Mahou Shoujo no Houseki
1 Prólogo
Notas iniciais
No lado de fora, podia se ver o sol se pondo no horizonte, cercado pelo céu colorido num tom forte de laranja e algumas poucas e opacas nuvens. Do lado de dentro, Milena jogava-se furiosamente em sua cadeira giratória. Depois de um dia cansativo e entediante de aula, nada seria melhor do que maratonar um novo Mahou Shoujo que estreou na temporada. Ela rapidamente abriu seu notebook, e seu dedo quase voou no botão de ligar. Com a carinha mais boba do mundo, ela esperava ansiosamente, com brilho nos olhos e um sorriso exagerado. No seu ingênuo coração, ela sonhava tornar-se uma garota mágica que combatia o mal com grande estilo!
Do lado de fora, já era noite. O céu escuro escondia qualquer resquício de nuvem, onde se acobertavam as estrelas. Nas ruas vazias, nada além de lixo e algumas folhas movia-se debaixo das luzes dos postes — no entanto, não podia-se dizer o mesmo das sombras.
Lena fechava angustiosamente a porta da frente. O vento naquela noite era cortante, principalmente para alguém que estava com as canelas de fora. Ela tremeu, entrelaçando os braços com o intuito de se aquecer — não que adiantasse muito. A garota puxou o capuz de sua jaqueta púrpura, de modo que cobrisse sua cabeça — e partiu.
Sua saia parecia estar quase ao ponto de sair voando, assim como o cabelo preso preguiçosamente, que vinha a todo momento batendo em seu rosto e óculos. Lena andava cabisbaixa, nenhum sinal de vida ao seu redor. Na mão direita, um punhado de moedas junto de duas notas de 5. Bufou, insatisfeita. Como podia ter esquecido de comprar a argila para a aula de amanhã?
— (Ou melhor, quem abriria a loja à essa hora?!) — pensou. Milena teve o azar de se esquecer disso justo quando sua mãe chegou estressada em casa. A menina não estava tendo um bom desempenho em artes, por isso, era fatal esquecer de qualquer coisa que pudesse salva-la da matéria. Ela ia chutando pedras pelo caminho, enquanto xingava baixinho sua mãe.
O vento era tão gelado que já chegava ao ponto de fazer suas coxas doerem um pouco, mas tudo aquilo valia a pena pela satisfação de usar uma saia de pregas como as dos animes que assistia.
Distraída em seus próprios pensamentos, qual não foi seu susto ao ouvir um grito abafado. Logo após, apenas murmúrios podiam ser identificados. O coração de Lena batia desesperadamente — logo ali, num beco próximo, alguém corria perigo. No entanto, logo afrente, a loja de artigos artísticos estava fechando suas portas. Ela apertou com força seu punho direito, enquanto desviava o olhar para os burburinhos que ouvia. Suava frio, com as pernas tremendo ainda mais. O atendente da loja já puxava de suas calças a chave da porta de enrolar. Milena fechou os olhos, repuxando os lábios.
Ignorando qualquer reclamação posterior de sua mãe, a jovem urgiu até o beco escuro, enfiando o dinheiro no bolso de sua jaqueta. Em seu desespero, ela acabou tropeçando em algo liso e pequeno, logo após caindo no chão e ralando seu queixo no asfalto. A figura a sua frente logo percebeu o movimento, até mesmo se assustando e virando-se rapidamente. Ouviu-se um barulho baixo.
Logo afrente do beco, um carro com os faróis altos passou, e sua forte luz revelou por um breve momento um homem velho, de barba grisalhada e ralada, em seus 40 anos. Atrás dele, uma mulher ferida e sem suas calças chorava desesperadamente, seu rosto vermelho de tanto o fazer. No entanto, o que chamou a atenção de Milena foi uma pistola que o homem portava.
Instintivamente, ele atirou no chão, passando de raspão pelo braço de Milena. Ela resmungou, sentindo a ardência enquanto sangue escorria pela sua pele. Desesperadamente, ela levantou-se, encostando na parede para desviar de outro tiro desferido pelo assaltante. Usando a escuridão como vantagem, Milena correu até uma caçamba, encostando-se nela e tampando a boca para abafar sua respiração entrecortada. O homem murmurava odiosamente palavras incompreensíveis, enquanto disparou outro tiro que atravessou a caçamba. Os olhos de Lena lacrimejavam e ardiam por causa do vento, assim como seus pulmões ardiam.
Os passos pesados e atrapalhados aumentavam, e a garota não fazia nada além de chorar silenciosamente. Naquele ponto, um poste próximo iluminava o local, portanto, não havia escapatória para a garota. Ela já podia ouvir a respiração alta e cansada do homem. A um fio de pensar que ele a agarraria pelo pescoço, ouviu do velho um xingamento, enquanto uma pedra brilhante rolava para perto de Milena.
Iluminada pelo poste, revelava ser uma pedra preciosa — uma opala. Dentro dela, podia-se ver o céu azul estrelado — mesmo com uma forte luz amarela a cercando. Milena encarou a pedra brilhante, seus olhos arregalados e brilhantes tanto por causa das lágrimas quanto pelo encanto que a joia proporcionara. Despertada de seu devaneio após ouvir os passos ligeiros do homem, Milena chacoalhou a cabeça, agarrando a pedra enquanto seu coração batia fortemente. Relutante, ela levantou-se, no mesmo momento em que o homem a encarou com um olhar pútrido e malicioso, levantando a pistola afrente de seu sorriso sádico e desdentado. Engolindo em seco, Lena atirou a pedra contra o rosto do velho, que tentou se defender, porém, acabou acertando o nariz dele. Ele caiu no chão, encolhendo-se ao mesmo tempo em que urrava de dor, fazendo uma careta ao sentir o sangue descendo em sua boca.
Milena aproximou-se cautelosamente, voltando seu olhar para a joia. Sobre o poste, o seu brilho era ainda maior, e nenhum arranhão aparecia nela. O pouco sangue presente nela tornou-se negro, e logo após, foi embebido pela pedra. A garota abaixou-se do lado dela, a segurando com suas mãos trêmulas e olhar maravilhado. Em seu toque, a menina sentia um leve fluxo de energia que a revigorava por inteiro. Levantou-se, com a cabeça baixa ainda a encarar a pedra, e a aproximou perto de seu peito. Aquilo a proporcionava uma ótima sensação, jamais semelhante a qualquer uma que a garota sentira em sua vida. Ela fechou os olhos, se aproximando lentamente do homem, que a encarou e rapidamente tentou alcançar a pistola. No entanto, foi interrompido ao passo de que um salto alto pisou fortemente em sua mão, fazendo o homem urrar de dor novamente.
Milena abriu os olhos e encarou afrente. A mulher de antes murmurava mil xingamentos, enquanto não cessava de ferir a mão do homem, que protestava com uma voz alta. Após perceber que a mão do homem só tremia, ela agachou-se, e puxou a pistola para suas mãos, a apontando para o velho.
Seus olhos continuavam encharcados, marcados por uma expressão de ódio. A mulher segurava a pistola firmemente, conquanto, seus braços continuavam trêmulos assim como suas pernas. Ela respirava profundamente, os dentes serrados produzindo um rangido. O velho a encarava com lágrimas nos olhos, desesperado, com os lábios trêmulos tentando dizer algo que a garganta impedia chegar a sua boca. Milena engoliu em seco, baixando o olhar e envolvendo a pedra com suas mãos.
O homem continuava tentando pedir piedade, porém nada além de uma voz rouca que se desmanchava no vento saia de sua boca. Ao tentar levantar sua outra mão, vagarosamente, a mulher pisou com o salto nela, esfregando-o impiedosamente na pele molenga do homem, que uma vez mais gritou de dor. Ela segurou firmemente a pistola, os braços completamente esticados apontando para o velho. Milena arregalou os olhos.
— NÃO!!!
No horizonte, o ruído alto da morte ecoou, afastando pássaros que dormiam.
Milena encarava o homem com a bala atravessada na bochecha. A garota soluçava, olhos marejados, face atônita. Ela baixou a cabeça, desviando o olhar. Ao ouvir outro tiro, imaginou o rosto do homem mais ferido ainda, e isso a fez ter uma ânsia repentina que a garota tentou segurar ao tapar sua boca, porém acabou cedendo e vomitou.
A mulher virou o rosto, a encarando lentamente. Milena agachou-se, soluçando e ainda com as mãos na boca. Ela abriu os olhos vermelhos por um momento, e viu a joia logo a frente, junto da mulher que a segurava, sentada no asfalto. Ela deu um leve e forçado sorriso, aproximando a pedra de Milena, esta qual a agarrou rapidamente e a abraçou.
— Acho que isso é seu — disse a mulher. Logo após, ela se levantou, puxando sua bolsa e murmurando um "obrigada", e mergulhou nas trevas daquela noite. Milena, por sua vez, continuou a soluçar e chorar copiosamente, enquanto o cheiro do corpo sem vida do cadáver próximo a ela desaparecia na ventania.
O homem da loja via tudo, e logo após a mulher sumir, foi correndo até Milena.
De volta à porta de sua casa, na mão direita Milena carregava uma sacola com uma porção de argila. De seu lado, o vendedor da loja, que tinha acabado de tocar a campainha. Prontamente a porta se abriu, com a mãe da garota às lagrimas a abraçando fortemente. Lena segurou o choro tão forte quanto segurou a opala em sua mão esquerda.
No seu coração, ela sentia já ter se tornado o que tanto queria. Só faltava alguns detalhes.
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