Make a Wish (Revisando)

6 Chapter – VI She knows


Notas iniciais
Outro capítulo, especialmente para ti Lella.. Espero que goste :3


"Seus olhos de navegante. A água na fonte. A sede pra matar. Abaixe seus braços. A purificação da escuridão. A queda para libertar"

Beautiful Girl — William Fitzsimmons



STEFAN


Eu deveria ter ido embora muito antes de o carro parar diante da casa dos Gilbert.


Já estava escuro havia algum tempo, e a rua residencial tinha assumido aquela tranquilidade particular das noites de verão, quando quase todas as janelas permaneciam abertas e os ruídos domésticos escapavam das casas junto com a luz. De onde eu estava, escondido entre as árvores do outro lado da rua, conseguia ouvir uma televisão ligada duas casas adiante, o latido ocasional de um cachorro e uma discussão abafada entre um casal que provavelmente acreditava estar falando baixo. Nada daquilo exigia minha atenção. Eu poderia distinguir cada som se quisesse, mas aprendi que viver entre humanos significa também aprender a ignorá-los.


O único som que eu não conseguia ignorar vinha da casa à minha frente.


O coração de Elena Gilbert.


Eu poderia ter alegado que ainda estava ali porque precisava descobrir quem ela era. Repetir essa justificativa tantas vezes nos últimos dias que começou a soar razoável até para mim. Havia uma garota em Mystic Falls com o rosto de Katherine Pierce, uma garota que respirava, envelhecia e possuía um coração humano que eu conseguia ouvir a distância. Eu tinha passado mais de um século acreditando que nunca voltaria a ver aquele rosto e, quando finalmente o encontrara, ele pertencia a alguém que não parecia sequer saber que Katherine existirá.


Era uma pergunta que qualquer pessoa em minha posição desejaria responder. O problema era que eu já tinha respostas suficientes para ir embora.


Elena era humana. Eu tinha confirmado isso quase imediatamente. Depois descobrira que ela era filha de Grayson e Miranda Gilbert, tinha um irmão mais novo chamado Jeremy e cresceu naquela cidade cercada pelas mesmas pessoas que ainda faziam parte de sua vida. Havia fotografias dela criança, registros escolares, aniversários, amigos e uma história que começara muito antes de eu retornar a Mystic Falls. Nada sugeria que Katherine tivesse alguma participação direta naquilo.

Mesmo assim, eu continuava seguindo Elena.


Naquela noite, tinha me convencido de que seria a última vez.


Então reconheci o carro de Caroline Forbes entrando na rua.


Eu já o vi outras vezes durante os últimos dias, geralmente com Caroline ao volante e uma das amigas no banco do passageiro. Não precisei enxergar quem estava dentro para reconhecer o veículo, embora minha atenção se aguçasse assim que ele diminuiu a velocidade diante da casa dos Gilbert.


Elena estava no banco do passageiro.


Todo o resto perdeu importância imediatamente. Ela parecia cansada quando saiu, ajeitando a bolsa no ombro antes de se inclinar novamente para dizer alguma coisa a Caroline através da porta aberta. Não consegui ouvir as primeiras palavras sem concentrar minha audição na conversa e, por alguns segundos, resisti à vontade. Já havia invadido a privacidade daquela garota de maneiras suficientes para saber que escutar uma conversa entre amigas seria apenas mais uma linha atravessada.


Então Elena riu.


Meu olhar permaneceu nela.

Caroline disse alguma coisa que não ouviu, e Elena respondeu antes de fechar parcialmente a porta. Havia uma facilidade naquele pequeno gesto que me dizia que se conheciam há muito tempo. Eu já sabia que Caroline e Bonnie eram suas amigas, naturalmente. Era impossível observar Elena por tantos dias sem aprender quem fazia parte da vida dela. Bonnie Bennett parecia ser aquela que Elena procurava quando precisava realmente conversar; Caroline Forbes era mais difícil de compreender à distância, embora estivesse presente com frequência suficiente para que eu soubesse que também importava.


Ainda assim, eu não estava ali por nenhuma das duas.


Elena se afastou do carro, mas Caroline a chamou antes que alcançasse o jardim. Ela voltou e se inclinou ligeiramente na direção da janela, ouvindo alguma coisa que fez sua expressão passar primeiro pela surpresa e depois por um cansaço divertido. Caroline parecia insistir em algo. Elena respondeu, e dessa vez consegui captar parte da conversa.


“...eu estou exausta. Não sairia dessa casa de novo nem se me pagassem.”


Caroline pareceu finalmente satisfeita. Elena fechou a porta e atravessou o jardim.

Eu a acompanhei com os olhos.


A luz da varanda iluminou seu rosto quando subiu os primeiros degraus, e por um instante a semelhança me atingiu com a mesma violência da primeira vez. Havia ângulos em que era quase impossível não enxergar Katherine. O cabelo escuro ao redor do rosto, o movimento da boca quando estava prestes a sorrir, até a maneira como inclinava ligeiramente a cabeça quando alguma coisa despertava sua curiosidade. Eram detalhes pequenos, mas suficientes para arrastar lembranças de 1864 para uma rua de Mystic Falls mais de cento e quarenta anos depois.


Então Elena fez alguma coisa que Katherine nunca faria. Ela tropeçou no último degrau.


Conseguiu se equilibrar antes de cair, olhou rapidamente para os lados como se quisesse ter certeza de que ninguém tinha visto e soltou uma risada para si mesma.

Sorri antes de perceber.


Era isso que continuava me prendendo ali. Não apenas o rosto.

As diferenças. Eu queria descobrir quantas existiam.


A porta se abriu antes que Elena alcançasse a campainha, e Miranda Gilbert apareceu do outro lado. Mesmo àquela distância, vi a postura de Elena mudar imediatamente, os ombros descendo numa antecipação quase resignada enquanto a mãe cruzava os braços. Miranda disse alguma coisa e apontou para o relógio no próprio pulso.


Elena respondeu.


Miranda ergueu as sobrancelhas.

Elena tentou novamente. A expressão de Miranda não mudou.

Eu precisei conter outro sorriso.


A discussão durou menos de um minuto. Elena acabou passando pela mãe, mas Miranda segurou seu braço antes que entrasse e beijou-lhe a testa. Elena reclamou, embora o sorriso que tentou esconder entregasse que não estava realmente incomodada.

Então as duas desapareceram para dentro.


A porta se fechou.


Ainda assim, permaneci olhando para ela.


Somente o ruído do carro de Caroline se afastando me fez perceber quanto tempo tinha ficado imóvel.


Desviei os olhos.


Aquilo estava indo longe demais.

Eu sabia disso desde o começo, mas reconhecer que uma atitude era errada nunca me impedira automaticamente de continuar fazendo-a. Durante dias, encontrara novas justificativas para permanecer em Mystic Falls. Primeiro precisava confirmar que Elena era humana. Depois precisava descobrir se existia alguma relação com Katherine. Mais tarde quisera saber quem eram seus pais, de onde vinha, se havia alguma explicação para aquela semelhança impossível. A cada resposta surgia uma nova pergunta conveniente.


Talvez a verdade fosse muito menos nobre. Eu simplesmente não conseguia parar de olhar para ela.

Afastei-me da casa antes que aquela constatação se transformasse em outra desculpa para permanecer.


Segui entre as árvores durante algum tempo, preferindo a escuridão à estrada. A floresta ao redor de Mystic Falls ainda guardava coisas que o restante da cidade perdera com o passar das décadas. Algumas trilhas tinham desaparecido, outras surgido, mas o cheiro da terra úmida e das folhas permanecia quase igual ao das lembranças que eu tinha daquele lugar. Era fácil esquecer o século enquanto caminhava por ali.

Também era fácil lembrar por que eu havia partido.


Quando alcancei Wickery Bridge, diminuí o passo sem perceber. A estrada estava quase deserta àquela hora, cercada pela mata que avançava dos dois lados e abafava boa parte dos ruídos da cidade. Sob a ponte, a água parecia negra, cortada aqui e ali pelo reflexo pálido da lua, enquanto insetos se acumulavam ao redor dos postes e desapareciam sempre que a luz oscilava. Havia lugares em Mystic Falls que o tempo modifica a ponto de eu precisar procurar alguma lembrança neles; aquela ponte não era um desses lugares. Ainda havia algo familiar demais na curva da estrada, no cheiro úmido vindo do rio e na velha estrutura de pedra, e por isso não permaneci parado contemplando-a. Já tinha lembranças suficientes para carregar naquela noite.


O ronco distante de um motor chamou minha atenção quando eu atravessava a ponte, e me aproximei instintivamente da lateral da pista para deixar o veículo passar. Os faróis surgiram entre as árvores alguns segundos depois, primeiro iluminando o asfalto e depois alcançando a estrutura à minha frente. Eu provavelmente não teria olhado uma segunda vez se o carro não me parecesse familiar, mas bastou que ele se aproximasse um pouco para eu reconhecer o mesmo veículo que estivera diante da casa dos Gilbert minutos antes.


Por um instante, procurei Elena dentro dele.


Foi automático e completamente irracional, considerando que eu próprio a vi entrar em casa, mas meus olhos foram primeiro para o banco do passageiro antes de se voltarem para a motorista. O lugar ao lado dela estava vazio. Caroline Forbes dirigia sozinha, inclinada ligeiramente para a frente enquanto uma das mãos permanecia sobre o volante e a outra parecia procurar alguma coisa no console. Eu sabia pouco sobre ela além do que aprendera inevitavelmente enquanto observava Elena. Era filha da xerife, amiga de Bonnie e Elena, líder de torcida e dona de uma personalidade difícil de ignorar quando estava por perto. Na maior parte do tempo, porém, minha atenção simplesmente passava por ela para encontrar a garota que me levará de volta a Mystic Falls.


Caroline ergueu os olhos no momento em que os faróis me alcançaram, e alguma coisa mudou em seu rosto.


Parei.


Por uma fração de segundo, tive a impressão absurda de que ela me reconheceu. Não como alguém reconhece uma pessoa que já viu casualmente pela cidade, mas com um choque muito mais íntimo, quase doloroso. Seus olhos se arregalaram e ela ficou rígida atrás do volante, encarando-me de uma maneira que me fez procurar uma explicação antes mesmo que tivesse certeza do que estava vendo.


A conclusão era ridícula. Eu nunca tinha falado com Caroline Forbes.


Talvez Caroline já tivesse me visto na cidade sem que eu percebesse. Ou quem sabe eu simplesmente estivesse atribuindo significado demais à expressão de uma garota que acabara de encontrar um homem parado numa ponte escura no meio da noite. Qualquer uma dessas possibilidades fazia mais sentido do que a impressão desconfortável que tive naquele primeiro instante.


Não tive tempo de pensar melhor.


Caroline puxou o volante quando percebeu o quanto estava perto de mim, e o carro desviou com violência. O guincho dos pneus rasgou o silêncio da estrada enquanto ela tentava recuperar a direção, mas o veículo atravessou a pista antes que conseguisse controlá-lo e atingiu a mureta lateral. O impacto lançou Caroline contra a porta, estilhaçando a janela junto à sua cabeça, e o cheiro de sangue chegou até mim quase ao mesmo tempo que o som seco da batida.


A barreira não suportou o impacto.


Quando percebi que o carro continuaria avançando, já estava correndo. Alcancei a parte destruída da mureta no instante em que o veículo desapareceu pela lateral da ponte e vi os faróis ainda acesos atravessarem a escuridão antes de atingirem a água. O choque levantou uma onda que se espalhou pelo rio e, segundos depois, o carro começou a afundar.


Saltei atrás dele.


A água gelada fechou-se ao meu redor, abafando os sons da estrada enquanto eu seguia os faróis que desciam em direção ao fundo. Não demorei mais que alguns segundos para alcançar o veículo. A janela do motorista havia desaparecido quase completamente durante a colisão, fazendo com que a água entrasse depressa demais, e encontrei Caroline ainda presa ao banco, com os cabelos flutuando ao redor do rosto e uma mancha escura se espalhando a partir do ferimento em sua testa. Ela tentava soltar o cinto, mas a pancada a deixara desorientada; os dedos encontravam a trava e escapavam dela enquanto seus movimentos ficavam cada vez menos coordenados.


O sangue despertou uma reação imediata que odiei reconhecer. Minha garganta queimou e meus sentidos se concentraram naquele cheiro antes que eu pudesse impedir, mas décadas de controle serviram para alguma coisa. Ignorei a fome e alcancei Caroline pela janela quebrada, arrancando os poucos fragmentos de vidro que ainda bloqueavam a passagem antes de romper o cinto preso ao corpo dela.


Caroline desabou contra mim assim que ficou livre.


Passei um braço ao redor de sua cintura e a retirei do carro, impulsionando-nos para cima antes que o veículo terminasse de afundar. Quando rompemos a superfície, ela não reagiu de imediato, e por um instante só consegui ouvir o coração humano batendo rápido demais dentro do peito que eu mantinha contra o meu. Então Caroline engasgou, puxou uma quantidade desesperada de ar e começou a tossir, curvando-se fracamente enquanto eu a mantinha acima da água.


“Está tudo bem. Respire.” Ajustei o braço ao redor dela quando seu corpo perdeu força novamente e atravessei o restante da distância até a margem, prestando atenção à respiração irregular contra meu ombro e ao coração que, apesar do choque, continuava batendo.


Deitei-a sobre a terra úmida assim que saímos da água e me ajoelhei ao seu lado. O corte próximo à linha do cabelo sangrava bastante, fazendo um filete vermelho atravessar a lateral de seu rosto antes de desaparecer entre os cabelos molhados, mas era a pancada que me preocupava. Afastei algumas mechas grudadas em sua testa e observei suas pupilas quando ela abriu os olhos por um instante, embora parecesse incapaz de focalizar qualquer coisa.


“Caroline?” Toquei seu ombro com cuidado e inclinei-me um pouco mais quando ela piscou lentamente, tentando permanecer consciente. “Consegue me ouvir?”


Os olhos dela percorreram meu rosto sem realmente se deter em lugar algum. Caroline parecia não compreender onde estava; sua testa se franziu, e por alguns segundos achei que perderia a consciência novamente. Então seu olhar finalmente encontrou o meu.


A mesma sensação da ponte voltou.


Dessa vez não havia faróis, velocidade ou distância suficientes para que eu pudesse atribuí-la à minha imaginação. A confusão ainda estava ali, provocada pela pancada e pelo choque, mas alguma coisa surgiu por baixo dela quando Caroline conseguiu focalizar meu rosto. Seus olhos se arregalaram muito pouco, e sua mão se moveu sobre a terra como se quisesse afastar-se, embora não tivesse forças nem para erguer o corpo.


“Stefan...”


Meu nome saiu quase sem voz, acompanhado de uma expiração trêmula, e os olhos dela se fecharam antes que eu conseguisse responder. Segurei seu ombro quando a cabeça tombou para o lado e verifiquei imediatamente sua respiração, mas Caroline apenas havia desmaiado. O coração continuava firme o suficiente para me tranquilizar.


Eu, porém, já não estava tranquilo.


Permaneci ajoelhado ao lado dela, com a mão ainda apoiada em seu ombro, enquanto a palavra que acabara de ouvir se repetia em minha cabeça. Talvez eu pudesse ter questionado a expressão na ponte. Talvez pudesse ter me convencido de que enxergara reconhecimento onde existia apenas susto. Não podia fazer o mesmo agora.


Ela disse meu nome.


Olhei novamente para o rosto inconsciente de Caroline e tentei encontrar uma explicação simples. Poderia ter ouvido falar de mim por Elena, se Elena soubesse quem eu era, mas ela não sabia. Eu ainda não havia me apresentado a nenhuma delas. Não frequentava a escola, não tinha amigos naquela cidade e vinha tomando cuidado para permanecer fora da vida de Elena enquanto tentava descobrir o que ela tinha a ver com Katherine. Caroline não deveria sequer saber que Stefan Salvatore existia.


Ao longe, um motor se aproximava pela estrada, acompanhado por vozes que meus sentidos captaram muito antes que qualquer humano na margem pudesse ouvi-las. Eu precisava sair dali antes que alguém me encontrasse encharcado ao lado de uma garota que acabara de sobreviver a uma queda que dificilmente conseguiria explicar, mas demorei alguns segundos para me levantar. Minha atenção continuava presa à jovem que, até aquela noite, eu conhecia apenas porque estava sempre em algum ponto próximo de Elena.


De alguma maneira impossível, ela me conhecia.


***


Quando cheguei à propriedade dos Salvatore, as luzes do andar de baixo ainda estavam acesas. A casa surgiu entre as árvores grandes e silenciosas, preservando mais do passado do que eu gostaria de encontrar naquela noite, e atravessei a varanda deixando água escorrer das roupas até o piso assim que entrei.


Zach estava sentado à mesa da sala de jantar com os óculos apoiados na ponta do nariz e alguns papéis espalhados diante dele. Levantou os olhos ao ouvir a porta, ficou imóvel por um segundo ao me ver encharcado e então retirou lentamente os óculos.


“Eu nem vou perguntar.”


“Uma garota sofreu um acidente na Wickery Bridge.” Fechei a porta e tirei o casaco molhado, deixando-o próximo à entrada antes que a água alcançasse o tapete. “O carro caiu no rio.”


A expressão cansada desapareceu imediatamente do rosto dele. “Ela está viva?”


“Está.” Passei a mão pelos cabelos molhados e segui para dentro. “Eu consegui tirá-la.”


Zach soltou o ar que havia prendido e tornou a colocar os óculos sobre a mesa, mas continuou me observando. “Quem?”


“Caroline Forbes.”


Dessa vez a reação foi diferente. Zach fechou os olhos e apertou a ponta do nariz entre os dedos, permanecendo assim por alguns segundos.


“Claro que foi.”


Franzi a testa. “O que isso quer dizer?”


“Quer dizer que, entre todas as pessoas que poderiam jogar um carro dentro de um rio na sua frente, tinha que ser Caroline Forbes.” Ele deixou a mão cair e se recostou na cadeira. “Filha da xerife Forbes. Uma das famílias fundadoras.”


“Eu sei quem ela é.”


“Tenho certeza de que sabe.” O comentário veio seco, e Zach esfregou uma das mãos pelo rosto antes de continuar. “Você também sabe que ela é amiga de Elena Gilbert, que por acaso pertence a outra família fundadora, porque aparentemente você decidiu fazer uma pesquisa genealógica completa sobre adolescentes de Mystic Falls.”


“Não precisa fazer parecer pior do que é.”


Zach me encarou por cima da mesa.


“Stefan, você tem cento e sessenta e poucos anos e está seguindo uma garota de dezessete porque ela se parece com sua ex.”


“Não é tão simples.”


“Ela é uma adolescente?”


Minha mandíbula se contraiu. “Sim.”


“Você a segue?”


Não respondi.


Zach ergueu as sobrancelhas.


“Ela tem exatamente o rosto de Katherine”, falei, e até para mim a justificativa começava a soar desgastada. “Eu precisava descobrir como isso era possível.”


“E descobriu?”


“Se tivesse descoberto, provavelmente não estaríamos tendo essa conversa.”


“Estamos tendo essa conversa desde que você apareceu naquela porta.” Zach pegou os óculos, pareceu pensar melhor e os largou novamente sobre a mesa. O cansaço em seus movimentos deixava claro que aquele assunto não era novo para nenhum de nós. “Primeiro você precisava confirmar que ela era humana. Confirmou. Depois precisava saber quem eram os pais dela. Descobriu. Depois precisava saber se Katherine tinha alguma ligação com a família. Até onde sabemos, não tem. Sempre aparece outra coisa que você precisa descobrir antes de poder ir embora.”


“Você quer que eu vá embora.”


“Eu nunca escondi isso.”


A resposta veio tão depressa que quase me fez sorrir.


“Pelo menos é sincero.”


“Estou cansado, Stefan.” Zach apoiou os cotovelos na mesa e esfregou o rosto com as duas mãos antes de olhar novamente para mim. “Não tenho nada contra você. De verdade. Você apareceu aqui, eu deixei você ficar porque essa também é sua casa, provavelmente muito mais sua do que minha. Mas você voltar para Mystic Falls nunca termina simplesmente com você voltando para Mystic Falls.”


Um sorriso amargo puxou o canto da minha boca. “Você também não parece ter muita coisa a favor de mim.”


“Também não tenho.”


Dessa vez ri pelo nariz, e Zach quase sorriu antes de balançar a cabeça. A pequena trégua durou pouco.


“Você sabe o que eu estou tentando evitar.” Ele se levantou e começou a recolher os papéis espalhados pela mesa, alinhando as folhas com mais força do que o necessário. “Você aparece. Depois Damon descobre que você apareceu. Damon vem atrás de você porque aparentemente nenhum dos dois consegue permanecer no mesmo estado sem transformar isso numa guerra particular, e eu fico no meio tentando explicar por que coisas estranhas começaram a acontecer justamente quando dois parentes meus que deveriam estar mortos há mais de cem anos resolveram voltar para casa.”


Ouvir o nome do meu irmão bastou para apagar o pouco humor que ainda restava.


“Damon não sabe que estou aqui.”


“Ainda.”


“Ele não tem motivo para vir.”


Zach parou de organizar os papéis e me lançou um olhar incrédulo. “Você é o motivo.”


Não respondi, porque aquela era uma das poucas coisas naquela noite que não podia contestar.


“E agora temos Caroline Forbes”, continuou Zach, retirando os óculos outra vez e massageando o ponto entre as sobrancelhas. “Filha da xerife, quase morta numa ponte enquanto você estava presente. Mesmo que ninguém tenha visto você, acidentes chamam atenção. Liz vai querer saber o que aconteceu. Os Gilbert vão saber porque Caroline acabou de deixar Elena em casa, e quando uma família fundadora começa a conversar com outra, eventualmente todas começam.”


“Eu não causei o acidente.”


“Eu não disse que causou.” Zach colocou os óculos sobre a mesa e se aproximou alguns passos. “Estou dizendo que você está se aproximando exatamente das pessoas das quais deveria manter distância.”


A lembrança do carro desviando surgiu antes que eu pudesse impedir. Caroline me encarando através do para-brisa, o choque em seu rosto e, depois, a sensação ainda mais inexplicável de ouvi-la dizer meu nome na margem do rio.


“Tem outra coisa.”


Zach soltou um suspiro tão profundo que quase pareceu uma reclamação física. “É claro que tem.”


“Caroline me conhece.”


Ele franziu a testa. “Você acabou de dizer que sabe quem ela é.”


“Eu sei quem ela é porque está sempre com Elena. Nunca falei com ela.” Peguei a toalha que havia deixado sobre uma cadeira e passei-a pelos cabelos enquanto tentava organizar aquilo em voz alta. “Quando ela me viu na ponte, tive a impressão de que me reconheceu. Achei que fosse coisa da minha cabeça. Ela estava dirigindo, me viu no meio da estrada e se assustou. Não havia razão para interpretar aquilo de outra maneira.”


“Mas está interpretando.”


“Porque depois que a tirei da água ela acordou por alguns segundos.” Parei de secar os cabelos e olhei para Zach. “Ela disse meu nome.”


O cansaço desapareceu um pouco de sua expressão.


“Stefan?”


Assenti.


“Tem certeza?”


Olhei para ele.


Zach soltou o ar e ergueu uma mão. “Certo. Audição de vampiro. Esquece que perguntei.”


Voltei a passar a toalha pelos cabelos, embora já estivessem apenas úmidos. “Elena não sabe meu nome. Eu não me apresentei a ninguém desde que cheguei. Caroline não deveria conseguir olhar para mim e saber quem sou.”


“Talvez Liz saiba que você voltou.”


“Como?”


“Não sei. Você é quem apareceu na minha casa com uma adolescente inconsciente sabendo seu nome. Estou tentando acompanhar.”


Apesar de tudo, quase sorri. Zach não.


“Isso não é engraçado.”


“Eu sei.”


“Não, acho que não sabe.” Ele puxou a cadeira para trás e tornou a sentar, deixando o corpo afundar contra o encosto. “Você está tratando isso como mais um mistério para resolver. Primeiro Elena se parece com Katherine. Agora Caroline sabe seu nome. Amanhã Bonnie Bennett começa a recitar seu diário de 1864 e você decide ficar mais seis meses para descobrir como ela conseguiu.”


O comentário teria sido absurdo se a situação não estivesse começando a parecer exatamente assim.


“Eu só quero entender o que está acontecendo.”


“Você sempre quer.” Zach me observou por alguns segundos antes de perguntar, mais baixo: “E depois?”


Eu sabia onde aquilo terminaria.


“Estou pensando em me matricular na escola.”


Zach permaneceu absolutamente imóvel.


Depois retirou os óculos que acabara de colocar.


“Não.”


“Zach...”


“Não, Stefan.” Ele largou os óculos sobre a mesa e esfregou as mãos pelo rosto, deixando-as ali por um instante antes de continuar. “Acabamos de estabelecer que a filha da xerife sabe quem você é sem nenhuma razão aparente, você está seguindo Elena Gilbert há dias e minha preocupação inteira é impedir que sua presença atraia Damon para Mystic Falls. Sua resposta para tudo isso é entrar numa escola cheia de filhos e netos das famílias que passaram gerações contando histórias sobre vampiros?”


“Quero conhecer Elena.”


A exaustão no rosto dele cedeu lugar a algo próximo de incredulidade.


“Você não conhece essa garota.”


“Eu sei.”


“Não, não sabe.” Zach apontou para mim, sem elevar a voz. “Você sabe onde ela mora, com quem anda e provavelmente o que pede quando vai ao Mystic Grill. Isso não é conhecer alguém. Isso é seguir alguém.”


A crítica me incomodou porque não havia como desmontá-la sem mentir.


“É justamente por isso que quero falar com ela.”


Zach soltou uma risada curta, sem humor, e balançou a cabeça. “Você escuta a si mesmo?”


“Quero saber quem ela é além do rosto.”


“E se não gostar da resposta?”


Pensei em Elena rindo dentro do carro de Caroline, tropeçando no degrau da própria casa e discutindo com Miranda sobre o horário em que voltara. Pensei nas pequenas diferenças que vinha colecionando sem admitir que eram justamente elas, e não mais a semelhança com Katherine, que me faziam continuar voltando.


“Então pelo menos vou ter uma.”


Zach me observou longamente e pareceu perceber que não havia argumento capaz de me fazer partir naquela noite. Recolocou os óculos, juntou os últimos papéis e se levantou com um suspiro cansado.


“Quando Damon aparecer, eu vou lembrar você dessa conversa.”


“Se Damon aparecer.”


Zach parou junto à porta e olhou por cima do ombro.


“Ele sempre aparece.”


Não encontrei resposta para aquilo.


Horas depois, deitado no quarto que um dia fora meu, permaneci olhando para o teto enquanto a casa mergulhava no silêncio. Voltar para Mystic Falls deveria ter me dado respostas, mas até então só acrescentou mais perguntas. Elena Gilbert continuava sendo a maior delas. Eu ainda não sabia por que tinha o rosto de Katherine, nem por que cada nova diferença que encontrava parecia me deixar menos disposto a ir embora.


Naquela noite, porém, outra pergunta insistia em atravessar meus pensamentos.


Caroline Forbes não tinha qualquer razão para me conhecer. Eu a vira porque ela fazia parte da vida de Elena e, até poucas horas antes, isso era praticamente tudo que sabia sobre ela. Ainda assim, quando abrira os olhos na margem do rio, não houvera hesitação em sua voz.


“Stefan...”


Fechei os olhos, mas ouvi o nome novamente com a mesma clareza.


Por mais que tentasse encontrar uma explicação razoável, continuava voltando ao mesmo fato impossível.


Ela me conhecia.


Notas finais
Então é isso. Até semana que vem, lá pela quinta ou sexta. XOXO