Make a Wish (Revisando)
3 Chapter – III What Hasn't Happened Yet.
"Você não pode girar para trás os ponteiros do tempo. Apenas deixe ir e você ficará bem. O que está feito está feito, e está tudo bem."
Hands of Time — Rachel Diggs
CAROLINE
Acordei esperando encontrar meu quarto e, durante aquele breve intervalo entre o sono e a consciência, não pensei na floresta, na pedra ou em Stefan. Estendi uma das mãos pelo colchão à procura do travesseiro que tinha empurrado para o lado durante a noite e resmunguei quando a claridade atravessou minhas pálpebras. Por alguns segundos, fui apenas uma garota incomodada pelo sol entrando cedo demais pela janela, até abrir os olhos e reconhecer o teto que tinha visto na manhã anterior. Meu coração acelerou devagar, acompanhando o retorno das lembranças, e me sentei para examinar o quarto, quase esperando que alguma coisa tivesse mudado enquanto dormia.
As cortinas continuavam se movendo suavemente com o ar que entrava pela janela entreaberta, as roupas que eu deixara sobre a cadeira permaneciam exatamente onde estavam e o pequeno rádio sobre a cômoda marcava uma hora perfeitamente normal para uma manhã de férias. Eu tinha dormido, sonhado e acordado, mas continuava ali, no mesmo lugar onde passara o dia anterior tentando me convencer de que nada daquilo podia ser real.
Passei as duas mãos pelo rosto e permaneci sentada por algum tempo, ainda atordoada pela persistência daquele mundo. Eu havia tomado banho naquela casa, comido na cozinha, saído pelas ruas de uma Mystic Falls que já não existia no meu tempo e conversado com Bonnie e Matt no Grill. Depois voltara para casa, dormira durante uma noite inteira e acordara novamente no mesmo lugar, sem que a floresta tivesse reaparecido ou meu corpo morto finalmente resolvesse encerrar aquela alucinação.
A possibilidade de estar sonhando continuava sendo a explicação à qual eu me agarrava com mais facilidade, mas começava a exigir um esforço considerável ignorar tudo que a contradizia. Sonhos não costumavam respeitar horários, preservar objetos exatamente onde haviam sido deixados ou fazer alguém acordar precisando desesperadamente ir ao banheiro.
A última constatação conseguiu me irritar o suficiente para me fazer levantar. O piso frio sob meus pés provocou um arrepio imediato e meus dedos se contraíram contra a madeira, lembrando outra vez que aquele corpo reagia a coisas que durante anos tinham sido irrelevantes. Fui até o banheiro e, quando voltei alguns minutos depois, parei diante da janela para abrir completamente as cortinas. A claridade do verão invadiu o quarto, obrigando-me a semicerrar os olhos enquanto observava a rua lá embaixo.
O céu estava limpo, as árvores diante de casa tinham copas densas e verdes movimentadas por uma brisa leve e o gramado precisava ser aparado. Do outro lado da rua, um homem lavava o carro na garagem enquanto duas crianças passavam de bicicleta pela calçada, uma delas usando um capacete cor-de-rosa grande demais para a cabeça e pedalando depressa para alcançar a outra.
Fiquei observando as crianças até desaparecerem na esquina, mas meus olhos continuaram percorrendo a vizinhança quase por hábito, procurando os sinais de destruição aos quais haviam se acostumado nos últimos meses. Não encontrei bloqueios impedindo a passagem dos carros, casas abandonadas apodrecendo atrás de janelas quebradas ou fumaça escurecendo o horizonte. Havia jardins cuidados, carros estacionados nas garagens e uma mulher do outro lado da rua sacudindo alguma coisa sobre a varanda enquanto discutia com alguém dentro de casa. Um cachorro começou a latir atrás de uma cerca e, pouco depois, ouvi o motor de um carro se afastar.
Era apenas uma manhã de verão em Mystic Falls, tão comum que a Caroline que vivera ali provavelmente teria achado tudo tedioso, e talvez fosse justamente aquela normalidade que tornasse a experiência tão difícil de aceitar. Eu ainda resistia a chamar aquilo de passado, porque dar um nome ao que estava vendo significaria reconhecer que talvez não estivesse sonhando.
O telefone tocou no andar de baixo e me arrancou da janela com um susto. Minha mão procurou automaticamente pelo celular antes que eu percebesse que o som continuava vindo da sala, e levei alguns segundos para lembrar que havia uma época em que alguém ligar para uma casa significava realmente ligar para a casa. Desci as escadas ainda ajeitando os cabelos e encontrei o aparelho sobre o móvel próximo à parede. Só de olhar para o telefone com fio senti outra pequena estranheza, não porque tivesse esquecido que aqueles aparelhos existiam, mas porque fazia anos que não precisava correr de um cômodo para outro para atender uma ligação. Tirei o fone do gancho, apoiei-o contra o ouvido e encostei o quadril no móvel enquanto tentava controlar a respiração.
“Alô?”
“Finalmente”, reclamou Bonnie do outro lado, e reconhecer sua voz tão depressa fez meus dedos se apertarem ao redor do aparelho.
“Bom dia para você também”, respondi, começando distraidamente a enrolar o fio ao redor do indicador enquanto olhava para a sala iluminada pelo sol.
“Eu liguei para o seu celular duas vezes.” Bonnie parecia mais incomodada do que realmente preocupada, mas havia alguma coisa por baixo daquele tom que me fez olhar instintivamente para o andar de cima, onde provavelmente deixara o aparelho jogado sobre a cama.
“Estava dormindo”, expliquei, soltando o fio quando percebi que já o havia enrolado duas vezes no dedo.
“São quase onze horas.” Ouvi algum barulho do outro lado da ligação, seguido pelo som de Bonnie afastando alguma coisa antes de continuar. “Você nunca dorme até onze.”
“Estamos de férias, Bonnie. É praticamente uma obrigação moral dormir até tarde.” Caminhei até o sofá e me sentei no braço dele, puxando o fio até onde alcançava enquanto tentava lembrar da última vez em que tivera uma conversa inteira presa à distância permitida por um telefone.
“Você também nunca fala assim.”
Franzi a testa. “Assim como?”
“Não sei.” Bonnie hesitou, e pude imaginá-la fazendo aquela expressão desconfiada que usara comigo no Grill. “Você está diferente desde ontem.”
Meu primeiro impulso foi fazer uma piada e encerrar o assunto, mas fiquei olhando para os próprios pés enquanto balançava uma das pernas. A preocupação dela era genuína. Eu sabia disso e, justamente por saber, senti a resistência aparecer. Era uma reação injusta com aquela Bonnie, que ainda não tinha feito nada além de se preocupar comigo, mas a felicidade que sentira ao vê-la no Grill não tinha apagado tudo que existia entre nós. Talvez tivesse apenas encoberto durante algumas horas coisas que eu preferia não examinar.
Eu amava Bonnie. Não precisava questionar isso, porque conhecia o tamanho do buraco que sua ausência deixou em mim e ainda lembrava do desespero de segurá-la enquanto a perdia. Só que amar alguém não reorganizou magicamente todas as lembranças para torná-las bonitas. Enquanto ouvia a respiração de Bonnie do outro lado da linha, outras sensações antigas começavam a retornar junto com aquela casa, aquelas roupas e aquela versão de mim mesma.
Eu me lembrava de como era ser Caroline Forbes antes de aprender a fingir que não precisava ser escolhida, de quantas vezes observei Bonnie e Elena compartilharem alguma coisa e sentia que estava do lado de fora, e de como os problemas de Elena conseguiam ocupar todo o espaço disponível até parecer egoísmo mencionar os próprios. Nem tudo aquilo tinha sido culpa de Bonnie, e eu sabia que minha insegurança havia distorcido algumas situações, mas reconhecer isso não apagava a forma como eu me sentira.
“Care?”, chamou Bonnie quando meu silêncio se prolongou, e descruzei as pernas ao perceber que estava apertando o telefone contra o ouvido.
“Estou aqui. Só estou cansada”, respondi, escolhendo a explicação mais simples enquanto passava o polegar pela borda de plástico do aparelho. “Eu disse que tive um pesadelo horrível.”
“Eu sei, mas você estava estranha até depois de acordar. Você perguntou em que ano estava.”
“Uma vez.”
“Ontem.”
“Eu melhorei muito desde então.” Tentei colocar humor na resposta e ouvi Bonnie soltar uma risada curta, o que diminuiu um pouco a tensão em meus ombros.
“Minha avó acha que você precisa comer.” Bonnie mudou de assunto com tanta naturalidade que levei um segundo para perceber o que ela havia dito. “Ela fez torta de amora e está reclamando que eu não vou conseguir comer tudo sozinha. Eu disse que podia ajudar, mas aparentemente minha dedicação não foi considerada suficiente.”
Minha perna parou de balançar.
A palavra avó pareceu ocupar espaço demais dentro da conversa.
Sheila.
Endireitei-me lentamente no braço do sofá enquanto Bonnie continuava falando alguma coisa sobre a quantidade absurda de torta que havia na cozinha. Até aquele instante, Sheila tinha existido apenas como uma consequência abstrata da data que descobrira no Grill. Eu sabia que ela estava viva porque sabia onde estava no tempo, mas saber era muito diferente de ouvir Bonnie falar casualmente da avó como alguém que estava na cozinha reclamando de comida.
“Caroline?”, chamou Bonnie novamente, e percebi que tinha parado de prestar atenção.
“Desculpa. O que você disse?”
“Perguntei se você vem.”
Olhei para a porta da frente. A ideia de entrar naquela casa e encontrar Sheila me provocou uma ansiedade inesperada, porque cada reencontro parecia tornar aquele mundo um pouco mais difícil de chamar de sonho. Liz podia ter sido uma fantasia construída pelo meu cérebro a partir da saudade, e Bonnie e Matt podiam fazer parte da mesma explicação absurda, mas quantas pessoas eu precisaria tocar, ouvir e observar antes que aquilo deixasse de funcionar?
“Eu vou”, respondi finalmente, levantando-me do sofá e caminhando até onde o fio permitia.
“Mesmo odiando amora?”
“Eu não odeio.”
“Caroline, você disse que amora tinha gosto de remédio para tosse.”
Fiz uma careta.
“Isso parece uma coisa muito específica para você lembrar.”
“Foi semana passada.”
A resposta me pegou desprevenida e fiquei em silêncio por um instante, tentando reorganizar a percepção de tempo. Para Bonnie, aquela Caroline ainda era a garota que reclamara de amoras sete dias antes. Para mim, aquela conversa tinha acontecido quase uma década atrás e desaparecido no meio de acontecimentos muito maiores.
“Talvez meu paladar tenha amadurecido”, improvisei enquanto voltava para perto do móvel onde estava o telefone.
“Em uma semana?”
“Foi uma semana muito transformadora.”
Bonnie riu de verdade dessa vez, e ouvi-la provocou uma pontada tão dolorosamente familiar que precisei fechar os olhos por um instante.
“Vem logo, antes que minha avó decida entregar a torta para algum vizinho.”
“Estou indo.” Apoiei a mão livre sobre o móvel e hesitei antes de acrescentar: “Bonnie?”
“Hum?”
Eu poderia dizer que estava feliz por ouvir sua voz. Poderia dizer que senti falta dela ou simplesmente agradecer por ter ligado. Nenhuma dessas coisas seria mentira, mas todas exigiram uma explicação que eu ainda não estava preparada para oferecer.
“Nada. Chego daqui a pouco”, respondi, e desliguei antes que ela pudesse voltar a perguntar o que havia de errado comigo.
Permaneci alguns segundos diante do telefone, com a mão ainda sobre o aparelho. A distância que surgira durante a conversa me incomodava porque não era exatamente voluntária. Eu queria Bonnie perto e, ao mesmo tempo, alguma parte de mim recuava sempre que a intimidade ameaçava voltar ao lugar antigo. Talvez fosse covardia guardar ressentimentos contra uma garota que ainda nem tivera oportunidade de cometê-los, mas eu não conseguia deixar dez anos de sentimentos do outro lado da porta só porque tinha acordado num corpo mais jovem. Se aquilo realmente fosse o passado, eu precisaria descobrir em algum momento o que fazer com pessoas que amava e das quais também carregava cicatrizes.
Subi para me trocar e descobri que enfrentar meu guarda-roupa de 2009 continuava sendo uma experiência sobrenatural por si só. Passei alguns cabides para o lado, encontrando jeans de cintura baixa, blusas compridas que eu costumava usar sobre outras blusas, cintos largos demais para desempenhar qualquer função razoável e uma quantidade de pulseiras que indicava que minha versão adolescente tinha alguma espécie de medo de deixar os pulsos visíveis. Experimentei uma combinação, olhei para o espelho e tirei imediatamente. A segunda envolvia um cinto tão largo que parecia pertencer a algum equipamento ortopédico, e precisei rir enquanto o jogava sobre a cama. “Ninguém tentou me impedir?”, perguntei ao próprio reflexo, apoiando uma mão na cintura enquanto analisava com crescente desaprovação as escolhas de uma garota que, tecnicamente, ainda era eu.
Acabei encontrando jeans e uma blusa relativamente simples, mas permaneci diante do espelho depois de terminar de me vestir. A garota refletida ali continuava me causando estranhamento. Havia suavidade demais naquele rosto, não porque eu tivesse envelhecido fisicamente depois de me tornar vampira, mas porque agora reconhecia coisas que antes não sabia procurar. Os olhos azuis pareciam enormes sobre as bochechas jovens, e a boca ainda tinha aquela tendência de se apertar quando alguma coisa ameaçava a segurança que eu trabalhava tanto para demonstrar. Durante anos, eu tinha pensado na Caroline adolescente com uma espécie de constrangimento, lembrando de sua necessidade de atenção, das comparações constantes com Elena e do desespero para ser escolhida como se tudo aquilo fossem defeitos superficiais que eu simplesmente superara.
Olhando para ela agora, não consegui ser tão cruel.
Aquela garota não era ridícula por querer ser escolhida. Era insegura, competitiva e muitas vezes podia ser insuportável, mas também passara tempo demais tentando descobrir por que parecia existir sempre alguém que as pessoas desejavam mais. Elena era mais bonita sem precisar tentar, mais misteriosa sem querer ser, mais importante simplesmente porque alguma coisa terrível sempre parecia acontecer ao redor dela. Eu podia reconhecer hoje que boa parte da competição tinha existido dentro da minha própria cabeça, mas isso não tornava menos reais as noites em que eu voltara para casa me perguntando o que havia de errado comigo.
Passei os dedos pelo cabelo, ajeitei uma mecha atrás da orelha e desviei os olhos do espelho antes que outra lembrança aparecesse. Damon pertencia a uma parte daquela insegurança que eu ainda não queria tocar. Se realmente estivesse em junho de 2009, ele ainda nem sequer havia entrado na minha vida, e a simples ideia de saber antecipadamente o que faria comigo produziu uma mistura de raiva e náusea que eu não tinha energia para enfrentar naquela manhã.
Peguei a bolsa e saí de casa.
O calor me alcançou assim que atravessei a porta, carregando o cheiro de grama e as vozes distantes de crianças em algum quintal. Entrei no carro e fiquei alguns segundos observando o interior antes de dar partida. Até dirigir ainda parecia uma viagem no tempo por si só.
Não havia uma tela no painel tentando decidir a rota por mim nem um telefone conectado automaticamente ao carro, apenas o rádio, alguns CDs esquecidos e o pequeno aparelho celular dentro da bolsa. Quando liguei o motor, uma música começou exatamente no ponto onde tinha sido interrompida, e precisei sorrir ao lembrar de quando escolher o que ouvir significava carregar uma pequena coleção de discos no porta-luvas.
O caminho até a casa dos Bennett era familiar o bastante para que eu não precisasse pensar nas ruas, o que me deixou livre para observar Mystic Falls outra vez. A cidade parecia quase preguiçosa sob o sol do fim da manhã, com algumas janelas abertas apesar do calor e ventiladores girando dentro das casas. Crianças haviam deixado bicicletas espalhadas pelos gramados, uma mulher caminhava segurando um copo enorme de refrigerante e duas adolescentes saíam de uma loja com sacolas nos braços enquanto conversavam sem consultar uma tela a cada poucos segundos.
Passei diante de uma locadora e diminuí a velocidade involuntariamente, surpresa por sentir uma espécie de nostalgia diante das fileiras de cartazes de filmes na vitrine. Mais adiante, um garoto caminhava com fones brancos ligados a um iPod preso ao bolso, e uma garota falava ao celular segurando o pequeno aparelho contra o ouvido enquanto gesticulava com a mão livre.
Eu lembrava daquele mundo, mas nunca tinha pensado nele como antigo enquanto vivia nele. A tecnologia não parecia precária, as roupas não pareciam datadas e ninguém caminhava pela rua pensando que estava vivendo numa versão anterior de alguma coisa.
Talvez fosse isso que tornava tudo tão convincente. Meu cérebro poderia reconstruir grandes acontecimentos de memória, mas eu não sabia se seria capaz de inventar todas aquelas pequenas banalidades, desde uma propaganda colada numa vitrine até o som abafado de um CD pulando quando passei com o carro por um buraco.
Quando finalmente estacionei diante da casa dos Bennett, desliguei o motor e permaneci sentada. Minhas mãos ficaram apoiadas no volante enquanto eu observava a varanda, as janelas abertas e as plantas próximas à entrada. Eu podia ir embora antes que Bonnie percebesse que tinha chegado, inventar alguma desculpa e continuar mantendo Sheila dentro daquela categoria confortável de pessoas que eu sabia estarem vivas, mas ainda não precisava encarar. Quanto mais rostos do passado eu encontrava, porém, menos sustentável ficava a fantasia de que acordaria a qualquer momento.
Duas batidas repentinas no vidro me fizeram dar um pulo.
Bonnie estava do lado de fora e começou a rir no mesmo instante em que viu minha expressão.
“Meu Deus, Caroline! Você quase teve um ataque cardíaco”, disse ela, levando uma das mãos à boca enquanto tentava controlar a risada.
Baixei o vidro e a encarei com irritação.
“Você tem algum problema?”, perguntei enquanto soltava o cinto de segurança com mais força do que o necessário.
“Você estava parada aqui olhando para a minha casa.” Bonnie apoiou uma das mãos no teto do carro e se inclinou um pouco para me enxergar melhor.
“Eu estava estacionando.”
Ela olhou deliberadamente para o carro já perfeitamente alinhado junto ao meio-fio antes de voltar para mim.
“Durante três minutos?”
“Você estava cronometrando?” Abri a porta, obrigando-a a se afastar, e saí ajeitando a bolsa sobre o ombro.
“Eu vi você pela janela.” Bonnie ainda sorria enquanto fechava a porta do carro por mim. “Você continua muito estranha.”
“E você está desenvolvendo hábitos de perseguidora”, respondi enquanto começávamos a caminhar pelo pequeno caminho até a varanda. Bonnie riu e segurou meu braço para me puxar quando percebeu que eu diminuíra o passo perto dos degraus.
O toque dela provocou duas reações quase simultâneas. A primeira foi uma familiaridade tão confortável que por pouco não passei o braço pelo dela como provavelmente teria feito naquela idade; a segunda foi uma vontade inesperada de criar espaço entre nós. Não fiz nenhuma das duas coisas e continuei andando, consciente demais dos dedos de Bonnie ao redor do meu braço até ela me soltar para abrir a porta.
“Vó, ela chegou!”, anunciou assim que entramos, deixando a porta aberta para que eu passasse antes de fechá-la atrás de mim.
A casa dos Bennett tinha um cheiro que reconheci antes mesmo de conseguir localizar a lembrança. Havia madeira antiga, comida recém-preparada e alguma coisa levemente herbal no ar, misturada ao perfume doce da torta que provavelmente ainda estava na cozinha. O sol atravessava as janelas da sala e iluminava fotografias espalhadas sobre os móveis, livros empilhados em uma pequena estante e objetos que minha versão adolescente teria considerado apenas velharias pertencentes à avó de Bonnie. Agora eu sabia que aquela casa carregava uma história muito maior do que qualquer uma de nós compreendia naquela época.
Ouvi passos vindo da cozinha.
Sheila Bennett apareceu na passagem secando as mãos em um pano de prato, e todo o resto da sala pareceu perder importância.
Os cabelos grisalhos emolduravam o rosto que eu conhecia principalmente através das lembranças de Bonnie, e ela tinha a mesma postura firme que fazia parecer que qualquer ambiente pertencia a ela assim que entrava. Sheila me observou por um instante antes de sorrir, aparentemente sem encontrar nada extraordinário na garota parada perto da porta.
“Caroline Forbes. Faz tempo que não aparece por aqui”, disse ela enquanto dobrava o pano entre as mãos.
Meu peito apertou antes que eu pudesse responder.
Eu tinha esquecido a voz dela.
Foi isso que me atingiu, mais do que vê-la andando ou respirando. Fotografias preservavam rostos e a memória conseguia guardar gestos durante muito tempo, mas vozes desapareciam de maneira traiçoeira. Eu não percebera que já não conseguia lembrar exatamente como Sheila soava até ouvi-la outra vez.
“Oi, senhora Bennett”, consegui responder, apertando a alça da bolsa entre os dedos enquanto tentava sorrir normalmente.
Sheila inclinou ligeiramente a cabeça.
Bonnie passou por mim sem perceber minha hesitação e foi até a avó, beijando sua bochecha antes de espiar em direção à cozinha. “Eu trouxe ajuda para acabar com a torta”, anunciou, roubando o pano de prato da mão de Sheila e colocando-o sobre o ombro.
A cozinha estava iluminada pelo sol que entrava pela janela sobre a pia, deixando pequenos retângulos claros sobre a mesa e aquecendo a madeira já marcada pelo tempo. Uma brisa fazia a cortina curta se mover de vez em quando e trazia para dentro o ruído distante de um cortador de grama, enquanto o cheiro da torta recém-assada ainda permanecia no ambiente, misturado ao café que Sheila provavelmente havia preparado naquela manhã.
Bonnie foi diretamente até o armário como se estivesse em sua própria casa, o que, pensando bem, era exatamente o caso, e começou a procurar os pratos enquanto a avó colocava a torta sobre a mesa.
“Você trouxe a menina que não gosta de amora e agora quer servir um pedaço enorme para ela”, comentou Sheila, passando a faca pela massa com cuidado antes de lançar um olhar divertido para a neta.
“Ela disse que mudou de ideia.” Bonnie encontrou os pratos e colocou três sobre a mesa, então apontou um deles para mim. “E eu quero testemunhar esse momento histórico.”
“Eu disse que talvez tenha mudado de ideia”, corrigi enquanto puxava uma cadeira, acompanhando com os olhos o pedaço de torta que Sheila colocava diante de mim.
“Existe uma diferença enorme.”
“Semana passada você disse que era azeda demais.”
“Eu era jovem e intolerante naquela época.” Apoiei a bolsa no chão ao lado da cadeira e peguei o garfo, vendo Bonnie revirar os olhos antes de se sentar ao meu lado. “Passei por muitas coisas desde então.”
“Sete dias, Caroline.”
“Você ficaria surpresa.”
Bonnie riu e roubou uma amora da tigela no centro da mesa antes que Sheila pudesse impedi-la. A avó bateu de leve nos dedos dela com o pano de prato, tarde demais para recuperar a fruta, e Bonnie sorriu enquanto a colocava na boca.
Fiquei olhando para as duas por tempo demais.
Não foi uma lembrança específica que me atingiu. Era pior justamente porque não havia nada de extraordinário acontecendo. Bonnie estava sentada na cozinha da avó roubando fruta de uma tigela, e Sheila reclamava sem qualquer irritação verdadeira enquanto cortava outro pedaço de torta. Nenhuma delas sabia que aquele tipo de manhã tinha prazo para acabar.
Para Bonnie, sua avó simplesmente estaria ali amanhã, na semana seguinte e no próximo verão, e eu me lembrava muito bem de quando isso deixou de ser verdade.
Baixei os olhos para o prato e cortei um pedaço pequeno da torta.
“E então?”, Bonnie perguntou enquanto apoiava o cotovelo sobre a mesa.
Experimentei antes de responder. A fruta ainda era mais azeda do que eu escolheria por vontade própria, mas a massa doce equilibrava o sabor melhor do que minha memória adolescente estava disposta a admitir.
“Não é tão ruim quanto eu lembrava.”
Bonnie abriu um sorriso satisfeito e apontou o garfo em minha direção.
“Eu sabia.”
“Não se empolga.” Cortei outro pedaço, dessa vez um pouco maior. “Isso não significa que vou começar a pedir torta de amora no meu aniversário.”
“Vou considerar uma vitória mesmo assim.”
“Considere uma trégua.”
Sheila sorriu discretamente enquanto colocava chá nos copos.
Quando estendeu um deles para mim, porém, seus dedos tocaram os meus. Foi um contato breve.
Ainda assim, alguma coisa percorreu minha mão.
Não chegou a doer. Pareceu uma descarga fraca, um calor súbito que atravessou meus dedos e subiu até o pulso antes de desaparecer. Puxei a mão por reflexo e quase derramei o chá.
“Cuidado”, Sheila advertiu, segurando o copo antes que tombasse.
“Desculpa.” Olhei para minha mão e esfreguei os dedos contra a palma. “Ele está quente.”
“Acabei de servir.”
A explicação era perfeitamente razoável. Mesmo assim, quando levantei os olhos, Sheila estava me encarando. Não havia mais humor em sua expressão.
Durou pouco. Bonnie se virou para perguntar alguma coisa e Sheila desviou a atenção imediatamente, empurrando o açucareiro para mais perto da neta como se nada tivesse acontecido. Eu continuei olhando para ela por alguns segundos, tentando decidir se tinha imaginado aquela mudança.
Talvez tivesse. Ultimamente, imaginar coisas parecia ser minha principal atividade.
“Você teve outro pesadelo?”, perguntou Bonnie, e levei um instante para perceber que a pergunta era para mim.
“Não exatamente.” Passei o garfo pela borda do prato, recolhendo um pouco da massa que havia se soltado. “Quer dizer, eu sonhei, mas nada comparado ao anterior.”
“Você ainda está esquisita.”
“Você realmente precisa encontrar outro adjetivo.”
“Perturbadora?”
“Prefiro esquisita.”
Bonnie sorriu e voltou para a torta, mas Sheila permaneceu mais quieta. Eu a peguei me observando outra vez quando estendi a mão para o chá e comecei a ficar desconfortável, não porque houvesse algo ameaçador nela, mas porque aquela mulher parecia prestar atenção demais. Eu conhecia Sheila principalmente pelas histórias de Bonnie e pelo pouco que convivemos antes de sua morte. Tinha esquecido como era estar diante de alguém que sabia muito mais sobre o mundo do que deixava transparecer.
“Você ainda está estudando aquelas coisas da família?”, perguntei antes de pensar melhor.
O garfo de Sheila parou sobre o prato.
Bonnie fez uma careta.
“Que coisas?”
Percebi imediatamente que tinha pisado onde não deveria.
“Genealogia”, improvisei, mexendo no chá para ter alguma coisa em que concentrar as mãos. “Bonnie comentou alguma vez que sua avó gosta dessas coisas antigas da família.”
Bonnie virou-se para Sheila.
“Você gosta?”
“Todo mundo deveria saber de onde veio.” Sheila retomou a refeição, mas seus olhos voltaram aos meus por cima da borda do copo. “Às vezes é a única maneira de entender para onde está indo.”
Engoli em seco. Talvez aquilo fosse apenas uma frase. Naquele momento, porém, qualquer frase dita por Sheila parecia ter duas camadas.
Bonnie começou a falar sobre alguma coisa que pretendia fazer durante as férias, e tentei acompanhá-la, embora percebesse Sheila observando-me ocasionalmente. Ela não perguntou mais sobre o que eu dissera, não mencionou magia e não fez nada que justificasse minha crescente impressão de que havia alguma coisa errada. Ainda assim, quando nossos dedos se tocaram novamente ao mesmo tempo em que alcançamos o açucareiro, Sheila recolheu a mão depressa demais.
Dessa vez eu sabia que não tinha imaginado. Seus olhos encontraram os meus. Por um instante, nenhuma de nós disse nada.
“Bonnie”, Sheila chamou depois de alguns minutos, levantando-se para recolher os pratos. “Esqueci de comprar creme para o café. Você pode ir até o mercado para mim?”
Bonnie olhou para a geladeira.
“Tem creme.”
Sheila continuou empilhando os pratos.
“Esse está quase acabando.”
“Tem outra caixa atrás.”
Eu precisei abaixar o rosto para esconder um sorriso. Sheila fechou a porta da geladeira e olhou para a neta. Bonnie sustentou o olhar por dois segundos antes de suspirar.
“Tudo bem.” Levantou-se e estendeu a mão para mim.
“Vamos.”
“Caroline pode ficar aqui.”
Minha cabeça se ergueu.
Bonnie também parou.
“Por quê?”
“Porque você leva cinco minutos para ir ao mercado e vinte para decidir qual revista comprar.” Sheila pegou minha xícara vazia e a levou para a pia. “Além disso, quero ajuda para levar umas caixas do quarto de hóspedes.”
Bonnie olhou para mim.
Olhei para Sheila. Ela estava de costas, abrindo a torneira como se realmente estivesse preocupada com louça e caixas.
“Eu posso ir com ela”, falei cautelosamente.
“Não precisa.” Sheila começou a enxaguar um prato. “Você acabou de chegar.”
Havia alguma coisa na maneira como disse aquilo. Bonnie, felizmente, parecia apenas contrariada por estar sendo enviada ao mercado. Pegou as chaves sobre o balcão e apontou para mim antes de sair.
“Não deixe ela contar histórias constrangedoras sobre mim.”
“Não prometo nada.” Tentei sorrir enquanto Bonnie caminhava para a porta.
“Eu estou falando sério.”
“Vai comprar o creme, Bonnie”, Sheila disse sem sequer se virar, e Bonnie resmungou alguma coisa enquanto desaparecia pelo corredor.
A porta da frente fechou pouco depois. O som pareceu muito mais alto do que deveria.
Continuei sentada à mesa enquanto Sheila terminava de enxaguar o prato. Ela não falou imediatamente, e aquilo me deixou mais inquieta do que qualquer pergunta teria deixado. Observei-a secar as mãos, dobrar cuidadosamente o pano e colocá-lo sobre a bancada antes de finalmente se virar.
“Você não precisava de creme.”
Sheila apoiou uma das mãos na bancada. “Não.”
“E não existem caixas no quarto de hóspedes.”
“Existem caixas em quase todos os quartos desta casa. Eu sou uma mulher velha. Guardamos coisas.”
Apesar da tensão, quase sorri.
Sheila deixou a bancada e se aproximou da mesa, puxando a cadeira que a neta havia ocupado momentos antes. Sentou-se diante de mim e estendeu uma das mãos sobre a madeira, com a palma voltada para cima.
“Me dê sua mão.”
Olhei primeiro para ela e depois para a mão estendida.
“Você sabe ler a sorte?”, perguntei, e um sorriso escapou quando Sheila não pareceu minimamente ofendida. “Porque eu deveria avisar que ultimamente a minha não anda muito boa.”
“Eu não leio sorte.” Ela manteve a mão onde estava e inclinou levemente a cabeça. “Mas você nem imagina as coisas que eu sei fazer.”
A segurança tranquila com que respondeu me fez rir, embora eu continuasse sem lhe entregar a mão.
“Isso deveria me tranquilizar?”
“Provavelmente não.”
“Ótimo.” Encostei-me na cadeira, cruzando os braços enquanto Sheila esperava pacientemente. “Agora estou muito mais inclinada a participar.”
Ela arqueou uma sobrancelha e mexeu os dedos, chamando-me para que parasse de enrolar.
“Vamos, Caroline. Dê um pouco de emoção à vida desta velha senhora. Você pode até gostar do que eu descobrir.”
Dessa vez ri de verdade..
“Eu duvido muito.” Ainda assim, descruzei os braços e quase estendi a mão, mas hesitei no meio do caminho quando outra pergunta me ocorreu. Olhei na direção pela qual Bonnie havia saído antes de voltar para Sheila. “Sua neta sabe sobre esse seu... talento?”
Minha hesitação diante da última palavra não passou despercebida. Sheila arqueou uma das sobrancelhas e recostou-se um pouco na cadeira, embora mantivesse a mão estendida entre nós.
“Bonnie não precisa saber tudo.”
“Isso parece exatamente o tipo de coisa que uma neta adoraria descobrir sobre a avó.”
“Bonnie sabe o suficiente.” Sheila passou o polegar lentamente pela própria palma enquanto falava, sem o menor sinal de culpa por esconder alguma coisa da neta.
“Ela sabe quais ervas ajudam quando não consegue dormir, quais devem ser queimadas e quais nunca devem chegar perto do fogo. Sabe que a lua não ilumina todas as noites da mesma maneira e que suas fases podem ser aproveitadas para coisas diferentes. Conhece algumas histórias das mulheres da nossa família e, quando presta atenção em vez de revirar os olhos, aprende bastante.”
“Mas não sabe que você faz...” Fiz um pequeno gesto na direção da mão dela. “Seja lá o que estamos prestes a fazer.”
“Não.”
A resposta veio simples.
Observei Sheila por alguns segundos.
“Por quê?”
Pela primeira vez desde que Bonnie saíra, um pouco de humor abandonou seu rosto. Sheila lançou um olhar breve para a porta da cozinha antes de responder.
“Porque existe uma diferença entre ensinar uma menina a respeitar aquilo que existe no mundo e colocá-la no caminho de coisas que ainda não precisa encontrar.” Seus dedos repousaram sobre a mesa enquanto ela voltava a me encarar.
“Bonnie tem dezessete anos. Neste momento, ela deve se preocupar com as amigas, com os garotos que escolhe e com o que pretende fazer da vida. Não precisa carregar os problemas da minha.”
Aquilo atingiu um lugar desconfortavelmente específico dentro de mim. Baixei os olhos para a mão de Sheila e pensei na Bonnie que conhecera anos depois. Na quantidade de vezes em que sua magia seria necessária, nas pessoas que recorreram a ela quando precisavam de alguma coisa e no modo como problemas que nunca deveriam ter pertencido a uma adolescente acabariam se tornando responsabilidade dela.
“Talvez fosse melhor prepará-la”, falei antes que pudesse me impedir.
Sheila ficou imóvel. Percebi o que tinha dito e tentei disfarçar, passando os dedos pela borda da mesa. “Quero dizer... se essas coisas existem, esconder não necessariamente impede que ela encontre alguma delas.”
“Não”, Sheila concordou depois de um momento, e havia agora muito mais atenção em seus olhos. “Mas pode permitir que ela tenha uma infância antes disso.”
Não consegui responder.
Bonnie não teria muito mais tempo para isso.
Sheila me observou por alguns segundos, provavelmente percebendo que minha expressão havia mudado, mas teve a delicadeza ou a inteligência de não perguntar o motivo. Apenas tornou a estender a mão.
“Agora, sua mão.”
Soltei o ar pelo nariz e olhei para ela com uma desconfiança divertida que ainda conseguia ser
parcialmente genuína.
“Você é muito mandona.”
“E você está enrolando há tempo demais.”
“Estou avaliando os riscos.”
“De segurar a mão de uma velha?”
“Você acabou de passar cinco minutos insinuando que é uma velha misteriosa cheia de talentos secretos. Não pode usar a idade a seu favor agora.”
Um sorriso apareceu no rosto de Sheila.
“Justo.”
Acabei cedendo e coloquei a mão sobre a dela. No instante em que nossas peles tocaram, ainda não aconteceu nada extraordinário. Sheila apenas virou minha mão com delicadeza, deixando minha palma voltada para cima, e passou o polegar por ela como alguém que realmente pretendesse examinar suas linhas. Olhei para nossos dedos e depois para seu rosto, esperando alguma grande revelação.
“Vai me dizer que vou conhecer um homem alto, bonito e misterioso?”, provoquei, tentando quebrar o silêncio que começava a me incomodar.
“Você fala demais quando está nervosa.”
“Eu falo demais normalmente.”
“Eu percebi.”
Sorri, mas Sheila não estava mais sorrindo.Seu polegar havia parado no centro da minha palma.
A mudança nela foi pequena o suficiente para que eu quase não percebesse. Seus ombros continuaram relaxados e sua mão permaneceu quente ao redor da minha, mas a atenção em seus olhos se aprofundou. Ela não parecia estar olhando para as linhas da minha mão. Parecia estar escutando alguma coisa que eu não conseguia ouvir.
“Algum problema?”, perguntei, e dessa vez a brincadeira saiu menos convincente.
Sheila não respondeu.
Seu polegar voltou a se mover, lentamente, e então senti o calor.
Começou exatamente onde ela me tocava, uma sensação suave demais para doer, mas estranha o suficiente para fazer meus dedos se contraírem dentro dos dela. O calor percorreu minha palma, alcançou o pulso e subiu pelo braço como se alguma coisa estivesse seguindo o caminho das minhas veias. Minha primeira reação foi puxar a mão, mas Sheila fechou os dedos um pouco mais firmemente ao redor dela.
“Espere”, pediu em voz baixa, sem desviar os olhos dos meus.
“Isso faz parte do truque?” Tentei sorrir, embora meu coração já tivesse começado a acelerar.
“Fique quieta um instante.” pediu.
Dessa vez obedeci.
A cozinha continuava ao nosso redor, iluminada pelo sol, com o ruído distante da rua entrando pela janela e o cheiro da torta ainda pairando no ar. Nada mudou visivelmente, mas uma pressão começou a crescer atrás dos meus olhos. Durante uma fração de segundo, o perfume doce das amoras desapareceu e senti fumaça.
Meu sorriso morreu. Uma árvore surgiu na minha memória. A luz azul explode entre meus dedos. O rosto de Stefan perto demais do meu.
Minha mão se contraiu dentro da de Sheila.
Ela me soltou imediatamente.
Puxei o braço contra o corpo e pisquei algumas vezes, esperando que a cozinha voltasse a parecer completamente sólida. Sheila permaneceu sentada diante de mim, mas agora já não havia qualquer vestígio daquela senhora divertida que pediu um pouco de emoção para a própria tarde.
“Que foi?”, perguntei, esfregando a palma contra a calça. Quando ela demorou a responder, tentei recuperar parte do humor. “Não me diga que minha linha da vida é curta. Seria um pouco tarde para eu começar a me preocupar.”
Sheila não riu.
Seus olhos permaneceram presos à minha mão.
“Eu não estava olhando sua linha da vida.”
A forma baixa como disse aquilo fez meu estômago se contrair.
“Então o que estava procurando?”
Sheila finalmente ergueu os olhos para mim. Por alguns segundos, pareceu considerar cuidadosamente o que deveria dizer e, quando respondeu, não ofereceu explicação alguma.
“Eu ainda não sei.”
Sheila continuou olhando para mim depois de responder, mas não voltou a pedir minha mão. Aquilo me tranquilizou um pouco, embora a sensação deixada pelo toque ainda permanecesse no meu braço como um calor fantasma. Abri e fechei os dedos algumas vezes, procurando alguma mudança que pudesse enxergar, e não encontrei nada além das linhas normais da palma. Se ela realmente havia feito alguma coisa, não parecia muito disposta a explicar, o que era particularmente irritante depois de ter mandado Bonnie atravessar a cidade para comprar um creme que nem precisava.
“Isso é muito conveniente”, murmurei, apoiando o antebraço sobre a mesa enquanto Sheila continuava em silêncio. “Você faz toda aquela apresentação misteriosa, segura minha mão, fica com essa cara e depois diz que não sabe.”
O canto da boca dela se moveu discretamente. “Você esperava uma bola de cristal?”
“Depois de hoje? Eu não descartaria.” Tentei brincar, mas meus olhos acabaram voltando para minha própria mão. “Eu senti alguma coisa.”
“Eu sei.”
“Isso foi você?”
Sheila demorou um pouco para responder. Em vez disso, estendeu a mão para pegar a própria xícara e descobriu que o chá já havia esfriado. Levou-a aos lábios mesmo assim, tomou um pequeno gole e tornou a colocá-la sobre o pires.
“Em parte.”
Franzi a testa. “Essa resposta conseguiu ser ainda pior.”
“Você prefere que eu invente uma melhor?”
“Normalmente, sim. Neste caso, não tenho certeza.” Afastei uma mecha de cabelo do rosto e me recostei na cadeira, observando-a com mais atenção. “O que significa ‘em parte’?”
Sheila passou o polegar lentamente pela lateral da xícara antes de responder.
“Significa que eu estava procurando alguma coisa e encontrei outra. Ainda não sei o suficiente para lhe dizer o que é, e você parece nervosa o bastante sem que eu comece a lhe oferecer explicações das quais nem eu tenho certeza.”
Aquilo era quase irritantemente sensato. Eu estava tão acostumada a pessoas descobrirem a existência de alguma coisa sobrenatural e imediatamente transformarem aquilo numa emergência que a cautela dela parecia estranha. Ao mesmo tempo, havia uma parte de mim que queria agarrá-la pelos ombros e exigir respostas, porque Sheila era a primeira pessoa desde que eu acordara que havia percebido que alguma coisa naquele mundo não estava certa.
“Você sentiu magia?”, perguntei.
A pergunta mudou alguma coisa em seu rosto. Foi tão pequena que outra pessoa talvez não percebesse. Eu percebi.
Sheila pousou a xícara com cuidado.
“Essa é uma palavra interessante para você escolher.”
Meu estômago se contraiu. Merda.
Tentei sustentar a expressão mais indiferente possível enquanto cruzava uma perna sobre a outra. “Você me manda entregar a mão, fala de ervas, lua, mulheres da sua família e faz alguma coisa estranha acontecer quando me toca. Eu não ia chamar de truque de aniversário.”
“Não.” Sheila apoiou as costas na cadeira, estudando-me de um jeito que começou a me fazer sentir como se tivesse acabado de entrar voluntariamente numa armadilha. “Mas também não pareceu surpresa.”
“Eu fiquei surpresa.”
“Com o que sentiu, sim.” Ela inclinou ligeiramente a cabeça. “Não com a possibilidade de existir.”
Abri a boca para responder e parei.
Sheila arqueou uma sobrancelha.
“Você faz isso de propósito?”, perguntei.
“Faço o quê?”
“Deixa as pessoas falarem até entregarem exatamente o que você queria saber.”
Dessa vez ela sorriu. “Só quando funciona.”
Soltei o ar pelo nariz e olhei para a janela. Bonnie provavelmente ainda demoraria alguns minutos, mas comecei a desconfiar de que Sheila poderia descobrir muito mais nesse intervalo do que eu pretendia contar. Minha primeira vontade foi levantar e ir embora antes que isso acontecesse. No entanto, aquela reação pertencia à Caroline que havia passado meses sobrevivendo desconfiando de qualquer pessoa que soubesse demais, e eu precisava lembrar onde estava. Sheila não era uma inimiga. Pelo menos, nunca tinha sido.
Além disso, se aquilo realmente fosse 2009, eu precisava de alguém que entendesse o impossível.
A conclusão não significava que precisava contar tudo.
“Digamos que eu já tenha visto algumas coisas difíceis de explicar”, respondi finalmente, escolhendo as palavras enquanto descruzava as pernas. “Isso não significa que eu entenda o que você fez.”
“Nem eu pedi que entendesse.”
“Então estamos indo muito bem.”
Sheila riu baixinho e se levantou para pegar a chaleira. Observei-a completar nossas xícaras com uma naturalidade desconcertante, como se não estivéssemos discutindo magia escondidas da neta enquanto ela comprava mantimentos desnecessários. Quando voltou a se sentar, empurrou o açucareiro para mim e esperou até que eu colocasse uma colher no chá.
“Agora me diga o que você sentiu.”
Mexi a colher devagar dentro da xícara.
“Calor primeiro. Depois uma pressão aqui.” Toquei a lateral da testa e hesitei antes de continuar. “E senti cheiro de fumaça.”
“Há quanto tempo?”
“Como assim?”
“Desde quando isso acontece?”
“Não acontece.” Apoiei a colher sobre o pires e percebi que Sheila continuava esperando. “Aconteceu quando você me tocou.”
“Tem certeza?”
A imagem da pedra brilhou na minha memória. Não respondi imediatamente. Sheila percebeu.
“Caroline?” insistiu.
Passei a língua pelos lábios e tentei decidir quanto podia revelar sem abrir uma porta impossível de fechar. “Eu toquei uma coisa antes de acordar aqui.”
Os olhos dela se estreitaram ligeiramente. “Que coisa?”
“Uma pedra.”
Sheila esperou que eu continuasse, mas eu já estava começando a me arrepender.
“Que tipo de pedra?”
“Eu não sei.”
“Como era?”
A pergunta trouxe a imagem com facilidade demais. A superfície fria contra meus dedos, as marcas, a luz que começara a crescer até engolir tudo ao redor. Passei o polegar pela palma da mão antes de responder.
“Escura. Não era muito grande. Tinha símbolos gravados.”
Sheila ficou completamente imóvel.
“Que símbolos?”
“Eu não sei. Não pareciam letras.”
“Você conseguiria desenhá-los?”
Olhei para ela. A intensidade tinha voltado aos seus olhos.
“Talvez.”
Sheila se levantou sem dizer nada e atravessou a cozinha até um pequeno móvel próximo à parede. Abriu uma gaveta, retirou um bloco de papel e um lápis e colocou os dois diante de mim.
“Isso está começando a parecer interrogatório.”
“Você foi quem mencionou uma pedra coberta por símbolos.”
“Eu deveria aprender a falar menos.”
“Provavelmente.”
Peguei o lápis e puxei o bloco para mais perto. Minha memória da pedra não era perfeita. Tudo havia acontecido rápido demais, e naquele momento eu estava muito mais preocupada com Stefan tentando me matar do que com a qualidade artística das inscrições. Ainda assim, comecei a desenhar o que conseguia recordar, fazendo algumas linhas, apagando outras e tentando reproduzir os símbolos que tinham brilhado sob meus dedos.
Sheila não falou durante todo o tempo.
Sua ausência de perguntas começou a me deixar mais nervosa do que as perguntas anteriores.
“Era mais ou menos assim.” Empurrei o bloco em sua direção depois de alguns minutos. “Talvez. Eu estava um pouco ocupada quando encontrei.”
“Com o quê?”
“Sobrevivendo.”
A palavra escapou antes que pudesse escolher outra. Sheila ergueu os olhos do desenho.
Dessa vez não tentei corrigir.
Ela observou meu rosto por alguns segundos antes de voltar ao papel. Passou a ponta do dedo sobre uma das marcas sem tocá-la completamente e franziu a testa.
“Reconhece?”, perguntei.
“Não.”
Minha esperança diminuiu.
“Mas?”
Sheila levantou os olhos.
“Você sempre espera um ‘mas’?”
“Quando alguém faz essa pausa, sim.”
“Não reconheço os símbolos.” Ela virou o bloco ligeiramente e analisou o desenho de outro ângulo. “Mas reconheço a intenção de algumas formas. Isso foi feito para conduzir alguma coisa.”
“Conduzir o quê?”
“Essa é a pergunta.”
Não gostei da resposta.
Peguei minha xícara, embora não estivesse com sede, e bebi um gole enquanto Sheila continuava examinando o papel. Pela primeira vez desde que acordara, eu tinha uma evidência que não dependia apenas da minha própria memória. A pedra existira. Eu a tocara. Sheila sentira alguma coisa ligada a mim e agora demonstrava interesse suficiente no desenho para mandar a própria neta embora antes de investigá-lo.
A hipótese do sonho estava ficando cada vez mais difícil de sustentar.
“Depois que tocou a pedra, o que aconteceu?”, perguntou Sheila sem levantar os olhos.
Minha mão apertou a xícara.
A floresta voltou inteira. Stefan vindo em minha direção. A luta. A mão atravessando meu peito. A dor tão violenta que meu corpo sequer conseguiu compreendê-la antes de tudo começar a desaparecer.
“Eu não lembro direito.”
Era mentira. Sheila levantou os olhos. Não precisava de magia para perceber.
“Você lembra.”
“Não quero falar sobre isso.”
Ela me observou por alguns segundos e assentiu. Simplesmente assentiu.
Nenhuma insistência, nenhuma tentativa de arrancar de mim uma confissão, nenhuma frase dizendo que precisava saber para ajudar. Apenas voltou ao desenho.
Aquela pequena concessão fez mais pela minha confiança do que qualquer pergunta teria feito.
“Eu estava com outra pessoa”, acrescentei depois de alguns segundos.
Sheila não levantou os olhos imediatamente. “Alguém que também tocou a pedra?”
“Sim.”
“E onde está essa pessoa agora?”
Meu peito apertou. Essa era uma excelente pergunta.
Onde estava Stefan?
Se realmente fosse 25 de junho de 2009, eu sabia aproximadamente onde deveria estar. Ele ainda não tinha voltado para Mystic Falls, ainda não conhecia Elena e provavelmente nem imaginava que, em algum ponto do futuro, arrancaria meu coração ao lado de uma pedra que nos jogaria quase dez anos para trás.
Mas eu não sabia se ele tinha vindo comigo. Até aquele momento, eu sequer havia permitido que essa possibilidade se formasse completamente.
Minha mão ficou imóvel ao redor da xícara. Se eu estava aqui...
“Caroline?”
Levantei os olhos lentamente.
Stefan também tocará a pedra.
A lembrança ficou mais nítida. A luz não tinha envolvido apenas meu corpo. Ele estava ali, perto demais, ainda segurando meu coração quando tudo explodiu ao redor de nós.
Meu estômago revirou.
“Eu preciso descobrir uma coisa.”
Comecei a me levantar, mas Sheila estendeu a mão e segurou meu pulso. Não havia força no gesto, apenas firmeza suficiente para me fazer parar.
“Antes de sair correndo atrás de seja lá quem for, pense.”
Olhei para os dedos dela ao redor do meu pulso e depois para seu rosto.
“Eu estou pensando.”
“Não. Você acabou de lembrar de alguma coisa e seu corpo decidiu agir antes da sua cabeça.”
Irritantemente, ela estava certa.
Voltei a me sentar. Sheila soltou meu braço.
“Essa outra pessoa é perigosa?”
A pergunta parecia simples. A resposta não era.
Pensei no Stefan que me ensinara a caçar sem matar. No homem que me ajudara quando eu não conseguia controlar a fome, que tinha sido meu amigo antes de qualquer outra coisa e que, em algum momento, eu havia amado o suficiente para acreditar que aquilo significava alguma coisa.
Depois pensei em sua mão dentro do meu peito.
“Sim”, respondi.
A palavra saiu baixa. Sheila observou a maneira como meus dedos apertaram a xícara.
“Para você?”
Engoli em seco.
“Principalmente.”
O olhar dela endureceu um pouco. “Então não vá procurá-lo sozinha.”
Quase ri. Não porque fosse engraçado, mas porque aquela recomendação chegava alguns anos tarde demais.
“Eu sei cuidar de mim.”
“Todo mundo que precisa dizer isso costuma estar tentando convencer a si mesmo.”
“Você realmente tem uma resposta para tudo?”
“Com a idade vêm a sabedoria.”
Dessa vez consegui sorrir. O som da porta da frente se abrindo interrompeu nossa conversa.
“Eu espero que vocês estejam felizes!”, gritou Bonnie da entrada. “Tinha creme em casa!”
Sheila pegou o bloco com uma rapidez impressionante e o virou sobre a mesa, escondendo o desenho. Observei o movimento.
Ela encontrou meu olhar. Nenhuma palavra foi necessária.
Quando Bonnie apareceu na cozinha carregando uma sacola e uma revista dobrada debaixo do braço, Sheila já estava tomando chá como se tivéssemos passado os últimos quinze minutos falando sobre absolutamente nada.
“Você comprou a revista”, comentou Sheila.
Bonnie colocou a sacola sobre a bancada e apontou para a avó.
“Não muda de assunto. Eu liguei daqui do estacionamento para perguntar se precisava de mais alguma coisa e você nem atendeu.”
“Estava ocupada.”
Bonnie olhou para mim.
“Fazendo o quê?”
Antes que Sheila respondesse, puxei o prato de torta novamente para perto e cortei outro pedaço com o garfo. “Sua avó estava tentando me convencer de que amora é uma escolha de vida aceitável.”
Bonnie estreitou os olhos.
“E?”
Levei a torta à boca e mastiguei devagar antes de dar de ombros. “Ainda estou avaliando.”
Ela pareceu aceitar.
Sheila não disse nada, mas quando Bonnie virou de costas para guardar as compras, vi a velha senhora deslizar discretamente o bloco para fora da mesa e guardá-lo numa gaveta.
Foi então que entendi que Sheila Bennett tinha acabado de guardar meu primeiro segredo.
E, pela maneira como ela me observou antes de fechar a gaveta, eu tinha certeza de que pretendia descobrir o restante.
---
Quando saí da casa dos Bennett, o sol já havia avançado bastante sobre o céu e o calor acumulado dentro do carro me atingiu assim que abri a porta. Joguei a bolsa no banco do passageiro, entrei e precisei baixar os vidros antes mesmo de colocar a chave na ignição. O volante estava quente sob minhas mãos e o banco pareceu grudar imediatamente na parte de trás das minhas pernas, uma inconveniência tão humana que normalmente teria me irritado, mas naquele momento serviu apenas para me lembrar de que continuava ali.
Bonnie havia insistido para que eu ficasse mais um pouco. Inventei que precisava passar algum tempo com minha mãe e ela aceitou, embora não sem me olhar daquele jeito desconfiado que vinha usando desde o Grill. Sheila não tentou me impedir. Apenas permaneceu perto da porta enquanto eu me despedia e, quando Bonnie se virou por alguns segundos para procurar alguma coisa que queria me entregar, sua avó encontrou meu olhar. Não houve aceno secreto, frase misteriosa ou qualquer outra coisa que pudesse chamar a atenção da neta. Sheila apenas me observou, e eu soube que aquela conversa não tinha terminado.
Provavelmente deveria ter me preocupado mais com isso. Em vez disso, fiquei pensando no que ela dissera sobre Bonnie.
Sheila queria protegê-la.
Havia alguma coisa quase cruel nisso, considerando tudo que eu sabia. Ela acreditava que ainda podia permitir que Bonnie fosse apenas uma garota de dezessete anos por mais algum tempo, preocupada com amigas, garotos, férias e escolhas que pareciam enormes apenas porque nenhuma tragédia verdadeira havia chegado para colocá-las em perspectiva. Eu sabia exatamente quanto tempo aquela proteção duraria. Em poucos meses, Bonnie começaria a descobrir o que era, e depois disso parecia que cada pessoa sobrenatural que atravessava Mystic Falls encontraria uma maneira de precisar dela.
Liguei o carro e aumentei o ar-condicionado, esperando que o interior esfriasse antes de sair. O rádio começou a tocar e deixei a música preencher o silêncio enquanto observava a casa pelo retrovisor. Bonnie apareceu numa das janelas por um instante, falando alguma coisa com a avó, e desapareceu novamente antes que pudesse perceber que eu ainda estava ali.
Eu a amava.
Isso não tornava o restante simples.
Ver Bonnie no Grill tinha me feito querer agarrá-la e nunca mais soltar. Passar algumas horas com ela, porém, começara a trazer outras lembranças junto com a saudade. Pequenas coisas que pareciam mesquinhas perto de morte, vampiros e fim do mundo, mas que tinham sido enormes para a garota que eu era. Elena e Bonnie tinham uma ligação da qual eu frequentemente me sentia excluída, e durante muito tempo eu tentara compensar aquilo sendo mais engraçada, mais bonita, mais interessante, mais qualquer coisa que me impedisse de terminar do lado de fora novamente.
Eu sabia que parte daquilo tinha sido insegurança minha. Sabia também que reconhecer uma insegurança não significava descobrir que ela nunca tivera motivo para existir.
Apoiei a cabeça no encosto e fechei os olhos por alguns segundos. Era uma das coisas mais desconcertantes naquele retorno, caso eu finalmente estivesse disposta a chamá-lo assim. Eu havia sentido tanta falta daquelas pessoas que imaginava que, se pudesse vê-las novamente, não existiria espaço para mais nada além de felicidade. Só que o amor não tinha apagado o que acontecera entre nós. Eu ainda carregava ressentimentos que pareciam pequenos diante da morte e enormes agora que estava novamente no lugar onde tinham começado.
Talvez fosse isso que significasse realmente voltar. Não receber as pessoas de volta como eu queria lembrá-las, mas encontrá-las como elas eram.
Abri os olhos e engatei a marcha.
Saí devagar da rua dos Bennett, sem nenhuma vontade particular de voltar para casa. Minha mãe ainda estaria trabalhando e ficar sozinha no quarto provavelmente significaria passar mais algumas horas encarando objetos antigos enquanto tentava decidir se meu cérebro tinha capacidade suficiente para construir uma alucinação que incluía Sheila Bennett fazendo alguma coisa inexplicável com a minha mão.
A essa altura, continuar chamando tudo de sonho começava a parecer teimosia.
Passei pela praça e diminuí a velocidade. Mystic Falls estava cheia naquela tarde. Algumas mesas tinham sido colocadas do lado de fora de um café, crianças corriam perto de uma fonte enquanto os pais conversavam e um casal discutia diante de uma loja porque o homem aparentemente se recusava a entrar. Uma mulher atravessou a rua carregando sacolas demais e precisou equilibrar uma delas contra o quadril quando o celular começou a tocar dentro da bolsa. Mais adiante, dois adolescentes dividiam os fones de um iPod enquanto esperavam para atravessar.
Tudo continuava funcionando.
Isso era o que mais me perturbava.
Eu conhecia aquela cidade depois de tantas perdas que tinha começado a pensar nelas como parte inevitável de sua história. Ali, porém, nada parecia inevitável. As pessoas acordavam, trabalhavam, faziam compras e discutiam por motivos insignificantes porque ainda não sabiam quais acontecimentos estavam vindo em sua direção.
Meu olhar encontrou uma placa indicando a estrada. Wickery Bridge. Meu pé deixou o acelerador.
O carro atrás de mim buzinou e levei um susto, voltando a acelerar antes que provocasse um acidente enquanto pensava justamente em outro. Alguns metros adiante encontrei um lugar para encostar, estacionei junto ao meio-fio e desliguei o rádio..
O silêncio dentro do carro tornou meus pensamentos muito mais altos.
Vinte e cinco de junho de 2009.
Eu sabia a data.
Sabia que o acidente aconteceria em breve, embora precisasse organizar melhor minhas lembranças para descobrir exatamente quando. Durante anos, aquela história tinha sido apenas parte da vida de Elena. Seus pais morreram em Wickery Bridge, Stefan a salvou e, por causa da semelhança com Katherine, decidiu descobrir quem ela era. Um acontecimento levava ao outro com tanta facilidade quando contado depois que parecia uma linha reta.
Mas eu estava antes dele agora.
Miranda e Grayson ainda não tinham entrado naquele carro, Elena ainda não tinha caído da ponte.
Apertei as mãos ao redor do volante.
Eu podia impedir. O pensamento surgiu tão naturalmente que levei alguns segundos para perceber o tamanho dele.
Se soubesse o dia e a hora, bastava evitar que eles chegassem à ponte. Podia furar um pneu, inventar uma emergência, ligar para a polícia, colocar alguma coisa no meio da estrada ou simplesmente aparecer diante da casa dos Gilbert e fazer um escândalo suficientemente grande para atrasá-los. Eu era Caroline Forbes. Fazer escândalos convincentes tinha sido praticamente uma habilidade extracurricular na adolescência.
Um sorriso nervoso apareceu nos meus lábios, mas desapareceu depressa. Porque então Elena não cairia da ponte. Stefan talvez nunca a encontrasse.
E se Stefan não a encontrasse, talvez não voltasse para Mystic Falls. Se ele não voltasse, Damon poderia fazer alguma coisa diferente. Bonnie poderia descobrir seus poderes de outra maneira ou não descobri-los naquele momento. Katherine ainda apareceria? Klaus encontraria Elena? Tudo que eu conhecia começava a se desfazer antes mesmo que eu conseguisse acompanhar as possibilidades.
Sheila tinha razão em uma coisa sem sequer saber a pergunta. Algumas coisas eram maiores do que pareciam.
Encostei a testa no volante e respirei fundo, sentindo o ar frio do carro atingir meus braços. Eu tinha passado anos desejando poder voltar e mudar determinadas escolhas. Na minha cabeça, sempre funcionara de maneira simples. Você encontrava o momento em que tudo dera errado, fazia outra coisa e seguia para uma versão melhor da vida.
Só que não existia um único momento. Existiam milhares. E eu não sabia quais deles podiam ser retirados sem fazer todo o resto desmoronar.
Levantei a cabeça e olhei novamente para a placa ao longe. Então outra ideia surgiu, muito menos confortável. Não fazer nada também era uma escolha.
Eu poderia voltar para casa, fingir que não sabia e esperar. Dentro de alguns dias, Elena receberia uma notícia que dividiria sua vida entre antes e depois. Eu saberia que Miranda e Grayson estavam mortos antes mesmo de Bonnie me ligar. Poderia abraçá-la no funeral e fingir surpresa enquanto carregava a certeza de que talvez tivesse conseguido impedir.
Meu estômago se revirou.
Talvez alterar aquele acidente destruísse acontecimentos que eu ainda nem conseguia prever, mas ficar parada significava escolher o futuro que eu já conhecia apenas porque tinha medo de descobrir outro.
E aquele futuro tinha terminado comigo morta numa floresta.
Soltei lentamente o volante e observei as marcas avermelhadas que minhas unhas haviam deixado nas palmas das mãos. Meu coração ainda batia depressa, mas havia alguma coisa diferente sob o medo agora. Não era esperança. Ainda não conseguia ser tão otimista.
Era raiva.
Raiva de pensar em quantas vezes nós simplesmente reagimos ao próximo desastre porque parecia impossível fazer outra coisa. Raiva das pessoas que decidiram por mim, das vezes em que eu própria aceitei decisões que me machucavam para não perder alguém e de quantas mortes acabaram tratadas como inevitáveis depois que já era tarde demais para questioná-las.
Não quer ver anúncios?
Com uma contribuição de R$29,90 você deixa de ver anúncios no +Fiction durante 1 ano, além de outros benefícios.
Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!Eu não tinha voltado para assistir tudo outra vez. A frase se formou em minha cabeça, e dessa vez não tentei afastá-la.
Ainda não sabia por quê estava ali. Não sabia o que a pedra tinha feito, se Stefan tinha sido trazido comigo ou se qualquer mudança que eu provocasse acabaria criando alguma coisa ainda pior. Mas sabia que, se tivesse realmente recebido anos que já vivera uma vez, não conseguiria passar por eles seguindo obedientemente os mesmos passos.
Meu primeiro problema estava em Wickery Bridge.
E eu ainda tinha alguns dias para descobrir o que fazer a respeito dele.
Fale com o autor