Mais forte que o tempo

3 Perdido em memórias


Saga se encontrava sentado no chão da sala, olhando para a taça vazia em sua mão. Havia bebido todo o vinho.

— Shaka vai amar saber que você acabou sozinho com a garrafa que ele comprou para o aniversário de vocês. Seu gênio. — disse em voz alta, sendo irônico consigo mesmo.

A intenção claramente não era essa. Estava com raiva, com medo, com tristeza e com uma puta dor na mão machucada. Precisava beber algo. Pegou a garrafa de whisky que estava aberta e esta lhe rendeu duas doses. Mas queria mais, queria embebedar-se e esquecer. Notou a garrafa de vinho, lutou por um minuto com o seu bom senso, derrotando-o e abriu a garrafa que haviam comprado juntos, no aeroporto de Atenas, ao final de em uma viagem que haviam feito no mês anterior à Milos, ilha natal do amigo de Shaka, cujo o nome que fora batizado era uma homenagem. Foi um passeio "de casal", onde foram ele, o marido, Milo e Camus e ficaram hospedados na casa dos pais do grego mais novo. Pensando bem, fora ali que tudo desandara.

Saga perdia-se em memórias...

Chegaram em Klima, local da ilha onde ficariam hospedados em julho. Era verão, estava ao lado do seu homem de olhar de mediterrâneo e iriam conhecer um lugar novo. Saga ainda não conhecia Milos e, como bom nativo de gêmeos que era, poucas coisas o excitavam mais que conhecer lugares novos. Haviam voado de Atenas à Milos, chegando por Adamas e pegando um ônibus até a simpática vila de pescadores, com casinhas que pareciam de brinquedo, todas muito à beira mar, com portas, janelas, sacadas e escadas coloridas. A viagem fora tranquila, Saga já havia saído muitas vezes com o casal amigo de Shaka, já possuindo intimidade com eles. Camus era um homem sério, lembrava um pouco seu próprio marido, reservado e introspectivo. Já Milo falava pelos cotovelos e vivia em festa, era expansivo como ele, mas era um homem muito responsável e compromissado. Identificava-se com o outro grego.

Milo tocou a campainha e foram recebidos por seus pais, que ficaram eufóricos em vê-lo, beijando-o muito e abraçando Camus com muito carinho. Aquilo era surreal pra Saga. Aquela família aceitava a escolha de seu filho e ainda pareciam gostar de seu namorado. Estavam felizes em vê-los. O mais velho sentiu inveja, muita inveja daquela família feliz.

Quando finalmente pararam de lamber a cria, Milo apresentou os amigos para os pais. Apesar de sorrirem simpáticos, Saga reparou que eles gastaram tempo demais com os olhos sobre eles. Shaka também notara. Uma vez dentro da casa, foram recepcionados já com uma farta mesa de almoço. Conversaram alegremente, no que os anfitriões pareciam interessados em conhecer melhor os amigos do filho e matar as saudades que sentiam dele e até de Camus, que já conhecia os pais do namorado. Saga não conseguia evitar desejar aquela família de comercial para si. Em um momento mais oportuno os pais de Milo o puxaram para um canto. Tanto Shaka quanto Saga notaram e o loiro observou quando seu marido resolveu espreitar a conversa da família anfitriã. Estava tão curioso quanto ele, mas decidiu que um par de ouvidos era o suficiente, ficando na sala com Camus distraindo-o com uma conversa sobre como era sua relação com os sogros. Saga um pouco mais próximo de onde estavam, conseguiu ouvir a conversa que se desenrolava no cômodo ao lado.

— Mas filho, você não disse que traria um casal de amigos? — era o pai de Milo quem perguntava.

— Sim e disse que eram dois homens, não entendo o espanto. — respondeu Milo

— Não filho, o problema não é este, — interveio a mãe — é que eles não parecem ter idade para serem namorados. — ponderou um pouco antes de continuar- O rapaz moreno parece muito mais velho que o rapazinho loiro. São mesmo um casal? Digo, um casal saudável? Não abrimos as portas para aproveitadores! Aquele homem, Saga, não está tirando proveito do menino Shaka, está?

Milo riu.

— Ora mãe, que bobagem, o "menino" Shaka é um homem da minha idade! Na verdade é quase dois meses mais velho! — os pais pareciam surpresos — São oito anos de diferença entre ele Saga — disse ainda achando graça — E ele não parece ter mais do que tem! — referia-se ao grego.

— Não, não. Não parece — a mãe processava a informação — Na verdade, lhe daria uns trinta e sete, mas... Seu amigo tem mesmo sua idade? Pensei que tinha uns vinte!

Dessa vez Milo gargalhou.

— Nossa, mas é muito exagero! — Milo beijou a mão bronzeada da mãe e acarinhou seu cachos castanhos — Por dentro, Shaka é o mais velho nessa casa inteira, vai perceber com os dias.

— De fato ele parece sério. — novamente a voz do pai se fazia presente — E quer estar em todos os locais ao mesmo tempo. Antes mesmo do almoço já havia instalado suas malas e a do marido no quarto, separado uma blusa que o outro não conseguia achar e voltou a tempo de ajudar a pôr a mesa, arrumando os pratos e talheres da maneira organizada. Bem mais que sua mãe. — Milo já sorria de canto com o relato detalhado do pai e da implicância com a desorganização da esposa — Serviu o marido, que eu bem vi, serviu os copos de todos nós, ajudou a retirar a mesa e só faltou varrer a cozinha! Reparei inclusive que ele procurou a vassoura discretamente, foi quando você o arrastou para sala.

— Pois vocês virginianos se reconhecem! — disse apertando o nariz do loiro mais velho a sua frente, de cabelos curtos e lisos. — É a maneira dele dizer que está feliz e grato. — Milo olhou sério para os pais — E por favor os respeitem, sim? São casados há dez anos! Isso quer dizer que possuem mais tempo juntos que diferença de idade. São um casal admirável, venceram muitas lutas juntos.

— Dez anos? Que bênção! — era a mãe — E você, filho, casa quando?

— Ihhhh, estava demorando! — brincou Milo, voltando para sala.

Saga conseguiu voltar para o lado de Shaka antes de acharem a atitude suspeita, mas o que ouvira o perturbara tão profundamente que ele não conseguira contar o teor da conversa para o marido, quando este o perguntou. Ele mesmo já havia notado antes que a diferença de idade entre eles parecia ainda maior do que já era. O indiano, apesar do humor sério e do jeito fechado era bastante jovial tanto no porte quanto na vestimenta e ele... Bom, os fios brancos falavam por si. Já ouvira comentários desagradáveis de pessoas que se metem na vida dos outros sem ao menos conhecê-las, mas isso não o incomodava quando ele mesmo era mais jovem, mas agora começava a ser diferente. Sentia-se mal.

Os quatro passaram os dias subsequentes visitando as praias da ilha que eram belíssimas, de areia muito clara e água muito azul que pareciam a pele e olhos de seu marido que quando o fitava, deixava em Saga a nítida sensação que seus olhos eram parte do mar Egeu em volta de si. Como podia ser tão bonito?

Enquanto se divertiam nas praias, Saga podia notar os olhares cobiçosos dos turistas e nativos locais para Shaka. Claro que eram um quarteto fantástico, pareciam saídos de uma campanha publicitária, mas o grego mais velho já estava contaminado com a conversa que escutara. Só tinha percepção para como o mundo enxergava Shaka e pegava-se com mais frequência do que gostaria pensando em "velho demais" ou "novo demais" e só substituía esses pensamentos pelos de inveja da família comercial de margarina.

Shaka percebera que o marido parecia um pouco amuado e em uma das noites, no quarto, aproximou-se, beijando-lhe as costas nuas e deslizando as mãos por sua cintura até a altura de sua bermuda. Não era um pedido de fato, mesmo porque Shaka nunca pedia. Era uma breve insinuação e checagem de terreno. Saga, ao sentir a investida virou-se, prensando o corpo do marido, também sem camisa, contra a parede com o próprio, alcançando seus lábios em um beijo molhado, descendo até seu pescoço o ouvindo soltar um gemido abafado. Não havia pedido, contudo desejava. E bastante. O grego percorreu com os dedos longos o dorso do indiano com um movimento ascendente e depois desceu por seu peito, parando um pouco na tatuagem, na costela esquerda na quase na lateral do corpo, na altura do pulmão: era o símbolo astrológico de mercúrio, com uma pena o circundando. A pena era referência ao deus de botas e elmo alados, Mercúrio ou, para os gregos, Hermes. Mercúrio: o regente de virgem, signo do marido. Saga achava lindo o indiano ter uma tatuagem com referência à sua Cultura e não à própria. Segurou com força a cintura delgada, voltou a percorrer o pescoço sensível com a língua. O corpo de Shaka respondia ao contato de maneira imediata e Saga o acariciou por cima da calça, sentindo o marido cerrar a mão, puxando-lhe os fios rente a nuca em resposta enquanto tentava conter mais um gemido.

— Saga... — disse em um sussurro sensual

— Tem certeza que você quer fazer aqui?

Saga sabia que seu marido não era exatamente silencioso e não queria expô-lo de maneira alguma. Shaka apenas fitou-o suplicante, passando o indicador pelos lábios do marido e umedecendo os próprios com a língua, afirmando com a cabeça antes de puxá-lo para mais um beijo. Saga atirou o corpo do marido na cama, colocando-se sobre ele, trocando mais beijos desejosos. Desceu, mordiscando e sugando um de seus mamilos, enquanto maltratava o outro com os dedos. Sentiu seu loiro arfar e cravar as unhas em seus braços ao mesmo tempo que envolvia com as pernas o corpo do grego, roçando sua ereção desperta embaixo da roupa contra si. Shaka mordeu o lábio tentando não gemer alto, estava entregue. Desceu a mão até sua calça, na intenção de livrar-se dela, precisava sentir mais, quando sentiu a mão do marido em seu pulso.

— Eu cuido disso.

Levantando um pouco para conseguir movimentar-se, olhou dentro dos olhos de oceano do marido, que agora pareciam duas fossas abissais, tão dilatadas de desejo estavam suas pupilas, o rosto bonito queimado de praia, as clavículas saltadas que achava tão sensuais, o corpo jovial...

"São um casal saudável"?

"Não abrimos as portas para aproveitadores"!

Saga voltava a ser nocauteado pela conversa que ouvira... Estava se aproveitando de Shaka? Impossível, o amava tanto.... Estava?

Levantou-se de súbito deixando um Shaka muito confuso na cama. Rumou em direção a porta, ouviu a voz do marido, já de pé, atrás de si.

— Vai me deixar aqui... assim?

Nada disse. Abriu o trinco. Já estava com a mão na maçaneta quando escutou novamente a voz do mais novo, dessa vez mais baixa, sutilmente estrangulada e trêmula.

— Não gosta mais?

Céus, Shaka era o que mais desejava na vida. Permaneceu imóvel. O que diria pra ele? Que seu frescor o estava sufocando? Que sentia-se passado para trás pelos próprios anos? "Ah Shaka, eu gosto muito, mas não queria ficar broxa antes de você" Jamais daria som a um pensamento tão absurdo. "Sei que você tem trinta, mas é que eu pareço um pedófilo do seu lado, você está mesmo feliz assim? Quer transar com os óculos pra ver minhas rugas? Conseguiria dizer aos pais do Milo que não estou tirando proveito do seu belíssimo corpo esbelto"? Também jamais daria som a um pensamento tão vergonhoso.

— Você não tirava os olhos das pessoas na praia. — a voz era baixa, Shaka tinha verdadeiro horror em demonstrar qualquer sombra de fragilidade. Gostaria de calar-se para sempre, todavia, precisava saber.- Olhava os homens... Mesmo as mulheres... Captava detalhes, eu pude perceber. — ponderou um pouco. Não estava certo se queria as respostas para suas perguntas — Está enjoado de fazer sempre com a mesma pessoa? Sei que você variava bastante antes de mim. — Saga voltou a fechar o trinco, discretamente — Está me traindo? Quer me trair? Quer terminar?

Foi calado pelos lábios ávidos de Saga, que o empurrava pra trás, enquanto o apalpava com volúpia e rudez.

— Eu — só — penso — em — você.

Disse o mais pausado e claro possível, baixando as calças do mais novo e o sentando na beira da cama. Arrancou a própria bermuda e ajoelhou-se em sua frente.

— Escute — segurou o rosto do menor com ambas as mãos — desde você, só existe você, só existirá você, é como se só houvesse existido você. — nem Saga estava preparado para algo tão avassalador na época. Ele realmente possuía pavor de rotina e amava variar, mas era a mais pura verdade. Shaka era um manjar divino, não precisava de variação. — Nunca mais perca seu tempo com uma paranóia infundada dessas.

Voltou a devorar seus lábios antes que Shaka pudesse protestar. Afastou-se um pouco para retomar a fala.

— Poderia me estender em explicações, mas eu sei exatamente o que você mais gosta que eu faça com esta boca aqui e, não é dar explicações.

Baixou a coluna do outro na cama e afastou mais seus joelhos, apoiando os pulsos neles, abocanhando o membro rijo à sua frente. Foi tudo tão inesperado que Shaka precisou colocar a mão em sua boca, para abafar o som de sua satisfação. Saga prosseguiu a felação, disposto a dar todo o prazer que o marido merecia. Sentou-se em seus próprios calcanhares, aproximou-se do outro. Masturbava-se com uma das mãos e acariciava-o com a outra. Suas mão e boca intercalavam entre o membro, o períneo e os testículos do outro, que mantinha uma mão firme na boca e a outra esmagando o lençol abaixo de si, imerso em prazer. Saga apoiara uma das pernas do marido em suas costas, para que ficasse mais confortável e para que ele pudesse tocá-lo melhor. Os gemidos abafados de Shaka eram a sinfonia erótica favorita de Saga e ele ficou um bom tempo alí. Todo o tempo necessário até seu marido explodir em sua boca em meio a espasmos de prazer. Saga sugou-o e intensificou as próprias carícias, com o rosto enterrado na virilha do marido, sentindo seu cheiro, alcançando seu ápice um ou dois minutos depois. Subiu na cama, oferecendo os dedos molhados à Shaka, que os lambeu, sentindo o gosto do marido. Voltaram a se beijar e Saga ajeitou a ambos na cama, abraçou o marido contra seu peito e dormiram ali, na presença cálida um do outro.

A viagem fora maravilhosa, mas também fora o estopim para a sua crise de insegurança, que só fez piorar através dos dias.

Deixou a taça ao seu lado e deitou a cabeça no assento do sofá, fitando o teto. O aniversário de dez anos de casamento estava muitíssimo próximo. Lembrava de como foi conhecer Shaka, em uma época tão complicada da vida e deixava suas memórias tomarem as rédeas de seus pensamentos outra vez.

Havia voltado não fazia muito tempo para Grécia, após terminar mais um de seus frívolos relacionamentos. Terminar nunca era simples, mesmo não se estando exatamente apaixonado. Mas era bem mais difícil, quando se estava em surto.

Saga sempre tivera uma vida razoável. Passou sua infância e adolescência em Creta, onde nascera, com seus pais e seu irmão gêmeo. Morava em uma vila de pescadores e seus pais possuíam um comércio local: uma padaria. Durante a adolescência Saga e seu irmão, Kanon, revezavam no cuidado vespertino do estabelecimento, para que seus pais pudessem cuidar da casa, que ficava nos fundos, e do abastecimento de matéria-prima. Em verdade, Saga cuidava mais da padaria que Kanon, que vivia escapando da responsabilidade para dar um mergulho ou sair com alguma namoradinha. Saga era quinze minutos mais velho, ainda assim parecia uma vida. Fazia os trabalhos escolares dele e de Kanon, arrumava o quarto dele e de Kanon, tomava conta do comércio no turno dele e de Kanon... E Kanon? Bom, Kanon se divertia por ele e por Saga. O mais velho até reclamava, mas seu irmão não dava uma trégua e seus pais faziam vista grossa. Queriam mais é que Saga cuidasse das responsabilidades mesmo, afinal ele era notavelmente melhor nisso. Sempre fora muito inteligente e possuía um dom natural com as palavras. Com quinze anos já escrevia para um jornal local, onde relatava hábitos de vida e transcorria sobre fatos cotidianos. Era um prodígio na área e já dava todos os indícios de que seria um profissional dos melhores. O grego era inteligente, vivaz e esforçado. Só havia um defeito: se entediava com extrema facilidade e era muitíssimo inquieto quando "sofria de tédio". Foi em uma tarde sofredora que decidiu fechar a rapidamente a padaria, só para espiar seu irmão, era um dia quente e ele também queria o refresco do mar, que o mais novo certamente estava aproveitando. Acabou esquecendo, em sua saída furtiva, o fogareiro ligado e um pano de prato próximo demais do fogareiro, que por sua vez estava próximo demais dos tonéis de azeite. E o seu desejo por água transformou tudo em fogo. Pouco sobrou do comércio e da casa da família. A mãe, cardíaca, não agentara o baque. Seu pai o culpou pelo incêndio e seu irmão pela morte da mãe e a relação com ambos se degradou. Saga era um estranho na própria família. A pá de terra final fora quando Kanon contara ao pai que vira Saga com outro rapaz. O pai o expulsou de casa e foi assim que, com seus recém completados dezoito anos, juntou tudo o que havia conseguido como colunista mirim e saiu da ilha, nunca mais tendo notícias de ambos.

Mudou-se para Pireu, não tardando a conseguir um emprego em uma redação. Sempre notório no que fazia, recebeu uma oferta de emprego e uma bolsa de estudos na vizinha Atenas, para onde mudou-se em seguida. Daí por diante sua carreira só prosperara, contudo os eventos do passado haviam deixado suas marcas: Saga sofria crises severas de ansiedade e ataques de pânico. Fazia análise e tomava uma série de controlados. Quando em crise, às vezes permanecia dias trancado em casa e só não perdera o emprego porque rapidamente virara um colunista estrela, desses que todos queriam ler. Além do que, era tão bom no que fazia, que quando estava bem produzia textos extras, para que soltassem quando ele simplesmente "sumia".

Saga era uma alma inquieta e errante, não conseguia emendar nenhum relacionamento por mais de três meses, enjoava-se fácil de tudo e oscilava entre o interesse extremo e o completo descaso. Sentia-se cheio de vazios. Um vazio mais abismal que o outro.

Como o emprego também não exigia que se fixasse em Atenas, pois conseguia perfeitamente trabalhar a distância, mudou-se diversas vezes de estado, morando em Megara, Kozani e Tessalônica. Viveu também nas ilhas de Mykonos e Naxos. Não satisfeito em ser nômade em seu país, pousou também na Itália e Espanha. Nunca ficou mais de um ano em nenhum desses lugares e sempre deixava pelo menos dois casos para trás. Saga nunca estava sozinho, mas também nunca estava de fato com ninguém. A vida cigana dificultava o tratamento, estava sempre mudando de médico e descontinuando medicações. Em fevereiro de 2007 estava de volta a Atenas, depois de uma estadia conturbada em Barcelona, na Espanha. Havia saído de Veneza, na Itália, e atravessava um bloqueio criativo severo. Pensara que mudar de país poderia ser inspirador e renovar os ares poderia ajudar com a ansiedade, que andava de mal à pior. Entretanto na nova pátria apenas arranjara confusão. Envolveu-se com dois espanhóis ao mesmo tempo, o que resultou em uma briga violenta, quando o primeiro soube do segundo, invadindo o apartamento do outro para esfaqueá-lo. Saga chegou no meio da briga, sendo ferido também, tendo uma das mãos perfuradas. O caso parou na delegacia e o grego fora deportado.

Voltar à Atenas em condições tão hostis não estava sendo fácil. Saga tinha ataques de pânico frequentes, taquicardia e dificuldades para respirar. O mundo estava todo torcido, roto e sem graça. Não escrevia absolutamente nada há quase dois meses e desta vez seu confortável emprego estava severamente ameaçado. Caminhando pelas ruas pôde avistar em uma esquina o que parecia ser um um sebo. Conhecia bem aquele bairro e lembrava-se que ali funcionara outrora uma pequena gráfica. Achou curiosa a mudança e resolveu entrar. Livros e objetos antigos poderiam ser inspiradores, quem sabe. Olhou para placa fixada no alto e leu em voz alta: "Minerva". Interessante, era a referente romana à deusa da sabedoria, Athena. Parecia propício para um lugar cheio de livros, cheio de "saberes". Atravessou a rua, obstinado, a placa por dentro da porta marcava "aberto", no que ele simplesmente entrou no recinto, vasculhando tudo com os olhos atentos.

Foi arrebatador.

Uma revoada migratória de andorinhas voltando ao lar.

Um marinheiro europeu avistando as Índias.

O escancaramento das portas do céu.

Um salto do penhasco.

Um penhasco à beira do mar.

Saga viu ao fundo, atrás do balcão, uma figura muito loira, de longa e farta cabeleira lisa, que lhe desciam pelos ombros até sumirem, ocultadas pelo móvel à sua frente. Usava uma bata branca, por baixo de uma jaqueta de cor vinho escura, porém vibrante que realçava ainda mais seus fios de centeio dourado. Ouvindo a sineta da porta, o dono da descrição levantou um pouco a cabeça, revelando seu rosto de querubim. Usava óculos de grau com uma armação dessas maiores de aro de tartaruga e fitou o recém-chegado por cima deles por uns segundos, para enfim ajeitá-los no rosto a fim de focá-lo com exatidão. E seus olhares se cruzaram. Foi quando Saga, que cresceu na beirada da praia, que viveu em ilhas e em cidades costeiras, viu o mar pela primeira vez. Ao menos parecia a primeira vez. Foi quando o grego saltou do penhasco direto na imensidão azul, caindo nas águas que o afogariam. Águas que imediatamente pareceram inundar cada abismo que ele trazia dentro de si. Agora estava cheio, repleto. Nos poucos segundos que fitou aqueles olhos desejou morrer olhando para eles. Olhá-los por toda vida.

Sentiu vontade de escrever.

Sentiu que não conseguia respirar, mas que aquilo nada tinha a ver com sua ansiedade.

Sentiu o corpo quente no inverno. A primavera chegava mais cedo para si. A primavera estava diante de si.

Sentiu o coração bater em desalinho... Seu coração batia? Ah, sim, como batia, eram fogos de ano novo.

A relação dos dois não demorou a incendiar, como fogo no trigal. Arderam e consumiram-se, arrebatados por um amor que ambos não acreditavam que existisse para além dos livros. Shaka ajudou Saga a superar sua crise, voltar a escrever e retomar sua segurança. O imigrante era dotado de uma força de vontade descomunal e mesmo atravessando um período de luto e de sérios problemas com os estudos e com o estado grego, encontrava serenidade para ser bálsamo para o mais velho lavar as feridas. Era um homem formidável e Saga não podia perdê-lo para o descaso do acaso. Pediu-o em casamento. Poderiam oficializar a união em cartório, o que criaria um laço do indiano com a Grécia. Queria ajudá-lo a comprar o local do sebo. Ser proprietário de um comércio certamente ajudaria com a cidadania. Não era simples, uniões civis entre pessoas do mesmo sexo eram legais, mas não bem vistas. Acabou tornando tudo público em seu blog pessoal, o que atraiu a mídia de toda união europeia, fazendo o setor de imigração ceder e finalmente conceder a cidadania e o visto permanente.

Convenceu Shaka a mudar-se para a casa que havia comprado na capital e estava cuidando verdadeiramente de sua saúde mental. Tudo finalmente se encaixava. Anos de terapia e dedicação depois, alcançou a alta médica de seu analista. Sentia-se bem sem medicações. Era um homem livre de si há três anos. Mas agora parecia que seus fantasmas voltavam.

Ainda olhando para o teto sentiu algo pontudo e fofo subindo em seu colo, trazendo-o de volta ao presente. Afagou o pelo macio e sentiu o ronronar suave. Era Spica, a gata de três cores que Shaka trouxera com ele quando se mudou e que virara a "filha" do casal. Agora já era uma felina idosa, mesmo assim continuava macia e vistosa. Ficou ali, aninhada no colo do grego que ficou um bom tempo fazendo carinho na pelagem, sem desviar o rosto do teto. Aquela presença foi o acalmando aos poucos. Spica sempre sabia quando um de seus humanos estavam tristes e sempre fazia o mesmo: subia no colo deles e ficava ali quietinha, ronronando, emanando sua presença terapêutica.

— Você sempre sente, não é?

Saga o disse finalmente voltando-se para aqueles olhos, ora verdes, ora amarelos, afagando o topo da cabeça, fazendo com que a gata os fechasse de satisfação. E então houve um estalo em sua mente:

— Spica! Você não comeu! Eu sou um monstro! — pegou a gata no colo levantando-se num pulo — Você também nem me lembrou! Cadê a miação desenfreada em frente ao armário da ração?

Outra característica de Spica era que ela não "perturbava" quando sentia que estavam tristes. Saga sentiu-se tonto ao erguer-se de súbito, consequência da bebida somada ao estômago vazio. Cambaleou uns passos antes de recuperar o equilíbrio, rumando até a cozinha. Colocou ração no pote e verificou se a fonte de água estava funcionando.

— Não pode esquecer de beber, senão Shaka briga com a gente!

Shaka, Shaka, Shaka... Não havia como pensar em outra coisa. Escorou as costas na parede, descendo até sentar-se ao lado de Spica, que comia com vontade.

— Ele não vai nos deixar, não é? — disse olhando para a tricolor.

Saga oscilava entre raiva e medo. Estava perdendo o controle. Levantou e foi procurar seu caderno de anotações, onde estava o número de seu antigo analista. Ele não iria perder Shaka para ele mesmo.

Estava disposto a lutar.