Mais cinco minutos, talvez?
5 capítulo 5- Diego.
Notas iniciais
Sinceramente, estar no corpo do Erik era ruim. Mas estar no corpo do Erik, com o Erik, conseguia ser mil vezes pior.
Geralmente eu não sou uma pessoa tão legal assim, se quer saber. Mas eu me compadeci mesmo com a história de vida mega bosta do garoto. O que mais posso fazer? Foi por isso que me dispus a ajuda-lo. E o fato de eu precisar que ele fizesse umas coisinhas extras pra mim é bem irrelevante, se for parar pra pensar. Inclusive, lembro que até mesmo prometi a ele não fazer nada que pudesse manda-lo pra cadeia. E precisamos reconhecer que isso era um ótimo começo.
O problema era que, imagine só... Erik era um filho da puta bem mal agradecido.
— Mas o que foi que você fez com o meu cabelo? — Foi o que ele já acordou falando, assim que se olhou no espelho.
Bem, vou te contar: a melhor hora para trabalhar com o Erik é quando ele está dormindo. Ou desmaiado. Ou em coma. Qualquer coisa que não envolvesse ele acordado dava certo. Então eu me aproveitei um pouquinho do fato dele ter dado uma cochilada e... Dei um jeito naquele cabelinho de merda que ele tinha. E olha, não é querendo me gabar, mas ficou muito melhor. Sério! Quer dizer, agora Erik poderia sair na rua sem parecer um maltês despenteado. Não era ótimo?
— Eu o cortei. — Respondi o obvio. — E dê graças a Deus por eu não ter raspado a sua cabeça, porque a intenção era essa.
Pelo menos agora dava pra ver que Erik tinha um rosto. Podia não ser tão bonito quanto o meu. Mas ao menos ele tinha um.
— Você não cortou. Você picotou! — Erik praticamente gritou, agarrando as mechas.
Não sei por que ele não gostou. Não tinha nenhum motivo pra não ter gostado. Digo, eu consertei metade da cara dele só com um corte de cabelo. Eu fiz um milagre ali, poxa! Inclusive, estava tão bom, que se você olhasse bem ia ver que o Erik podia começar a parecer bem bonitinho com aquela cara miúda dele.
— Veja o lado ótimo: Ninguém mais pode puxar você pelo cabelo! — Fiz questão de ressaltar.
— Eu to parecendo uma dessas bonecas que teve o cabelo cortado por uma criança de cinco anos. — Como eu disse: Mal agradecido. — Você não tem ideia do que fez, Diego. Não tem ideia de como esse rosto atrai problemas...
Suspirei.
Pelo que eu entendi, o fato de Erik não gostar de cortar o cabelo tinha algo a ver com o tal Zack. Tudo na vida desse garoto girava em torno do tal Zack. Era um inferno!
Enfim. Eu tive que aguentar ele choramingando por causa do cabelo. E, meu Deus, era só cabelo! Eu não cortei as pernas dele. Aquilo vai crescer de novo, caramba!
Eu só espero profundamente já estar bem longe quando o Erik voltar a dar uma de Rapunzel.
— Eu dividi nossos horários. — Falei depois que o Erik pareceu um pouco mais conformado. Ou pelo menos tinha calado a boca, o que já era uma puta vitória.
— Horários de que? Do que você está falando agora?— Ele perguntou emburrado.
— Ah, você sabe. — Respondi. — Ocupação corporal. Na verdade eu não sei bem como deveríamos chamar essa coisa, mas vamos ter que revisar. Então eu estava pensando em ficar de manhã, que é quando você vai pra escola. E porque tem o café da manhã também. E ficaria até depois do almoço, já que a sua escola apesar de ser uma merda serve coisas muito boas no refeitório. E a noite a gente podia revezar a janta...
— Você só pensa em comida? — Erik me censurou.
— Claro que não. Se você quiser, pode ficar com a janta então. — Além de ingrato, ele é meio murrinha. — De qualquer formal, amanhã eu resolvo seu problema com o Zack. E você dá um jeito de convencer Caleb de que o amado irmão dele ainda está nesta terra de meu Deus e... Que sente muito por ter ferrado com aquela belíssima, e muito cara de verdade, moto...
Erik se jogou na cama e agarrou um travesseiro, em uma pose super infantil.
— Eu estou começado a achar que isso foi uma má ideia. — Ele murmurou. — Quer dizer, eu nem conheço o seu irmão. E você também não conhece Isaac. Não acho que você pode simplesmente resolver algo em menos de cinco horas. — Erik riu um pouquinho. O máximo que eu já vi aquele garoto rindo, pra te ser franco. — Ou você está pensando em ir lá e simplesmente bater nele?
Hum... É. Era exatamente isso que eu estava pensando. Até hoje não houve nenhuma situação que não fosse muito bem resolvida com um deslocamento de cartilagem nasal. Então aquela era uma ideia bem razoável. Até estava contando vantagens pelo fato da perna do Zack já não está lá essas coisas. Afinal, uma parte dela estava, provavelmente, no estômago do Erik.
— Ai meu Deus! Você está mesmo pensando nisso? Enlouqueceu? Ele vai me matar! — Erik berrou após o meu silêncio.
Bem, e eu não sei o que ele tinha tanto a perder com isso. Quer dizer, achei que a intenção dele desde o inicio fosse estar morto. Não era?
Mas eu já tinha uma boa ideia de que Erik não botava nenhuma fé em mim. E que eu teria que fazer as coisas sem muito apoio moral dele.
Não que eu não pudesse fazer isso, é claro.
Na manhã seguinte, por exemplo, precisei ir me explicar para o diretor da escola do Erik o porquê de ter quebrado o dedo do tal Charlie. Achei engraçado que ninguém comentou nada sobre Zack. Sério. Parece até que quebrar dedos é uma coisa muito ruim, mas morder pernas estava liberado.
O diretor, um homem que já deveria estar beirado os sessenta anos, estava me falando sobre não poder fazer aquilo. E que se eu estivesse me sentindo provocado pelos meus “colegas” de classe eu deveria ir falar com ele. E não ir resolvendo as coisas com violência. Percebi naquele instante que ele não fazia a menor ideia sobre o que vinha acontecendo com Erik e o resto da escola inteira.
Teria sido o ápice da chatice, se a porta do gabinete não tivesse sido aberta por ninguém menos que o próprio Isaac.
— Ah! Desculpe-me. — Ele falou em um tom cortês. Muito diferente do dia anterior. — Não sabia que o senhor estava com...
Os olhos dele pararam em mim. E acho Zack demorou um pouco a me reconhecer, já que me encarou por um tempo antes que seus olhos se arregalassem e ele soltasse um sussurro bem confuso:
— Bryan?
Acenei para ele com um sorrisinho cínico.
— Bom dia, Zack. Como está sua perna? — Provoquei e tive a satisfação de vê-lo travar o maxilar.
— O que houve com a sua perna? — O diretor perguntou, olhando para ele.
— Nada muito preocupante. Apenas um vira-lata nojento que me mordeu... — Respondeu sem desviar os olhos de mim.
— Você deveria ter mais cuidado. — Falei a ele. — Até um simples vira-lata pode ser perigoso se você provoca-lo muito...
Bem, eu não estava exatamente querendo provoca-lo. Eu só estava irritado, entende? Pessoas como ele acabam totalmente com o bom humor que eu já não tenho.
— Você não deveria estar na sala de aula? — Ele me perguntou. Algo me dizia que o que ele realmente queria fazer era pular no meu pescoço e bater com a minha cabeça na mesa. Incontáveis vezes.
— Eu tinha assuntos a tratar com o senhor Bryan. — O diretor respondeu por mim. — Mas acredito que ele tenha entendido bem a mensagem.
— Anhã. — Assenti, me levantado e olhando para Isaac. — Nada de usar violência nos colegas...
Mas Isaac não era um colega. Então tá tudo certo!
Erik não recebeu nenhuma punição como a que eu estava esperando. Aparentemente ele era um “bom” aluno. E merecia um “voto de confiança”.
— Você poderia parar de provoca-lo? Estou dizendo, isso não vai dar certo... — Erik deu as caras assim que saí da sala do diretor dele.
— Bom dia, Erik. Fico feliz que você tenha acordado. — Murmurei sem interesse.
Devia ser engraçado aquilo. Quer dizer, quem passa e vê, parece apenas um garoto com problema mental conversando consigo mesmo.
— Estou falando sério. Se continuar agindo assim, Isaac vai...
Mas eu não descobri o que Isaac ia fazer. Por que o dito cujo abriu a porta. Encontrando-me bem ali, no corredor. E é claro que ele resolveu mostrar as garrinhas do dia anterior. Saiu me arrastando por todo lado até chegarmos ao banheiro, onde sem cerimonia alguma me empurrou em direção ao chão.
—Que inferno! — Gritei pra ele. — Agora você vai tentar me jogar em um banheiro? Estou cada vez mais tentado a quebrar a sua cara...
— De repente você começar a agir de uma forma legal. E agora isso? Voltou a mostrar o rosto? Mesmo que eu já tenha dito que nunca mais queria vê-lo? — Ele falou entredentes vindo em minha direção. —É você quem está me desafiando, Erik. Então não reclame do que acontecer com você...
Ele tocou o rosto de Erik de uma forma nada delicada. Só que naquele momento aquelas eram, vamos dizer assim, minhas bochechas... E eu não gostei nada. Nenhum pouco.
Por isso dei uma cotovelada na garganta dele.
Não que o meu foco fosse a garganta, mas foi o máximo que eu consegui acertar com os bracinhos curtos de Erik. E nem foi forte o suficiente para causar danos à laringe ou fazê-lo desmaiar. Só o suficiente para deixa-lo bem puto.
Zack recuou alguns passos, agarrando ao pescoço e tossindo.
— Vamos deixar claro algumas coisas. — Falei indo em direção a ele. — O rosto é meu! E eu to pouco me fudendo se você gosta de olhar pra ele ou não. Ok?
Zack se recuperou bem da cotovelada. Muito bem, preciso reconhecer. Apesar de que eu percebi logo em seguida que tinha causado algum dano às cordas vocais do cara, no momento em que ele tentou dizer:
— Você está morto... — E a voz saiu parecendo um rádio velho chiando.
Mas acho que ele estava mais pra fazer do que pra falar, já que eu nem percebi quando as mãos dele realmente apertaram com força o fino pescoço do Erik. Isaac era rápido. De verdade. Tinha uma agilidade impressionante!
Por isso dessa vez ele ganhou uma joelhada na virilha.
Não. Não foi exatamente naquele lugar, se é que você me entende. Não sou tão covarde assim. Mas foi bem perto. Perto o suficiente pra fazê-lo se esquecer de me matar e, digamos assim, cair no chão com a mão entre as pernas. Bem, Erik era bem magro, sabe? Levar uma joelhada daquelas perninhas secas, em um lugar daquele, devia doer pra caralho mesmo...
O negócio é que Isaac podia realmente ser mais forte, mais alto e mais tudo que o Erik. Mas não era mais habilidoso do que eu. E nem tinha os mesmo truques. Na verdade, o problema dele é que ele subestimava muito o Erik. Pois é. Ele simplesmente nunca esperava que ele revidasse, já que o próprio Erik provavelmente não revidava mesmo. E eu estava fazendo disso uma vantagem, é claro.
Mas ainda acho que aquilo não teria passado de uma mera discussão de banheiro, se um aluno qualquer, e totalmente irrelevante para essa história, não tivesse entrado bem na hora. Imagino que ele tenha ficado bem chocado com o que viu. Digo, eu em pé, ainda com o joelho meio erguido, e Isaac recostado a uma das portas, xingando até a minha mãe (ou a mãe do Erik, provavelmente.). E estava saindo água dos olhos dele.
Acho que vou começar a ter mais cuidado com os joelhos do Erik. Podem ser mais perigosos, e úteis, do que eu imaginava...
— Vocês precisam ver isso! — O tal garoto, de quem eu estava falando, gritou de repente porta a fora. — Erik e Zack estão brigando no banheiro. E Zack parece estar perdendo para o esquisito...
Acho o próprio Zack não gostou muito de ter escutado aquilo sendo berrado aos quatro ventos. Mas eu realmente não esperava que o rosto dele fosse ficar vermelho! Eu até dei um passo para trás quando vi aquilo. Foi assustador!
Aquele era o mesmo cara que estava com toda marra há cinco minutos?
Não demorou nada, nem deu tempo do rubor de Zack sumir, antes que o banheiro fosse invadido por trocenssentas pessoas, que nos cercaram e olharam curiosas.
— Aquilo é realmente o Erik? — Começaram a merda dos sussurros...
— Ele tá um pouco diferente...
— Não sei o que deu nele, mas Zack jamais deveria se rebaixar diante desse idiota...
Ah, droga! Eu realmente odiava plateias.
— Vamos lá... — Ouvi a voz de rádio velho de Isaac sibilar amargamente. — Faça novamente. Exatamente como destruiu a minha vida há dez anos...
Arqueei as sobrancelhas para ele. Acho que foi mais ou menos aí que comecei a me interessar de verdade por Isaac Miller.
Mas... Quando e por que, exatamente, eu fui promovido a vilão? Porque foi exatamente assim que eu comecei a me sentir.
Afinal, que porra o Erik havia feito e que não estava me contando?
E é claro que, como eu não sabia que diabos o ele havia feito, não fiz a mesma coisa. Até porque, pela primeira vez na vida, eu realmente não soube o que fazer.
— Que merda. Não sabia que gente rica era tão fora da casinha igual vocês — Falei depois de um tempo. — Levanta do chão, Isaac. Isso é um banheiro. E é nojento ficar sentado aí. — Respirei fundo a balancei a cabeça. — Isso está parecendo uma competição pra ver quem consegue ser mais patético...
Isaac estava sentado, ainda na droga daquele chão, me encarando. De alguma forma ele estava me fazendo sentir mal. E olha que em toda a minha curta vida eu nunca me senti mal por bater em alguém.
Mas eu tinha quase certeza de que aqueles sentimentos de culpa não estavam vindo exatamente de mim...
— Não estou dizendo que isso acabou. — Me apressei em declarar. — Mas eu não vou bater em um cara que está com uma aura mais lamentável que a minha. Se quiser realmente brigar comigo, por mim tudo bem. Mas não vou fazer glória à custa da sua dignidade. Então se considere com sorte por eu ser uma pessoa excepcionalmente caridosa.
Pra ser sincero, odeio injustiças. E eu falei sério quando disse que não ia bater nele. Pelo menos, não na frente de todas aquelas pessoas superficiais que pareciam só querer ver o circo pegar fogo.
Isaac olhou pra mim como se eu tivesse pirado de vez. Apertou os olhos e tudo mais. Jesus, eu nunca vi um corpo ficar arrepiado tão facilmente como fiquei. E meu peito estava pesado.
Que bosta de remorso! Por que eu deveria sentir a culpa de algo que outra pessoa fez? Mas que droga de situação era aquela, afinal?
Alguém tinha que me responder!
Saí pisando duro daquele banheiro sem nem olhar para trás. Empurrando quem estivesse na frente.
— Erik!— Chamei. E nem me importei em controlar a voz ou no quanto pareceria estranho o fato de eu estar tecnicamente “me chamando”. — Mas que inferno você aprontou na vida daquele cara?
Erik não me respondeu. O infeliz ainda teve a cara de pau de não responder!
— Se você não me falar qual é a merda do problema de vocês dois, eu vou tirar a sua roupa e desfilar pelado por toda a escola. Está entendendo?
— Ele acha... — A voz de Erik saiu trêmula e apressada na minha cabeça. — Ele acha que eu sou um aproveitador. Que por causa da minha aparência e da minha família, as pessoas me favorecem mais...
Encostei-me a parede com o cenho franzido.
— Você está zoando com a minha cara? Porque, vamos só analisar o obvio, se isso fosse verdade, a sua vida não estaria tri vezes melhor do que isso? Quer dizer, você tentou se matar e tudo mais...
Erik calou a boca de novo. Era bem irônico o fato dele só ficar calando quando não deveria ficar calado.
— Você não entenderia. — Disse ele depois de um tempo. — Ninguém entende...
— Ah, para de drama, Erik. — Resmunguei. — Eu não tenho bolas pra esse tipo de coisa. E é claro que eu não estou entendendo merda nenhuma, já que você não me fala, e com Isaac só dá pra conversar usando os punhos... — Embora eu ainda ache que eu soco vale mais que mil palavras. — E não gostei nadinha de parecer um imbecil igual agora pouco.
— Não foi mentira quando eu disse que Isaac acha que eu sou um aproveitador. Ele não consegue mais tirar essa imagem de mim. — Erik contou finalmente, com uma voz irritada. Alguém pode me dizer que bosta de motivos ele tinha pra tá irritado? Eu estava irritado. Muito! — Eu tinha um mau hábito há algum tempo atrás. E por causa disso acabei prejudicando muita gente. — Ele fez uma pausa. —Aceitei fazer parte disso com você não exatamente porque preciso da sua ajuda, que fique claro. Fiz porque você me parecia uma boa chance de me redimir. Então não pense que só porque você está igual a uma parasita dentro de mim, que eu preciso simplesmente te contar toda a minha vida...
Não falei que ele era um ingrato?
Eu fiquei calado. Não que não houvesse muita coisa a ser falada. Mas algo me dizia que eu deveria começar a supor que o Erik não era aquele ser todo inocente como parecia.
E deixe-me dizer: caras de anjo podem enganar...
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