Mais cinco minutos, talvez?
4 Capítulo 4- Erik
Notas iniciais
Acho que já cheguei a ler alguma coisa relacionada a experiências de quase morte. Havia algumas pessoas que diziam que, após terem ficado cara a cara com a morte, começaram a falar com os mortos e tudo mais.
Uma coisa bem surreal.
Mas tenho certeza de que ninguém falou nada sobre ser possuído!
Quer dizer, não que eu estivesse muito crente de que aquilo fosse real. Não tinha a menor possibilidade de... Você sabe, fantasmas roubarem corpos alheios. Mas isso estava me deixando em um completo impasse.
Eu só tinha duas opções: Acreditar na história de que, enquanto eu estava desmaiado e vagando sabe Deus por onde, um fantasma qualquer de um cara louco adentrou no meu corpo e fez o que bem entendeu com ele nas ultimas vinte e quatro horas... Ou podia aceitar de bom grado o fato de que eu estava completamente e irreversivelmente... Louco.
De qualquer forma, nenhumas das duas me pareciam razoavelmente boas.
Para completar a situação, eu agora precisava me esconder de um Isaac furioso me cansando até os confins do inferno, querendo a minha cabeça em uma bandeja. Não que, me esconder de Isaac fosse uma coisa muito estranha. Isso era comum. O único problema é que o senhor Linz– O zelador– ia pirar quando abrisse o armário de vassoura e, ao invés de esfregões e rodos, me encontrasse lá dentro.
—Por favor... Me diz que o plano não é ficar aqui o resto do dia... — A coisa continuava a murmurar para mim.
O negocio é que é muito difícil pensar em algo quando parece que seu cérebro está cheio de pensamentos de outra pessoa. Quer dizer, todo mundo fala consigo mesmo em pensamento. Mas aquilo parecia mais uma conversa unilateral onde a minha própria mente não conseguia acompanhar.
Eu havia tentado de tudo. Tentei tampar meus ouvidos, tentei fones em volumes monstruosos, tentei o silencio absoluto... E tudo isso só provava o que eu não queria: realmente havia alguém dentro da minha cabeça.
— Vocês sempre fazem isso? — Me ouvi perguntando de repente. — Roubam corpos aleatórios e fazem o que bem entendem com a vida das pessoas?
— Eu não roubei porra nenhuma! — Ralhou indignado. — Eu simplesmente caí aqui, entendeu? Eu não queria o seu corpo. Queria o meu. A culpa não foi minha se aqueles caras fizeram uma confusão e acabaram me mandando pra cá...
— “Aqueles caras”? — Repeti. — Quem são “aqueles caras”?
Ele ficou calado. Certo, nada respostas quando necessário...
— Eu morri na hora errada, ok? — Ele contou. — Eu precisava voltar ao mudo dos vivos. Só que... Algo deu errado e então, acidentalmente, acordei no seu corpo. Entendeu? Não roubei... Ah, poxa, eu achei que você estava morto!
Suspirei.
É, acho que aquilo tinha sentido. O máximo de sentindo que uma história absurda daquelas podia ter.
Mas de certa forma eu entendia. Aliás, aquilo até poderia ser verdade. Afinal, se nem eu queria ser eu, não havia motivos algum para alguém querer compartilhar a mesma pele que a minha.
— Mesmo assim... — Disse a ele. — Você não tinha o direito de vir fazer confusão na minha vida...
— A sua vida já era uma confusão bem antes de eu aparecer. Não vem não. Aquele cara pode até ter ficado puto por eu ter batido nele, mas não era exatamente o meu couro que ele queria esfolar... —A pior parte era aceitar que ele estava certo. — Por que você tem tanto medo dele, afinal? O cara é só um filho da puta exibicionista. Já conheci vários do tipo. Todo mundo só faz exatamente o que ele quer porque são um bando de paga pau...
Certo até de mais.
— Você não conhece Isaac realmente... — Me levantei, esbarrando em alguns produtos de limpeza. Que ótimo! Agora vou ficar cheirando a desinfetante. — Não sabe do que ele é capaz...
Mas acho que sabia menos quem ele era, e do que era capaz de fazer. Percebi isso no momento em que a voz presunçosa sibilou:
—Não me subestime.
Embora eu tivesse que concorda com o fato de que não poderia passar o resto do dia trancado no armário de vassouras, nada conseguia parar o tremor compulsivo das minhas mãos. Eu estava ofegante e enjoado. Eu não queria voltar para escola. Não queria ver aquelas pessoas de novo. Estava cansado daquilo. Não queria voltar para aquele mundo onde ninguém se importava se eu estava vivo ou morto.
— Não chore. — Ele me censurou. — As pessoas só devem chorar por coisas que valem a pena. E ninguém aqui merece uma lagrima sequer.
Respirei fundo.
De alguma forma aquilo pareceu me acalmar. Não que faça sentindo, é claro. Afinal, aquilo não havia sido nada reconfortante. Mas houve um efeito quase instantâneo no meu sistema nervoso.
Talvez eu devesse começar a aceitar o fato de que ele tenha mesmo algum tipo de influência sobre mim.
— Como você disse que se chamava? Diogo? — Lembro que era algo do tipo. Mas eu estava estático de mais pra prestar atenção.
— Diego. — Ele me corrigiu.
— Certo. Diego. Primeiramente, precisamos dar um jeito em você.
Eu não tinha muita certeza do que “dar um jeito” podia significar. Mas eu tinha certeza de que não dava pra ficar com um espírito encarnado em mim. Que dizer, eu não sou um albergue onde almas aleatórias podem vir morar quando bem entendem.
Sem falar que ele deveria ter um corpo, certo? Então eu deveria começar a procurar por ele.
— Essa é coisa mais inteligente que eu ouvi você dizer o dia inteiro... — É, e pelo menos ele parecia ter gostado da ideia.
Usando o pouco que havia sobrado da minha força de vontade, abri a porta.
O corredor estava vazio. E eu agradeci a Deus mil vezes por aquilo. Era provável que os alunos estivessem em aula, e isso me dava carta branca para sair dali sem ser notado.
Se você precisa procurar por uma pessoa, não há lugar melhor para começar se não a biblioteca. Sem falar que lá era um dos poucos lugares da escola onde eu podia ficar sem me preocupar. Era calmo e a senhorita Miranda era rigorosa no quesito silencio. Logo, ninguém ia muito lá.
A biblioteca também era o único lugar da escola com livre acesso a internet. E era exatamente por ali que eu ia começar. Não acho que Miranda ficaria surpresa em me ver por ali àquela hora. Eu geralmente passava boa parte do dia mais na biblioteca do que nas salas de aula.
Mesmo assim, vi seus estreitos olhos se arregalarem a me ver. Miranda era asiática, e usava sempre óculos azuis na ponta do nariz.
— Bryan! — Ela sussurrou, assim que me viu.
Acenei com a cabeça e apontei para a fileira de computadores. Ela não fez perguntas. Ninguém nunca fazia.
Puxei uma das cadeiras e me sentei.
— Bem, Diego. Vamos tentar saber um pouco sobre você...
A primeira coisa que fiz foi jogar o nome dele no Google. Jurei a mim mesmo que, se o resultado fosse nada, iria parar com aquilo e aceitar ajuda psiquiátrica o mais rápido possível. E acho que já estava pronto pra encarar o fato de que eu estava sofrendo, possivelmente de alucinações auditivas... Quando meus olhos correram pelo ultimo link da página.
Senti meu corpo formigar no mento em que li a manchete: “Jovem sofre grave acidente de moto em rodovia...”.
— Não pode ser...
Meus olhos passearam pela breve história que vinha abaixo.
Um jovem, identificado como Diego A. Vega , 17 anos, colidiu a motocicleta que conduzia contra uma carreta, após tentar uma ultrapassagem.
Segundo a policia rodoviária, a vitima estava acima da velocidade permitida, e dirigia sem o consentimento da família. Com a cabeça virada, Diego não percebeu a proximidade com a carreta e se chocou violentamente contra a mesma. O motorista do outro veiculo ainda não quis se pronunciar sobre o fato.
Segundo a acessória de imprensa do hospital local, o jovem foi internado imediatamente na UTI e seu estado de saúde é considerado gravíssimo. A família já foi notificada. Até agora não foi declarado óbito oficial.
Senti como seu algo estivesse me sacudindo por dentro. Algo pesado, como se caísse sobre meus pulmões.
Não conseguia respirar.
Logo abaixo da noticia havia duas fotos. Uma era do momento do acidente, onde bombeiros e paramédicos tentavam reanimar uma pessoa. E a outra... Era um garoto. Com a pele bronzeada, cabelos rebeldes e olhos esverdeados, ostentando um sorriso torto nos lábios como se zombasse de algo que mais ninguém sabia. Era alguém que eu não estranharia ver em um daqueles shows de rock onde as pessoas ficam peladas e jogam cerveja uma nas outras.
Se ainda havia alguma parte do meu corpo que ainda não acreditava naquilo, se dissipou naquele instante.
Diego Vega era real.
— Ah, droga... — Eu o ouvi reclamar. — Com tanta foto decente, eles publicaram a mais bosta que encontraram. Dá pra acreditar? Isso deve ser coisa de Caleb. Vingança daquele cretino.
Mas eu não estava prestando atenção no desabafo sem noção de Diego.
Ainda estava encarando incrédulo a noticia a minha frente. Então Diego não estava exatamente morto? Isso era... Fantástico!
— Isso que dizer que você pode volta parar o seu corpo agora.
— Incrível, Erik! — Diego exclamou. — Mas... Diz aí: Você sabe como se faz transfusão de alma? Porque eu realmente não tenho a menor ideia de como sair daqui...
— Podíamos tentar um exorcismo. — Sugeri. — Nos filmes sempre funcionam quando querem se livrar de fantasmas.
— Ou você podia tentar dar um soco na sua cara pra parar de falar merda. — Ele ironizou. — Faz parecer que eu sou um espírito maligno. Você ao menos sabe fazer a droga de um exorcismo com a certeza de que não vai me mandar direto pro inferno?
Suspirei indignado.
— Então o que você espera? Que eu vá até a sua família e diga que você está “morando” em mim por sabe lá até quando, mas que tá tudo certo, porque, afinal, você ainda tá vivo?
Diego ficou calado, e algo me dizia que era exatamente isso que ele estava pensando.
— Ouvindo você falar assim, faz parecer bem idiota.
— Porque é idiota!
Era engraçado como, em poucas horas, eu já estava quase acostumado a ouvi-lo. Não que eu achasse normal. Só que minha cabeça já parecia estar se adaptando com o ressoar da voz grave.
— Ok. Está claro que eu estou completamente inapto pra resolver a minha situação. E você parece estar da mesma forma. — Ele disse por fim.
— Não tenho situação nenhuma pra resolver.
— Ah, não? — Ele desdenhou. — Então você e o tal Zack estão de boa? Porque, da ultima vez que eu o vi, ele parecia estar virado no belzebu querendo te matar...
Lembrar daquilo fez meu sague gelar.
— Não quero falar sobre Isaac...
— Mas eu quero. — Diego me interrompeu abruptamente. — Não sei por que cargas d’água vocês se odeiam, mas a partir do momento que o meu coro entra na jogada, eu começo a me importar. E ver você apanhar de um babaca não vai me fazer acordar mais bonito. — Ele fez uma pausa. — Estamos presos um ao outro por enquanto, Erik Bryan... Então vamos juntar o útil ao agradável. Sim?
Engoli em seco.
— Aonde quer chegar?
— Cuide da minha família, por mim. Pode dizer que você é médium, ou sei lá. Com essa sua cara, qualquer um acreditaria que você é chegado nessas paradas místicas. Apenas... Faça com que eles acreditem que eu ainda não me fui. Que eu ainda estou aqui. Inventa qualquer coisa. — Algo na voz de Diego vacilou. Acho que pude perceber naquele instante o ponto fraco dele. — Em troca, vou consertar a sua vida. Chega de ser humilhado por esses caras, Erik. Ninguém merece uma merda de vida dessas. Você não merece.
Eu estava parado. Fitando o nada por um tempo.
A minha vida toda foi resumida em me perguntar se eu realmente merecia tudo o que acontecia comigo. E ninguém nunca se importou em me responder. Ninguém nunca se importou com nada. Então talvez seja por isso que fiquei balançado com aquelas palavras.
Sempre tive medo de me arriscar. Sempre tive medo de perder o que eu sequer havia conquistado. Mas Diego parecia colocar todas as fichas na mesa e apostar tudo sem um pingo de remorso no que fazia.
Talvez eu precisasse mesmo de algo assim na minha vida. Por isso, também não hesitei quando respondi:
— Tudo bem. Nós podemos fazer isso...
E lá fui eu. Fechar um acordo com um amigo imaginário sem pensar nas consequências que aquilo teria...
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