Mais forte que o amor.
11 ... um encontro inevitável
Notas iniciais
CAPÍTULO 11
—... um encontro inevitável
Around Mu.
—Então! Me conte como conseguiu esse carneirinho, Mu! — Afrodite pediu, entusiasmado. Mu estava claramente desconfortável, não pelo fato do amigo lhe indagar sobre um assunto pessoal – eram amigos, sempre que podiam, conversavam sobre tudo – Mas, mais por toda a situação que havia ocorrido. Estava assustado por Afrodite ter passado mal, por conta de algo que o rapaz de cabelos lavanda havia trazido à tona. Tentou sorrir e, meio sem jeito, segurou a mão que Afrodite lhe oferecia.
—Foi irresponsabilidade minha.
—Mu Rinzel sendo irresponsável! O céu vai cair em nossas cabeças! — O loiro brincou, abrindo um sorriso enorme.
—Você não perde uma oportunidade de tirar um sarro, não é? — Mu revidou, finalmente relaxando um pouco.
—Você sabe que esse é meu jeito. Mas eai, como foi que aconteceu, homem?!
—Você sabe que depois que me formei no colegial eu passei a levar uma vida desregrada, né? Foi em uma dessas noites... na balada. Conheci uma garota. Ela era linda, tinha um brilho especial, sabe? O cabelo dela era assim, da mesma cor dos de Kiki... Parecia um anjo surgido num fim de tarde, ao assistir ao por do sol. — Afrodite ouvia o amigo contar, atento a cada palavra, imaginando perfeitamente a cena em sua cabecinha extremamente fértil. — Durou apenas uma noite, mas foi o suficiente para me deixar balançado. No dia seguinte ela havia sumido, sem deixar contato nem nada. — Mu parecia um tanto triste enquanto falava. O sentimento de nostalgia o preenchia e a vontade de ter conhecido de verdade aquela garota mexia com seu coração. — Alguns anos depois fui apresentado à Kiki, meu filho. Os pais da garota haviam encontrado um contato que eu havia dado a ela na época... Ela tinha sumido, deixando o filho para trás. Eles não tinham condições de criar o menino, então tentaram de todas as formas encontrar o pai, até que chegaram a mim. Não tinha nem como negar que era meu filho. O garoto é a minha cara.
—Gente, que surreal! Ela não apareceu mais? Não deu nem notícias? — Mu fez que não para as perguntas de Afrodite. O loiro apertou sua mão, tentando transmitir forças.
—Nada. Os pais dela acreditam que talvez ela não esteja mais viva. Mas eu imagino que ela deve estar por aí, viajando... vivendo. — Um pequeno sorriso melancólico se formou nos lábios de Mu e ele esfregou os olhos, tentando evitar as lágrimas. — De qualquer forma, ela me deixou um pedacinho dela. Kiki foi um presente para mim, ele me ensinou a viver, Dite. Sou muito feliz por tê-lo como filho. Ele tinha três aninhos quando o conheci e agora já tem quase oito! É esperto, agitado e alegre, um verdadeiro raio de sol na minha vida.
Afrodite abriu um sorriso, sentindo seu peito se aquecer. Sabia exatamente do que o amigo estava falando. Sentia-se assim com Lizzie também.
—Posso imaginar exatamente como você se sente. – Disse o loiro, pegando o ursinho de pelúcia que estava sobre a cama. – Você viu a mocinha que estava aqui, né? – Mu acenou positivo. – Camus a encontrou em meio a uma tragédia. Estamos cuidando dela desde então e, a cada dia me sinto mais e mais apegado a ela, mas apaixonado pelo seu jeitinho meigo, seu sorriso iluminado e sua forma infantil de ver as coisas. – Disse o loiro, apertando o ursinho. – Ah meu amigo! Tem tanta coisa que quero te contar que acho que um dia inteiro não vai ser suficiente!
O loiro parecia genuinamente feliz. Mu voltou a ficar aflito, olhando para baixo e torcendo os dedos. Precisava conversar com o loiro sobre o que vinha acontecendo na França. Sabia que Afrodite não se interessava em quase nada com relação a notícias policiais e até mesmo as evitava, pelo óbvio motivo de já ter sido vítima de uma dessas tragédias. Quando a rapaz abriu a boca para iniciar a conversa, viu Afrodite olhar em direção a porta e sorrir, sendo então surpreendido por Kiki, que surgiu ao seu lado.
—BUUUH! – Exclamou o garotinho, enchendo o pai de coceguinhas, enquanto Lizzie fazia o mesmo em Afrodite, sendo supervisionados por Camus, que trazia em mãos uma bandeja com chá e biscoitos. Os dois adultos riram, divertindo-se com a traquinagem das crianças, quebrando completamente qualquer chance de Mu tocar no assunto sobre o qual queria falar.
—Chega, chega...! Lizzie, você vai me matar de rir! – Afrodite pedia, tentando fazer com que ela parasse, até que a menina se cansou e sentou na cama, ao lado dele. Nesse meio tempo, Mu já havia conseguido se soltar de Kiki e fazê-lo se aquietar também.
—Trouxe um lanche para vocês. Afinal, você ainda precisa se alimentar melhor, Afrodite. – Camus disse, depositando a bandeja sobre a mesinha de cabeceira.
—Sim Sr. Enfermeiro! – Brincou o loiro, pegando uma xícara e entregando a Mu, para logo em seguida pegar uma para si.
—Parece que seu humor retornou. – O ruivo afirmou, sorrindo para o marido.
—Sim! – Exclamou Afrodite, porém, após um gole do chá, o loiro se deu conta de algo. Olhou para a luz do sol, que brilhava forte através da janela. – Camus, que hora é essa?
—Algo entorno das dez da manhã, por que?
—Você devia estar no trabalho!
—Não vou hoje. Já avisei o Dohko. Vou ficar em casa cuidando de você.
—Nem pensar! Não quero que se prejudique por minha causa. Eu já estou bem.
—Afrodite... Você está doente, não posso deixa-lo sozinho!
—Não estou sozinho, o Mu fica comigo, não é? – Mu nada disse. Preferia não se intrometer na discussão dos dois. – E logo o Shun chega para ficar com as crianças... Você tem que pegar o cretino que maltratou a Lizzie... por mim e por ela.
Mu viu Camus suspirar, resignado. Sabia o quanto Afrodite era bom em chantagem emocional. Sorriu. O rapaz de fios exóticos deixou de lado seus planos. Ver seu amigo sorrir era mais importante agora.
—--x---
Around Shaka.
Todas as piadinhas que havia pensado para fazer com Afrodite, durante o caminho, foram para o ralo quando quem abriu a porta foi Shun. O rapaz de cabelos castanhos tinha uma criatura loira agarrada a sua perna e os dois exibiam um sorriso genuíno. “Crianças”.
—Olá Shun, há quanto tempo!
—Oi senhor Shaka! Veio visitar o tio Afrodite, né? – O advogado fez que sim com a cabeça e entrou, abaixando-se um pouco e bagunçando ainda mais os cabelos já bagunçados de Lizzie.
—E você pequena, como está?
—Bem! O Flô tá no quato com um amigo chamado Mu! ‘Cê conhece ele? Ele é bonzinho! É papai do Kiki! O Kiki também é bonzinho! – Shaka sempre se surpreendia com a capacidade da pequena de soltar tanta informação num espaço tão curto de tempo. Adentrou o cômodo, sento guiado pela loirinha, que havia desgrudado de Shun, até chegar ao tapete da sala, onde um rapazinho de cabelos ruivos desenhava, distraído. – Kiki, esse é o tio Sha! Ele é legal! – O garotinho olhou para o advogado e abriu um enorme sorriso. – ‘Cê ira bincar com eu, o Shu e o Kiki, né tio Sha?
—Eu vou só falar um pouquinho com o Flô e já volto para brincar com vocês, tá? — A loirinha fez que sim com a cabeça e soltou a mão de Shaka. Shun e ela se sentaram no tapete e voltaram aos desenhos que haviam começado antes do loiro chegar.
Shaka encaminhou-se para o quarto de Afrodite. Porém, sua mão petrificou na maçaneta e não conseguiu concluir o ato de bater levemente na porta. O que ouviu o deixou estático.
—Eu não posso simplesmente dizer a Camus que fui estuprado, Mu! — A voz de Afrodite estava claramente alterada. Shaka sentiu todo o sangue de seu corpo congelar, ficando ali, sem reação. – Não poderia suportar o desprezo... O nojo que ele teria por mim...
—Você devia confiar no seu marido. – A voz desconhecida ao advogado o despertou do transe. Shaka soltou a maçaneta, dando um passo para trás — Ele te ama- Espera...
Ouviu passos através da porta e sentiu seu coração acelerar. Não devia ter escutado aquela conversa, mas agora já era tarde de mais. Seu rosto queimava em vergonha por ter falhado com a boa educação que recebera e, por mais que fosse ainda mais vergonhoso, correu até a porta mais próxima. Não queria ser pego espiando, mesmo que tivesse sido sem querer.
Encostou-se a porta com a respiração acelerada e esperou. Nada. Inspirou fundo, soltando o ar devagar e só então parou para reparar aonde estava: no banheiro.
“Ótimo lugar para se esconder, Shaka, agora que a merda já está feita.” pensou. O que Afrodite quis dizer com fui estuprado, o advogado não conseguia entender. Se houvesse algum sinal de abuso ao loiro, Camus teria o levado ao hospital, fora que teria acabado com a raça de qualquer um ousasse que tocasse em seu marido. O ruivo poderia parecer frio e controlado, mas Afrodite era seu gatilho, o termômetro que controlava seus sentimentos. A mente de Shaka maquinava em busca de entender a frase curta que ouvira, quando todo seu raciocínio foi cortado por batidas na porta.
—Abra a porta, sei que está aí! — A voz desconhecida, que ouvira conversando com Afrodite, exigiu. O indiano engoliu em seco. — Pensei que na França as pessoas tivessem pelo menos um pouco de educação, mas parece que me enganei!
Shaka sentiu-se mil vezes mais envergonhado. Se pudesse, abriria um buraco no chão e se enterraria até a cabeça. Estava sendo repreendido por um estranho, por algo que nunca fizera em toda a sua vida.
“Por Buda!” passou as mãos pelos longos fios loiros, nervoso. Decidiu então em abrir a porta, iria enfrentar seu erro sendo honesto. Do outro lado, deparou-se com um rapaz de aparência completamente exótica: Os cabelos eram de um tom claro de lavanda, os olhos de um verde esmeraldino límpido e sobre eles, acima das finas sobrancelhas, um par de desenhos circulares, que poderiam ser algum tipo novo de tatuagem. Era pouca coisa mais baixo que Shaka e vestia-se de forma confortável, com um casaco de moletom cinza e calças jeans.
—Sinto muito. — Foi a única coisa na qual Shaka conseguiu pensar em dizer. — Ouvi algo que não devia e isto não é do meu feitio.
—Pelo menos teve coragem de mostrar a cara! Olha, não faço a menor ideia de quem seja você, mas se tem acesso livre a esta casa, deve ser alguém de confiança de Afrodite e de Camus. Não devia ficar ouvindo a conversa alheia.
—Eu sinto muito. — Pediu novamente. — Preciso me desculpar com Afrodite também, não tinha intenção nenhuma de ouvir a conversa de vocês.
—Não! — O outro exclamou. — O Dite não precisa saber que você nos ouviu, ele vai ficar ainda mais abalado e eu não quero isso. Imagino que você também não. Apenas me prometa que não dirá nada a Camus, deixe que os dois se resolvam sozinhos.
Shaka concordou, afinal não havia muito o que pudesse fazer.
—Ótimo! Vou voltar para lá, você faz o que quiser. — O rapaz deu às costas a Shaka e entrou novamente no quarto de Afrodite.
O advogado ficou desnorteado, não conseguia entender nada do que havia se passado ali. Sentiu como se tivesse sido atropelado por um furacão. Suspirou. Teria muito o que meditar, quando retornasse para casa.
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