Mais forte que o amor.
2 —... uma bela Fotografia.
Notas iniciais
—... uma bela fotografia.
Adentrei o quarto, sendo seguido imediatamente pelos enormes orbes azuis da pequenina deitada na cama. Abri um enorme sorriso.
—Bom dia, Lizzie! Parece bem melhor hoje. – De fato, a menina parecia mais bem disposta, as olheiras haviam praticamente sumido, o curativo próximo ao lábio tinha sido retirado, deixando a mostra um pequeno corte e a mancha roxa estava clareando. – Hoje trouxe algumas coisas para brincar com você, olha!
Peguei a sacola que trazia na mão e dela retirei alguns bichinhos de pelúcia, bonecas e, claro, alguns adereços para enfeitá-la. Ela olhou para as coisas que eu havia espalhado na mesa, mas sua expressão não havia mudado. Não me abalei, continuei conversando, rindo e brincando, como vinha fazendo. Ela estava reagindo, inconscientemente e eu sabia que, se continuasse insistindo, logo poderia ouvir sua voz.
Alguns dias se passaram e, em todos eles estive no hospital. O progresso de Lizzie era lento, a verdadeiros passos de formiguinha. Parecia que quase nada havia mudado desde o primeiro dia em que eu estive lá, mas um mínimo que fosse, havia mudado. A cada dia eu ficava mais ansioso e isso afetava tanto meu físico, quanto o psicológico. Eu via cada vez mais de mim naquela menininha frágil.
A dores de estômago, que haviam praticamente desaparecido desde que começara a morar com Camus, estavam de volta. Corrigir olheiras havia se tornado um hábito e, cada vez eu me esforçava mais para conseguir sorrir.
Minha vida intima com Camus era outro assunto delicado. Cada vez tínhamos menos tempo para nós dois e, o pouco que tínhamos era restrito ao sono. O ruivo estava empenhado nas investigações. Chegava tarde e saía cedo. As vezes mal retornava para casa. Em seus olhos, a cada vez que nos encontrávamos, eu via a determinação em capturar o monstro que havia destruído a alma e molestado o corpo daquela pequena criança. E me sentia mal por perceber que minha esperança se esvaía.
Encarei o reflexo no grande espelho do armário. Eu estava apenas de cueca, com a qual havia dormido, sentado na cama, sozinho. Observei as costelas, que começavam a aparecer, denunciando a falta de alimentação saudável. Senti meu estômago doer. Suspirei. Seria mais um dia difícil.
Levantei, indo para o banho. Mesmo sem vontade, passei pelo ritual de sempre: Banho longo, regado a sais. Depois, sessão de hidratantes pelo corpo e tratamento de cabelo completo, pois este precisava. Era o reflexo de toda a minha saúde, que não estava nada boa. Os cachos loiros estariam completamente ressecados, se não fossem os cremes que eu usava para tratá-los. Saí do banheiro assim que terminei de secá-los e abri as portas do guarda roupa, buscando as peças que usaria. Que eu estava um caco, era óbvio, mas ninguém precisava saber.
Admirei novamente o reflexo no espelho. Usava uma calça jeans skinning azul escura, sapatilhas pretas, uma camisa branca, solta, e um blazer curto, num tom de azul mais claro que o da calça. Amarrei o cabelo em um coque frouxo no topo da cabeça e busquei na gaveta da penteadeira as joias. Coloquei um par largas pulseiras prateadas e longos brincos da mesma cor.
Estava pronto para sair. Peguei minha bolsa, que estava jogada sobre o sofá e já destrancava a porta, quando vi a luz fazer algo refletir sobre a estante que ficava próximo a porta. Era um álbum de fotos, meu. Passei a mão sobre a capa, fitando as letras douradas que formavam meu nome. Talvez Camus o tivesse encontrado perdido em algum lugar da casa. Como o livro havia ido parar ali não me importava, peguei-o nas mãos e enfiei dentro da bolsa, destrancando a porta e saindo.
No hospital, sentei-me ao lado de Lizzie, que observava atenta, eu abrir a bolsa e pegar o livro. Coloquei-o sobre o colo dela e abri a primeira página. Nela estava uma foto minha, recém-nascido. Uma coisinha gorda e bochechuda, com tufos de cabelo loiro cobrindo a cabeça.
—Este sou eu, quando era bem pequenininho. Não era uma fofura? – Indaguei. A menina nada disse. Seus olhos tinham um brilho enigmático. Virei outra página, nesta, eu estava vestido de marinheiro, indo para o primeiro dia na creche. Passei mais algumas fotos, comentando cada uma delas, contando algo de especial ou constrangedor que havia marcado esses dias. Quando paramos em uma foto que fez meu coração congelar.
Era do sétimo ano do colégio. O uniforme branco estava impecável e como sempre, eu estava belíssimo na foto. Não fosse pelo olhar triste e sem vida. Eu ainda estava me recuperando quando me mudei para aquele colégio, da França. Mudar de país foi o melhor que eu poderia ter feito, precisava recomeçar, em um lugar totalmente diferente para esquecer as coisas horríveis pelas quais havia passado.
Senti um toque suave na bochecha. Elizabeth tocava meu rosto com a ponta dos dedos. Em algum momento eu havia começado a chorar e ela tentava amparar minhas lágrimas. Seus olhos estavam tristes, como os meus na foto. Segurei sua mãozinha, limpei minhas próprias lágrimas e sorri.
—Acho que... está bom de fotos por hoje, né? – Peguei o álbum, para guardá-lo na bolsa, mas acabei deixando-o cair. Dele, escapou uma foto especial. Peguei-a, com cuidado, um sorriso bobo se formando em meus lábios e fazendo-me esquecer completamente das angústias que a pouco tentavam me tomar. Era meu casamento com Camus. Apenas nós dois na foto, de mãos dadas. O ruivo, elegante, com sua postura perfeita de soldado, em seu terno preto, bem cortado, o rosto sério, porém, com um discreto sorriso nos lábios. Eu, ao seu lado, tão belo como sempre, vestido em um terno branco e com um enorme sorriso iluminando o rosto. Uma cerimônia simples, para poucos amigos e familiares, mas que havia sido o dia mais feliz e completo da minha vida. Era por isso que o álbum estava na estante, Camus ia colar aquela foto nele. Peguei a fotografia com carinho, guardando-a novamente dentro do álbum e voltei-me para a loirinha que me observava.
—Que tal brincarmos de maquiagem agora?! – Sugeri, pegando os produtos da bolsa e espalhando-os pela cama.
—--x---
Ouvi as leves batidas na porta, quando terminei de arrumar o cabelo de Lizzie, prendendo uma mecha na lateral da cabeça, com um elástico de joaninha. Ela estava linda, cheia de acessórios, com uma maquiagem levinha e, agora, com um penteado novo.
—Aposto que você é a criança mais linda deste hospital! – Brinquei. – Mas agora, é hora do Afrodite ir. Nos vemos amanhã, tudo bem? – Recolhi meus pertences, colocando-os de volta na cama e levantei, dando um beijinho em sua testa. Estava feliz com o pequeno avanço de hoje, que era enorme, perto do que já vinha acontecendo. Virei-me para porta, quando senti um leve puxar na barra de minha blusa.
—Não... sozinha... – Num sussurro, a voz doce da loirinha se perdeu no ambiente. Meu peito apertou. Senti meus olhos arderem e um nó se formar em minha garganta.
—Oh, minha florzinha... – Disse, virando-me para ela, que agarrou minha cintura. – Está tudo bem, eu prometo que volto amanhã.
—Sozinha... medo... atrás de mim... – Sua voz saía baixa e um tanto rouca, abafada pelos tecidos de minha roupa. Acariciei seu cabelo, tentando passar-lhe conforto.
—Ninguém vai fazer mal a você, meu amor, eu não vou deixar, está bem? – Afastei-me minimamente, para poder olhá-la nos olhos, que estavam tomados pelo medo.
Ouvi novas batidas na porta e a mesma se abriu. Na hora em que olhou na direção da porta, a menina perdeu a cor.
—Eu não matei! Ele... Vivo... atrás de mim! – Ela respirava rápido, ofegante. — Só me defendi! Eu... não matei! Não! – Em minha cabeça, o quebra-cabeça de palavras se montava rapidamente. Olhei para Camus, que parecia confuso e, com um aceno de cabeça, pedi para que saísse. O ruivo nem hesitou em obedecer.
—Esta tudo bem pequena, eu acredito em você. –Segurei seu rosto com minhas duas mãos, delicadamente, olhando-a nos olhos. — Você só se defendeu, certo? – Lizzie respondeu com um aceno positivo. – Está tudo bem, acredita em mim? – Acenou novamente. – Ninguém está aqui pra te prender... Eles estão aqui pra te proteger. O moço bonito que entrou... vai pegar o monstro que fez isso com você, florzinha, vai prender ele e ele nunca mais vai chegar perto de você. Aquele moço bonito vai proteger você, assim como eu também vou, confia em mim?
—Con...fio...- Respondeu, as lágrimas banhando seu rostinho bonito. Limpei-as com os polegares, fazendo um carinho nas bochechas da loirinha e logo em seguida abracei-a. Fiquei fazendo carinho em seus cabelos por algum tempo, até ouvi-la respirar alto, dormindo.
Fale com o autor