Mais forte que o amor.

1 —...uma pequena criança.


Notas iniciais
Me doeu no coração pensar nessa história. Foi algo que me veio do dia para a noite e, pela manhã, resolvi escrever. Espero que gostem.

—...uma pequena criança.

A luz começava a me incomodar. Sempre tive sono leve, então, bastaram alguns minutos para que eu abrisse os olhos.

—Camus...? – Chamei. Ele estava sentado ao meu lado, na cama, lendo. Sua mão cobriu a minha, sem desviar os olhos da leitura. – Não consegue dormir?

O ruivo acenou positivamente e fechou o livro, colocando-o na mesa de cabeceira.

—Estou preocupado... pegamos um caso difícil dessa vez. – Seus olhos possuíam um brilho de dor. Nunca o havia visto daquela forma.

Camus era investigador da Gendarmerie Nacionale há quase cinco anos. Era excepcional em seu trabalho, muitos o consideravam um homem frio, por sempre desvendar os casos com calma e tranquilidade invejável. Mas, apesar de parecer não se abalar com nada, ele era amável e gentil, por mais que não demonstrasse. O fato de um caso abalá-lo a ponto de o fazer refletir, um pouco que fosse, sua apreensão, me deixava assustado.

Sentei-me na cama, pegando sua mão livre e olhando-o nos olhos.

—Você quer falar sobre? – Por mais que, investigativamente, eu não pudesse ajudar, ao menos o faria dividir o fardo comigo. Eu podia ver que ele iria sufocar, se não externasse o que estava sentindo, e eu não podia deixar meu companheiro passar por esse sofrimento sozinho. Ele sabia que podia confiar em mim.

—O nome dela é Elizabeth. É uma garotinha linda, tem pouco mais que cinco anos. – Ele disse, parando para respirar e encontrar as palavras. – É um caso delicado... Ela foi violentada pelo padrasto. E possivelmente viu a mãe ser morta pelo homem. Eu já peguei muitos casos horríveis... de estupro... mas o estado em que o canalha deixou a menina, Afrodite... é brutal. Ela é só uma criança... um bebê... é tão repugnante, ao menos imaginar que alguém possa pensar em fazer isso com uma menininha tão frágil...

Ele apertou minhas mãos. Seus olhos possuíam um misto de fúria e angústia. Uma lágrima solitária deslizou por seu rosto. Meu coração estava apertado, não conseguia nem mesmo imaginar como Camus havia encontrado essa garotinha.

Puxei-o para mim e o abracei apertado.

—Vai dar tudo certo, amor. Você vai conseguir pegar esse monstro e ele vai mofar na cadeia.

—--x---

Eu detestava hospitais. Sempre me lembrava de coisas ruins quando precisava visitar um, mas faria o que fosse possível para ajudar Camus.

Atravessamos o corredor e paramos de frente a uma porta onde Shura, um dos colegas de trabalho de Camus, montava guarda. Os dois se cumprimentaram e eu o fiz logo em seguida.

—E então, ela disse alguma coisa? – O ruivo perguntou ao outro.

—Nada. Nenhuma reação e nada de palavras. A enfermeira entra, dá comida a ela e sai. O medico disse que ela está passando por um estresse muito grande, nem mesmo dormir a menina consegue.

Vi Camus cerrar o punho com força. Os nós dos seus dedos chegaram a ficar brancos. Puxei suavemente a barra da manga de seu uniforme e ele virou para mim, relaxando.

—Tem certeza de que quer fazer isso? – Indagou, olhando-me nos olhos.

—Sim. Vou ajudá-los como puder.

—Shura, pode fazer uma pausa, eu fico aqui.

—Certo. – O moreno respondeu, batendo continência e saindo em seguida.

Encostei a mão na maçaneta recebendo um aceno de Camus para que eu abrisse a porta. E assim o fiz.

Engoli seco com o que vi. A menina estava deitada na cama, pálida, uma marca roxa abaixo do olho esquerdo chamava a atenção, havia um curativo no canto de sua boca. Seu braço esquerdo estava conectado ao soro. Os longos cachos loiros estavam ressecados, quebradiços e sem brilho. Mas o que mais me assustava eram os olhos. O azul de suas íris estava opaco, sem vida. Olheiras profundas os marcavam ainda mais.

Coloquei a mão sobre o peito, sentindo-o apertar. Balancei a cabeça, afastando lembranças que ameaçavam retornar, e sentei-me ao lado do leito. Engoli todos os sentimentos ruins que insistiam em me invadir e sorri, pegando a mão livre da menina.

—Então, você se chama Elizabeth, né? – Perguntei. Esperei um pouco, mas não obtive nenhuma reação. – Vou chamá-la de Lizzie, tudo bem? Meu nome é Afrodite...

Comecei uma conversa, animada, tentando arrancar da garota qualquer reação que fosse, mas não obtive sucesso. Passei o horário de visitas inteiro, em um monólogo tortuoso. Tentei transmitir alegria e conforto em minhas palavras e ações, mas de nada serviu.

Voltamos para casa em silêncio, no fim da noite. Passei o caminho inteiro pensando no que fazer para chamar a atenção de Elizabeth, o mínimo que fosse, no dia seguinte. Eu não tinha jeito nenhum com crianças, mas não ia desistir.

Pela manhã, lá estava eu, no hospital novamente, desta vez, sozinho. Camus havia ido para o Departamento, prosseguir com as investigações para capturar o bandido.

—Bom dia, Shura. – Cumprimentei-o

—Bom dia, Afrodite.

—Alguma novidade?

—Nada. Ela não dorme, só come o que as enfermeiras dão a ela e, nem o médico consegue resultados. – O moreno suspirou. – Você acha que pode... dar certo o que esta fazendo?

—Não sei, Shura... Mas, esse é o mínimo que posso fazer.

—Certo. Boa sorte. – Desejou, apertando meu ombro. Agradeci e entrei no quarto.

Havia levado meu material de trabalho desta vez. Prancheta, lápis, canetas coloridas, apostilas de apoio... Crianças adoravam desenhar, talvez isto chamasse a atenção dela. Coloquei o material na mesinha ao lado da cama, sentei-me e sorri.

—Bom dia, Lizzie! Como está hoje? – Não obtive resposta, como da outra vez.

Insisti, fazendo perguntas bobas e contando histórias, enquanto desenhava. Eu trabalhava como estilista, desenhando peças de roupa para a alta sociedade francesa. Estava livre para trabalhar em casa, se quisesse. Estilizei quase uma coleção inteira de peças para a menina durante o dia e me empolguei com cada uma delas, imaginando como ela ficaria linda vestindo aquelas roupas. Sorri, enquanto terminava de pintar um vestido de azul.

—Eu gosto de azul. De que cor será que você gosta, Lizzie? – Indaguei, sem desviar o olhar do desenho.

Ouvi batidas de leve na porta e vi Camus entrar. Ele ficou ali, parado, olhando para a cama. Desviei minha atenção para o lugar. Elizabeth dormia, deitada de lado, virada em minha direção. Esbocei um sorriso, sentindo meus olhos arderem. Camus se aproximou, apertando meus ombros e dando-me um beijo na testa.

—Não é muito, mas já é algum progresso, Afrodite. Obrigado.

—Hnn. – Abalancei a cabeça, em positivo. – Não vou desistir.

O ruivo me ajudou a recolher meu material, em silêncio. Eu estava feliz, as coisas começavam a caminhar. Por mais que fosse um pequeno passo, já era suficiente para me dar força para continuar. Iria ajudar aquela garotinha a se recuperar, custe o que custasse.

Notas finais
(1) Gendarmerie Nacionale: É a policia nacional francesa.Espero que tenham gostado desse primeiro capítulo!Quem curtiu, deixa seu comentáriozinho aee, ou clica em "Acompanhar História". Assim fica mais fácil de eu saber se estão gostando ou não!Beijos e até o próximo capítulo!