho que falar baixo?”
“Eu não estou escondida.” Endireitei a blusa e tentei recuperar alguma dignidade enquanto ele me encarava. “Estou observando pássaros.”
Tyler olhou para mim, depois para os binóculos e finalmente para as árvores ao redor da casa. O canto de sua boca começou a subir.
“Nem pense nisso.”
Ele começou a rir.
“Tyler!”
“Pássaros, Forbes?” perguntou entre risadas, recuando quando tentei acertar seu braço. “Você não consegue ficar dez minutos do lado de fora sem reclamar de mosquito.”
O pior era que ele tinha razão, e minha falta de resposta pareceu diverti-lo ainda mais. Cruzei os braços e esperei que terminasse, mas acabei observando-o por tempo demais. Eu tinha esquecido como Tyler podia ser antes de toda aquela raiva ganhar uma explicação, antes que cada lua cheia se transformasse em tortura e muito antes de Klaus decidir que a vida dele lhe pertencia.
Tyler percebeu meu olhar e seu sorriso diminuiu. “Que foi?”, perguntou, passando a mão pela nuca enquanto me examinava de volta.
“Nada.” Desviei os olhos para a casa dos Gilbert e apoiei o quadril contra o carro. “Só estava pensando que você continua irritante.”
“Continuo?”
Merda.
“É uma característica muito consistente.” Fiz um gesto impaciente com a mão antes que ele pudesse se prender à palavra. “Agora, se você terminou de atrapalhar minha observação perfeitamente inocente de pássaros, pode ir embora.”
. “Está bem.” Soltei um suspiro e descruzei os meus braços, percebendo que Tyler não iria embora enquanto acreditasse que havia alguma coisa interessante acontecendo. “Quer saber o que estou fazendo aqui?”
“Foi exatamente o que eu perguntei.” Ele se encostou na lateral do carro, cruzando os braços com uma expressão satisfeita por finalmente ter vencido aquela discussão.
“Eu vim do futuro.” Mantive o rosto sério enquanto Tyler arqueava uma sobrancelha. “Morri anos depois, acordei de volta em 2009 e agora estou tentando impedir uma série de tragédias que vai transformar Mystic Falls num inferno. Miranda e Grayson Gilbert vão morrer esta noite, então estou aqui para impedir que isso aconteça. E, já que estamos compartilhando segredos, você também vai passar por coisas terríveis, mas estou considerando salvar você porque, apesar da sua personalidade, acabei desenvolvendo certo carinho.”
Tyler ficou me encarando por alguns segundos, provavelmente esperando que eu sorrisse ou admitisse a piada. Quando percebeu que eu não faria nenhuma das duas coisas, passou a língua pelo interior da bochecha e assentiu lentamente.
“Certo.”
“Certo?”
“Certo.” Ele se afastou do carro e começou a andar. “Boa sorte com isso.”
Observei-o dar três passos antes de perceber que aquela era toda a reação que receberia. “Ei!” Alcancei-o e segurei seu braço, precisando me lembrar de que não possuía mais velocidade sobrenatural quando meu pé quase se enrolou no outro. Tyler olhou primeiro para minha mão e depois para mim. “Eu acabei de dizer que vim do futuro.”
“E eu estou tentando respeitar sua privacidade durante esse momento difícil.”
Apesar de tudo, uma risada escapou. “Idiota.”
“Você que está escondida num carro espionando uma família e falando sobre viagem no tempo.” Tyler soltou o braço, mas não voltou a andar. “Se não queria me contar, era só dizer.”
A vontade de rir desapareceu aos poucos enquanto eu o observava. A verdade estava ali, inteira, e ele não conseguia reconhecê-la porque não havia nenhuma razão para conseguir. Uma semana antes eu também teria chamado alguém de louco se aparecesse dizendo que tinha morrido no futuro e acordado no próprio corpo adolescente. A diferença era que eu já conhecia um mundo no qual mortos voltavam, vampiros existiam e magia podia fazer coisas muito mais absurdas do que enviar alguém alguns anos para trás.
Tyler ainda não conhecia nada disso.
E uma parte de mim queria desesperadamente que continuasse assim.
“Foi uma aposta”, falei por fim, voltando a me apoiar no carro enquanto ele esperava. “Bonnie, Elena e eu fizemos uma aposta e eu preciso impedir os pais dela de saírem por algumas horas.”
“Que aposta?”
“Uma na qual eu perco se você continuar fazendo perguntas.”
“Então não existe aposta.”
“Existe, sim.” Revirei os olhos e peguei os binóculos do banco, guardando na bolsa antes que ele pudesse voltar a usá-los contra mim. “Eu disse que conseguia atrasá-los sem que percebessem que estava fazendo isso. Elena acha que não.”
Tyler olhou para a casa dos Gilbert e depois para mim. “E seu plano era ficar sentada aqui até alguma ideia aparecer?”
“Eu estava analisando a situação.”
“Com binóculos.”
“Você está muito obcecado pelos binóculos.”
“Porque é estranho.”
“Você me seguiu até aqui.”
“Eu não segui você.” Tyler apontou vagamente para a rua atrás de nós e se afastou da porta quando a fechei. “Eu vi seu carro parado e reconheci. A diferença é que eu tenho uma explicação que não envolve observação de pássaros.”
Passei a alça da bolsa pelo ombro e olhei novamente para a casa. As cortinas de uma das janelas tinham se mexido, embora eu não soubesse se alguém havia passado por ali ou se era apenas o vento. Permanecer discutindo com Tyler na rua certamente não ajudaria.
“Então vá embora e esqueça que me viu.”
“Ou eu posso ajudar.”
Virei-me para ele. “Você?”
“Não precisa parecer tão ofendida.”
“Não estou ofendida. Estou avaliando os riscos.”
“De quê?”
“De deixar Tyler Lockwood participar de um plano que exige discrição.”
Ele soltou uma risada curta e passou por mim, apoiando as mãos no teto do carro enquanto observava a casa. “Você nem tem um plano.”
“Tenho um objetivo.”
“Isso é uma maneira bonita de dizer que não tem plano.”
Infelizmente, outra vez, ele tinha razão. Apoiei-me ao lado dele e acompanhei seu olhar até a casa dos Gilbert. “Eu preciso que eles fiquem em casa. Só isso.”
“Por quanto tempo?”
“Até hoje à noite.”
Tyler virou o rosto para mim. “Isso é bem mais que algumas horas.”
“Você quer ajudar ou fazer auditoria?”
“Quero saber no que estou me metendo.”
A resposta me fez olhar para ele por um instante. Aquele era um traço que eu reconhecia melhor na versão mais velha de Tyler, quando impulsividade e raiva já tinham lhe custado caro o bastante para ensiná-lo a desconfiar de qualquer acordo feito sem conhecer as condições. Ou talvez sempre tivesse existido e eu simplesmente não prestara atenção quando éramos adolescentes.
“Eles não podem sair hoje”, repetia, escolhendo as palavras com cuidado. “Não quero machucar ninguém, não quero estragar o carro deles e não quero fazer nenhuma idiotice que coloque outras pessoas em perigo. Só preciso encontrar uma razão suficientemente boa para que fiquem em casa.”
Tyler me estudou por tempo demais. “Isso é muito esforço por uma aposta.”
Droga.
“Eu sou competitiva.”
“Isso eu acredito.”
“Obrigada.”
“Não foi elogio.”
“Eu aceitei como um.”
Um sorriso apareceu no rosto dele antes que voltasse a olhar para a casa. Ficou alguns segundos em silêncio, esfregando o polegar contra o queixo enquanto pensava, e aquela concentração me deixou mais nervosa do que suas provocações. Eu conhecia Tyler o suficiente para saber que uma ideia dele podia variar entre surpreendentemente eficiente e motivo para uma futura audiência judicial.
“Eu consigo fazer”, disse finalmente.
“Fazer o quê?”
“Impedir que saiam.”
Endireitei-me. “Como?”
“Você distrai eles.”
“Tyler.”
“Caroline.”
“Não vou concordar com um plano sem saber qual é o plano.” Segurei seu braço quando ele começou a se afastar e o obriguei a me encarar. “Especialmente um plano seu.”
“Então acho que você não precisa da minha ajuda.”
Ele tornou a andar, e permaneci onde estava durante alguns segundos, olhando alternadamente para suas costas e para a casa dos Gilbert. Eu tinha poucas horas, nenhuma ideia realmente utilizável e um adolescente com histórico impressionante de decisões ruins acabara de me oferecer exatamente aquilo de que precisava.
Minha vida continuava tendo um senso de humor péssimo.
“Espera.”
Tyler parou e olhou por cima do ombro.
“Se eu deixar você ajudar, ninguém se machuca.” Caminhei até ele e ergui um dedo antes que respondesse. “Você não mexe nos freios, não faz nada que possa causar um acidente e não envolve fogo.”
A testa dele se franziu. “Eu nem falei em fogo.”
“Estou estabelecendo limites.”
“Você é muito estranha.”
“E você ainda está aqui.”
Tyler abriu um sorriso. “Vai me dever um favor.”
“Não.”
“Então boa sorte.”
Ele deu outro passo.
“Está bem.” Agarrei a parte de trás de sua camiseta e o puxei de volta, arrancando uma risada dele. “Um favor.”
“Qualquer favor?”
“Definitivamente não. Nada ilegal, humilhante, sexual, perigoso ou que envolva eu mentir para minha mãe.”
Tyler ficou me encarando. “Sobrou alguma coisa?”
“Seja criativo.”
“Você acabou de proibir praticamente toda a diversão.”
“Tyler.”
“Tudo bem.” Ele ergueu as mãos em rendição, embora o sorriso deixasse claro que não estava levando minhas regras tão a sério quanto deveria. “Um favor razoável.”
“Eu decido o que é razoável.”
“Isso não funciona assim.”
“Agora funciona.”
Ele balançou a cabeça e começou a caminhar em direção à casa, mas segurei seu braço mais uma vez. “Você ainda não me disse o que vai fazer.”
“Porque você vai tentar impedir.”
“Isso não me tranquiliza.”
“Não precisa.” Tyler se soltou gentilmente e indicou a casa com o queixo. “Vai lá e mantém os Gilbert ocupados. Eu cuido do resto.”
Fiquei olhando para ele, dividida entre exigir uma explicação e reconhecer que cada minuto gasto discutindo era um minuto a menos para impedir o acidente. No fim, a urgência venceu.
“Se alguém for preso, eu vou dizer que a ideia foi sua.”
“Se alguém for preso, provavelmente vai ser eu.”
“Que bom que estamos de acordo.”
Tyler riu e começou a se afastar pela lateral da rua. Dei dois passos na direção oposta antes de parar e olhar para trás. Ele ainda estava ali, vivo, irritado e completamente alheio ao futuro que eu conhecia. Não sabia o que existia dentro dele, não sabia o que uma lua cheia significaria um dia e certamente não fazia ideia do quanto nós dois acabaríamos mudando.
Por um instante, tive vontade de chamá-lo de volta e dizer para esquecer tudo.
Não porque eu não precisasse da ajuda dele, mas porque envolvê-lo parecia a primeira peça de um futuro que eu começava a mover com as próprias mãos.
Então olhei para a casa dos Gilbert.
Miranda e Grayson morreriam naquela noite se eu não fizesse nada.
Não podia salvar pessoas sem tocar na vida delas.
Respirei fundo, ajeitei a bolsa no ombro e atravessei a rua em direção à casa, enquanto Tyler desaparecia de vista para fazer alguma coisa que, considerando quem ele era, eu provavelmente me arrependeria de não ter perguntado pela décima vez.
Quando cheguei à varanda, minha mão pairou por um segundo diante da campainha.
Depois apertei o botão.
***
Miranda Gilbert abriu a porta poucos segundos depois de eu tocar a campainha, ainda segurando um pano de prato em uma das mãos. O cheiro de alguma coisa assando escapou da casa junto com o ar fresco do interior, e por um instante fiquei parada na varanda tentando conciliar aquela mulher saudável diante de mim com as lembranças que carregava havia tantos anos.
"Caroline?" Ela pareceu surpresa, mas abriu imediatamente um sorriso. "Está tudo bem?"
"Claro." Sorri de volta e precisei me controlar para não olhar na direção em que Tyler havia desaparecido. "Eu estava passando por aqui e pensei em falar com Elena."
A expressão de Miranda mudou ligeiramente. "Ela saiu."
"Ah." Fiz uma careta como se aquela informação fosse uma surpresa. "Com Bonnie?"
"Não sei se Bonnie estava com eles. Acho que foi encontrar Matt e alguns amigos." Miranda abriu um pouco mais a porta e apoiou a mão na madeira. "Quer deixar algum recado?"
Eu deveria ter previsto aquela pergunta. "Na verdade..." Olhei para dentro da casa enquanto procurava desesperadamente alguma coisa capaz de justificar minha presença por mais de trinta segundos. "É sobre a festa."
Miranda sorriu de um jeito que imediatamente me fez suspeitar que Elena já reclamara comigo para a mãe. "Que festa?"
Ótimo. "A que ainda estamos decidindo se vai existir." Dei uma risada curta e mexi na alça da bolsa enquanto improvisava. "Elena ficou responsável por uma parte das coisas e eu precisava confirmar com ela antes de comprar tudo. Eu mandei mensagem, mas ela não respondeu."
Aquilo, pelo menos, era perfeitamente plausível em 2009. Ninguém carregava o celular na mão vinte e quatro horas por dia esperando uma resposta instantânea, e Elena tinha o hábito irritante de abandonar o aparelho dentro da bolsa.
"Você pode ligar para ela daqui, se quiser." Miranda se afastou para me dar passagem. "Entre."
Não esperava que fosse tão fácil. "Obrigada."
Passei pela porta e imediatamente senti meu estômago apertar. A casa estava viva de uma maneira que minhas lembranças não conseguiam reproduzir. Havia correspondência sobre um móvel próximo à entrada, uma bolsa feminina largada numa cadeira, porta-retratos espalhados pelas paredes e um par de sapatos que alguém deixara perto da escada. Da cozinha vinha o som de armários sendo abertos e fechados, acompanhado pelo rádio tocando baixo em algum lugar. Era uma casa comum. Eu quase tinha esquecido como aquilo podia ser doloroso.
"Ela deve estar com o celular", Miranda comentou enquanto voltava em direção à cozinha. "Mas, conhecendo minha filha, provavelmente está enterrado no fundo da bolsa."
"Provavelmente."
Segui-a e encontrei Grayson diante da bancada, cortando alguma coisa enquanto conversava com alguém pelo telefone. Ele levantou os olhos quando entrei e me cumprimentou com um sorriso, cobrindo o aparelho com a mão.
"Caroline. Como vai sua mãe?"
"Bem." Apoiei a bolsa no encosto de uma cadeira e tentei parecer perfeitamente confortável enquanto meus olhos percorriam discretamente o ambiente. "Trabalhando demais, como sempre."
"Diga a ela que ainda estou esperando aquela revanche."
"Pode deixar."
Eu não fazia ideia de que revanche ele estava falando.
Miranda abriu a geladeira e começou a procurar alguma coisa, enquanto aproveitei para observar a bancada próxima à porta. Nada de chaves. Meu coração acelerou. Onde diabos Tyler estava?
"Quer alguma coisa para beber?", Miranda perguntou, virando-se para mim.
"Água está ótimo."
Ela pegou um copo no armário, e ouvi um ruído vindo de algum lugar próximo à entrada. Meu corpo inteiro ficou rígido. Miranda não pareceu perceber. Grayson continuava ao telefone.
Recebi o copo e bebi imediatamente, mais para ter alguma coisa para fazer com as mãos do que por sede. Se Tyler fosse pego dentro da casa dos Gilbert, eu teria de explicar por que um garoto estava invadindo a residência enquanto eu distraía os proprietários na cozinha. Definitivamente não havia aposta capaz de explicar aquilo.
"Então", Miranda começou, apoiando-se na bancada, "o que está acontecendo com você e Elena?"
Quase engasguei com a água. "Comigo e Elena?"
"Ela comentou que você anda diferente."
Claro que comentou.
Antes que eu pudesse responder, outro pequeno ruído veio da sala. Dessa vez, Miranda virou o rosto. Prendi a respiração.
"Jeremy?", chamou.
Silêncio.
Miranda esperou por alguns segundos e balançou a cabeça, provavelmente atribuindo o barulho à casa. Quando voltou a atenção para mim, precisei impedir minhas pernas de correr até a sala e assassinar Tyler Lockwood antes que ele tivesse a oportunidade de ser morto por qualquer criatura sobrenatural.
"Desculpa", falei, colocando o copo sobre a bancada. "O que você perguntou?"
"Se está tudo bem entre vocês."
"Está." Forcei um sorriso e comecei a procurar alguma resposta que não abrisse outra conversa enorme. "Eu só estou passando por uma fase estranha."
Miranda me observou com uma atenção maternal que me deixou desconfortável por razões completamente diferentes. "Sua mãe comentou alguma coisa sobre seu pai?"
Aquilo me atingiu melhor do que qualquer pergunta sobre Elena. Baixei os olhos para o copo e passei o polegar pela condensação no vidro. Até naquela vida, aparentemente, meus problemas continuavam previsíveis.
"Não é por causa dele." Fiz uma pequena pausa antes de acrescentar: "Quer dizer, não só."
Miranda assentiu sem insistir, e fui inesperadamente grata por isso.
Um movimento apareceu no corredor atrás dela. Tyler. Ele surgiu por menos de um segundo, levantou uma chave entre dois dedos e abriu aquele sorriso convencido. Meus olhos se arregalaram. Seu idiota. Tyler desapareceu novamente.
"Caroline?"
Voltei imediatamente para Miranda. "Desculpa."
Ela seguiu meu olhar, mas o corredor já estava vazio. "Tem certeza de que está bem?"
"Tenho." Peguei minha bolsa tão depressa que precisei diminuir o movimento para não parecer que estava fugindo de uma cena de crime. "Na verdade, acabei de lembrar que prometi encontrar Bonnie."
"Mas você não queria ligar para Elena?"
Merda. "Posso ligar de casa." Sorri enquanto recuava em direção à porta. "Eu só queria saber se ela estava aqui mesmo."
Grayson terminou a ligação e olhou para mim com uma expressão divertida. "Você veio até aqui para descobrir algo que podia perguntar pelo telefone?"
"É uma história muito longa."
Ele riu.
"Adolescente", Miranda explicou ao marido, como se aquilo resolvesse tudo.
"Ei."
Os dois sorriram, e alguma coisa dentro de mim doeu outra vez. Por algumas horas, eles ainda eram apenas pais implicando com uma amiga da filha. Eu faria tudo que pudesse para que continuassem sendo.
Despedi-me rapidamente e saí, mantendo o passo controlado até chegar à calçada. Só quando dobrei a esquina encontrei Tyler encostado no meu carro, girando o chaveiro dos Gilbert no dedo indicador com uma satisfação absolutamente insuportável.
Atravessei a distância entre nós e arranquei as chaves de sua mão. "Você entrou na casa!"
"Funcionou."
"Você disse que cuidaria do resto. Eu achei que faria alguma coisa do lado de fora."
"Tipo o quê?"
"Não sei! Esvaziar um pneu."
Tyler me encarou. "Você disse para eu não mexer no carro."
Abri a boca e fechei novamente. "Eu odeio quando você usa minhas próprias regras contra mim."
"E eu nem precisei quebrar nenhuma."
Levantei as chaves entre nós. "Você acabou de furtar os Gilbert."
"Tecnicamente, você está segurando o objeto roubado."
Empurrei as chaves contra o peito dele. "Fica com isso."
Tyler riu enquanto as guardava no bolso. "Relaxa. Amanhã eu devolvo."
"Amanhã?"
"Você disse que eles não podiam sair hoje."
Olhei para ele. Depois para o bolso. Depois novamente para Tyler. Era tão absurdamente simples que comecei a sorrir.
"Funcionou", murmurei.
"É claro que funcionou." Ele abriu a porta do próprio carro e olhou para mim por cima dela. "Você me deve um favor, Forbes."
Meu sorriso desapareceu. "Eu já estou arrependida."
"Deveria."
Tyler entrou no carro ainda rindo, e fiquei observando-o partir antes de voltar os olhos para a casa dos Gilbert. A sensação de que alguma coisa enorme havia acabado de mudar começou a se instalar no meu peito, mas ainda não tinha forma. Era apenas um peso quente e confuso que parecia crescer a cada respiração.
Voltei para casa dirigindo devagar demais, como se pudesse prolongar o momento antes de descobrir se aquilo realmente tinha funcionado. Passei o resto da tarde no quarto, rolando na cama, olhando para o teto, pegando o celular e largando de volta. Nenhuma ligação misteriosa. Nenhum corvo apareceu na janela. Stefan não surgiu do nada para me encarar com aquela expressão de quem sabia exatamente o que eu tinha feito.
Apenas silêncio.
E, de alguma forma, aquilo era pior.
Quando minha mãe chegou do trabalho, desci para jantar e consegui manter uma conversa normal sobre o dia dela sem deixar escapar nada. Liz reclamou de uma reunião interminável, mencionou que o xerife adjunto tinha esquecido de preencher uns formulários e perguntou se eu queria ir ao cinema no fim de semana.
Eu disse que sim. Não me lembrava depois do que.
Minha cabeça estava em outro lugar.
O telefone tocou durante o jantar. Meu coração disparou. Liz atendeu, conversou por alguns minutos sobre algo relacionado ao trabalho e desligou sem mencionar nenhuma ponte. Eu respirei fundo e continuei comendo.
Quando o telefone tocou de novo, quase uma hora depois, minha mãe já tinha subido para o quarto. Atendi antes do segundo toque.
"Alô?"
"Caroline?" A voz de Elena saiu do outro lado, abafada e um pouco distante, como se estivesse num lugar com muito eco. "Você pode me buscar?"
Prendi a respiração. "O quê?"
"Eu na casa da Tina, mas perdi a hora e meus pais não estão me atendendo." Ela fez uma pausa, e ouvi risadas ao fundo. "Eu ia pedir para o Matt me levar, mas ele bebeu um pouco e não quero que ele dirija. Você pode vir?"
Olhei para a escada. Para a porta. Para o telefone. Eles não estavam atendendo. Porque não conseguiam encontrar as chaves.
"Saiu agora", falei, e minha voz saiu mais firme do que eu esperava. "Vinte minutos."
"Você é a melhor." Elena desligou antes que eu pudesse responder.
Fiquei segurando o telefone por um longo tempo, escutando o sinal intermitente.
O riso veio primeiro — um som alto e bobo que escapou antes que eu pudesse controlar. Coloquei a mão sobre a boca, mas já era tarde. A euforia subiu pelo meu peito, quente e elétrica, e por um instante inteiro eu fui apenas uma garota de dezessete anos que tinha conseguido algo impossível.
***
Encontrei Elena esperando por mim perto da entrada, afastada o suficiente da casa para que a música que escapava pelas portas abertas já não fosse ensurdecedora. Algumas pessoas ainda permaneciam espalhadas pelo gramado, conversando em pequenos grupos, e reconheciam rostos que não via havia anos, embora nenhum deles parecesse prestar muita atenção quando meu carro parou junto ao meio-fio. Elena se despediu de alguém antes de atravessar o jardim e entrar no banco do passageiro, trazendo consigo o cheiro de bebida, perfume e fumaça que parecia acompanhar qualquer festa daquela época.
“Você demorou”, reclamou enquanto puxava o cinto e procurava o encaixe ao lado do banco.
“Você me ligou há vinte minutos.”
“Exatamente. São pelo menos cinco minutos além do tempo socialmente aceitável para uma melhor amiga.”
“Da próxima vez eu mando um táxi.” Esperei que ela prendesse o cinto antes de voltar para a rua, mas não consegui impedir o sorriso que já carregava desde que saíra da casa dos Gilbert.
Miranda e Grayson estavam em casa.
As chaves estavam com Tyler.
Elena estava dentro do meu carro.
Era difícil não sentir uma euforia quase infantil ao perceber que todas as peças que deveriam levar ao acidente tinham sido desmontadas por uma sequência tão ridiculamente simples de acontecimentos. Durante dias eu havia tratado aquela noite como se estivesse tentando enfrentar alguma força inevitável, quando aparentemente tudo que era necessário era interferir no momento certo.
Elena percebeu meu sorriso e virou o rosto para mim.
“Você está de bom humor.”
“Não posso estar?”
“Pode.” Ela ajeitou o cabelo atrás da orelha e se acomodou melhor no banco. “Só estou tentando entender por que você está tão feliz depois de não aparecer.”
“Não aparecer onde?”
Elena me lançou um olhar.
“Aqui.”
“Ah.” Fiz uma pequena careta ao perceber que havia esquecido completamente que aquela festa existia. “Não estava com vontade.”
“Foi o que Bonnie disse.” Elena baixou o quebra-sol para conferir rapidamente o próprio reflexo no pequeno espelho. “Mas ninguém acreditou nela.”
“Que ótimo saber que minhas decisões precisam passar por aprovação popular.”
“Não é isso.” Ela fechou o espelho e tornou a olhar para mim. “As meninas perguntaram por você. Tina perguntou se você estava doente, e alguém disse que nunca tinha visto uma festa em que Caroline Forbes não aparecesse.”
Revirei os olhos, embora o comentário tivesse me incomodado mais do que deveria.
“Parece que sobreviveram.”
“Por pouco.”
“Que tragédia.”
Elena riu e voltou a olhar pela janela enquanto as luzes das casas passavam por nós. O rádio tocava baixo, preenchendo os pequenos silêncios sem exigir que conversássemos, e por alguns minutos aproveitei simplesmente a sensação de dirigir ao lado dela sabendo que, quando chegássemos, Miranda e Grayson estariam esperando em casa.
“Mas por que você não foi?”, Elena perguntou depois de algum tempo, dessa vez sem o tom provocador de antes.
Pensei em inventar alguma desculpa. Cansaço, minha mãe, dor de cabeça. Todas funcionariam e provavelmente encerrariam o assunto, mas de repente me senti cansada demais para construir outra versão de mim apenas para que aquela Caroline continuasse fazendo sentido para todo mundo.
“Eu acho que só cansei.”
“Da festa?”
“De tudo isso.” Mantive os olhos na estrada enquanto procurava uma maneira de explicar sem dizer mais do que podia. “Festa, ficar preocupada com quem vai, com quem não vai, se alguém está olhando para mim, se ninguém está olhando para mim, qual roupa usar para parecer que eu não passei duas horas escolhendo uma roupa...” Soltei uma risada baixa e balancei a cabeça. “Parece cansativo agora.”
Elena ficou quieta.
Olhei rapidamente para ela e encontrei seus olhos sobre mim.
“Que foi?”
“Nada.”
“Você está fazendo aquela cara.”
“Que cara?”
“Aquela em que você diz ‘nada’ enquanto claramente está pensando alguma coisa.”
Elena sorriu, mas demorou um pouco antes de responder. “Você realmente está diferente.”
Dessa vez não perguntei se tinha engordado.
A frase não veio acompanhada de suspeita. Elena parecia apenas intrigada, como se estivesse olhando para alguém que conhecia havia anos e descobrindo uma característica que nunca percebera. Talvez fosse exatamente isso que estava acontecendo. Eu podia imitar meus próprios hábitos, lembrar das roupas que usava e reconstruir algumas das preocupações que tivera naquela idade, mas não conseguia voltar a ser aquela garota simplesmente porque estava novamente dentro do corpo dela.
“Talvez eu esteja”, admiti, deixando um pequeno sorriso aparecer enquanto voltava os olhos para a estrada. “Não significa que seja ruim.”
“Eu não disse que era.”
“Mas pensou.”
“Eu estava decidindo.”
“E o veredito?”
Elena fingiu refletir, apoiando a cabeça no banco. “Ainda estou decidindo.”
“Vadia.”
Ela riu e bateu de leve no meu braço, e eu ri junto, sentindo uma leveza que parecia quase esquecida. Por alguns minutos não havia futuro para consertar, vampiros, mortes ou decisões capazes de alterar a vida de dezenas de pessoas. Éramos apenas duas garotas voltando de uma festa numa noite de verão, discutindo bobagens dentro de um carro.
Quando entrei na rua dos Gilbert, porém, minha atenção voltou imediatamente para a casa.
As luzes continuavam acesas.
Reduzi a velocidade e estacionei diante da entrada. Elena soltou o cinto e pegou a bolsa aos pés antes de perceber que eu ainda a observava.
“Obrigada pela carona.”
“De nada.”
Ela abriu a porta, mas alguma coisa dentro de mim se recusou a deixá-la sair tão facilmente.
“Elena?”
Ela se virou, mantendo uma das mãos sobre a porta aberta. “Hum?”
Hesitei.
Não precisava repetir a história da ponte. Não precisava assustá-la nem transformar novamente meu comportamento em alguma coisa impossível de explicar. Miranda e Grayson estavam em casa e Elena também estaria. Só precisava garantir que permanecesse assim.
“Fica em casa hoje, tá?”
A testa dela se franziu. “Eu acabei de chegar em casa.”
“Eu sei.” Tentei deixar o pedido soar casual, embora meus dedos tivessem se apertado ao redor do volante. “Só não inventa de sair de novo.”
Elena me encarou por alguns segundos. “Por quê?”
“Porque já está tarde, você bebeu e eu não quero receber outra ligação daqui a uma hora porque resolveu ir para outro lugar.” Inclinei a cabeça, dando a ela um sorriso que esperava parecer mais brincalhão do que nervoso. “Me promete?”
Ela ainda pareceu estranhar o pedido, mas o cansaço venceu a curiosidade. Elena soltou um suspiro e deixou a cabeça pender por um instante.
“Caroline, eu estou exausta. Não sairia dessa casa de novo nem se me pagassem.”
O alívio veio tão rápido que quase ri.
“Isso é uma promessa?”
“É uma promessa.” Elena começou a sair, mas parou para me lançar um último olhar. “Você está muito esquisita.”
“Você acabou de passar quinze minutos dizendo que eu mudei. Decida se é evolução ou esquisitice.”
“Posso decidir amanhã?”
“Pode.”
“Ótimo. Boa noite, Care.”
“Boa noite.”
Esperei enquanto ela atravessava o jardim e subia os degraus. A porta se abriu antes mesmo que Elena alcançasse a campainha, e vi Miranda aparecer do outro lado. Não conseguia ouvir o que dizia, mas reconheci imediatamente o gesto quando ela cruzou os braços e começou a falar com a filha. Elena jogou a cabeça para trás numa reclamação silenciosa, entrou e recebeu um beijo rápido da mãe antes de a porta se fechar.
Sorri. Aquilo bastava.
Miranda estava viva. Grayson estava lá dentro. Elena tinha chegado em casa e prometido não sair novamente. A noite que durante anos existiram na minha memória como o começo de tantas perdas acabara de se transformar numa discussão banal entre mãe e filha na porta de casa.
Eu tinha conseguido.
Permaneci alguns segundos olhando para as janelas iluminadas antes de finalmente colocar o carro em movimento. A felicidade que me acompanhou rua abaixo era tão grande que chegava a parecer irresponsável. Pela primeira vez desde que acordara em 2009, não estava pensando em tudo que poderia dar errado. Não queria saber quais acontecimentos mudariam amanhã, quais relações seguiram caminhos diferentes ou que consequências aquela interferência teria anos depois. Eu teria tempo para entrar em pânico com tudo isso quando o sol nascesse.
***
A música de Elton John continuava baixa enquanto eu dirigia, e por alguns minutos me permitiu aproveitar a sensação estranha de estar feliz sem procurar imediatamente alguma coisa para estragá-la. Tamborilei os dedos sobre o volante acompanhando a melodia e até cantarolei um trecho, lembrando de minha mãe fazendo exatamente aquilo quando eu era criança. Liz adorava Elton John e cantava no carro com uma confiança que nunca fora proporcional ao talento, embora qualquer tentativa de apontar isso terminasse com ela aumentando o volume só para me irritar.
Meu sorriso diminuiu quando prestei atenção à música.
The Bridge.
Um arrepio subiu pelos meus braços, e balancei a cabeça diante da própria superstição. Depois de tudo que vivera, seria ridículo começar a acreditar que uma estação de rádio estava tentando conversar comigo, mas a coincidência perdeu um pouco da graça quando os faróis alcançaram uma placa à margem da estrada.
Wickery Bridge.
“Nem pensar.” Desliguei o rádio e procurei com uma das mãos os CDs no compartimento ao lado. “Hoje eu quero Britney.”
Encontrei uma das caixas e tentei abri-la enquanto mantinha os olhos na estrada, mas o plástico emperrou sob meus dedos. Quando finalmente consegui soltá-lo, um cervo atravessou repentinamente o alcance dos faróis e pisei no freio com tanta força que a caixa escapou da minha mão.
“Merda!”
O animal desapareceu entre as árvores do outro lado, e consegui manter o carro na pista, embora meu coração agora batesse depressa demais. Soltei o ar devagar, diminuí a velocidade e deixei o CD onde havia caído. Britney teria que esperar. Eu só precisava atravessar aquela maldita ponte e chegar em casa sem transformar a noite mais bem-sucedida da minha semana numa visita ao pronto-socorro.
Foi quando os faróis iluminaram alguém adiante.
A figura estava próxima demais da pista, e meu pé voltou imediatamente ao freio. Por um segundo vi apenas um homem parado na ponte; no seguinte, reconheci o rosto pálido, os cabelos escuros e aqueles traços que conhecia bem demais.
Stefan.
O espanto custou o segundo de que eu precisava.
“Stefan?”
Virei o volante para não acertá-lo e o carro respondeu violentamente. Os pneus derraparam, tentei corrigir a direção e só consegui jogá-lo para o outro lado. A mureta surgiu diante do para-brisa antes que eu pudesse fazer qualquer coisa.
O impacto explodiu dentro da minha cabeça.
Senti o vidro lateral se partir e alguma coisa quente deslizar pela minha testa, mas estava tonta demais para compreender o que havia acontecido. O carro inclinou, o estômago pareceu subir até minha garganta e, antes que eu recuperasse o fôlego, a escuridão tomou o lugar da estrada.
A água atingiu o carro com violência.
O frio me despertou parcialmente quando começou a entrar pela janela quebrada. Não houve tempo para entender onde estava ou tentar lembrar o que se deveria fazer quando um carro caía dentro de um rio; a água simplesmente invadiu o interior, subindo pelas minhas pernas enquanto eu procurava a trava do cinto com dedos desajeitados. Minha cabeça latejava e o sangue que escorria pela testa se misturava à água conforme ela alcançava minha cintura.
“Vamos...”
Pressionei a trava, mas não consegui soltá-la. Tentei novamente e senti os dedos escorregarem, sem saber se por causa da água, do sangue ou da pancada que tornava tudo lento demais. O nível já alcançava meu peito quando uma risada baixa escapou da minha garganta, completamente deslocada do pânico que deveria estar sentindo.
Claro.
Depois de tudo, eu morreria sem ar outra vez.
Havia alguma ironia nisso que minha cabeça atordoada parecia achar genuinamente engraçada. Eu tinha passado anos sem precisar respirar, morrera uma vez com o coração arrancado e agora estava presa dentro de um carro enquanto a água subia depressa demais para que meu corpo humano pudesse acompanhar. Pensando bem, ter o coração arrancado tinha sido mais misericordioso. Pelo menos fora rápido.
A água chegou aos meus ombros, e inclinei o rosto para trás enquanto ainda tentava inutilmente libertar o cinto. Minha visão começava a falhar nas bordas, mas uma lembrança atravessou a confusão: o hospital, Damon, sangue de vampiro em minhas veias e Katherine terminando o que aquele primeiro acidente de carro havia começado.
Quase sorri.
Stefan tinha me matado outra vez.
Não diretamente, é claro. Ele provavelmente nem sabia que eu estava ali até meus faróis o alcançarem, mas a ironia permanecia boa demais para uma mente já meio zonza distinguir os detalhes.
A água cobriu minha boca e depois meu nariz. Prendi a respiração por reflexo, sentindo o cabelo flutuar ao redor do rosto enquanto meus dedos perderam força sobre a trava.
Eu tinha salvado Gilbert de cair da ponte. Só não tinha previsto que acabaria caindo no lugar deles.
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