Mais Que Inesperado
3 Machucada
Notas iniciais
Cheguei na escola com Benny, que estava de bom humor hoje, não parava de contar suas piadas de trocadilho.
– Em uma corrida de frutas a maçã estava ganhando, mas se ela diminuir o ritmo a uva passa.
Eu gargalhei, minha barriga doía e meu maxilar estava cansando. Não estava fingindo, as piadas eram uma porcaria, mas era exatamente isso que era engraçado, cada vez ele aparecia com uma pior.
– Ta bom Ben, chega! — pedi. — Essas são as piores piadas que eu já ouvi.
Ele da de ombros.
– São ótimas.
– Nunca! — falei.
Fomos até o nosso armários.
– Pior dia, pré-calculo e álgebra. — falou Ben.
– Eu tenho economia, estatística e humanismo.
– Ai, hoje eu tenho teatro.
– Você escolheu teatro? — perguntei consternada.
– É, e você?
– Estava pensando em música, ai eu peguei.
Ele franziu o cenho.
– Nunca escolheu música.
– É mais e você nunca escolheu teatro. — falei.
– Mas nós dois somos uma negação em fazer esculturas. — disse Ben.
– Bom isso é verdade, vamos ver como nos saímos com nossas novas matérias.
– Bom, eu sei que ainda sou péssimo em pré-cálculo.
Eu sorri. Ben odiava matemática. Eu não odiava, mas não conseguia aprender, é diferente.
Ben, como sempre usualmente, saiu para ir falar com seus amigos. Ele me chamou mas eu preferi ir falar com Chloe.
– Char! — disse ela quase gritando. — Não vou nem comentar a sua roupa de ontem, parecia uma roupa de dormir, e você estava péssima a propósito.
– Obrigada — falei sorrindo sarcasticamente, ela ignorou.
– Você tá sabendo que seu pai foi o assunto da escola ontem, né?
– Meu pai? — perguntei estupefata e confusa.
– Sim, o pedaço de mal caminho do seu pai.
Eu comecei a rir incrédula.
– O que? — perguntei.
Meu pai só vinha a minha escola para reuniões de pais e mestres, então só os professores o conheciam, eu nunca parei pra pensar nisso. Ben era o único que conhecia meu pai, na minha vizinhança tinham mais umas dez pessoas nessa escola. Levei um tempo para processar a situação.
– Meu pai foi assunto porque o acharam bonito? — perguntei.
– Nossa você nunca disse que seu pai parecia um galã de Hollywood.
– Eu nunca vi ele como um galã — falei torcendo a boca.
– É pois fique sabendo que ele é, nem sei como nunca havia o visto. — falou Chloe.
– Meu pai trabalha muito, e é fora da cidade.
Ela assentiu.
– Bom, indo logo ao assunto, já sabe o que vai usar no homecoming¹ ?
– Homecoming? Ata, homecoming...
– Estava pensando em te indicar a rainha.
– Que? Não, eu não quero ser rainha, porque não se indica? Você é linda.
– Obrigada Char, mas não sou tão bonita perto de Stacey.
– E você acha que eu sou? — pergunto.
– É eu acho, e as pessoas gostam de você.
– Gostam de mim? Não falo com quase ninguém dessa escola.
– É Charlotte mas as pessoas preferem você a Stacey, ela não é uma das mais amadas. A não ser quando os bailes se aproximam ai ela faz a campanha de boa moça, igual políticos... O que mais me irrita é que as pessoas caem na dela! Char, se você me deixasse te arrumar você ficaria mil vezes melhor que ela! — disse Chloe com sua expressão suplicante.
– Eu vou pensar no assunto. — disse para lhe dar um pouco de esperanças e tirá-la do meu pé.
Ela deu palminhas e saiu saltitando. Chloe era uma figura, eu gostava como ela era tão segura e não se importava com o que os outros pensavam dela, gostaria de ter um pouco disso.
Hoje eu havia chegado muito cedo na escola, ainda me restavam vinte minutos. Então eu fui até o campo de futebol, e sentei na arquibancada. O tempo estava friozinho, eu estava com um sweater branco, uma blusa de frio e um casaco, sem falar nos jeans. Mas estava bonito, o sol reluzia, deixando o céu com uma cor bonita e me aquecendo um pouco mais.
O melhor de tudo é estar sozinha, nesse começo de outono, minha estação do ano favorita. Estava tudo ótimo até eu ouvir passos, eu ignorei, mas ai alguém sentou do meu lado. Quando vislumbrei fiquei surpresa, e meu corpo se tencionou.
– Olá. — disse Bryce Hutch
– Oi. — respondi desconfiada e confusa.
– Bom, o que você me disse ontem meio que me deixou embasbacado. — prosseguiu. — Eu terminei com Stacey.
Eu dei um pulinho de susto.
– O que? Você terminou com ela pelo o que eu disse? — perguntei incrédula.
– Na verdade não, o que você me disse me serviu para perceber o que realmente estava acontecendo, só abriu meus olhos.
– Uau, sério que você não percebia? — perguntei.
Ele apoiou os cotovelos na bancada de trás.
– Stacey é bem diferente perto de mim, não sabia que ela era tão odiosa.
– Você era apaixonado por ela? — perguntei.
– Eu gostava dela, mas não era pra tanto. Mas aposto que ela não gostava de mim, já que hoje ela apareceu com um novo namorado, que era ''supostamente'' meu amigo.
– Nossa... — falei, nem estava percebendo que estava conversando sobre a vida amorosa de um garoto que nunca falei até ontem, mas apenas fluiu.
– Ah e a propósito a gente tem um trabalho de anatomia.
– Afz. — falei. — Sobre o que? — perguntei.
– Sistema nervoso. — falou. — Na minha casa ou na sua?
– Acho que na minha não vai dar. — falei. — Meu pai não iria deixar eu ficar sozinha em casa co um garoto.
Ele sorriu.
– Bom não o culpo, minha mãe esta em casa todo dia, a gente pode fazer lá.
– Feito — falei.
Ele se levantou.
– Bom já vou, não fique muito tempo ai viajando, da ultima vez eu perdi a primeira aula. — falou indo embora.
Eu sorri. Parece que aqui não era somente o meu refúgio.
Vivendo e aprendendo, Bryce não era um completo idiota pelo visto, mas para mim não era novidade que a Stacey fosse uma falsa, deveria se fingir para todos. Ela executava muito bem o papel de boa moça quando os bailes se aproximavam, como Chloe falou.
Faltando cinco minutos eu voltei para dentro, mas pegando o caminho mais longo, em volta da escola. Me assustei quando ouvi sussurros, e perto da porta de entrada do zelador e do lixo, ouvi os risinhos de Stacey, enquanto ela beijava Ben escondido.
Dessa vez eu não pude impedir que eles me vissem. Uma dor cortante atingiu meu coração, traída? Iludida? Não sei, só sabia que doía, ouvi Ben chamar meu nome mas continuei andando, entrei dentro da escola, não iria chorar, fiz minha tática de olhar para cima e engoli seco, mas o bolo em minha garganta persistia.
O sinal bateu, eu ouvia passos rápidos atras de mim, eu quis entrar no banheiro mas não deu tempo, Ben segurou meu braço, o seu toque me deixou ainda mais irritada.
– Charlie.
– Que foi! — .
– Eu ia te falar.
– Me falar o que? Que você me disse que nada você fez foi por Stacey e depois aparecer beijando ela? Você não percebe que ela está te usando, até Bryce percebeu e terminou com ela.
– O que? Ele não terminou foi ela que terminou com ele, por minha causa, ela gosta de mim Stacey.
Eu revirei os olhos de irritação por sua burrice.
– Claro que não! Ele falou comigo ontem, ele percebeu que era só mais um dos brinquedinhos da Stacey. — falei, ela estava um pouco atrás de Ben, mas com certeza ouviu. Sua carranca mostrava que ela não tinha superado o fim do namoro merda nenhuma, não posso deixar ela machucar Ben com suas mentiras. — Você não pode ser tão estúpido para acreditar nessa cobra! — falei.
– Ah mas é claro Charlotte, quando você iria pensar que alguém poderia gostar do zé ninguém Ben Rickards, foi o que eu disse, você nunca teve fé em mim, eu nunca fui um amigo para você, sempre fui uma parede para você se encostar, alguém tão irrelevante que você achou que nunca sairia de seu pé, porque era completamente inútil, agora que eu estou fazendo as coisas por si só, você está irritada! — falou, eu queria gritar e pedir para ele parar de falar essas coisas, estavam me magoando profundamente.
– Isso não é verdade! — gritei.
– Claro que é, senão qual seria a explicação disso? De você achar que Stacey não gosta de mim? Dessa cena de ciúme desnecessária quando eu lhe falei que nunca vai deixar de se minha amiga ? — perguntou.
Eu pisquei atônita. Era agora ou nunca.
– Porque eu fui burra o suficiente para me apaixonar por você, seu imbecil! — gritei novamente. — Porque eu realmente gosto de você e estava do seu lado desde sempre para saber que essa garota está te fazendo de idiota, mas tudo bem, se é isso que você quer pra você, se é a Stacey quem você quer na sua vida, você já fez sua escolha. — falei indo embora.
O bolo na minha garganta persistia, minha boca tremia e meus olhos estavam cheios de lágrimas.
– Não chore, Charlotte, não seja idiota. — respirei fundo. Sentia que um grande peso havia saído na minhas costas, mas foi rapidamente substituído por outro.
Eu ainda tinha esperanças que Ben viesse atrás de mim, mas elas se esvaíram assim que entrei na sala de aula.
– Atrasada senhorita Cooper. — falou meu professor de economia. Eu lhe entreguei o passe que tive que pegar na diretoria por ter me atrasado.
– Desculpe, professor. — falei, minha voz saiu quase como uma rouquidão gutural, provavelmente consequência de ter segurado o choro, eu tossi para disfarçar, mas acho que ele havia percebido.
– Tudo bem, sente-se. — pediu.
Eu me concentrei na aula, não queria pensar em Ben, não queria pensar em nada. Mesmo assim não pude evitar, toda vez que aquele lampejo voltava, e ele voltava a minha cabeça.
O que Ben estava fazendo? Mudar por alguém? Se Stacey gostasse dele, gostaria do jeito que ele é, estava tudo tão na cara, porque ele não percebe? Admitir que ele preferiu acreditar em uma garota que sempre o desprezou á acreditar em mim. Apertei minha mão na outra, isso doía.
No intervalo não tive fome. Meu Deus, para me deixar sem fome ou se trata de um milagre, ou você realmente é muito importante pra mim.
Fiquei encarando minha comida, até que recebi uma mensagem me assustando. Dei uma olhada rápida em meu celular.
*Almoce!*
Meu pai, que agora decidiu que não vai mais sair do meu pé. Eu tirei uma foto da comida e mandei pra ele. Agora não estava com fome mas eventualmente eu iria ficar, ai eu descontava tudo.
Minha última aula foi de música dei graças a Deus por Ben e Stacey estarem em outra aula. Mas Chloe estava aqui e ela me observava, acho que ela percebeu que eu tava na bad, mas não incomodou, fiquei muito grata por isso.
Eu tinha uma professora muito legal, mas sua voz era fina e irritante, eu ainda não havia me acostumado com isso, especialmente hoje onde tudo parecia insuportável para mim.
– Todos aqueceram a voz, ótimo! — disse ela. — Hoje eu queria fazer um solo no piano, alguém se dispõe a cantar?
– Eu quero! — pedi, algumas pessoas me olharam. Eu era nova nessa aula e não sabia se estava fazendo besteira, mas eu queria muito tocar piano, só tinha a oportunidade de tocar quando ia a casa de minha avó, e como ela morava longe eu quase nunca ia, eu queria e precisava espairecer, então decidi revelar meu hobbie oculto:
Cantar.
Sentei no banco em frente ao piano de mogno reluzente, tentando me lembrar da partitura que eu vi na internet.
Então comecei:
From walking home and talking loads
*De indo para a casa e falando besteiras
To seeing shows in evening clothes with you
*Para assistir programas em roupas de noite com você
From nervous touch and getting drunk
*Do toque nervoso, e ficando bêbado
To staying up and waking up with you
*Para ficar acordado, e acordar com você.
But now we're slipping at the edge
*Agora estamos escorregando no abismo
Holding something we don't need
* Prendendo algo que não precisamos
All this delusion in our heads
*Todas essas ilusões em nossas cabeças
Is gonna bring us to our knees
*Irá nos colocar de joelhos
So come on let it go
*Então deixe para lá
Just let it be
*Apenas deixe ser
Why don't you be you
*Que tal ser apenas você?
And I'll be me
*E eu ser eu mesma?
Everything that's broke
*Tudo que está quebrado
Leave it to the breeze
*Deixe o vento levar
Why don't you be you
*Que tal ser apenas você?
And I'll be me
*E eu ser eu mesma?
And I'll be me
*E eu ser eu mesma.
Cantei, de olhos fechados. Pulei uma parte da música, para que não ficasse tão longa.
Trying to fit your hand inside of mine
*Tentando encaixar sua mão na minha
When we know it just don't belong
*Quando nós sabemos que elas não se pertencem
There's no force on earth
*Não há força na terra
Could make me feel right, no
*Que poderia me fazer me sentir certa, não
Whoa
Trying to push this problem up the hill
*Tentando empurrar esse problema para cima de um morro
When it's just too heavy to hold
*Quando é apenas muito pesado para segurar
Think now's the time to let it slide
*Acho que agora é a hora de deixar deslizar
So come on let it go
* Então vamos, deixe pra lá
Just let it be
*Apenas deixe ser
Why don't you be you
*Que tal ser apenas você?
And I'll be me
E eu ser eu mesma?
Everything that's broke
*Tudo que está quebrado
Leave it to the breeze
*Deixe o vento levar
Let the ashes fall
*Deixe as cinzas cairem
Forget about me
*Esqueça de mim.
Come on let it go
* Então deixe para lá
Just let it be
*Apenas deixe ser
Why don't you be you
*Que tal ser apenas você?
And I'll be me
*E eu ser eu mesma?
And I'll be me
*E eu ser eu mesma?
Terminei de tocar o piano. Eu não sei porque escolhi essa música, eu gostava de ouvi-la. Mas na verdade expressou um pouco de minhas frustrações.
Porque Ben simplesmente não poderia ser ele? Eu gosto dele assim. E porque eu não poderia ser eu? Bom, ele não gosta do meu eu.
Deixe as cinzas caírem, esqueça de mim.
No fundo eu também sabia que ele havia me magoado e que não poderíamos mais ser amigos depois de minha declaração, eu teria que esquecer dele, e ele de mim.
Ele não havia me escolhido, ele havia escolhido Stacey.
Talvez eu estivesse realmente tentando encaixar as nossas mãos sabendo que elas não se pertencem...
Eu respirei fundo e olhei para as pessoas, só agora percebi que estava de olhos fechados, todos me observaram por um segundo e depois sorriram batendo palmas.
– Seja bem vinda Charlotte Cooper, a nossa classe de música.
A aula de música se tornou oficialmente a minha favorita, fiz muitos amigos, e conversei com as pessoas sobre nada mais além de música. Foi bom, no final das contas eu consegui espairecer.
Quando cheguei em casa, depois de conseguir pegar um táxi quando decidi que não iria ir embora a pé mas perdi o ônibus.
Dei uma olhada ao redor do meu quarto, encontrei uma foto minha com Ben, nós tínhamos doze anos. Ele estava sujo de lama e eu estava com as mãos sujas por ter tacado tudo nele, era minha foto favorita.
Eu queria quebrar aquele quadro na parede mas optei por colocá-lo na gaveta.
Querendo conter a dor no meu peito, e me impedir de chorar, tomei um banho quente e fui dormir.
Perdida em meus devaneios...
Com o coração partido.
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