Mais cinco minutos, talvez?
6 capítulo 6- Erik
Notas iniciais
Eu realmente não sei por que estava fazendo aquilo.
Primeiro que nunca gostei muito de fazer promessas. Não sou muito bom em cumpri-las. Segundo que, se eu parasse um pouco para pensar, talvez eu estivesse apenas indo em direção a um grande e enorme nada.
Mas eu estava sendo tão atormentado por Diego que acabei não tendo muita escolha. Apenas sei que, pouco depois das três da tarde, eu estava dentro de um ônibus indo em direção ao subúrbio.
E olha que eu odeio pegar ônibus. Ou ir ao subúrbio.
— Você realmente mora por aqui? — Perguntei, conferido pela enésima vez o endereço em minhas mãos. — Ou está apenas me punindo pelo que aconteceu de manhã?
— Ah, com certeza não estou te punindo por nada. — Diego me respondeu. — Se eu estivesse, seria um pouco pior do que fazê-lo vir ao fim do mundo. Então sim, eu realmente moro por aqui.
É. Aquilo era fantástico.
Dizem que não a nada tão ruim que não possa piorar. Acho que subestimei um pouco essas palavras. Meu corpo já estava todo dolorido por causa das extravagâncias de Diego. Imagino que ele pense que eu sou um macaco acrobata ou algo do tipo. E agora, estava indo desempenhar a maior de todas as vergonhas alheias de toda a minha vida. Realmente muito bom.
Estava começando a desejar que eu estivesse apenas louco ou, no máximo, tendo algum distúrbio de personalidade. Qualquer coisa, desde que aquilo não fosse real.
— Você só precisa descer e seguir em frente. — Diego avisou. — Meu irmão pode não ser a melhor pessoa do mundo, mas ele não vai te morder... Eu acho.
Ele parecia feliz. Realmente muito feliz. Bem, e talvez eu devesse estar também. Não é sempre que se tem a oportunidade de ajudar uma alma vagante a ter um reencontro memorável com a família.
Mas eu estava nervoso de mais para sentir qualquer outra coisa que não fosse pânico. A essa altura, lá estava eu, indo em direção a sabe Deus o quê, falar com sabe Deus quem.
— E por que é que eu tenho que fazer isso? — Perguntei. — Digo, você poderia ir no meu lugar, sabe? Já que você parece ter uma grande afinidade com o meu corpo e tudo mais...
— O QI do meu irmão é realmente uma merda, Erik. Mas não acho que ele seria burro o suficiente para não me reconhecer...
— E você não quer? Ser reconhecido, quero dizer.
— No seu corpo? — Ele riu. — Você só pode tá brincando, né?
Diego realmente sabia como animar uma pessoa...
Agora, o que dizer da casa dele? Porque confesso que não tinha muita coisa para falar. Talvez eu apenas tenha imaginado de mais. Digo, era bem normal. Era pequena e tudo mais, mas era normal. Não era decorada com sacos de pancadas ou toda pintada de preto. E até tinha um jardim. Não me pergunte quem daquela família cuidava do jardim porque eu realmente prefiro nem saber...
— Lar doce lar. — Ele cantarolou.
— É. Pois é. — Falei. — Alguma ideia do que fazemos agora?
— Primeiro você aperta o interfone. — Diego falou lentamente, como se eu tivesse algum problema para entender — Você sabe o que é um interfone, não é?
— É claro que eu sei o que é a droga de um interfone. — Respondi e apertei com raiva o botão a minha frente.
Ah, e entrei em desespero trinta segundos depois.
Certo. O que eu ia dizer afinal? “Oi, eu sou o portador do espirito do seu irmão. Prazer em conhecê-lo”? Não tinha sentido nenhum. E ainda estava pensando no assunto quando a voz respondeu não muito bem humorada:
— Quem é?
Eu fiquei chocado. De verdade. Porque era muito parecida, para não dizer idêntica, a do Diego. Tanto que fiquei parado olhando para a caixinha a minha frente me questionando se não era o próprio.
— Olha, não sei se você está aqui pra vender algo ou passar trote, mas se for a ultima opção, desejo apenas que vá tomar bem no...
— Não é nada disso. — Me forcei a desengasgar. — Eu... Eu estou procurando por Cleber...
— Caleb! — Diego corrigiu.
— É... Caleb. — Tentei de novo. — É sobre o irmão dele...
E aí, desligaram na minha cara antes que terminasse. Não sei dizer se fiquei feliz ou desapontado com isso.
— Bem... — Falei a Diego. — Acho que ele não está muito a fim de falar sobre você. Mas que não diga que eu não tentei.
E eu estava quase me virando e indo embora, mas:
— Ok. O que você quer? — Ouvi a voz novamente, mas não vinha da minha cabeça. Nem do interfone.
Porque Caleb Vega estava bem na minha frente.
Tá legal. Eu fiquei boquiaberto.
Mas acho que não tinha como não ficar. Digo, ele era alto. Provavelmente o cara mais alto que já encontrei na minha vida. E tinha um rosto bom. Muito bom. É, e daí se o nariz parecia que já tinha sido quebrado uma ou duas vezes? Ainda assim era bom o suficiente. E tudo bem que o cabelo castanho encaracolado estivesse um pouco despenteado, porque os olhos verdes, que me olhavam como se eu fosse um alienígena, pareciam roubar toda a atenção. Era inegável que eram irmãos.
E se fosse para dar um palpite, eu diria que ele tinha acabado de sair do banho. Digo isso só pelo cheiro fresco do sabonete e do fato dele estar apenas de Jeans. É, o corpo também era muito bom...
— Que nojo, Erik. Vê se me poupa. — Diego berrou dentro do meu cérebro, e isso me fez sair dos devaneios. — Ele é meu irmão, cacete. E eu não quero ficar ouvindo você tarar o meu irmão...
— Eu não estou tarando ninguém!— Respondi, sem conseguir disfarçar o rubor.
— E eu devo ficar feliz por isso? — A voz baixa e grave de Caleb me fez lembrar de que eu não podia sair por aí respondendo Diego muito alto. Ou podia ser ainda mais constrangedor.
— Ah... É. Desculpe. Digo... — O que é que eu tinha ido fazer ali mesmo? — Sabe... Diego.
— Sim. Diego. Meu irmão. — Ele murmurou impaciente. — O que você quer aqui, afinal? Porque, se está procurando por ele...
— Eu sei do acidente. — Contei a ele. — Não estou procurando por ele nem nada disso. Só... É que... Você acreditaria se eu te contasse que seu irmão ainda está entre nós?
Ah. Que vontade de me jogar de um prédio quando aquelas palavras deixaram a minha boca...
— Meu Deus. E eu aqui achando que podia ter alguma fé em você... — Diego fez questão de ressaltar.
Caleb apenas me olhou dos pés a cabeça com uma sobrancelha erguida. Ele provavelmente já havia reparado que eu não andava batendo muito bem da cabeça. E quem pode culpa-lo?
— Ceerto. Por que não começamos de novo? — Ele falou lentamente depois de um tempo. —Quem diabos é você, pra inicio de conversa?
Ah. É. Eu tinha esquecido essa parte...
— Meu nome é Erik. — Respondi. — Eu sou... Amigo do Diego. — Ou talvez não.
Ele cruzou os braços sobre o peito e soltou uma risada irônica. Ainda me olhando.
— Mas nem em um milhão de anos que você é...
Preciso admitir que ele realmente sabia do que estava falando. Também acho que nem um milhão de anos para ser amigo de alguém cujo passatempo é socar pessoas...
— É, de fato. — Concordei com a cabeça. — Não é como se eu conhecesse muito bem. Mas ele parecia ser uma boa pessoa. Até aceitou me ajudar quando uns garotos da escola estavam me incomodando...
— Você merece até um óscar pela sua atuação... — Diego parecia rir e eu apenas revirava os olhos.
Mas era a expressão de Caleb que havia me chamado a atenção. Quando falei sobre Diego, quero dizer. Ela, a expressão, tinha mudado totalmente. Agora ele apenas estava sorrindo triste para o nada.
— Realmente. Isso é a cara daquele idiota. Ele achava que era algum tipo de herói ou sei lá. — Caleb divagou, e quando voltou a se lembrar de mim, franziu o cenho. — Mas o que isso tem a ver com o que você estava dizendo?
Nem eu sei. Na verdade acho que nem sei do que estava falando. Era alguma coisa sobre Diego está por aqui...
—Misericórdia. — Diego continuava a reclamar na minha cabeça. Acho que a culpa da falta de concentração era mais dele do que minha. — Você é pior do que eu imaginava. Por que apenas não repete o que eu disser?
É. Aquilo talvez funcionasse melhor. Afinal, não é como se eu fosse um grande mediador que conecta fantasmas ao mundo dos vivos. Com certeza não. Pelo contrário. Sempre fui uma pessoa tão cética nesse tipo de coisa que chegava a ser irônico estar acontecendo comigo.
— Vamos apenas dizer que vim lhe transmitir as palavras do seu irmão... — Ah, certo. Agora eu estava agindo como um mensageiro da paz. Que ótimo.
— Você é meio maluco? — É. Quem me dera.
— Diga a ele que eu sinto muito. — Continuava. — Que a culpa da maravilhosa moto estar no ferro velho é toda minha. E que eu odiei a foto que ele deu para o jornal...
Acho que Diego precisava urgentemente tomar um chá de bom senso. Fico até feliz por mais ninguém precisar escutar as idiotices que ele fala. Porque chegavam a se assustadoras...
Mesmo assim, voltei a olhar para Caleb:
— Olha, eu não sou doido, tá? Apenas tenho uma conexão inacreditável com o seu irmão. — Contei rapidamente. — Diego disse que sente muito por ter estragado a sua maravilhosa moto. E que a culpa dela ter sido detonada e tudo mais, foi completamente dele. De qualquer forma, a foto que publicaram no jornal é odiosa. Poderiam ter escolhido algo melhor. Foi um desastre o que aconteceu e ele sente muito por tudo...
Acho que fui bem. Consegui transmitir de uma forma bem lógica as mensagens dele. Não tem o que reclamar agora, certo?
— Você está brincando com a minha cara? — A voz de Caleb saiu pavorosa. — Ou achou que seria uma boa ideia fazer piada com o nome do Diego?
Pisquei algumas vezes para ele.
— Não estou fazendo piadas. Só estou repetindo o que ele falou.
— Ah, certo. — Ele riu sem humor. — Então você veio aqui, me dizer que pode falar com Diego, meu irmão que perdeu a metade do cérebro no asfalto, e que tudo o que ele tem para falar... É sobre a merda de uma foto de jornal e a porra da moto que ferrou com a vida dele. É. Realmente muito lógico.
Ah, é. Eles eram irmão. Não tinha mais nenhuma duvida. Até o jeito de falar parecia o mesmo...
— É, eu também achei isso bem estranho, mas conhecendo o Diego...
—O meu irmão... — Caleb me interrompeu furiosamente. — Está praticamente morto. Ele sofreu um acidente que ferrou com ele completamente. E você vem aqui me falar que tem uma “conexão” com ele? Que pode falar com ele como se fosse parte de os caça fantasmas e coisas do tipo?
— Mas eu posso. Não é como se eu quisesse isso nem nada, mas posso. Eu conheci o seu irmão. Falei com ele. — E até o deixei morar dentro do meu próprio corpo, mesmo sabendo o quanto isso é bizarro. Mas essa parte eu achei melhor pular.
E talvez devesse anotar mentalmente para nunca enfurecer um membro da família do Diego. Eu vi o que ele fez com Isaac estando no meu corpo. Não queria saber o que eles faziam em seu estado normal...
Mas Caleb apenas voltou a fazer a mesma expressão triste.
— Você provavelmente é só mais um maluco que cruzou com meu irmão. Não sei nem porque ainda perco meu tempo... — Caleb se virou e eu simplesmente agarrei o braço dele. O braço que, provavelmente, era da grossura da minha perna, preciso dizer.
— Não sou maluco. — Repeti. — Eu sei que você não vai acreditar em mim. Mas Diego não se foi. Ele apenas errou o caminho de volta. — É. Talvez eu devesse me render e contar a loucura toda. — Ele acabou se apossando do meu corpo. — Levantei minhas mãos machucadas para ele. — Está vendo isso? Foi ele. O meu cabelo todo esquisito desse jeito? Ele também. E o fato de me fazer vir até aqui, dentro de um ônibus... Também foi ideia dele. O sem noção do seu irmão está, atualmente, me usando como um hotel!
Eu estava ofegante. Acho que havia muito tempo que eu não me desgastava tanto para falar com uma pessoa. Até porque quase ninguém falava comigo...
Mas Caleb não parecia nenhum pouquinho convencido. O olhar de descrença e antipatia não parecia dar espaço pra qualquer outra coisa. E por algum motivo, eu ficava realmente... Triste.
Acho que Diego estava triste.
— Eu não to nem aí se você é algum fã maluco ou se é apaixonado pelo meu irmão. Só, por favor, não venha me fazer querer socar essa sua linda carinha de boneca dizendo coisas estranhas. Seria um desperdício...
Eu nem tive como respondê-lo antes que Caleb se desvencilhasse de mim e me desse às costas.
— Espera...
— Pode esquecer. — Diego falou. — Se ele voltar aqui, vai realmente deixar sua cara irreconhecível.
— Mas o que você vai fazer? — Perguntei. — Ele acha que eu sou um fã. Um fã seu! Ou que sou louco. Acho que prefiro a teoria de que sou louco. Aliás, você tem fãs?
—Não se preocupe. Vamos apenas mudar os planos. — Ele não abandonou de forma alguma o tom presunçoso da voz. — Não é que ele não acredita realmente. Ele só acha que você está fazendo graça com a perda alheia. Ou que está dando falsas esperanças. — Ele fez uma pausa. — A questão Erik, é que, se lembra de quando eu disse que não queria que Caleb me reconhecesse no seu corpo?
Fechei os olhos e assenti. Já preparado pro que viria a seguir.
— Bem, se você quer um serviço bem feito, faça você mesmo. Então, eu estou retirando o que eu disse. Só eu pra conversar com aquele imbecil...
Olha, se existe algo como " descontar pecados", eu já sabia muito bem qual era a função de Diego na minha vida...
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