Mais forte que o amor.
3 —... uma mulher sem cabeça.
Notas iniciais
—... uma mulher sem cabeça.
Meu celular me despertou cedo. Acendi a luz do abajur, admirando o rosto iluminado de Afrodite, que dormia tranquilo, com um sorriso singelo nos lábios. Havíamos tido uma noite maravilhosa, como há algum tempo não nos dávamos ao luxo. Afrodite estava feliz, finalmente Elizabeth começava a falar e isto deixava-o eufórico. Toquei sua face, dando-lhe um beijo suave nos lábios e segui silenciosamente para o banho.
Saí de casa com os primeiros raios de sol, estava ansioso para chegar ao departamento. Quanto mais rápido chegasse, mais rápido receberia a resposta para o meu pedido. Só consegui relaxar um pouco quando cheguei ao prédio. Caminhei rapidamente, cumprimentando meus colegas de trabalho no caminho, até chegar a minha mesa, esta, impecavelmente organizada, exceto pelas correspondências que haviam sido depositadas de forma desleixada. Respirei fundo, pegando o pequeno maço de cartas e sentando-me. Olhei uma por uma, até encontrar a que queria. Abri-a, metodicamente e retirei o papel de dentro, lendo atentamente cada linha.
Um sorriso se desenhou em meus lábios e no mesmo instante peguei meu celular, discando um número conhecido.
—Alô?
—Shaka! Sou eu, Camus.
—Bom dia Camus. Acredito que seja algo urgente, para me ligar a esta hora da manhã.— Deduziu o outro.
—Desculpe por incomodá-lo, mas recebi a resposta do juiz sobre o processo.
—Ótimo! Estou indo para o escritório, me envie o documento por e-mail para que eu possa expedir os altos. Se tudo der certo, hoje mesmo conseguimos pegar os documentos.
—Os deuses queiram que vá dar.
—--x---
Chegamos ao hospital logo após o horário de almoço. Shaka era um advogado extremamente competente e organizado, em poucas horas havia conseguido todos os documentos necessários para a liberação do processo.
Bati de leve na porta, enfiando apenas a cabeça para dentro. Desde o ultimo incidente, havia resolvido que não entraria no quarto da menina enquanto estivesse de farda. Afrodite conversava animado, enquanto Elizabeth apenas respondia com acenos e palavras monossilábicas.
—Afrodite. – Chamei. O loiro abriu um enorme sorriso assim que me viu.
—Camus! Que ótima visita! Lembra dele Lizzie? – Perguntou para a menina, que respondeu com um aceno positivo. —Entre, venha nos fazer companhia! – Propôs.
—Eu preciso falar com você, antes. – Ele me encarou, desfazendo o sorriso.
—Certo. Eu já volto, tá? – Disse para a menina, se levantando.
Do lado de fora, novamente um sorriso se abriu no rosto de Afrodite, assim que viu Shaka, o surpreendendo com um abraço apertado.
—Há quanto tempo, Shaka! Nunca mais apareceu lá em casa! Não me diga que está trabalhando de mais, você é rico, não precisa disso! – O advogado riu da brincadeira de Afrodite, fazendo um breve cafuné em sua cabeça.
—Não seja idiota, loiro, estive na sua casa na virada do ano. – O outro retrucou. Afrodite mostrou a língua para ele, como uma criança, e se pôs ao meu lado novamente.
—Mas, então, o que está fazendo aqui? Com o Camus?
—Como eu falei, precisamos conversar. – Reiterei. – Vamos para o refeitório? – Sugeri, os dois concordaram e então seguimos para o refeitório do hospital.
Assim que nos acomodamos, encarei meu marido, sério.
—Eu não quis te contar antes, por que estava esperando que tudo desse certo. – Iniciei.
—O que? O que aconteceu... o Shaka está aqui... Não me diga que... – Balbuciou. Afrodite tinha um sério problema de antecipar tragédias antes delas sequer terem margem para acontecer.
—Não seja precipitado, não é nada disso. – Sorri minimamente, vendo-o respirar aliviado.
—Por mais que você seja insuportável, Camus ainda não quer se separar, Dite. Não se preocupe, ele é um louco. – O indiano brincou, tirando sarro da cara emburrada de meu marido.
—Eu sou insuportável, mas é você quem está solteiro. – Rebateu.
—O fato é... – Interrompi a descontração dos dois. – Você sabe que a Elizabeth está em uma situação complicada, né, Afrodite?
—Mas ela já está tão melhor, Camus! Você precisa ver!
—Eu sei, amor, mas não é disso que estou falando.
—O que Camus quer dizer, é a situação judicial da menina. A mãe dela era solteira, quando a teve, então, não há registro do pai biológico. Para melhorar, a mulher era órfã, não tinha parentes, o que significa que a menina está sozinha. – O virginiano explicou, de forma simples, para que Afrodite entendesse.
—Isso significa que ela é órfã?
—Exato. Como estava gravemente ferida, foi trazida para o hospital. – Assumi a explicação. – O problema é que, logo ela estaria saudável de novo e, seria encaminhada para um abrigo ou orfanato. Com a investigação no pé que anda, isso não seria nada bom. Precisamos das informações que ela tem, para conseguir capturar o cretino do padrasto dela e, num abrigo, a chance de obtê-las poderia se perder.
—Fora o fato dela estar correndo risco, já que o homem não foi preso ainda e pode voltar para tentar ataca-la. – Shaka Concluiu. – Reunimos todas estas informações, mais o relatório médico, do seu acompanhamento com a menina e abrimos um pedido de guarda provisória, que foi aprovado pelo juiz esta manhã.
—Isso significa que...
—Nós temos a guarda provisória da Lizzie, Afrodite. – Esclareci, por fim. Os olhos do meu companheiro brilharam e vi se formar o maior sorriso que Afrodite poderia dar na vida.
—Eu não acredito! Nós vamos poder ficar com ela?! Ela vai pra casa com a gente! Camus, você não sabe como eu estou feliz! – Afrodite me abraçou, beijando minhas bochechas e depositando um selinho estalado em meus lábios.
—Seja discreto, Afrodite, você não está na sua casa. – Shaka advertiu. Meu marido olhou ao redor, percebendo as pessoas que nos olhavam desconfiadas. Eu não tinha nenhum problema com minha sexualidade, com assumi-la ou demonstrá-la em público. Casei-me com Afrodite por que o amo e não via nada de errado que as pessoas soubesse, mas tentávamos ser discretos sempre que possível. E aquele era um momento delicado, precisávamos tomar cuidado para não criar nenhum motivo que prejudicasse o andamento do processo. O loiro pareceu entender isso e voltou a se sentar, de cabeça baixa.
—Me desculpe. – Pediu, corado, mas logo voltou a se entusiasmar. – Ah! A gente precisa arrumar o quarto de hóspedes pra ela! E comprar algumas coisas... umas roupas e brinquedos! E bichinhos, ela gosta de bichinhos de pelúcia! Podemos pintar o quarto também, com cores bem alegres...
—Hey, essa decisão é apenas provisória, Dite. Por enquanto ela dura seis meses, ou até o caso ser encerrado e o abusador ser preso, o que vier primeiro. – O pisciano ignorou completamente a informação de Shaka e continuou a tagarelar, fazendo o outro suspirar e massagear as têmporas.
No mesmo dia Afrodite conversou com a menina, dizendo que, assim que recebesse alta ela viria conosco para casa. Elizabeth ficou extremamente animada. Aos poucos, meu loiro devolvia a vida à menina e eu sentia meu peito aquecer, mas a imagem de quando a encontrei, no pequeno banheiro daquela casa quase destruída continuava vívida em minha mente.
A denúncia havia vindo de um vizinho, que tinha escutado a gritaria na casa. Segundo ele, após uma briga, o homem que morava na casa – com a esposa e a enteada – saiu de lá ferido e, como o tal vizinho não ouviu mais nenhum som depois do ocorrido, achou por bem ligar para a polícia.
Quando chegamos ao local, a porta estava aberta. A casa estava completamente revirada, móveis quebrados e jogados no chão, documentos rasgados, cacos de vidro por todos os lados. Vasculhamos os pequenos cômodos, recolhendo materiais que ajudassem na investigação.
—Senhor Camus, veja isto... – Um dos oficiais me chamou do banheiro, segui até lá, ficando paralisado ao chegar à porta.
O corpo de uma mulher jazia no chão, decapitado. Cortes se multiplicavam por sua pele, já arroxeada. Seu sangue se espalhava por todo o chão. Mas não era isto o que mais me assustava, mas sim o pequeno corpo estirado na banheira, banhado em sangue. Era uma menina, nua. Sua pele tinha diversas manchas roxas, cortes e vergões avermelhados, sêmen escorria entre suas pernas, se misturando ao sangue. Senti meus olhos arderem e a fúria me invadir. Respirei fundo, fechando os punhos com força e me aproximando da criança na banheira. Verifiquei sua pulsação. Era fraca, mas estava ali, presente.
—Ainda está viva... Chamem uma ambulância imediatamente! – Retirei a blusa do uniforme, e cobri a criança.
—Já está a caminho, senhor. Os legistas forenses também já foram chamados.
—Ótimo. Recolham o máximo de provas, procurem por documentos para que possamos identificar estas pessoas. Precisamos prender esse... esse monstro o mais rápido o possível!
Eles voltaram ao trabalho, enquanto eu fiquei no cômodo, analisando a cena. Uma garrafa quebrada no chão, próximo à banheira. Manchas de sangue pelas paredes, peças de roupas infantis jogadas displicentemente sobre a pia e a privada. Próximo à região do pescoço da mulher havia marcas de estrangulamento. Procurei pela cabeça, mas ela não estava em lugar nenhum do banheiro.
Não demorou muito para que os médicos chegassem. Uma dupla entrou no banheiro e eu indiquei a menina na banheira. Eles iniciaram os procedimentos de primeiros socorros, quando, de repente a menina acordou e começou a gritar.
—A MAMÃE NÃO! NÃO! ME SOLTA! AAAAAAAAAAH! ME SOLTA!! EU NÃO QUERO! ME SOLTA!! MINHA MÃE! NÃO! NÃO! NÃO!! – Ela gritava enquanto tentava empurrar os rapazes para longe. Lágrimas transbordavam de seus olhos, que estavam perdidos em algum momento durante o crime. Vi um dos socorristas aplicar uma injeção na menina, que logo parou de reagir. Eles a colocaram em uma maca e passaram por mim, indo para ambulância.
Por um momento deixei a raiva falar mais alto. Como alguém conseguia fazer algo tão terrível com uma criança inocente?! Que tipo de monstro tinha essa covardia toda?! Soquei a parede do banheiro, mas a dor que senti não se sobrepôs nenhum pouco ao ódio. Eu ia pegar esse cara e acabar com ele. Esse nojento mal esperava para ver.
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