Notas iniciais
Algumas considerações para o capítulo ✩ Tarte tartin é uma torta típica francesa, tradicionalmente de maçã, que é feita invertida: a fruta é posta na assadeira antes da massa. Ao assar a fruta carameliza e ao desenformar ela fica por cima. No Brasil fazemos algo parecido com banana e abacaxi. ✩ Mílo, ou μήλο, em grego, em tradução literal significa maçã ✩ A Museion Editora é fictícia, ok, criei para a fic. Mas não me espantaria nada se existir realmente uma por aí ✩ A título de curiosidade, Museion é o templo das musas. Na mitologia grega as musas, filhas de Mnemosine - deusa da memória - são entidades capazes de prover inspiração ao homem, para arte e ciências, cada uma para um fim, sendo ao todo nove musas. Agora se você ouvir a expressão "musa inspiradora" já sabe de onde vem. ✩ Blockbuster é uma expressão para designar um sucesso de vendas e mídia. Algo que caiu no gosto popular, que todos conhecem e gera boa receita. É um termo utilizado para filmes, mas comumente visto aplicado à outras modalidades

Shaka acordou e procurou o marido com a mão instintivamente. Retornou à realidade e abriu os olhos. Era estranho estar no sebo. Era estranho não sentir o braço de Saga ao alcance de suas mãos, era estranho não virar-se para o lado, velar seu sono por um ou dois minutos, agradecer silenciosamente por tê-lo ao seu lado e beijar seu peito nu, na altura de seu coração, enquanto o outro dormia. Também não levantaria e prepararia o café de ambos. Sentiu-se amargo. O indiano era extremamente apegado à sua rotina. Mas, não era simplesmente isso. Era que Saga fazia uma falta visceral.

Levantou e pôs-se a arrumar tudo, guardando os lençóis e transformando a cama em sofá. Era segunda e seria uma longa semana. Lavou o rosto, escovou os dentes e os cabelos, prendendo-os em um rabo de cavalo um pouco alto, deixando solta a franja e umas mechas que lhe emolduravam o rosto. Terminava de se vestir quando seu celular, tocou. Era Camus.

— Sim?

— Bonjour, mon ami*! Estou na porta do Minerva.

— Bonjour, ruivo — disse imitando sotaque francês — Um minuto.

Shaka estranhou. Olhou o relógio e ainda faltavam meia hora para as oito, quando abria seu comércio. Milo às vezes aparecia cedo, mas Camus trabalhava como farmacêutico em um laboratório no outro lado da cidade. O que estaria fazendo ali? Vestiu a bata marinho de meia manga, com gola quadrada que, como a maioria de suas roupas de verão, lhe deixava as clavículas alvas à mostra, colocou-a para dentro do jeans de tom muito parecido e correu para abrir a porta.

— O consultório do garoto maçã é depois da esquina, acho que você errou de loiro! — disse num tom amigável, dando passagem para que o outro entrasse.

Camus entrou, o esperou encostar a porta e virar novamente para si. Estava com uma sacola nas mãos, vestia uma polo preta com pespontos claros muito delicados e caimento perfeito, jeans pretos muito escuros, sem lavagem alguma e sapatos de couro também pretos. Seus longos fios ruivos estavam soltos. Um pequeno sorriso desfez momentaneamente a habitual cara de poucos amigos.

— Pois Milo disse-me ontem que seu frigobar estava desprovido de guloseimas matinais.

— Maçã fofoqueira. — comentou Shaka cruzando os braços em uma falsa e teatral indignação, ao que Camus sorriu novamente.

— Sabe, penso eu que a melhor maneira de mimar um virginiano é com algo feito à mão. — Shaka arqueou uma sobrancelha, curioso — É que ele me disse que gostaria de mimá-lo. Oui**, mimá-lo, com estas palavras. Então me adiantei e lhe fiz isso. — concluiu estendendo a sacola.

Shaka segurou-a, um tanto sem graça e verificou seu conteúdo.

— Atchá***! Você fez tarte tatin! E olha só, por falar em maçãs... — riu olhando para os pedaços de torta feitas da fruta — Milo diz que seu tarte tatin é melhor que o de qualquer patisserie da França!

— Muito embora ele nunca tenha saído da Grécia!

— Exatamente!

Ambos riram e a sineta da porta foi escutada, anunciando a entrada de Milo, segurando um suporte com três cafés, que flagrou o fim da cena. Camus e Shaka rindo. Rin-do. Abertamente. Ao mesmo tempo. Ele se esforçava para arrancar risos assim de ambos, mas eles estavam fazendo isso descaradamente nas suas costas. Armou um bico.

— Posso saber do que os príncipes acham graça?

— Oui! De você, claro, ma pomme****!

— Ah não, você também? — disse se referindo ao apelido que lhe fora dado por Shaka que na verdade ele adorava, era puro charme — E como assim de mim?

Milo, que vestia um jeans de lavagem clara, e uma blusa de botões índigo, quase roxa, com os punhos dobrados até os cotovelos e seu quase inseparável coturno nos pés, não sabia se sentia mais ciúmes do SEU namorado ou do SEU amigo.

— Traíras! — acrescentou aumentando o bico.

— Eu gosto de pomme, me agrada. Tipo o bico que você está fazendo agora. — Camus disse segurando seu "bico", beijando-lhe a bochecha e enlaçando seu braço direito com o próprio. Era avesso à demonstrações públicas de afeto, mas estava entre os seus.

— Olhe, amigo, eu acho elefantes criaturas adoráveis, mas você fica visivelmente melhor sem essa tromba. — Shaka, contaminado pelo clima íntimo e agradável, segurou-lhe pelo outro braço, conduzindo o casal para tomarem café dando-lhe um beijo muito ligeiro na outra bochecha — sem ciumeira matinal, combinado?

— Tá bom, tá bom. — disse direcionando-se para pequena copa — mas vocês sabem que é Milo da ilha, não Milo de fruta, não é?

— Oui, ma pomme. Inclusive a maior riqueza encontrada na ilha não foi a estátua de Vênus, foi você! Milo de Milos!

Pronto, uma cantada ruim. Era o suficiente. O grego se derretida feito manteiga na frigideira frente a qualquer demonstração de afeto do francês. Nem precisava caprichar. Beijou-o na boca na frente do amigo. Camus constrangeu-se, mas não reclamou e Shaka lembrou-se de Saga. E sentiu o corpo tremer. E morreu um pouquinho por dentro. Como podia doer assim? Tentou manter o semblante firme, não repetiria a cena do dia anterior, bastou ter fraquejado uma vez.



No fim da tarde anterior, Milo saiu do estabelecimento do amigo, pensando em onde poderia encontrar algo para jantarem. Lembrou-se de uma cantina estilo italiana, mas que servia boas saladas e pratos gregos também. Era um pouco longe para ir a pé, então rumou até a bicicleta de Shaka. Ele sabia a senha do cadeado e destravou-o sem problemas. Passou a mão pelos berloques pendurados: um pingente com uma lótus branca, a pureza de espírito, que lhe fora presenteada pelo pai assim que nascera — fora de sua mãe que faleceu no parto -, um galo de metal que lhe fora dado por Camus, símbolo de coragem em seu país, um ramo de oliveira dourado, que simbolizava o triunfo e lhe fora ofertado pelo próprio Milo e um olho grego, o famoso amuleto protetor contra todo mal e inveja, presente de Saga. Shaka também pendurara uma bolinha de pelúcia de três cores, que lhe lembrava sua gata de estimação e dizia que carregava toda sua família consigo naquela bicicleta. Milo sorriu, orgulhoso de ser considerado "da família". Era um homem extremamente fiel e estava disposto a ajudar aos seus. Faria o que precisasse para ver o casal que admirava em paz novamente.

Enquanto pedalava rumo ao restaurante pensava nas oscilações de humor de Saga. Era inevitável para Milo analisar o comportamento de todos à sua volta, devido aos anos dedicados ao seu ofício, era automático. O grego mais velho era um homem muito justo, dedicado e inteligente. Era despachado, comunicativo e vivaz. Tinha tino para liderança, mas era um espírito sem amarras e a liderança acabava por ser muitas vezes uma delas, por isso era uma "produção independente" ambulante. Conhecia gente no mundo todo, mas poucas pessoas a fundo. Pensava demais, por tempo de menos, tinha dificuldade em manter a mesma linha por longos períodos. Agia demais, concluía de menos, sempre arranjava algo mais interessante que o que estava fazendo. Saga era um atalho. Um caminho audaz e pouco ortodoxo. Triunfante, mas completamente caótico. Aparentemente Shaka e Saga partilhavam apenas a inteligência acima da média, a sagacidade para toda espécie de assunto e o exacerbado senso de justiça. O indiano era fechado e um tanto ranzinza. Possuía uma acidez que em nada combinava com a fluidez aprazível do grego. Shaka era uma linha reta. Inerte. A maior distância entre dois pontos. Fixava-se em minúcias e detalhes e nunca, nunca seguia por atalhos. Também tinha tino para liderança, mas preferia servir. Ser útil era quase uma meta de vida e, analisando bem, Shaka só se envolvia com pessoas que poderia ajudar de alguma maneira. Era tradicional e preocupado e, apesar de se comunicar com muita eloquência, tinha dificuldades em externar sentimentos. Usava uma máscara de arrogância e olhava todos de cima, mas Milo bem sabia que eram as camadas de defesa do exército protetor de seu coração. Conhecia o indiano bem o suficiente pra saber que ele tinha dificuldades em separar sentimento e fraqueza. Como fora obrigado a ser forte, desde muito novo, associou ainda na tenra infância que força era rigidez e que cada ser vivente a sua volta estava apenas esperando que ele demonstrasse seu sentir — suas fraquezas — para se utilizar disso para lhe puxar o tapete. Tinha um ciclo de convivência bem restrito, ao contrário do marido, e desvelava-se apenas para pessoas muitíssimo seletas. Era um homem de amarras, atado aos seus costumes, seu caráter, sua rotina, suas obrigações, era tudo, menos livre. Era uma máquina de críticas ambulante, tudo poderia estar melhor, ser feito com mais afinco, dar uma lapidada. As brigas rotineiras do casal eram em sua maioria, inclusive, devido ao perfeccionismo paranóico de Shaka se opor ferozmente ao jeito "o importante é que está pronto" de Saga.

Milo alcançou a cantina e pediu uma salada e um spaghetti com beringelas e tomates para viagem. Deu uma olhada nas embalagens, o macarrão parecia muito apetitoso, a salada era de folhas verdes, pimentões, tomate e queijo feta. Faltava o molho de iogurte. Shaka era viciado em qualquer coisa com iogurte. Gastou um tempo convencendo o atendente a preparar o molho, que não era incluído da salada que escolhera e pôs-se a pedalar de volta.

"Será que Saga achava Shaka novo demais pra si"? Isto não fazia sentido algum nesta altura do campeonato. Se isso fosse verdade, não teria iniciado a relação com um rapaz de pouco mais que vinte, quando o próprio já contava com trinta. "Será que era a juventude que o interessava, então? Um Shaka dez anos mais velho não tinha mais sabor de figo fresco pra ele"? Fazia menos sentido ainda, era visível o quanto se amavam e francamente, Shaka ainda tinha cara de menino, mas sempre tivera humor de ancião. Se a idade era o problema, só poderia ser a idade do próprio Saga. "Estaria se achando muito velho para ele? Estaria com medo de perder seu marido para alguém mais jovem"? Lembrou-se da conversa que tivera com os pais no mês anterior. E se Saga concordasse com seus pais? Saga tinha quarenta anos, não era incomum receber pacientes nessa idade em seu consultório, atravessando uma crise de meia idade. Isso, somado ao destempero de sua personalidade explosiva, poderia ter desencadeado na discussão daquela manhã. Precisava falar com seu amigo indiano.

Entretanto ao entrar no sebo encontrou outro homem. Era Shaka, mas não era o Shaka que deixara lá, há menos de uma hora. Estava de banho tomado e possuía seu habitual semblante de quem flutua por cima das pessoas, acima delas, que Milo costumava chamar carinhosamente de "cara de entojo padrão". Havia preparado a pequena mesa na copa para a janta e saudou Milo, como se a conversa anterior nunca houvesse ocorrido.

— O que teremos para a janta?

— Trouxe spaghetti e salada, disse à Shaka enquanto colocava as embalagens na mesa.

O de cabeleira lisa imediatamente fiuxicou as embalagens, curioso.

— Are, a salada veio sem molho!

Milo sorriu. Era maravilhoso quando ele conseguia adiantar o próximo passo e não seu amigo vigilante.

— Tua sorte é que eu sou um amigo dedicado! — disse entregando-lhe o pote com o molho — Quase precisei subornar o atendente!

Shaka pegou o molho, agradeceu sinceramente e começou a servi-los. Sereno, com seus trejeitos quase etéreos, intransponível. O indiano havia se fechado novamente. Milo sabia que aquele era o fim da conversa. Ao menos naquela noite. Resolveu seguir o baile do amigo, enfrentá-lo era sempre péssima ideia.

Ali, na mesa de café, Milo procurava nas feições de Shaka, qualquer indício de que poderia retornar em algum momento o fatídico assunto, mas o semblante do indiano permanecia indecifrável. Comiam a torta feita por Camus e tomavam café, Shaka e Milo sentados e o francês de pé, a mesa era pequena e só comportava dois lugares.

— Está certo que não quer sentar um pouco? — indagou o indiano

— Oui, eu não gosto de tomar café sentado.

— Diferentão. — implicou Milo, sendo falsamente ignorado pelo namorado.

— Ah, Camus! — Shaka parecia lembrar-se de alguma coisa — Tenho algo para você.

Abocanhou mais um pedaço de torta e sorveu um pouco do café puro, antes de levantar-se indo ate a mesa atrás do balcão, voltando com um livro na mão.

— Acabou de lançar! Em verdade, só lança na sexta! Fui à editora fazer uma compra de edições antigas recolhidas, algumas sobras, alguns itens com defeito esquecidos, essas coisas. Quando bati o olho neste livro, na bancada do editor executivo, lembrei logo de você! Usei toda minha lábia de comerciante para conseguir um! Parece que é resultado de uma árdua pesquisa de uma equipe com diferentes profissionais, veja.

Era um livro sobre a flora local e seus usos terapêuticos, medicinais e cosméticos. Contava com pesquisas recentes e diversos comparativos de resultado.

— Nossa Shaka, é incrível, não sei nem o que dizer. Vai me ajudar muito nas minhas pesquisas! Quanto lhe devo?

— Não me ofenda, é um presente.

— Mas não deve ter sido barato ou simples conseguir isso.

— O que torna um presente muito mais "diferentão", não?

— Você sempre falando com gestos. Obrigado.

O loiro virou-se para Milo, que já ostentava novamente um semblante enciumado.

— Não olhe assim, homem, este é pra você, escorpião ciumento.

Shaka entregou um envelope amarelo pequeno ao grego, que abriu, curioso.

— Nicolo Ganopolos, editor executivo.

Haviam os contatos, e no verso o logotipo da Museion Editora, famosa por publicações científicas. Milo observou um instante, tentando entender.

— Shaka, eu já tenho namorado. — disse por fim, brincando com o amigo.

— Mas ainda não publicou seu livro. — respondeu o indiano — Eu andei conversando com o Ganopolos, disse à ele que eu conhecia um proeminente teórico, com uma publicação excelente sobre transtornos infantis e como a percepção do entorno pode influenciar nos tratamentos. Comentei que já havia lido e que era muito boa mesmo e, que meu tino comercial que nunca me engana, estava certo de que quem lançasse esta publicação estaria lançando o novo blockbuster da psicologia. Ele está aguardando seu contato. — concluiu com um sorriso triunfante.

Milo seguia com uma expressão de quem se esforça muito para processar uma mensagem. Apesar de atender muitos adultos, sua paixão era a psicologia infantil. Já estava há quase dois anos procurando uma editora disposta a lançar sua publicação, a Museion inclusive. Mas era difícil se lançar como teórico na área cientifica, a maioria dos editores nem se davam ao trabalho de ler antes da negativa. O grego sabia que Shaka conhecia muita gente do ramo, devido ao seu ofício, mas jamais imaginou que ele pudesse usar seus contatos para interceder por si.

— Eu sei, você deve estar se perguntando por que motivo eu não lhe entreguei isso antes, nos vimos ontem, afinal. Mas é que que o Ganopolos viajou em seguida a nossa conversa e pediu para que lhe entregasse seu contato apenas quando retornasse. Estou há duas semanas esperando para poder lhe dar a notícia.

— Shaka... Eu nem sei o que dizer. — Milo estava emocionado — Estou sem... palavras.

— Uau! Isso sim é um grande feito!

— Idiota! — disse já entre lágrimas, abraçando o amigo. — Muito obrigado.

O indiano não era muito dado à contatos físicos, mas aceitou o abraço do amigo por alguns segundos. Já havia até o beijado a face mais cedo, afinal.

— Já está bom, agora chega! Vão os dois trabalhar, que eu preciso abrir meu sebo! — disse já caminhando em direção à porta — E obrigado pelo café. Aprecio a amizade de vocês. Mas, por favor, eu sei me virar sozinho, sim? Não precisam seguir daqui me tratando como um menor abandonado.

— Mas se não fosse chato não seria o meu amigo!

Milo deu mais um abraço, Camus acenou e saíram de mãos dadas. Shaka apreciou um pouco a cena, lembrou-se novamente do marido e morreu só mais um pouquinho, sentindo o coração apertar. Voltou-se para dentro do comércio, virou a placa para "aberto", abriu as persianas e iniciou seu dia de trabalho. Foi uma manhã bastante movimentada e com boas vendas. Já a tarde parecia tediosa, entretanto era apenas a calmaria que antecipava as nuvens tenebrosas que se aproximavam à sua revelia.

Em um dado momento, distraído pensando no seu grego e na conversa estapafúrdia de domingo, esbarrou no porta-lápis, derrubando diversas canetas, lápis e marcadores no chão. "Onde estou com a cabeça"? Foi o que pensou ao se a abaixar para recolher seus pertences. Ouviu a sineta tocar anunciando a entrada de de alguém

— Um minuto. — disse ainda atrás do balcão.

Pôde ouvir passos se aproximando e sentiu perfume de cardamomo. Sabia à quem pertencia. Levantou-se, já de posse de todos os itens que caíram no chão.

— O que você quer? — o tom era seco.

— Precisava lhe ver, Shaka.

— Pois já viu. Agora retire-se.

Shaka saiu de trás do balcão na intenção de indicar a porta ao marido, foi quando viu a mão enfaixada.

— Por Sri Ganesha, o que você arranjou aí?

Sem esperar resposta, apoiou a mão de Saga no balcão e retirou a faixa com cautela, percebendo que este sentia dor. Viu o grande corte na palma da mão, que estava inchado e parecia infeccionar.

— Ainda temos louça em casa ou eu precisarei comprar outro aparelho de jantar?

Não era uma pergunta para ser respondida. Shaka acertou um cheio sobre o motivo do corte e Saga sabia que estava sendo repreendido pela enésima vez por sua mania de quebrar tudo em surtos de raiva.

— Isso está horroroso. Espere aí.

Shaka afastou-se para pegar sua maleta de primeiros-socorro. Saga fez menção de segui-lo.

— Espere aí. — repetiu de maneira pausada e enfática.

Shaka voltou com a maleta e pôs-se a higienizar a ferida com a maior delicadeza possível, visto que seu marido punha uma expressão de dor na face a cada toque.

— Shaka, você deveria voltar para casa. Ela é sua também, sempre foi, eu só...

Foi interrompido pelo mais novo.

— Saga, ou você cala esta boca ou se retira daqui.

A pior ofensa de todo o universo para o mais velho era que alguém o mandasse calar a boca. Expressar-se era sua essência e ouvir que seu rabo não valia dois euros era menos depreciativo que aquilo. Mas Shaka o sabia bem, o estava testando. E descontando um pouco de sua raiva. Queria ver até onde ia aquele arrependimento.

Saga olhou para o indiano aturdido. Percebeu que o outro queria que ele engolisse seu orgulho à seco e assim o fez. Calou-se. Não queria sair dali, precisava da presença aconchegante de seu marido, ainda que condenado a tê-la em silêncio.

Shaka desinfectou a ferida o melhor que pôde e fez um curativo caprichoso.

— Parece que sempre nos vemos as voltas com mãos machucadas e curativos, não é?

Shaka referia-se ao dia em que se conheceram. Saga ainda estava com a mão ferida da perfuração que sofrera do ex amante catalão e ao ver o curativo extremamente mal feito — ao menos para o padrão Shaka de excelência — oferecera-se para fazer um curativo melhor, também cuidando do ferimento. Fora o primeiro contato dos dois.

— Você deveria ter ido ao hospital para levar uns pontos. Agora isso vai demorar. E vai doer. — concluiu.

— Não que eu não mereça, não é?

— Não sou eu quem está dizendo.- Shaka voltou a direcionar-se para porta — Compre um remédio para esta infecção. — era uma ordem — Agora vá.

— Eu marquei com meu analista. Liguei pra ele na primeira hora, hoje. — Saga disse, estancando na porta, procurando o olhar do menor.

Shaka admirou-se positivamente. Preocupava-se com seu marido.

— Não volte antes da primeira consulta.

Saga finalmente saiu do sebo, virando-se uma última vez para Shaka.

— Eu amo você.

O outro o olhou por uns segundos, ensaiou dizer algo, mas desistiu, virando-se com a porta fechando atrás de si.

Saga permaneceu olhando a porta fechada. Aquela era a resposta padrão para sua declaração de amor. O silêncio. Mas aquele homem costumava ao menos lhe sorrir, afagar a face ou recostar a cabeça em seu peito e não dar-lhe as costas.

Shaka não fazia ideia do quanto sua dificuldade em demonstrar sentimentos afetava Saga e o grego não fazia ideia do quanto o indiano morria de amores por si. Ali, inclusive, frente aquela porta cerrada, Saga temeu não haver mais amor algum.

Dentro do sebo, Shaka encontrava sérios problemas para concentrar-se em suas atividades. Havia gasto duas horas tentando acertar a planilha de contabilidade, sem sucesso. Desistindo, resolveu tentar dar conta dos livros em cima da sua mesa. Estavam alocados no lugar errado e Shaka os havia posto ali no domingo, a fim de dar o destino correto para eles. Era um trabalho que exigia menos de sua concentração, então decidiu tentar.

Foi segurar o primeiro livro que ele entrou novamente. Havia cortado um pouco os cabelos? Também não reconhecia aquela roupa. Lançou um olhar de desagrado, mas ele o olhava como se não o conhecesse... Aquilo não era possível, era? Não no mesmo dia, era muita desventura. Olhou para suas mãos assim que ele se colocou diante do balcão e teve certeza.

Era possível.

Uma desgraça nunca vem desacompanhada.

Shaka respirou fundo e pronunciou-se enfim. A surpresa era tanta, que apenas conseguiu dizer seu nome.



— Kanon.



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* em tradução literal do francês "bom dia, meu amigo"

** também do francês, "sim"

*** Expressão hindi para satisfação, sem tradução literal. Seria algo como "uau", "massa" ou "nossa" no Brasil, no sentido de ter se agradado muito de algo.

**** do francês "minha maçã"