Make a Wish (Revisando)
2 Chapter - II Back to the beginning
Notas iniciais
Porque isso é a maneira que você joga o jogo da vida. Você cria o mundo que você quer ver fora. E lembre-se que é como brincar de Deus e fazer acreditar em milagres novamente" Make Believe — The Burned
CAROLINE
Abri os olhos com uma inspiração violenta e levei a mão ao peito antes mesmo de compreender onde estava.
Meu coração batia.
A pulsação golpeava minha palma com tanta força que, durante alguns segundos, fui incapaz de pensar em qualquer outra coisa. A lembrança da floresta continuava fresca demais, acompanhada pelo cheiro imaginário de fumaça, pela umidade da terra contra minhas costas e, sobretudo, pela sensação dos dedos de Stefan fechando-se ao redor do meu coração. Eu me lembrava do rosto dele diante do meu quando puxou, da dor brutal que atravessara meu corpo e desaparecera quase no mesmo instante, seguida pela escuridão.
Passei a mão pelo peito procurando o ferimento e encontrei apenas o tecido fino de uma camiseta sobre a pele intacta. Pressionei os dedos no mesmo lugar, certa de que encontraria sangue, uma cicatriz ou qualquer prova física do que acontecera, mas não havia nada. Meu corpo, no entanto, parecia se lembrar. Quando fechei os olhos, senti novamente a mão dentro do peito e me curvei por reflexo, puxando o ar depressa demais.
Eu deveria estar morta.
Não existia nenhuma dúvida sobre isso. Eu vira meu coração nas mãos de Stefan antes de a luz azul cobrir tudo. Lembrava da mulher que encontrara depois, cercada por aquela escuridão impossível, da faixa vermelha cobrindo seus olhos e da mão que ela estendera em minha direção. Quando toquei seus dedos, ainda tivera tempo de enxergar meu próprio corpo caído junto à árvore e Stefan ajoelhado diante dele.
Depois, nada.
Foi somente quando minha respiração começou a desacelerar que percebi que havia alguma coisa ainda mais impossível do que continuar consciente.
Eu estava deitada em uma cama.
Ergui a cabeça devagar. Em vez das árvores queimadas e do céu escurecido pela fumaça que pairava sobre Mystic Falls havia um teto branco, iluminado pelo sol que atravessava cortinas claras. A luz da manhã se espalhava por um quarto que conhecia bem demais, alcançando a penteadeira com seu espelho retangular e os cosméticos cuidadosamente organizados diante dele, os frascos de perfume, as escovas, os bichos de pelúcia e todas aquelas pequenas coisas que um dia tinham sido importantes o bastante para merecer lugares específicos.
Meu estômago se contraiu.
Eu conhecia aquele quarto.
Durante anos, acordara ali.
Afastei o lençol e me sentei depressa demais, sendo obrigada a apoiar as mãos no colchão quando uma tontura fez o ambiente oscilar. Esperei que passasse enquanto observava tudo novamente, procurando alguma falha que denunciasse a mentira. Minha casa havia sido abandonada muito antes de Mystic Falls se transformar completamente naquele inferno, e mesmo que alguém tivesse reconstruído meu antigo quarto por algum motivo absurdo, não conseguiria reproduzir detalhes dos quais nem eu me lembrava conscientemente.
Passei os dedos pelo lençol e senti o tecido macio e limpo sob a mão. Quando o aproximei do rosto, reconheci o perfume suave do amaciante que minha mãe costumava comprar. A familiaridade daquele cheiro provocou uma pressão inesperada no meu peito. Havia meses que os lugares onde eu dormia cheiravam a umidade, poeira, fumaça ou abandono, quando eu tinha sorte suficiente para encontrar algum lugar onde pudesse realmente dormir. Aquele quarto cheirava simplesmente a casa.
Baixei os olhos para minhas mãos. Não havia lama acumulada sob as unhas nem sangue seco entre meus dedos, e todos os ferimentos que sofrera durante a fuga tinham desaparecido. Minha pele parecia diferente, embora eu demorasse alguns segundos para entender por quê. Quando toquei meu próprio braço, encontrei calor.
Levei imediatamente dois dedos ao pescoço.
O pulso bateu contra eles.
Afastei a mão como se tivesse me queimado.
Atravessei o quarto e parei diante da penteadeira, encarando a garota refletida no espelho. Era como olhar para uma fotografia antiga que de repente aprendera a se mover. Eu reconhecia cada traço daquele rosto porque era meu, mas minha pele tinha uma coloração mais viva, pequenas imperfeições que o vampirismo apagaria e uma juventude que me pareceu estranha depois de tantos anos vendo exatamente a mesma mulher no espelho.
Afastei os lábios com os dedos e esperei pelas presas.
Nada aconteceu.
Concentrei-me na fome, tentando provocar a transformação que durante tantos anos surgira quase por instinto, mas não senti a ardência na garganta nem a pressão familiar nas gengivas. Depois de meses sobrevivendo quase exclusivamente de animais, eu havia me acostumado tanto à fome constante que sua ausência parecia errada.
Apoiei as duas mãos na penteadeira e observei meu reflexo.
“Eu sou humana”, murmurei, inclinando-me um pouco para a frente como se a garota no espelho pudesse explicar aquilo.
Ela parecia tão confusa quanto eu.
Talvez estivesse morta. A possibilidade era absurda, mas ainda menos absurda do que qualquer explicação alternativa. Aquilo podia ser alguma espécie de vida após a morte, ou talvez a pedra tivesse criado uma ilusão antes de minha consciência desaparecer definitivamente. Depois de tudo que eu havia visto nos últimos meses, aceitar um lugar como real apenas porque parecia familiar seria uma ótima maneira de morrer pela segunda vez.
A porta do guarda-roupa estava fechada, e fiquei observando-a por alguns segundos antes de me aproximar. Segurei a maçaneta e abri de uma vez, recuando imediatamente.
Encontrei apenas roupas.
Soltei o ar que nem percebera estar prendendo e comecei a afastar os cabides, verificando o fundo do armário e o espaço entre algumas caixas. Não havia ninguém escondido ali. Quando puxei uma blusa para examinar melhor, porém, a preocupação cedeu momentaneamente a uma sensação completamente diferente.
“Meu Deus.”
Ergui a peça diante de mim.
“Eu realmente usava isso?”
Uma risada pequena escapou antes que eu pudesse impedir. Fiquei olhando para a roupa, lembrando vagamente de ter me sentido maravilhosa dentro dela, e a coloquei novamente no cabide com uma expressão horrorizada. Se aquilo fosse algum tipo de vida após a morte, aparentemente também incluía punição por crimes cometidos contra a moda.
Continuei procurando.
Examinei a penteadeira, passei os dedos pelas bordas do espelho e apertei os bichos de pelúcia à procura de câmeras ou qualquer mecanismo escondido. No banheiro, verifiquei atrás da cortina, dentro do armário e sob a pia antes de voltar ao quarto e olhar embaixo da cama. Encontrei somente alguns sapatos, uma caixa esquecida e poeira suficiente para me fazer franzir o nariz.
Se aquilo fosse uma armadilha, alguém havia dedicado atenção demais aos detalhes.
Talvez fosse simplesmente um sonho.
Essa possibilidade começou a parecer quase reconfortante. Meu cérebro poderia estar produzindo tudo aquilo durante os últimos segundos antes da morte definitiva, oferecendo-me uma versão de um lugar que não existia mais. Eu não sabia o que acontecia depois que um vampiro morria, e certamente ninguém havia escrito um manual explicando se arrancar o coração enquanto se segurava uma pedra mágica podia provocar alucinações particularmente elaboradas.
Saí para o corredor.
A casa parecia ainda mais real fora do quarto. A luz da manhã atravessava as janelas e iluminava os móveis que eu conhecia desde criança, enquanto uma corrente de ar trazia de fora o cheiro de grama recém-cortada. Em algum lugar da vizinhança, um cortador de grama funcionava com aquele ruído irritantemente constante que eu costumava odiar nas manhãs de verão. Um telefone tocou numa casa próxima, uma porta de carro bateu e, pouco depois, ouvi uma mulher chamando uma criança que aparentemente não queria entrar.
Permaneci junto ao corrimão escutando.
Eu havia crescido cercada por aqueles sons e jamais lhes dera importância. Na Mystic Falls que deixara para trás, as ruas haviam se tornado lugares pelos quais se passava depressa. Casas permaneciam fechadas, lojas tinham sido abandonadas e qualquer ruído inesperado podia significar que alguma coisa havia encontrado você. Ali, alguém discutia com uma criança sobre entrar para tomar café da manhã.
A normalidade me pareceu mais surreal do que qualquer coisa sobrenatural.
Comecei a descer as escadas, ainda tentando absorver o que estava vendo, quando percebi a porta entreaberta do quarto da minha mãe.
Parei.
Durante anos depois da morte de Liz, eu evitara pensar naquele cômodo porque minha memória insistia em transformá-lo em parte da despedida. Eu podia tentar lembrar de minha mãe sorrindo, trabalhando, reclamando das minhas escolhas ou fingindo que não estava cansada depois de um plantão, mas algumas lembranças sempre terminavam na mesma imagem dolorosa de seu rosto enfraquecido pela doença.
Minha primeira reação foi continuar descendo.
Se aquilo fosse uma ilusão, eu já sabia qual seria a maneira mais eficiente de me destruir.
Bastaria colocar minha mãe atrás daquela porta.
Ainda assim, voltei.
Empurrei-a cuidadosamente e encontrei o quarto vazio. A cama estava arrumada com a precisão habitual de Liz, os travesseiros alinhados e a colcha esticada, enquanto algumas roupas dobradas aguardavam sobre uma cadeira. Uma caneca vazia permanecia esquecida sobre a mesa de cabeceira e um par de sapatos estava próximo ao armário, como se minha mãe tivesse saído dali naquela manhã esperando voltar poucas horas depois.
Entrei devagar.
Foi a banalidade que tornou tudo doloroso.
Não havia nada perfeito naquela reconstrução. O quarto estava simplesmente habitado, com pequenos sinais de uma rotina que eu não via havia anos. Passei a mão pela colcha e reconheci o perfume de minha mãe preso ao tecido.
Então encontrei os porta-retratos.
Peguei um deles com cuidado. Na fotografia, minha mãe estava atrás de mim segurando uma bicicleta enquanto uma Caroline muito menor sorria para a câmera com os joelhos sujos. Eu me lembrava daquele dia. Tinha caído, chorado, acusado a bicicleta de estar com defeito e declarado que jamais pisaria nela outra vez. Minha mãe esperara meu drama terminar, limpara meus joelhos e me colocado sobre a bicicleta novamente.
Passei o polegar pelo vidro que cobria seu rosto.
As lágrimas começaram antes que eu pudesse impedir.
Sentei-me na beirada da cama e apertei o porta-retrato contra o peito, tentando controlar um choro que parecia ter esperado meses pela oportunidade de finalmente sair. Naquele quarto silencioso, cercada pelas coisas de minha mãe, toda a dor que eu vinha empurrando para depois encontrou espaço de uma vez. Chorei por tudo que perdera e até pelo homem que Stefan havia sido, embora ainda sentisse vergonha de admitir que conseguia lamentar alguém cuja última ação fora arrancar meu coração.
Não ouvi os passos no corredor.
Só percebi que não estava mais sozinha quando a porta se abriu.
“Caroline?”
Meu corpo inteiro congelou.
Ergui a cabeça.
Liz Forbes estava parada na entrada.
Minha mãe usava o uniforme de trabalho, com o distintivo preso próximo à cintura e o cabelo loiro arrumado como eu lembrava. Não havia palidez de doença em seu rosto nem cansaço escondido sob maquiagem. Seus olhos azuis me encaravam com uma preocupação tão familiar que meu primeiro impulso foi correr para seus braços.
Não consegui.
A lembrança de Liv surgiu primeiro, seguida pelos outros mortos que tínhamos encontrado andando por Mystic Falls com rostos conhecidos e lembranças suficientes para fazer alguém hesitar antes de perceber o que realmente eram.
Apertei o porta-retrato contra o peito e recuei sobre a cama.
Liz franziu a testa.
“Filha, o que aconteceu?”, perguntou enquanto entrava no quarto, mas interrompeu o movimento quando percebeu que eu me afastava.
“Não chega perto.”
Minha mãe ficou imóvel.
A preocupação em seu rosto se transformou em verdadeiro alarme. Em vez de avançar, porém, ergueu lentamente as mãos e permaneceu onde estava.
“Tudo bem, eu fico aqui”, respondeu, observando meu rosto como se procurasse algum ferimento. “Mas você precisa me dizer o que aconteceu. Você está machucada? Teve algum pesadelo?”
Não respondi. Precisava descobrir se aquilo era realmente minha mãe, embora não soubesse como. Os revividos carregavam lembranças, então perguntar seu nome ou alguma coisa óbvia não provaria nada.
Olhei para a fotografia em minhas mãos.
“Mãe, o que você fez quando eu tinha oito anos e decidi que nunca mais queria andar de bicicleta?”
A pergunta pareceu surpreendê-la.
“O quê?”
“Só responde.”
Liz soltou o ar e lançou um olhar para o relógio no pulso antes de voltar a me observar. “Você caiu na calçada, ralou os dois joelhos e começou a gritar que a bicicleta estava com defeito. Eu disse que ela estava ótima, você disse que eu estava do lado dela e passou quase cinco minutos sem falar comigo.”
Minha boca tremeu.
“E depois?”
“Depois você tentou de novo porque percebeu que a bicicleta da Bonnie tinha rodinhas e decidiu que aprender antes dela era uma questão de honra.” Minha mãe inclinou a cabeça e me estudou por alguns segundos. “Agora você pode me dizer por que estou sendo interrogada sobre uma bicicleta às oito da manhã?”
Fechei os olhos.
Eu nem me lembrava conscientemente daquela parte sobre Bonnie.
Quando os abri novamente, minha mãe continuava ali.
Atravessei a distância entre nós antes que pudesse pensar melhor.
Liz mal teve tempo de reagir quando passei os braços ao redor dela e enterrei o rosto em seu ombro. O impacto a fez recuar meio passo, mas imediatamente senti seus braços me envolvendo e uma das mãos subindo para meus cabelos.
O perfume dela atingiu meu nariz.
Alguma coisa dentro de mim cedeu.
Chorei de um jeito que não conseguira diante da fotografia, apertando minha mãe com tanta força que provavelmente a estava machucando. Ela estava quente. Respirava. Sob meu ouvido havia um coração batendo regularmente, e aquele som simples me atingiu com uma violência que nenhuma ilusão deveria ser capaz de produzir.
“Caroline, querida...” Liz acariciou minha nuca enquanto tentava afastar o rosto o suficiente para me olhar. “O que aconteceu?”
Balancei a cabeça contra seu ombro.
“Eu senti sua falta.”
Minha mãe ficou alguns segundos em silêncio.
“Eu estava trabalhando ontem.”
Uma risada engasgada escapou entre minhas lágrimas.
“Eu sei.”
“Eu literalmente dormi neste quarto.”
“Eu sei, mãe.”
Liz conseguiu me afastar o suficiente para segurar meu rosto entre as mãos. Seus polegares enxugaram parte das lágrimas enquanto ela me examinava com aquela atenção que sempre me fazia confessar coisas que pretendia esconder.
“Você está me assustando.”
A culpa surgiu imediatamente.
“Desculpa.” Passei as mãos pelo rosto, tentando recuperar algum controle. “Eu tive um sonho muito ruim.”
“Um sonho?”
“Foi muito real.”
Liz continuou me observando.
“Sobre mim?”
Engoli em seco e assenti.
“Eu morria?”
A simplicidade da pergunta quase me desmontou outra vez.
“Sim.”
Minha mãe soltou um suspiro e me puxou novamente para seus braços, dessa vez sem a mesma tensão de antes.
“Foi só um pesadelo, querida”, murmurou enquanto acariciava minhas costas.
Fechei os olhos.
Por alguns segundos, permiti que fosse verdade.
Imaginei que tudo aquilo que lembrava tivesse sido apenas um pesadelo particularmente cruel, que minha mãe nunca tivesse adoecido e que eu jamais tivesse acordado como vampira, enterrado amigos ou visto Mystic Falls se transformar numa cidade de mortos.
Então me lembrei da pedra queimando em minha mão.
Não disse nada.
Liz acabou se afastando e olhou novamente para o relógio.
“Quer que eu ligue para o trabalho e fique com você?”
Uma parte infantil de mim quis responder sim imediatamente. Quis impedi-la de atravessar aquela porta, esconder suas chaves e mantê-la dentro de casa até descobrir o que estava acontecendo.
“Não.” Forcei um sorriso. “Vai trabalhar.”
“Tem certeza?”
“Tenho. Só preciso de um banho e alguma coisa para comer.”
Liz não pareceu convencida, mas pegou as chaves sobre a cômoda e eu acompanhei o movimento com uma atenção quase desesperada. Era absurdo observar minha mãe guardar o celular na bolsa, ajeitar o distintivo na cintura e verificar se tinha levado tudo, mas eu havia esquecido aquelas pequenas coisas. Em algum momento da minha vida, assistir Liz se preparar para sair fora tão comum que eu mal levantava os olhos.
Ela caminhou até a porta.
“Mãe?”
Liz se virou. “O quê?”
Eu não sabia o que pretendia dizer. Pedir que não morresse parecia uma maneira particularmente eficiente de fazê-la cancelar o trabalho e me levar diretamente a um hospital.
“Tenha cuidado.”
Minha mãe arqueou uma sobrancelha enquanto ajustava a alça da bolsa no ombro. “Eu sempre tenho.”
Observei-a sair e permaneci no mesmo lugar até ouvir seus passos descendo as escadas. Pouco depois, a porta da frente se abriu e fechou novamente. Atravessei o quarto até a janela e afastei discretamente a cortina, vendo Liz entrar na viatura estacionada diante da casa.
Continuei olhando até o carro desaparecer no fim da rua.
Se aquilo era um sonho, meu cérebro estava sendo cruel demais.
---
Passei boa parte da manhã esperando acordar.
Não havia outra maneira de explicar o que estava acontecendo, então me agarrei à única possibilidade que ainda parecia minimamente aceitável. Tomei banho esperando que a água quente desaparecesse de repente e me devolvesse à floresta, mas continuei no mesmo banheiro quando desliguei o chuveiro. O vapor cobria o espelho, minha pele estava avermelhada pelo calor e havia pequenas marcas onde eu a apertara com força demais.
As marcas permaneceram.
Aquilo me fascinou mais do que deveria.
Durante anos meu corpo havia se curado antes mesmo que eu pudesse prestar atenção em pequenos ferimentos. Agora bastava esfregar a pele para deixá-la vermelha, e quando passei os dedos sobre o peito não encontrei qualquer sinal da abertura pela qual Stefan arrancara meu coração.
Evitei olhar para aquele ponto por muito tempo.
No quarto, o guarda-roupa apresentou outro problema. Algumas peças pareciam familiares, outras eu sinceramente preferia continuar fingindo que jamais comprara, mas tudo pertencia inequivocamente a outra época. Havia jeans de cintura baixa que minha versão mais jovem aparentemente considerava perfeitamente razoáveis, blusas sobrepostas, cintos largos demais para desempenhar qualquer função prática e uma quantidade de acessórios que me fez questionar por que ninguém havia organizado uma intervenção.
Acabei escolhendo alguma coisa simples e fui procurar meu telefone.
Quando encontrei o aparelho, fiquei encarando-o.
“Isso é sério?”
Virei-o na mão e apertei alguns botões, lembrando aos poucos de como funcionava. Não havia tela enorme ocupando praticamente todo o aparelho, nenhum aplicativo para cada necessidade humana imaginável e nenhuma das facilidades às quais eu me acostumara anos depois.
Talvez o inferno fosse aquilo.
Voltar para uma época em que mandar uma mensagem exigia apertar a mesma tecla três vezes.
A ideia conseguiu arrancar de mim outra risada, mas ela desapareceu quando encontrei nomes conhecidos na lista de contatos. Meu polegar parou sobre Bonnie.
Poderia ligar.
A simples possibilidade fez meu peito apertar.
Em vez disso, deixei o telefone sobre a cama.
Se estava sonhando, não queria ouvir a voz dela por um aparelho. Queria vê-la.
Desci para a cozinha e abri a geladeira. Fiquei alguns segundos diante das prateleiras cheias, absorvendo uma abundância que minha versão adolescente jamais teria notado. Depois dos últimos meses, em que encontrar alimento significava percorrer quilômetros procurando animais e torcer para que o sangue fosse suficiente para manter meu corpo funcionando, ver frutas, leite, ovos, queijo e recipientes com sobras de comida pareceu quase obsceno.
Meu estômago roncou.
A sensação era tão comum que sorri.
Preparei alguma coisa e sentei à mesa. A primeira mordida me fez parar. Eu ainda comia quando era vampira, claro, mas havia esquecido como era sentir fome daquela maneira e satisfazê-la com comida. Continuei mais devagar, prestando atenção aos sabores e às texturas como se estivesse experimentando tudo pela primeira vez.
Depois, voltei para o quarto e fiz uma coisa que me pareceu absolutamente lógica.
Fui dormir.
Se aquilo era um sonho, acordar deveria resolver.
Fechei as cortinas, deitei na cama e permaneci algum tempo encarando o teto, tentando ignorar a ansiedade crescente. Uma parte de mim tinha medo de abrir os olhos novamente na floresta. Outra tinha medo ainda maior de não abrir.
Quando finalmente adormeci, sonhei com Stefan.
Acordei algumas horas depois com o coração disparado e as mãos agarradas ao lençol.
O sol havia mudado de posição.
O mesmo teto continuava acima de mim.
Fiquei deitada por vários minutos, observando a luz atravessar as cortinas e tentando compreender por que aquilo ainda existia.
Talvez fosse hora de sair.
---
Mystic Falls parecia menor do que eu lembrava.
Ou talvez eu tivesse simplesmente crescido.
Dirigir por aquelas ruas produziu uma sensação que eu não sabia nomear. As árvores estavam verdes e densas sob o sol do verão, os jardins diante das casas estavam cuidados e havia carros estacionados ao longo das calçadas. Pessoas entravam e saíam das lojas, algumas carregando sacolas, outras parando para conversar como se tivessem todo o tempo do mundo.
Nenhuma janela estava coberta por tábuas.
Não havia fumaça no horizonte.
Passei por uma loja cuja fachada eu lembrava de ter visto destruída e diminuí a velocidade sem perceber. Duas mulheres saíram de lá carregando sacolas enquanto continuavam uma conversa, completamente indiferentes ao fato de que eu as observava como se fossem parte de alguma aparição.
Mais adiante, um grupo de adolescentes atravessou a rua. Um dos garotos segurava um celular pequeno nas mãos enquanto outra garota mexia num iPod preso ao bolso do short, os fios brancos dos fones enrolados perto do pescoço. Havia cartazes coloridos nas vitrines, revistas expostas perto de uma banca e roupas que eu não via havia anos andando novamente pelas calçadas como se nunca tivessem saído de moda.
Aquilo não parecia uma reconstrução perfeita do passado.
Parecia o passado.
Apertei o volante.
“É um sonho”, murmurei, embora minha própria voz já não parecesse acreditar completamente.
Quando estacionei diante do Mystic Grill, permaneci algum tempo dentro do carro.
O prédio estava intacto.
Havia música vindo lá de dentro quando abri a porta, misturada ao ruído de conversas, talheres e copos. O ar cheirava a fritura, refrigerante e madeira, e precisei parar logo depois da entrada porque aquela combinação banal de sons e cheiros atingiu alguma parte da minha memória.
Eu estivera ali centenas de vezes.
Também vira aquele lugar vazio.
Respirei fundo e continuei.
Foi quando ouvi uma risada conhecida.
Virei o rosto.
Bonnie estava sentada em uma das mesas.
Matt estava com ela.
Meu corpo parou antes que eu pudesse impedir.
Bonnie tinha os cabelos daquele jeito que eu quase havia esquecido e segurava um copo enquanto falava alguma coisa. Matt estava inclinado sobre a mesa, sorrindo para ela, muito mais jovem do que o homem cansado que eu carregava na memória.
Nenhum dos dois parecia assombrado pelo que ainda não havia acontecido.
Bonnie me viu primeiro.
Seu rosto se iluminou.
“Caroline!”
Ela levantou a mão para chamar minha atenção.
E alguma coisa dentro de mim finalmente começou a entender que, sonho ou não, eu não estava preparada para aquilo.
Bonnie continuou com a mão erguida por alguns segundos, até o sorriso em seu rosto começar a desaparecer.
Eu sabia que precisava andar. Precisava sorrir, dizer alguma coisa e me comportar como a Caroline que ela esperava encontrar, mas fiquei parada perto da entrada do Grill enquanto as pessoas passavam ao meu redor. Uma garçonete precisou desviar de mim carregando uma bandeja e lançou um olhar impaciente em minha direção, obrigando-me finalmente a sair do caminho.
Bonnie já estava se levantando quando consegui chegar à mesa.
“Você está bem?”, perguntou, deixando o copo para trás enquanto me examinava da cabeça aos pés. “Porque você está com uma cara muito estranha.”
“Obrigada.”
A resposta saiu por hábito, e a familiaridade daquilo quase me fez rir. Bonnie arqueou uma sobrancelha, mas antes que pudesse perguntar qualquer outra coisa eu a abracei.
Não pensei.
Simplesmente passei os braços ao redor dela e apertei.
Bonnie soltou um pequeno som de surpresa e demorou um instante para corresponder, provavelmente porque a Caroline que conhecia não costumava atravessar o Grill para abraçá-la como se tivesse acabado de voltar de uma guerra. Para mim, no entanto, o último rosto de Bonnie que eu carregava na memória não tinha nada daquela juventude. Eu me lembrava de sangue, de desespero e de todas as vezes em que minha melhor amiga se sacrificara por pessoas que continuavam pedindo mais dela até não restar nada.
Enterrei o rosto em seu ombro.
Ela cheirava a perfume e xampu.
Não a sangue.
“Caroline?”, chamou novamente, dessa vez bem perto do meu ouvido, enquanto uma das mãos tocava minhas costas. “O que aconteceu?”
Balancei a cabeça e continuei abraçando-a por mais um segundo antes de perceber que estava começando a assustá-la.
“Desculpa.” Afastei-me e limpei rapidamente os olhos antes que as lágrimas chegassem a cair. “Eu só...”
Não encontrei uma explicação.
Bonnie inclinou a cabeça. “Você só...?”
“Estou feliz em ver você.”
Ela olhou para Matt.
Matt olhou para mim.
“Isso é preocupante”, comentou ele, apoiando os braços sobre a mesa. “Geralmente ninguém fica tão feliz assim em ver a gente.”
Eu ri.
Não consegui evitar.
Aquela voz, aquele sorriso e até o jeito levemente autodepreciativo eram tão absurdamente Matt que senti meus olhos arderem outra vez. Antes que pudesse pensar melhor, estendi a mão e toquei seu braço.
Matt baixou os olhos para meus dedos.
Depois voltou a me encarar.
“Oi para você também.”
Retirei a mão imediatamente. “Desculpa.”
“Tudo bem.” Ele sorriu, embora parecesse cada vez mais desconfiado. “Mas agora estou começando a concordar com Bonnie.”
“Eu disse que ela estava estranha.”
“Você disse que eu estava com uma cara estranha”, corrigi, puxando uma cadeira para me sentar.
“Você também está agindo estranho.”
“Talvez eu esteja tendo um dia estranho.”
Bonnie voltou a ocupar o lugar diante de mim, mas não tirou os olhos do meu rosto. Eu havia esquecido o quanto ela podia ser observadora quando queria. Mais tarde, isso se tornaria quase impossível de contornar, especialmente depois que seus poderes começaram a se desenvolver. Naquele momento, porém, ela ainda parecia apenas uma adolescente preocupada com uma amiga que havia aparecido no Grill agindo como se tivesse sofrido algum tipo de colapso nervoso.
A música tocando nos alto-falantes mudou e olhei instintivamente para o ambiente enquanto tentava me recompor. Quanto mais tempo permanecia ali, mais detalhes me atingiam. Havia celulares pequenos sobre algumas mesas, nenhum deles ocupando a atenção de todos como aconteceria anos depois, e um garoto perto do balcão digitava alguma coisa usando o teclado físico do aparelho. Uma televisão presa no alto exibia um programa que eu não reconheci imediatamente, enquanto duas garotas próximas à janela discutiam alguma coisa folheando uma revista em vez de olharem para uma tela.
As roupas também estavam erradas.
Ou certas demais.
Eu tinha acabado de passar quase dez anos vendo tendências mudarem e agora estava cercada novamente por cintos largos, coletes, shorts muito baixos, pulseiras empilhadas e uma quantidade alarmante de estampas. Uma garota passou usando uma bolsa enorme que poderia facilmente transportar uma criança pequena e, por algum motivo, aquilo quase conseguiu me convencer mais do que qualquer outra coisa de que eu realmente estava no passado.
Meu olhar voltou para Bonnie.
Ela ainda me observava.
“Você vai continuar me encarando até eu confessar alguma coisa?”
“Depende. Tem alguma coisa para confessar?”
“Não.”
A resposta saiu rápida demais.
Bonnie estreitou os olhos.
“Então vou continuar encarando.”
Matt riu e levou o copo à boca. “Boa sorte. Ela faz isso desde que chegou.”
“Eu acabei de chegar.”
“Exatamente.”
Apesar de tudo, sorri.
Era tão normal.
Eles estavam sentados no Grill numa tarde de verão discutindo comigo porque eu estava esquisita. Ninguém precisava fugir, esconder uma pedra ou descobrir qual dos mortos andando pela cidade ainda era capaz de pensar. Por alguns minutos, deixei a conversa deles preencher o espaço ao meu redor sem tentar entender nada.
Talvez fosse isso que tornava aquele sonho tão perigoso.
Eu queria ficar.
“Quer alguma coisa?”, Bonnie perguntou, empurrando o cardápio em minha direção. “A gente acabou de pedir.”
Peguei o cardápio mais para ter alguma coisa para fazer com as mãos do que por fome. O papel parecia usado nas bordas e havia uma pequena mancha perto de uma das bebidas, um detalhe tão banal que fiquei passando o polegar sobre ela.
“Você está olhando para o cardápio como se nunca tivesse visto um.”
“Estou decidindo.”
“Você sempre pede a mesma coisa.”
Levantei os olhos.
“Eu peço?”
Bonnie ficou imóvel por um instante.
Matt começou a rir.
“Okay, agora ficou preocupante.”
Fechei o cardápio. “Eu dormi mal.”
“Você bebeu ontem?”, Bonnie perguntou enquanto apoiava os cotovelos na mesa.
“Não.”
“Bateu a cabeça?”
“Minha mãe perguntou a mesma coisa.”
“Isso não responde.”
Suspirei e encostei-me na cadeira. “Eu tive um pesadelo muito ruim. Foi só isso.”
Bonnie continuou me encarando.
“Que tipo de pesadelo?”
A imagem do coração nas mãos de Stefan surgiu tão rapidamente que meus dedos se apertaram ao redor do cardápio.
“Do tipo que você não quer contar.”
A brincadeira desapareceu do rosto dela.
“Foi tão ruim assim?”
“Foi.”
Bonnie pareceu considerar insistir, mas Matt a interrompeu quando seu celular vibrou sobre a mesa. Ele pegou o aparelho, leu a mensagem e começou a responder com os polegares. Observei-o por alguns segundos, fascinada pela lentidão com que precisava digitar.
Matt percebeu.
“O quê?”
“Nada.”
“Você está me encarando.”
“Estou vendo você escrever.”
Ele olhou para o telefone e depois para mim. “É assim que mensagens funcionam.”
Bonnie começou a rir.
“Eu sei como mensagens funcionam.”
“Não parece.”
“Meu Deus, vocês dois são irritantes.”
Dizer aquilo fez uma sensação quente e dolorosa se espalhar pelo meu peito.
Eu sentira falta disso.
Matt terminou a mensagem e deixou o celular sobre a mesa. “Era Elena.”
O nome me atingiu de maneira diferente.
Meu sorriso desapareceu antes que eu pudesse controlar.
“Elena?”
“Sim.” Ele franziu a testa. “Você lembra dela, certo?”
“Engraçadinho.”
“Só estou conferindo.”
Bonnie lançou-lhe um olhar de repreensão e depois voltou para mim. “Ela ainda está na Jenna.”
Demorei um instante para processar.
“Na Jenna?”
“Sim.”
Eu conhecia a casa de Jenna. Conhecia todas as coisas que aquela frase deveria significar e, ao mesmo tempo, alguma coisa estava errada. Minha memória parecia uma gaveta que alguém tivesse virado no chão. Eu tinha acontecimentos demais, anos demais e mortes demais tentando ocupar o mesmo espaço.
“Por quê?”
Os dois me olharam.
Bonnie foi a primeira a responder. “Porque os pais dela foram passar o dia fora e ela resolveu dormir lá ontem.”
Meu corpo ficou rígido.
Os pais dela.
Não a mãe. Não o pai. Não uma lembrança distante sobre a família que Elena perdera antes de tudo começar.
Os pais dela.
Miranda e Grayson.
Senti meu coração acelerar.
“Eles estão...”
Parei.
Bonnie inclinou-se um pouco para a frente. “Estão o quê?”
“Não importa.”
Matt olhou para Bonnie novamente.
Eu odiava quando faziam aquilo.
Ou lembrava de odiar.
“Eu vou buscar Elena daqui a pouco”, ele comentou, pegando uma batata frita do prato. “Ela quer passar aqui antes de voltar para casa.”
Olhei para ele.
Havia algo naquela frase que me incomodava além do óbvio, e levei alguns segundos para entender.
Matt ia buscar Elena.
Matt e Elena ainda estavam juntos.
Ou próximos o suficiente para aquilo.
Meu olhar percorreu seu rosto jovem e completamente alheio ao futuro, e de repente me lembrei de outra pessoa.
“E Damon?”
O silêncio na mesa foi imediato.
Meu estômago afundou.
Bonnie franziu a testa. “Quem?”
Não respondi.
Matt parecia genuinamente confuso. “Damon quem?”
Meu coração começou a bater mais depressa.
Olhei de um para o outro procurando qualquer sinal de brincadeira. Não havia.
“Damon Salvatore.”
Bonnie continuou esperando alguma explicação.
Matt balançou a cabeça.
“É alguém da escola?”
“Não.”
“Amigo seu?”
“Definitivamente não.”
Bonnie arqueou uma sobrancelha. “Então por que a gente deveria conhecer?”
Abri a boca.
Fechei novamente.
O barulho do Grill pareceu diminuir ao meu redor.
Damon ainda não estava ali.
Ou, pelo menos, ainda não fazia parte da vida deles.
Minha mente voltou à conversa sobre Elena, aos pais dela passando o dia fora, a Matt indo buscá-la na casa de Jenna e àquele verão que eu quase não lembrava porque, na época, nada parecia importante.
Antes de Stefan.
Antes de Damon.
Antes de tudo.
Segurei a borda da mesa.
“Que dia é hoje?”
Bonnie piscou.
“Caroline...”
“Só responde.”
Ela me encarou por alguns segundos, provavelmente tentando decidir se eu estava brincando. Quando percebeu que não, pegou o celular e olhou para a tela.
“Vinte e cinco de junho.”
Minha boca ficou seca.
“De que ano?”
Matt parou de mastigar.
Bonnie baixou lentamente o telefone.
“Okay. Agora eu realmente estou preocupada.”
“Bonnie.”
“2009.”
O Grill inteiro pareceu se inclinar.
Apoiei uma das mãos sobre a mesa e respirei devagar enquanto tentava organizar as lembranças. Não podia ser. Eu tinha entendido alguma coisa errada. Talvez aquela fosse simplesmente a data que meu cérebro escolhera para construir o sonho.
Vinte e cinco de junho de 2009.
Verão.
Elena estava na casa de Jenna.
Os pais dela ainda estavam vivos.
Fechei os olhos.
A ponte.
A lembrança surgiu sem pedir permissão. Elena havia contado aquela história tantas vezes ao longo dos anos que eu conhecia partes dela como se tivesse estado lá. A discussão, o carro, Wickery Bridge, a água e Stefan chegando tarde demais para salvar Miranda e Grayson depois de Elena insistir para que ele ajudasse os pais primeiro.
Mas Stefan ainda não fazia parte da vida dela.
Meu estômago se contraiu.
“Quanto falta...”
Parei antes de terminar.
Bonnie tocou minha mão.
“Caroline, olha para mim.”
Abri os olhos.
A preocupação no rosto dela era tão real que senti vontade de chorar novamente.
“Eu estou bem.”
“Você acabou de perguntar em que ano estamos.”
“Eu disse que dormi mal.”
“Dormir mal não causa amnésia.”
Matt afastou o prato e se inclinou para a frente, perdendo finalmente o tom de brincadeira. “Quer que a gente ligue para sua mãe?”
“Não!”
Minha resposta saiu alta demais e algumas pessoas próximas olharam para nossa mesa. Baixei a voz imediatamente.
“Não liga para ela. Ela está trabalhando.”
Bonnie apertou meus dedos.
“Então deixa eu levar você para casa.”
“Eu vim de carro.”
“Eu sei.”
“Bonnie, eu consigo dirigir.”
“Você não sabe em que ano está.”
“Eu sei agora.”
Matt cobriu a boca com a mão para esconder uma risada.
Lancei-lhe um olhar irritado.
“Não ajuda.”
“Desculpa.”
Ele não parecia arrependido.
Bonnie puxou minha bolsa antes que eu pudesse impedir e começou a procurar dentro dela.
“Ei!” protestei “Devolve.”
“Não.”
Tentei pegar a bolsa, mas ela a afastou e continuou procurando até encontrar o chaveiro. Ergueu-o com um sorriso satisfeito.
“Bonnie Bennett.”
“Caroline Forbes.”
“Eu odeio quando você faz isso.”
“Você faz comigo.”
Fiquei olhando para ela.
A resposta era tão familiar que por um instante nenhuma palavra veio.
Bonnie percebeu a mudança no meu rosto.
“Ei.” O sorriso desapareceu e ela colocou a bolsa sobre a mesa antes de tocar meu braço.
“Sério. O que está acontecendo?”
Olhei para sua mão sobre a minha.
A pele estava quente.
Bonnie ainda era apenas Bonnie. Não a bruxa que carregaria o peso de todos nós, não a mulher que eu vira morrer e não uma lembrança que meu cérebro insistia em preservar.
Eu poderia contar. Por um segundo, quase contei tudo.
Então imaginei tentar explicar que ela morreria por causa de uma pedra mágica criada por forças que nenhuma de nós sequer conhecia naquele momento, depois de anos de vampiros, híbridos, bruxas, Original, inferno e perdas que aquela garota sentada diante de mim ainda não conseguia imaginar.
“Eu realmente tive um pesadelo horrível”, respondi, fechando a mão sobre a dela. “Só preciso ir para casa.”
Bonnie continuou me observando.
“E eu vou levar você.”
Dessa vez não discuti.
---
Bonnie dirigia meu carro.
Eu ainda não tinha decidido se aquilo era mais perturbador do que acordar morta e humana no meu antigo quarto.
Estava sentada no banco do passageiro, com a janela parcialmente aberta, enquanto o ar quente do verão entrava no veículo e movimentava meus cabelos. Bonnie havia ligado o rádio e reclamado de alguma coisa sobre minha escolha de estação, mas eu mal ouvira. Minha atenção estava do lado de fora.
Mystic Falls passava pela janela.
As casas tinham jardins cuidados e carros nas garagens, algumas crianças andavam de bicicleta pelas calçadas e duas mulheres conversavam diante de uma loja enquanto seguravam copos de café. Uma faixa anunciava algum evento de verão e, mais adiante, um homem colocava caixas na traseira de uma caminhonete.
Eu conhecia aquelas ruas.
Só não as conhecia daquele jeito há muito tempo.
“Você está fazendo de novo”, Bonnie comentou.
Virei o rosto.
“Fazendo o quê?”
“Olhando para tudo como se nunca tivesse visto.”
“Talvez eu esteja apreciando a paisagem.”
“Você reclama dessa cidade desde que aprendeu a falar.”
“Eu não reclamo tanto assim.”
Bonnie me lançou um olhar rápido antes de voltar a prestar atenção na rua.
“Semana passada você disse que Mystic Falls era um buraco onde sonhos vinham morrer.”
Fiz uma careta.
“Isso parece dramático até para mim.”
“Você também disse que, se não saísse daqui depois da formatura, ia acabar casada com alguém que joga golfe e organizando festas beneficentes.”
Dessa vez eu ri.
“Okay. Essa parte parece comigo.”
Bonnie sorriu e aumentou um pouco o volume do rádio.
Voltei a olhar pela janela.
Meu sorriso desapareceu devagar.
Passamos por uma esquina que, anos depois, eu lembrava coberta de destroços. A loja seguinte ainda tinha as vitrines inteiras. Havia flores em vasos diante de uma casa cujo telhado eu vira queimado. Pessoas caminhavam sem olhar constantemente por cima do ombro, sem pressa para chegar a algum abrigo antes de escurecer.
A cidade não sabia o que aconteceria com ela.
Nenhum deles sabia.
Encostei a cabeça no banco e fechei os olhos.
A data continuava repetindo-se dentro da minha cabeça.
25 de junho de 2009.
Eu sabia o que aconteceria em Wickery Bridge. Sabia que Elena entraria naquele carro com os pais e sairia da água sem eles. Sabia também que aquele acidente colocaria Stefan novamente no caminho de uma garota que se parecia exatamente com Katherine Pierce e iniciaria uma sequência de acontecimentos que transformaria todas as nossas vidas.
Mas ainda não tinha acontecido.
Abri os olhos.
Bonnie cantarolava baixinho junto com o rádio, batendo os dedos no volante enquanto dirigia. O sol atravessava o para-brisa e iluminava seu rosto, e por um momento eu simplesmente a observei.
Ela percebeu.
“Caroline.”
“Desculpa.”
“Você está me assustando.”
“Eu sei.”
“Isso não foi um pedido de desculpas.”
Sorri e virei novamente para a janela.
Talvez eu estivesse morta.
Talvez aquilo fosse um sonho tão elaborado que meu cérebro conseguia inventar o calor do sol sobre meu braço, músicas antigas no rádio e o cheiro do perfume de Bonnie dentro do carro. Talvez, em algum momento, eu abrisse os olhos e encontrasse novamente a floresta, Stefan e meu próprio sangue.
Mas havia outra possibilidade agora.
Uma que eu tinha medo até de formular.
Minha mãe tinha me abraçado naquela manhã. Bonnie estava ao meu lado discutindo comigo sobre minha estranheza, Matt continuava sentado no Grill esperando para buscar Elena e, em algum lugar de Mystic Falls, Miranda e Grayson Gilbert ainda estavam levando uma vida tão comum que a filha podia passar uma noite na casa da tia sem imaginar que dentro de poucos dias tudo mudaria.
Eu conhecia aquele futuro.
Só que, pela primeira vez, ele ainda não tinha acontecido.
Fale com o autor